I Bienal de Poesia promete iluminar Brasília

O espírito da Poesia vai visitar Brasília e lançar sobre a confusão dessa cidade, onde a beleza da arquitetura e as negociatas políticas se confundem, seu claro raio ordenador. De 3 a 7 de setembro de 2008, a Biblioteca Nacional, parte do Conjunto Cultural da República e vinculada à Secretaria de Cultura do DF, promove a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (BIP), ocupando vários espaços urbanos com uma programação ambiciosa. Um belo presente para a cidade que acaba de ser eleita pelo Bureau Internacional de Capitais Culturais a Capital Americana da Cultura 2008.

Escritores e estudiosos reconhecidos internacionalmente estarão na capital brasileira para participar de atividades que vão de sessões livres de recitais a conferências e debates. A BIP será realizada em salas da Biblioteca Nacional, do Teatro Nacional e de vários outros espaços, pertencentes ou não ao governo local, além de bares, cafés, escolas, livrarias, e também ao ar livre. Os eventos não se restringirão a Brasília – os poetas invadirão outras cidades do DF e do Entorno. A programação ainda não está fechada, mas o evento, segundo o diretor da Biblioteca, Antonio Miranda, já conta com patrocínio de entidades nacionais e internacionais e apoio de diversas embaixadas, além do interesse de poetas brasileiros e estrangeiros.

As novas tendências da poesia contemporânea brasileira e internacional estarão representadas em diversas linguagens – escrita, falada, musical, performática. Estão previstas sessões de poesia visual, varais, exposições de banners gigantes, exibição de documentários, projeção de textos nas paredes externas de monumentos da Esplanada dos Ministérios, além da realização de oficinas, concursos, seminários e conferências.

A Bienal de Poesia, da forma como está sendo pensada, tem tudo para exercer o papel agregador que falta ao cenário poético da capital brasileira, que conta com bons escritores, muita atividade literária, mas de forma segmentada e fragmentária. Espera-se que a Poesia se desnude de paletós e gravatas e invada as ruas de Brasília, atraindo não apenas os freqüentadores de alguns auditórios isolados, como também a moçada que discute literatura nos bares. Este será o primeiro grande desafio da Bienal. O segundo será a continuidade, para que possa, de fato, ser chamada de Bienal – ou, quem sabe, até Anual, por força do sucesso.

Leia aqui todas as notas e informações sobre a Bienal Internacional de Poesia de Brasília publicadas neste blog.

Sem perdão

A poesia de J.W. Solha deve ser lida em voz alta

“Minha arte é bruta”, avisa um dos primeiros versos de Trigal com Corvos, livro de poemas do multiartista J.W. Solha. Mas é uma brutalidade serena, embora incontida; a brutalidade dos inconformados. São 110 páginas, ao longo das quais ele desfila um rosário de inconformismos, em versos que evocam desde a Rainha Má da história da Branca de Neve até Hitler, Gengis Khan, passando por Fellini e Jimmy Hendrix e, acima de todos, Deus.

Solha escreveu romances e peças de teatro, atuou no cinema e fez exposições de pintura. Trigal com Corvos, seu único livro de poesia, foi lançado em co-edição entre a Imprell, de João Pessoa, onde ele vive, e a Palimage, de Portugal, depois de classificar-se entre os finalistas da Bienal Nestlé de Literatura, em 1991.

Trigal com Corvos é um grande poema cujos versos vão trocando de temas e abordagens com a velocidade de um caleidoscópio. Parece veicular a ansiedade do autor, que derrama suas angústias acumuladas e não perdoa nada nem ninguém. “O que existe é um frio programa que usa sofrimentos como esporas que / estuguem nosso esforço pela Evolução / e onde o que importa é o superorganismo chamado Homem / não cada uma das milhões ou bilhões de céulas ambulantes que somos dele / salvaguardada entre nós a preservação de uma média permanentemente ativa / sempre renovada / que garanta a marcha ao ponto para onde convergem ou de onde partem / todas as nossas perspectivas”.

A lógica da poesia de Solha – se é que poesia e poeta devem seguir alguma lógica – é a do alienígena que testemunha absurdos e não consegue compreender a docilidade de seus agentes e vítimas. É a lógica da criança que aponta o dedo e pergunta: “Por que – se existe um Deus – não me fez melhor? / Imagino que teria sido mais fácil do que planejar / sincronizar / e programar o lépido movimento octópode das aranhas e o do exército de pernas das centopéias!”

Solha começa o livro questionando a si próprio – ou, para ser exato, o ato de escrever. Passa, em seguida, a tentar compreender, ou incompreender, o tempo e o envelhecer, inútil atividade sem fim da literatura. E, ao final, desmascara Deus: “se houvesse realmente acontecido algum momento / na História / em que alguém tivesse encravado uma coroa de espinhos em Deus / e lhe tivesse metido umas porradas na cabeça / cuspido na cara dele / despejando-lhe uma carrada de desaforos / mereceria de mim o perdão / pois o que o homem sofre neste mundo / criado por tal personagem criado por nós / ...é de um sadismo que chega a ser... torpe.”

O livro de W. J. Solha não é daqueles que o leitor esquece na estante e na memória. Sua poesia é de uma aspereza que incomoda o leitor – e ele se põe de pé, para ler em voz alta.

(dezembro/2007)

Anderson e os Criadores de Mantras

O escritor Anderson Braga Horta lança nesta terça, 4 de dezembro, no auditório da Thesaurus Editora, seu livro Criadores de Mantras, que reúne ensaios e conferências. Haverá apresentação musical do violonista Rodrigo Bezerra e do acordeonista Phillipe Alves. A Thesaurus fica no Setor Gráfico, quadra 8, lote 2356, em Brasília. O telefone é 3344-3738.

Documentário sobre "O Sol": lançamento

O DVD do documentário O Sol, caminhando contra o vento, de Tetê Moraes e Martha Alencar, será lançado em Brasília, nesta sexta-feira, 23 de novembro, no Hotel Nacional, às 18h, dentro da programação do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Para quem não se lembra, o documentário é sobre o jornal-escola O Sol, criado por Reynaldo Jardim em 1967.

O jornal O Sol saiu, pela primeira vez, em 21 de setembro de 1967, no início da primavera, ou seja, há exatos 40 anos. O filme O Sol – caminhando contra o vento é um recorte da Geração 68, por meio das páginas do jornal que, embora tenha sobrevivido pouco, tornou-se símbolo de uma época e contou com a participação ativa de Chico Buarque, Zuenir Ventura, Ana Arruda Callado, Gilberto Gil, Betty Faria, Gilberto Braga, Hugo Carvana, Ittala Nandi, Ruy Castro, Luiz Carlos Sá, entre outros.

A versão em DVD do documentário de Tetê Moraes e Martha Alencar inclui depoimentos adicionais de Caetano Veloso, Carlos Heitor Cony, Dedé Veloso, Fernando Gabeira, Reynaldo Jardim (o criador do jornal), Ziraldo, Zuenir Ventura, Fernando Barbosa Lima, Silvio Tendler e, ainda, uma conversa entre Cacá Diegues e as diretoras.

Além disso, os extras do DVD contam com uma variada seleção de páginas de O Sol e making-of da trilha sonora incidental do filme, assinada por David Tygel - que reúne fonogramas originais de sucessos da época como Alegria, Alegria, Domingo no Parque, Roda Viva, Tropicália, Panis et Circenses, entre outras.

A poesia de Leonard Cohen no Brasil

Uma antologia reunindo poemas dos seis livros de poesia do compositor, cantor e escritor canadense Leonard Cohen acaba de ser lançada no Brasil pela Editora 7 Letras, do Rio de Janeiro. Com tradução e seleção de Fernando Koproski, Atrás das linhas inimigas de meu amor traz 50 poemas do bardo, cultuado mundialmente pela sua música sombria e melodiosa. Este é o primeiro livro de Cohen publicado no Brasil, e os poucos e privilegiados admiradores de suas canções têm uma grande oportunidade de conhecer seu trabalho poético. É bom lembrar que ele é, acima de tudo, poeta, e só começou a fazer música com a intenção de veicular para um público maior sua belíssima poesia. Sugestão: leia os poemas no original, e vá às traduções apenas como apoio à leitura.

Palmas para Miranda

O poeta Antonio Miranda recebe homenagem nesta sexta-feira, 9 de novembro, no Auditório da Faculdade de Direito do UniCeub, em Brasília. Haverá leitura dramatizada, apresentação de dança por crianças filhas de membros do Corpo Diplomático, recital poético e números musicais, além de análise de sua obra. Miranda é doutor em Ciência da Informação pela USP, professor da UnB e poeta de longa estrada, além de exercer, atualmente, uma atividade quixotesca - na condição de diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, tenta viabilizar a existência do incrível elefante branco legado à capital do País por um de seus mais nefastos governadores, Joaquim Roriz. O evento começa às 19h.

Festival de Poesia em São Paulo

De 30 de outubro a 4 de novembro, com entrada franca, o público de São Paulo (e quem estiver lá) vai acompanhar debates, performances, palestras, recitais e tudo o que pintar sobre poesia. Com patrocínio da Caixa, o Festival Tordesilhas se divide em vários, que acontecerão em diferentes espaços da cidade.
A lista de participantes é grande - Cláudio Daniel, Micheliny Verunsk, Glauco Mattoso, Wilson Bueno, Paulo Ferraz (Brasil); Rodrigo Flores, Alberto Trejo, Mário Bjórquez (México); Alfredo Fressia, Victor Sosa, Roberto Echavarren (Uruguai); além de muitos outros poetas destes países e da Argentina, Chile, Portugal, Paraguai, Guatemala, Peru...
Que o projeto Tordesilhas tenha longa vida - quem sabe, no ano que vem? - e sirva de inspiração a outras cidades, grandes e pequenas, para eventos semelhantes.
Para mais informações sobre o Festival Tordesilhas, clique aqui.

Rivera no Painel Brasil

As traduções de poesia francesa, italiana e espanhola, entre outras línguas, feitas por José Jeronymo Rivera são bem conhecidas dos leitores, e já foram elogiadas por grandes nomes da crítica e da tradução. Ele publicou 12 livros e tem mais dois prontos para lançamento - um, do belga Émile Verhaeren, traduzido no Brasil unicamente por ele; outro, do espanhol Pedro Salinas. Em entrevista a Angélica Torres, no Painel Brasil, Rivera defende a fidelidade ao texto original e fala sobre seu trabalho e parceiros em traduções de autores como Victor Hugo, Paul Valery, Baudelaire, Mallarmé, Aloysius Bertrand, entre outros. Uma conversa interessante, transmitida pelo site de informação Painel Brasil.

Novas opiniões sobre a Bienal de Poesia

O jornalista e escritor Jason Tércio, que vive em Brasília, contesta algumas opiniões emitidas na postagem anterior. A seguir, algumas colocações dele sobre a futura (torçamos!) Bienal Internacional de Poesia de Brasília e a Feira do Livro:

"A Feira é realizada no melhor espaço possível numa cidade cujo comércio e fluxo de pessoas se encontra quase exclusivamente em shopping." Tércio se diz contra isolar feiras e bienais (como no Rio) em lugares distantes;

Para ele, dizer que "público de shopping não é, por definição, público leitor" é "visão estereotipada, preconceituosa e rançosa";

Os motivos da pouca leitura são estruturais e históricos, lembra Tércio. Por isso, prossegue, "deveria haver feira de livro não só em shopping, mas em supermercado, em boate, em farmácia, em festa rave, em boteco, calçada, enfim, todo lugar", lembrando que o que estimula a leitura é política de governo, preço mais baixo, incentivo nas escolas etc;

Tércio acha que a Bienal de Poesia pode até ser realizada simultaneamente com a Feira, mas também por uma questão de espaço, não no Pátio Brasil. Ele sugere o Teatro Nacional, que tem três boas salas e espaço para os poetas venderem seus livros;

"Não considero como opção aquele monumento natimorto chamado Biblioteca Nacional, que é um belo bolo embolorado por dentro", afirma;

E continua: "Esperar que a poesia promova 'um mundo menos mercantilista e mais humano' é atribuir responsabilidade demais à poesia. Poetar é um ato lúdico."

Leia
aqui todas as notas e informações sobre a Bienal Internacional de Poesia de Brasília publicadas neste blog.

Uma Bienal de Poesia em Brasília?

Anuncia-se para setembro do próximo ano a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, com o patrocínio da Biblioteca Nacional (leia-se Secretaria de Cultura do DF, pois a Biblioteca, juridicamente, não existe) e da Câmara do Livro do DF. O evento, de acordo com os organizadores, trará escritores, críticos e leitores (importante! Se trouxé-los, será sucesso) do Brasil e outros países para participar de leituras, conferências, debates, concursos, oficinas, exposições e apresentações públicas de todos os tipos.

Trata-se, em princípio, de uma grande notícia e é bom que comecemos a discuti-la. Portanto, todo o espaço necessário neste blog está, desde já, disponível para isso.

A primeira questão que me ocorre é a intenção de promovê-la "junto com a Feira do Livro de Brasília", um evento de responsabilidade da Câmara do Livro. Atenção: a Feira do Livro tem acontecido há vários anos em espaço absolutamente inadequado, o shopping Pátio Brasil, movido pela intenção de levar para a feira as pessoas que circulam por lá. Ora, público de shopping center não é, por definição, público leitor, embora seja, também por definição, público consumidor. Logo, uma Feira do Livro em shopping center não estimula necessariamente a leitura, embora estimule o comércio de livros.

A Feira do Livro de Brasília é um evento com intenções acima de tudo comerciais, e é preciso cuidado para não contaminar a BIP com esses propósitos. Posso parecer arrogante e purista, mas defendo que seria melhor caracterizar tal evento de poesia como um momento de contemplação, reflexão e apreciação da arte poética; uma grande confraternização de artistas que lutam, cada um em seu país, sua cidade, sua região, por um mundo menos mercantilista e mais humano; enfim, uma grande reunião de criaturas questionadoras que, ao desequilibrar a "normalidade" social, tornam o mundo um pouco mais equilibrado.

É claro que haverá venda de livros e é bom que um grande público compareça ao evento e os livros circulem bastante, como conseqüência natural de um evento de sucesso.

Contra o vínculo à Feira do Livro, um outro argumento: dois eventos que se pretendem grandes não podem acontecer juntos, ao mesmo tempo, pois fatalmente um sufocará o outro. No caso, é evidente que a Poesia sairá perdendo.

Também é importante que a organização já vacine a Bienal de Poesia, desde já, contra uma das mais graves doenças do mundo cultural brasileiro: a falta de continuidade. Em 1998, foi realizada, com grande sucesso, a I Bienal de Poesia de Belo Horizonte. Mas, como não aconteceu outra, ela desmentiu a si mesma - deixou de ser bienal - e foi lamentavelmente esquecida.

Leia aqui todas as notas e informações sobre a Bienal Internacional de Poesia de Brasília publicadas neste blog.

Cassiano, boa viagem

O poeta e professor Cassiano Nunes morreu nesta segunda-feira, 15, aos 86 anos, em Brasília. Natural de Santos (SP), Cassiano era professor doutor honoris causa pela Universidade de Brasília (UnB) e cidadão-honorário da cidade. Além dos livros de poesia que publicou, merecem destaque em sua obra os estudos sobre Literatura Brasileira, Monteiro Lobato e uma enorme coleção de cartas, que trocou com Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e vários outros escritores.

Cassiano Nunes era alma generosa, que procurava conhecer e estimular o trabalho de novos autores. Boêmio, enturmava-se com pessoas de todas as idades, desde que tivessem afinidade com ele e gostassem de conversar sobre Literatura. Até cinco anos atrás, quando sua saúde se debilitou, freqüentava assiduamente bares e eventos culturais em Brasília, e sempre encontrava alguém com quem conversar e trocar idéias. Gostava de declamar, com seu vozeirão, poemas de seus autores favoritos, que sabia de cór. Era um defensor apaixonado de Brasília.

Descanse em paz, Cassiano. Você vai fazer falta, como já vinha fazendo.

Um poema...



PARÓDIA

as flores de nosso jardim
foram implantadas à sombra
para não perderem a cor

ainda que plásticas
sugaram da terra a seiva
natural
e morreram todas de saudade
do sol.

Um texto de Rui Werneck

Estremeço/quando penso/em estrelas...
Poemas sempre foram algo como uma casa sem portas, cheia de corredores, diversas paredes – nem todas retas –, chão deslizante, teto aberto para as estrelas. Um labirinto que desemboca onde a imaginação do leitor o levar.
Poemas de amor desembocam sempre numa saudade. Na nossa – atiçada pelo poeta. Saudade de outros tempos, outros lugares, outros céus.
Poemas por amor são diferentes. Mas só um pouco. Eles nos levam a imaginar um coração de poeta dançando sobre as estrelas. em vez de apenas contemplá-las.
Assim, os poemas do livro do Alexandre Marino são poemas por amor. Você viaja com o poeta tentando desvendar a intimidade, os silêncios, os abraços, as mãos dadas em um postal de Paris, o primeiro encontro, os disfarces, os pequenos tesouros em forma de ramos de flores ou lençóis... Tudo isso e outras ilhas desertas, porém habitadas por palavras que correm alegres pela areia, pelos aconchegos, pelas carícias, pelas mudas leituras de lábios.
Depois de tentar imaginar as peripécias do poeta para cantar sua amada, você tem ainda a belíssima edição do livro. Na capa, um terno abraço de amantes – nada menos que um quadro de Pablo Picasso. A mão do rubro, porém terno, amante no ombro da amarela e tímida amada. E duas mãos que se tocam de leve prometendo uma vida eterna de amor.
Assim são os poemas por amor de Alexandre Marino – dedicados a uma só mulher, mas propriedade legítima de todos os leitores que sabem apreciar estrelas pelo teto aberto de uma casa feita de palavras.
Alexandre Marino é poeta mineiro exilado em Brasília, o livro foi produzido pela Editora Varanda, em 2007, numa edição fora do comércio. Quer dizer, você deve entrar em contato com o Alexandre, via e-mail (varanda.ce@gmail.com) para poder achar o endereço da casa sem portas, cheia de corredores, diversas paredes – nem todas retas –, etc., que levarão você onde sua imaginação puder.
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Rui Werneck, escritor e publicitário paranaense, no sítio Shvoong (http://pt.shvoong.com/), sobre o mais recente livro deste escriba, Poemas Por Amor, Varanda Edições, 2007.

Vinte anos de Martinho da Arcada

Fundado em 1782, o Martinho da Arcada, situado na Praça do Comércio, é o mais antigo café de Lisboa. Por lá circularam, entre outros clientes ilustres, Mário de Sá-Carneiro, Cesário Verde e Fernando Pessoa, que até hoje tem sua mesa reservada, e sobre ela uma xícara e alguns livros. Na parede, uma foto e um poema, redigido ali mesmo. Em outubro de 1987, um poeta brasileiro foi conferir o ambiente e receber fluidos do ilustre português, que espiritualmente ainda circula por lá. E voltou, exatamente 20 anos depois. É claro que o Martinho, do alto de seus 225 anos, não mudou muito nesse curto período. O que surpreende é que o poeta brasileiro, que lá tomou uma Sagres e guardou o rótulo como lembrança, também está muito bem conservado.

Gerúndio perde emprego

O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, demitiu o Gerúndio. A medida foi oficializada pelo Decreto 28.314, de 28 de setembro, publicada no Diário Oficial do DF desta segunda-feira, 1 de outubro. O artigo 1 detemina que "fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal".
Espera-se, agora, que o presidente da República do Brasil nomeie o Plural.

De volta

Após um mês de férias, este escriba está de volta à mesa de trabalho. Aos internautas que navegaram por aqui ao longo desse período, agradeço e convido para novas visitas. É um prazer reencontrá-los.

Poesia de Brasília no Guiness

O Coletivo de Poetas, grupo criado em Brasília há 17 anos, promove neste mês de setembro, no Clube da Imprensa, o Sarau da Primavera - 100 Horas de Poesia na Roda. O projeto é ambicioso - levar a poesia do DF para o Guiness Book. O evento, que terá início às 20h do dia 19 (quarta-feira) e será encerrado a zero hora do dia 23 (domingo), pretende ser o mais longo sarau já realizado no mundo, com leituras, lançamentos de livros e CDs, apresentações musicais, minipalestras, feira de arte, exposições. À frente de tudo isso está o poeta Menezes y Moraes. Ele informa que o grupo já entrou em contato com os responsáveis pelo Guiness, que estão fazendo pesquisas em vários países sobre esse tipo de evento. Contatos: menezesymorais@gmail.com.

Woodstock no interior de Minas


Um grande festival de rock´n´roll realizado numa fazenda no interior dos Estados Unidos, em 1969, entrou para a história da música e tornou-se o principal símbolo da contracultura e da era hippie. Agora, mais de 40 anos depois, o espírito Woodstock permanece vivo numa cidade do interior de Minas – ainda que limitado ao espaço físico de um bar lotado, um palco onde tocam bandas formadas por uma garotada talentosa, tudo isso animado por um maestro que carrega a alma desse tempo.

Se o Festival de Woodstock levou quase 500 mil jovens a uma fazenda, debaixo de chuva e em meio a lama, para quatro dias de celebração da paz e da boa música, o que acontece agora no Sudoeste de Minas provoca um sentimento de nostalgia a quem viveu o espírito da época. Mas a maior parte do público está ali para provar que o rock está mais vivo do que nunca – que o digam os meninos atentos aos covers de Pink Floyd, Creedence Clearwater Revival e muitos outros.

A cidade é Passos, o lugar mágico se chama Woodstock Bar e o mentor de tudo é o guitarrista Magrão, nascido em São Paulo mas ligado à cidade desde sempre. O Woodstock Bar localiza-se numa rua bucólica, quase deserta, entre terrenos baldios, no final do bairro de São Francisco. É ali que a coisa ferve nas noites de quinta, sexta, sábado e domingo.

O bairro de São Francisco é um dos mais tradicionais de Passos, que em 2008 completa 150 anos de emancipação política. Nasceu ao redor do morro do mesmo nome, onde foi construída uma simpática capelinha, ainda nos primeiros tempos da cidade. A capelinha sobreviveu intacta até a década de 70, mas a partir daí começou a sofrer sucessivas reformas, até que a demoliram e construíram no lugar uma nova igreja, autêntico exemplar do mau-gosto da arquitetura pós-moderna. Parece uma nave alienígena.

A capelinha foi uma perda, mas não era mais possível salvá-la. Ao longo das últimas décadas, os padres lotearam o morro e o bairro subiu pelas suas encostas, descaracterizando-o. Mas o bairro mantém até hoje suas principais características de cidadezinha do interior, com casinhas singelas, ruas tranqüilas por onde as pessoas caminham, trocam um bom-dia e conversam, a caminho da padaria ou do botequim. Foi nesse ambiente tipicamente interiorano que nasceu o Woodstock Bar. É por isso que os que o procuram, noite adentro, têm às vezes dificuldade para encontrá-lo – pior ainda, quem está em Passos para uma visita. O cara percorre ruas escuras, vira esquinas desertas, e de repente se depara com uma rua lotada de carros e motos e é despertado por um som que parece vir de uma outra época. E vem mesmo.

O Woodstock Bar deveria ser incluído no roteiro turístico oficial de Passos, uma cidade simpática que recebe visitantes atraídos por suas lojas de roupas modernas e ecoturistas em busca das belas cachoeiras da região. E, é claro, os imortais roqueiros.

Feira do Livro começa na sexta

A Câmara do Livro do Distrito Federal anuncia para a próxima sexta-feira, 31 de agosto, a abertura da 26a. Feira do Livro, que mais uma vez será realizada nos corredores externos do Pátio Brasil Shopping. Alô, Walter Silva, quando é que vão arranjar um lugar melhor para a Feira? Os livreiros adoram, porque o local tem grande circulação de pessoas, com feira ou sem. Mas para o público consumidor de livros, e especialmente para quem pretende acompanhar palestras e debates, deixa muito a desejar.

A Câmara havia anunciado que o evento voltaria a ser realizado no Centro de Convenções, mas a promessa não se concretizou. Outra possibilidade anunciada para o ano que vem é sediar a Feira no Complexo Cultural da República, ao ar livre, entre o Museu e a Biblioteca.

A 26a. Feira do Livro homenageia Ariano Suassuna e dá uma atenção especial ao cordel. A CBDF anuncia a presença da escritora portuguesa Alice Vieira, conhecida mundialmente por suas obras infanto-juvenis; Lira Neto, biógrafo da cantora Maysa; o poeta amazonense Thiago de Mello; o contista Ronaldo Cagiano, que depois de se mudar para a capital paulista volta a Brasilia para participar do Café Literário. Também comparece, acreditem ou não, o paulista Marcelo Mirisola. Será que não havia ninguém mais interessante disponível em São Paulo?

No mais, haverá as atrações de sempre - oficinas, peças de teatro, apresentações musicais, palestras, debates... Quem sabe as livrarias não promoverão, desta vez, significativos descontos nas vendas dos livros, o que, afinal, deveria ser uma característica de tudo aquilo que se chama de "feira"? Fica a sugestão.

Quarta-feira literária

A literatura agita esta semana em Brasília. Mais precisamente esta quarta-feira, 22: no mesmo dia, haverá nova edição do Conjunto em Prosa com o escritor paranaense Cristóvão Tezza, que fala sobre O Filho Eterno (no Espaço Cultural do Conjunto Nacional); o lançamento de dois livros de Gustavo de Castro no Carpe Diem (104 Sul), um de poesia (Os Ossos da Luz) e um de ensaio literário (Ítalo Calvino, Pequena Cosmovisão do Homem); e no Feitiço Mineiro (306 Norte), apresentação do novo livro de Climério Ferreira (Memorial de Mim - As Lembranças Poéticas de um Menino de Angical do Piauí). No Auditório da Biblioteca Nacional de Brasília, o poeta Antonio Miranda apresenta recital conferência em homenagem a João Cabral de Melo Neto. Tudo isso ao mesmo tempo, às 19h.

Drummond: 20 anos

O poeta Carlos Drummond de Andrade morreu há 20 anos, mas sua poesia vive para sempre. Pouparei aos meus quatro ou nove leitores qualquer tratado a seu respeito, preferindo reproduzir alguns de seus versos mais emblemáticos:

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?


É uma estrofe do poema Procura da Poesia, do livro Rosa do Povo. Nessa meia dúzia de versos está contida, em minha modesta opinião, toda a essência daquilo que chamamos poesia.

Guerrilheiros [2]

Mais um flagrante do grupo de guerrilheiros poéticos que espalhou seus versos pela Belo Horizonte do início dos anos 80. Li Egg (primeira à esquerda), Sérgio Fantini (de boné), Avanilton, Fátima e Raimundo Nonato, Marcos Lunán (de chapéu), Alexandre Marino (exibindo seu livro recém-lançado, Todas as Tempestades), Almir Rosa, Marco Bellini (encoberto) e Luci Soalheiro. A foto, de autor desconhecido, foi feita no campus da Universidade Católica de MG. Alô, poetas, dêem notícias!!!

Guerrilheiros


Aí está um grupo de guerrilheiros poéticos que andou agindo em Belo Horizonte nos anos 80, flagrados em pleno recital no campus da Escola de Belas Artes da UFMG numa tarde daqueles tempos. Em primeiro plano, Almir Rosa, posteriormente cognominado Almir Almas, e ao fundo os demais participantes - Avanilton de Aguilar, Sérgio Fantini e este escriba, entre outros (não pela ordem).

Gaia no Balaio

A escritora Ana Maria Ramiro lança nesta sexta-feira, 3 de agosto, seu livro de poemas Desejos de Gaia (LGE Editora). Será no Balaio Café (SCN 201, bloco B, Asa Norte, em Brasília).

A poesia de Ana Ramiro é feita de versos elegantes e delicados, que atraem o leitor para um pacto de cumplicidade. Ana Ramiro cria imagens de grande sensualidade, em poemas densos e concisos.

A poeta estará acompanhada de Virna Teixeira, tradutora de Na Estação Central (Editora UnB), coletânea do escocês Edwin Morgan, e da antologia Ovelha Negra (Lumme Editor), também de poesia escocesa. Também será lançado o livro 8 Femmes, que reúne trabalhos de oito autoras.

E quem comparecer verá ainda um pocket show do poeta Marcelo Sahea, com participação do baterista Renato Dias.

Tudo isso numa noite de sexta-feira...

Justa homenagem

A Embaixada da Colômbia no Brasil promove, nesta quinta-feira (2 de agosto) o lançamento da edição comemorativa de 40. aniversário do romance Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Márquez. O evento acontece no Espaço Cultural Ecco (SCN quadra 3, bloco C, telefone 61-3327-2027), próximo ao Liberty Mall, em Brasília. Participam o diretor do Instituto Cervantes, Juan Manuel Casado; Elga Perez-Laborde, professora da UnB, e o escritor Ronaldo Costa Fernandes, entre outros.

Aos 80 anos, Garcia Márquez pode viver à sombra das grandes obras que produziu, embora sua inquietação o leve a prosseguir escrevendo histórias geniais. Ele contribuiu para o acervo literário latino-americano com alguns dos melhores livros aqui escritos, colocou seu país e nosso continente no mapa da literatura mundial e trouxe para cá um Prêmio Nobel. Apesar de tudo isso, jovens escritores (ou nem tanto) hispano-americanos tentam criar um novo modismo: falar mal de Garcia Márquez. Uma razão a mais para as incontáveis homenagens que têm sido feitas a ele e suas obras.

Uma esperança para a Biblioteca

A Biblioteca Nacional de Brasília recebe inestimável presente da família da poeta Marly de Oliveira, recentemente falecida. Cerca de 5 mil livros do acervo pessoal da escritora serão doados à instituição. Marly era considerada um dos grandes nomes da poesia de língua portuguesa da atualidade, e deixou uma obra que merece ser mais conhecida. Era viúva de outra sumidade da poesia brasileira, João Cabral de Melo Neto, o que dá uma idéia da importância do acervo doado à Biblioteca.

Erguida na Esplanada dos Ministérios durante o governo Joaquim Roriz sem qualquer planejamento quanto à origem, aquisição e administração de seu acervo, a Biblioteca Nacional começa a dar sinal de vida. Um dos grandes responsáveis por isso é o professor e poeta Antonio Miranda, que ainda nem foi oficialmente nomeado diretor da instituição, mas já está na luta para viabilizar o elefante branco. Graças a ele, a Universidade de Brasília (UnB) fez uma significativa doação à Biblioteca, em processo de catalogação.

A doação dos livros foi anunciada pelo embaixador Lauro Moreira, ex-marido de Marly, que na última sexta-feira, 20, fez uma palestra sobre ela e uma apaixonada leitura de seus poemas no auditório da própria Biblioteca. Moreira é embaixador do Brasil junto à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), em Lisboa. E especialista em leitura de poesia.

Brasília sob a neve


Aí está a contribuição deste escriba ao Catálogo-Poético Bric-a-Brac Maior Idade, lançado ontem, 10 de julho, na Galeria da CEF, em Brasília. A exposição permanece em cartaz. Dê uma olhada lá.

It´s only rock´n´roll, but I like it!



Octávio Scapin e banda apresentam "Ressaca", um rock básico composto por Scapin sobre poema de Alexandre Marino. Siga a letra abaixo.

Ressaca

Tenho mania de recordar o futuro
e gritar te amo, te amo,
como se atingisse o orgasmo
a cada erro de concordância

Mas sou apenas uma ilha deserta,
sem palmeiras ou náufragos.
Minha diversão é atirar ao mar
mensagens de amorem garrafas de açúcar

(Nem alcanço a praia
nem o mar fica mais doce)

Navegante de águas mortas
nem aprendi a tossir
e já tenho uma cicatriz no coração
(minha filha se chamaria Tarsila
mas morreu antes da ejaculação)

Nesta noite, há bares e homens tristes
e essa mania de desvendar o futuro
como procuro desejos

Mas agora meu coração está de ressaca.
E vomita atrás de um muro a indigestão dos beijos.

[Do livro O Delírio dos Búzios, Varanda Edições, 1999, esgotado]

Bric-a-Brac: nova festa!

O Conjunto Cultural da CEF reúne escritores, músicos, fotógrafos, artistas plásticos para uma nova festa em celebração aos 21 anos da revista Bric-a-Brac, publicada em Brasília entre 1986 e 1991. Será na próxima terça-feira, 10 de junho, a partir das 19h.

Haverá recital poético, reexibição do clip-documentário produzido pelo poeta Luís Turiba, ex-editor da revista, e pelo cineasta André Luiz Oliveira e, o mais esperado, lançamento do catálogo da exposição Bric-a-Brac Maior Idade, que será distribuído gratuitamente aos presentes.

O Catálogo, com 112 páginas, representará na prática o derradeiro número da revista, já que veiculará poemas e textos inéditos de poetas de Brasília e outras cidades brasileiras, além de refinada edição de fotos e trabalhos gráficos e plásticos.

Um poema de Manoel de Barros, datilografado em sua velha máquina de escrever, e um fac-símile de um manuscrito de Paulo Leminski, criado em Brasília durante sua visita à cidade em 1984, são duas das atrações do Catálogo, que deverá atrair tanta atenção da mídia cultural brasileira quanto as seis edições da revista.

Quem estiver em Brasília não deve perder essa!!

Bombas sobre Macondo

Leio na Folha de S. Paulo de ontem, 26/6, matéria sobre um suposto movimento de escritores latino-americanos contra o realismo mágico. Alguns desses novos escritores participarão da Flip, em Parati, no início de julho. O movimento já produziu até uma coletânea de contos, McOndo, trocadilho idiota que procura comparar o gênero à rede de lanchonetes McDonalds.

O que o realismo mágico fez pela literatura deste continente miserável, ignorante e iletrado não foi pouco. Deu-nos pelo menos um Prêmio Nobel, merecidíssimo (estou me referindo a García Marquez) e descreveu nossas tragédias com as tintas da criatividade e da arte. Cem Anos de Solidão, assim como outros livros do mesmo autor, com seus personagens absurdos e situações nonsense, traça um retrato psicológico fiel do povo latino.

A matéria da Folha - "Latinos debatem uma Macondo em ruínas", Ilustrada, pág. E3 - é assinada pela repórter Sylvia Colombo. Ela parece concordar com os neo-rebeldes, tanto que chama o movimento que combatem de "cadáver insepulto". Fotos de vários desses autores ilustram a página. Seus livros são publicados por grandes editoras daqui, de lá ou multinacionais. Márquez, Juan Rulfo, Julio Cortázar e muitos outros, quando começaram, não tinham a alta tecnologia marqueteira em que se apoiar, apenas seu talento.

Este escriba não combate a literatura feita por esses novos autores e acredita que escrevam bons livros, a julgar pelo pouco que conhece de alguns deles. O realismo urbano que eles propõem faz sentido, já que nos últimos 30 anos houve intensa urbanização dessas sociedades. Mas cuspir na obra dos grandes autores do continente não passa de rebeldia infantil.

Além disso, o continente latino-americano, depois de séculos de opressão econômica e cultural, com seus governantes populistas e "ridículos tiranos", como disse Caetano Veloso, será sempre um pouco surrealista.

O piano


Dorme um piano
entre as cinzas do porão,
onde os gatos e suas ninhadas,
indiferentes à escuridão
ou qualquer sinal de morte,
caminham sobre o teclado
e descobrem o imponderável
(como se ordenassem:)
acorde!


[a ilustração é de Meire de Oliveira, publicada na revista Vida Simples]

Arte e mercado

A produção cultural brasileira está refém das estratégias de marketing e dos humores do mercado. A indústria do livro impõe aos leitores, a cada fim de semana, nas páginas dos cadernos culturais, novos gênios que estreiam na literatura. Autores e livros medíocres ganham status de inovadores, geniais. É o mesmo processo que já tomou conta da música brasileira, fazendo com que produtos que não passam de lixo conquistem o gosto dos consumidores. O jornalista Luís Nassif vem a Brasília discutir essas e outras questões afins e lançar seu livro Cabeças de Planilha. O evento acontece nesta terça, 26, a partir das 19h, no Clube do Choro (Eixo Monumental, próximo ao Centro de Convenções). De quebra, Nassif, que é bandolinista, participa de uma roda de choro ao lado de músicos da cidade.

Um poeta de vida simples

A revista Vida Simples de julho, que acaba de chegar às bancas, publicou o poema O Piano, de autoria deste escriba, na sessão Outras Palavras. É a edição de número 55 da revista, voltada para um estilo de vida menos estressante e com melhor qualidade. Nesse contexto é que entra a poesia - em todas as edições o tema é abordado em artigos, dicas de livros e um poema, publicado na última página. O Piano, retirado do livro Arqueolhar, recebeu uma bela ilustração de Meire de Oliveira.

Para ler O Piano e outros poemas do Arqueolhar, acesse o sítio Ave Palavra, do jornalista e escritor Carlos Machado, clicando aqui. No Sítio do Alexandre Marino, você acessa poemas de vários livros deste autor.

Em Teerã

Os escritores Alaor Barbosa e Ronaldo Cagiano participaram de um improvável, porém real, Encontro de Literatura Latino-Americana em Teerã, capital iraniana. Conheceram um grupo de escritores de vários países - Argentina, Chile, Bolívia, México, entre outros - e um país ultra-exótico para os nossos padrões. O evento foi promovido pelo governo do Irã e os escritores convidados puderam desfrutar de considerável mordomia, se é que se pode chamar de mordomia a pesada vigilância a que foram submetidos. Eles não podiam circular pela cidade por conta própria, mas apenas com escolta e em lugares aonde eram levados. Conversar com mulheres nativas? Nem pensar. Durante o Encontro, Ronaldo Cagiano falou sobre "A estética da diversidade na ficção brasileira contemporânea" e Alaor Barbosa fez uma palestra sobre a obra de Guimarães Rosa. A experiência certamente renderá boa leitura para os curiosos que aguardam relatos da viagem. Na foto que ilustra esta postagem, Alaor e Ronaldo posam em cenário típico de Teerã.

A festa do Liga Tripa

O Clube do Choro recebeu no último sábado a trupe do Liga Tripa, para fazer a alegria de um bom público que compareceu à sala. Não é sempre que podemos preencher nossas noites de sábado com duas instituições brasilienses. Toninho (flauta), Caloro (contrabaixo africano), Carrapa (cavaquinho), Aldo Justo (violão), Fino (percussão) e Duboc (violão) fizeram a festa. Para quem perdeu, resta esperar pela próxima.

Bric-a-Brac, Maior Idade

Bric-a-Brac, se estivesse viva, completaria 21 anos. Mas quem disse que não está viva a revista litero-cultural experimental que circulou entre 1986 e 1992, levando a poesia de Brasília a surpreender a mídia nacional? Espiritualmente vivíssima, como prova a exposição Bric-a-Brac, Maior Idade, Poética Multimídia, que será aberta no dia 14, quinta, na galeria principal da CEF, em Brasília.

O jornalista e poeta Luís Turiba, editor da revista, explica que será uma exposição retrospectiva, com novas leituras de antigos trabalhos e muitos documentos inéditos, cartas, manuscritos, etc. Haverá uma parede dedicada a novos trabalhos, que também serão publicados em forma de catálogo, como se fosse uma nova edição, "a Bric-a-Brac 2007, Maior Idade."

Também está sendo produzido um documentário-clip sobre a trajetória da publicação.

A imagem que você vê no alto desta postagem é a capa da edição 4, de 1990. Poderá ser relida na galeria da Caixa.

Liga Tripa no Clube do Choro!

O Liga Tripa vai apresentar sua música feita de lirismo, crítica social e irreverência, no Clube do Choro, no próximo dia 9, sábado. Por incrível que pareça, há gente em Brasília, ligada em música, que não conhece o Liga Tripa. Mas quem conhece quer ouvi-los de novo, e não há público mais fiel, assim como não há música mais tipicamente brasiliense.

O Clube do Choro fica próximo ao Centro de Convenções de Brasília, no meio do gramado que separa as duas pistas do Eixo Monumental. É um espaço informal, descontraído, totalmente adequado a uma apresentação do Liga Tripa, que costuma arrastar o público pelos gramados e avenidas depois de descer do palco.

Já lá se vão mais de 25 anos que o Liga Tripa emitiu seus primeiros acordes nos gramados brasilienses. Misturando influências do baião, do frevo, do samba e outros ritmos desse Brasil adentro, Aldo Justo e sua trupe criaram um ritmo - a "ligada" - que não poderia ter surgido em outra cidade. Na formação atual, Sérgio Duboc, Toninho Alves, Carrapa, Fino e Caloro completam o grupo, com violões, flautas, cavaquinho, percussão e o "negão" - um contrabaixo monocórdio de origem africana que é uma das atrações do Liga.

O grupo já se apresentou em diversas capitais brasileiras e em cidades da Nicarágua, onde representou o Brasil no V Encuentro Iberoamericano de la Cultura.

Portanto, para não esquecer: Liga Tripa no Clube do Choro, dia 9, sábado, às 21h30. Ingressos a R$ 10 e R$ 5.

A palavra

palavra deu a natureza por origem a cabeça da áspera artéria, o ar por corpo, a língua por mãe, e a boca por berço, mas com tão instantâneo descanso que apenas nascida voa, e com tão breve vida, que logo nos ouvidos dos circunstantes se sepulta. Porém não acaba a palavra quando morre, porque ainda que metida na tortuosa sepultura do ouvido, com o osso petroso por campa, e com várias membranas por mortalhas, e quase perdida nos ocultos meatos da parte que os Anatomistas chamam de Labirinto, alentada com o impulso e comoção do ar implantado, acha a palavra abertas as válvulas, ou pequenas portas, por onde passam as espécies de som para o nervo auditório, e dele para os ventrículos do cérebro, onde estão depositados os tesouros da memória; e por este modo fica a palavra na impressão da sua própria espécie, epitáfio de si mesma, sombra da voz e cadáver da locução, até que chegue a lograr outra vida, quando, suscitada da reminiscência, torna a sair da boca ou da pena dos Escritores, e sucessivamente atada a outras com o fio do discurso, participa, com a doutrina dos sábios, nas obras da eloqüência."
Padre Rafael Bluteau (1638-1734), uma das grandes figuras do Iluminismo português.

Bruna Surfistinha, musa da UFRJ


Bruna Surfistinha, aquela garota de programa que trocou a "vida fácil" pela vida mais fácil ainda de escritora, parece ter conquistado o coração dos professores do Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O NCE, além de "desenvolver os sistemas que gerenciam a vida acadêmica e administrativa da universidade", responsabiliza-se pela elaboração, aplicação e correção de provas de concursos públicos. Foram eles que organizaram as provas do mais recente concurso da Agência Nacional da Aviação Civil (ANAC). Em uma dessas provas, nível técnico, o candidato precisava entender de Bruna Surfistinha para responder a uma pergunta. Se nossa elite intelectual está ligada numa ex-prostituta que virou best-seller, como censurar quem deixa de ler outros livros para ler a história dela? Não que este escriba tenha alguma coisa contra prostitutas ou ex-prostitutas - tem, apenas, contra subliteraturas, quaisquer que sejam. Bem, os intelectuais da UFRJ devem ter algum argumento a favor. Mas que estão ligados nos "grandes" temas da atualidade, não há dúvida. Tanto que a pergunta seguinte da mesma prova diz respeito ao tal de Big Brother Brasil. Assim os intelectuais testam os "conhecimentos gerais" da patuléia. É bom saber. A partir de agora, para se sair bem nessa área, talvez seja melhor que os candidatos, em vez de acompanhar os grandes acontecimentos do Brasil e do mundo, passem a ler Caras e a ligar a TV no Faustão, nas novelas e no Fantástico. Boa sorte a todos.

Drummond em Itabira?

A prefeitura da cidade mineira de Itabira anuncia a volta de seu filho mais ilustre, Carlos Drummond de Andrade, 87 anos depois de se estabelecer em Belo Horizonte e 73 anos após sua mudança para o Rio de Janeiro. O prefeito João Izael Querino Coelho propõe o traslado dos restos mortais do poeta para um memorial a se construir na cidade. De acordo com matéria publicada no mês passado no jornal O Cometa Itabirano (n. 315), o neto do poeta, Pedro Augusto Graña Drummond, responsável legal pela obra e imagem do avô, está aberto à negociação.

Drummond não freqüentava Itabira e manifestou sua vontade de ser sepultado no Rio, onde seus restos descansam ao lado dos da filha, Maria Julieta, no Cemitério São João Batista. Sua cidade natal também não o cultuava muito - dizia-se, quando vivo, que poucos itabiranos sabiam quem ele era.

A prefeitura parece estar preparando um roteiro turístico fúnebre. Deixem os restos de Drummond em paz, onde ele queria que ficassem, e preservem sua memória com um centro de estudos e pesquisas, um museu vivo, onde sua obra, seu pensamento, seu acervo e suas fontes de inspiração possam ser melhor conhecidos. A imagem de Drummond está totalmente integrada ao Rio, ainda que em sua voz soe o espírito de Minas. Que esse espírito lance sobre a administração itabirana seu claro raio ordenador.

Deu no jornal

"O poeta Alexandre Marino, mineiro radicado em Brasília, é um incansável batalhador pela literatura brasileira, nas mais diversas frentes. Autor de quatro livro de poesia — o último deles Arqueolhar, pela LGE, em 2005 —, acaba de lançar um novo projeto: o volume Poemas por amor, por sua Varanda Edições (80 páginas). (...) São 31 poemas escritos nos últimos 10 anos, todos dedicados a sua mulher, todos possuidores de forte veia lírica. O sentimento amoroso, para Marino, compõe com qualquer tema, seja o futebol, seja uma gripe, seja o ato de descascar uma laranja. Na poética do autor, palavras e imagens servem ao poema com naturalidade, sem afetação. O resultado envolve e comove, como só o sentimento amoroso verdadeiro é capaz."

Simpáticas palavras de Clara Arreguy no caderno Pensar do Correio Braziliense deste sábado, 21 de abril, sobre o novo livro deste escriba.

Poemas por amor

Poesia para celebrar o amor - este é o propósito de Poemas por amor, volume que reúne versos escritos ao longo dos últimos 10 anos por este escriba. É um livro especial, todo dedicado a Nádia, musa e companheira, e terá uma trajetória fora do convencional. Não irá para as livrarias - o autor fará com que chegue às mãos dos bons leitores. Alguns já o receberam. Outros o receberão em breve. O poeta espera apenas que "abra-se este livro com reverência", como pede Anderson Braga Horta no texto da contracapa. Boa leitura!

Homenagem sim, mas...

O poeta Fernando Mendes Vianna, falecido em setembro do ano passado, será homenageado pela Secretaria de Cultura do DF na próxima quinta-feira, 5, às 19h, no auditório da Biblioteca Nacional de Brasília.

Fernando merece todas as homenagens que lhe fizerem. Poeta de alta estirpe, original, erudito, grande amigo, figura iluminada. Autor de obra extensa, expressiva, traduzida para vários idiomas, saiu do Rio de Janeiro e veio morar em Brasília na década de 60. Seu último livro foi Rosa Anfractuosa, publicado pela Thesaurus.

Homenagear Fernando, isso está certo. O que está errado é marcar essa homenagem para esta quinta-feira, véspera de sexta-feira da Paixão, data que, por razões óbvias, é inadequada para qualquer evento, ainda mais uma homenagem a um poeta. Outro fato estranho é que os convites estão circulando entre amigos de Fernando, mas não há qualquer informação oficial no sítio da Secretaria de Cultura.

Além disso, a Biblioteca Nacional de Brasília é um prédio oco - quatro meses após sua "inauguração", não possui qualquer acervo, absolutamente nenhum livro. Foi mandada construir por um político semi-analfabeto, o ex-governador Joaquim Roriz, e inaugurada por um indivíduo que detesta livros, o presidente Lula. Embora seu projeto seja de um gênio da arquitetura, Oscar Niemeyer, dizem que o prédio é inadequado para o fim proposto, devido à incidência do sol. Bem, quanto mais demorarem a colocar esse prédio para funcionar, mais disse-me-disse.

Duas notícias

1) Desde 2002, o jornalista e poeta baiano (radicado em São Paulo) Carlos Machado distribui, via e-mail, o Poesia.net, um interessante boletim semanal em que divulga poemas e seus autores. O Poesia.net 201, que circula a partir de hoje, é dedicado a este escriba. Alguns poemas de Arqueolhar, meu livro lançado em 2005, estão nos monitores de mais de 2 mil internautas que recebem o boletim. É um trabalho feito por amor à poesia, que pode ser melhor conhecido no site Ave, Palavra, que guarda as 201 edições já distribuídas.

2) O jornalista e escritor Galeno Amorim acaba de inaugurar seu blog, com o claro objetivo de "contribuir para que o papel da leitura na vida das pessoas seja algo cada vez mais claro e também mais presente no imaginário coletivo". Para buscar esse nobre propósito, ele se propõe a contar, semanalmente, novas histórias de personagens, anônimos ou não, que modificaram suas perspectivas de vida graças aos livros e à leitura. E conclama os militantes da causa a dividir com ele a tarefa. É visita indispensável. Conheça!

14 de março, Dia Nacional da Poesia


Entre as nuvens, Castro Alves declama para os anjos.
O jovem poeta faz hoje 160 anos de idade,
e continua nos fazendo chorar.

Adormecida













Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.


'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos - beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia....
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
"Virgem! - tu és a flor da minha vida!..."


Castro Alves, 1868

Na capital do Brasil, é proibido entrar na Biblioteca

Quem tenta visitar a Biblioteca Nacional de Brasília, inaugurada com toda a pompa pelo presidente Lula em dezembro, esbarra em dois policiais militares que guardam a porta do edifício. É proibido. Só é possível conhecer uma pequena sala à esquerda da entrada, onde está montada uma desinteressante exposição de fotografias pertencente ao Arquivo Público do DF.

A Biblioteca Nacional, edifício de cinco pavimentos, com 11.500 metros quadrados, está literalmente vazia, três meses depois de sua inauguração e suposta abertura ao público. Deverá contar com um acervo de 500 mil volumes. Teoricamente - porque nenhuma autoridade se dispõe a informar de onde virá esse acervo, quando virá, se virá. Enquanto isso, o secretário de Cultura do DF, Silvestre Gorgulho, a quem cabe (também teoricamente) a administração da Biblioteca, discute com o Ministério da Cultura um projeto comum para "tornar Brasília a capital cultural do Brasil" e com o Ministério da Ciência e Tecnologia a criação de um acervo digital.

Emir Suaiden, diretor do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), instituição vinculada ao Ministério, já deu uma aula aos 16 secretários do GDF sobre a futura (?) Biblioteca Nacional Digital, um projeto que, segundo ele, "viabiliza a implantação de um centro de inclusão social numa biblioteca onde o virtual, o digital e o bibliográfico funcionarão em harmonia".

Enquanto as autoridades discutem idéias e propostas, o elefante branco dorme. O edifício faz parte do Complexo Cultural da República, que custou R$ 110 milhões ao Governo do Distrito Federal. O outro edifício, inaugurado no mesmo dia, é o Museu da República. Segundo o governo local, sua missão é incluir a cidade no circuito nacional e internacional de exposições. Conta com sistema de climatização e dois auditórios, além de salas para restauração de obras e laboratórios. Por enquanto, está ocupado com uma exposição de fotos de projetos do arquiteto Oscar Niemeyer ao redor do mundo.

O Complexo faz parte do projeto original de Brasília, de autoria de Niemeyer, e ocupa a ala sul da Esplanada dos Ministérios, próximo à Catedral Metropolitana. A ala norte ainda está vazia, o que por enquanto não faz grande diferença.

Na estrada virtual

Além de grande músico, que já registrou seu nome na história da MPB, Luís Carlos Sá é um ótimo contador de histórias. Esse perfil pode ser conhecido no blog Cadernos de Viagem, que ele acaba de lançar na net. Se sua ficha ainda não caiu, ele é co-autor de sucessos inesquecíveis como Sobradinho, Dona, Primeira Canção da Estrada, Mestre Jonas e tantos outros, ao lado dos parceiros Guarabyra e Zé Rodrix. Ele também é jornalista e participou de pelo menos um grande momento do jornalismo brasileiro, o jornal Sol, dirigido por Reynaldo Jardim no final da década de 60, que deu origem a um verso clássico de Caetano Veloso - "o Sol nas bancas de revista / me enche de alegria e preguiça / quem lê tanta notícia". O blog Cadernos de Viagem é visita obrigatória e vai para a seleção de linques deste minifúndio. Bem-vindo à blogosfera, Sá!

Presente para os argentinos

Cerca de cem livros de escritores que vivem em Brasília serão doados a três bibliotecas argentinas pelo escritor Ronaldo Cagiano. Arqueolhar, quarto volume de poemas deste escriba, está entre eles. Ronaldo visita na próxima semana a Biblioteca da Universidade Nacional da província de Catamarca, e posteriormente vai a Buenos Aires, onde também deixará exemplares na Biblioteca Nacional e na universidade local. Cagiano, que tem mantido um saudável intercâmbio com escritores portenhos, observou que a literatura brasileira não marca presença na Argentina. "Nas livrarias, só se vê obras de Paulo Coelho", diz ele. Os livros que Cagiano entregará às bibliotecas daquele país foram doados pelos próprios autores. Essa iniciativa antecede outra boa idéia que Ronaldo colocará em prática ainda este ano: a publicação de uma antologia poética bilíngüe, reunindo escritores brasileiros e argentinos.

Poemas por amor

Abra-se este livro com reverência:
são poemas de amor da mais comovente delicadeza.
Queria comentá-los com o leitor,
mas percebo que não é preciso, nem seria conveniente.
Este livro fala e se diz por si mesmo,
em versos de um amor além do tempo e do espaço,
mão do Poeta levemente pousada
no ombro da Amada.
Ah! o poema que se esconde nos olhos dela,
as palavras aninhadas ao redor de seu silêncio
luminoso!
Este é o livro do amor que desaprende a língua dos homens
para que o trôpego coração diga as palavras
impronunciáveis.
A nós, leitores, a graça de ouvi-las
e entendê-las.

Texto de Anderson Braga Horta
para a contracapa de meu livro
Poemas por amor,
saindo do forno.

A biblioteca do futuro [2]

O jornalista Mário Salimon participou da 14a. Reunião Interamericana de Bibliotecários, Documentaristas e Profissionais da Informação, na Universidade Autônoma do México, em 2006. A tônica das discussões foi o valor das bibliotecas no futuro. Salimon conta que as principais conclusões foram as seguintes:
1) Biblioteca tem que ter livros. Os repositórios organizados de arquivos digitais, que incluem áudio, fotografia e vídeo, são Infotecas;
2) os profissionais das bibliotecas devem sair da postura passiva de esperar que alguém os procure para buscar formas de compilar referências condizentes com as necessidades estratégicas da sociedade;
3) As pessoas, incluindo os acadêmicos, estão se acostumando a buscar informação no Google sem maior preocupação com validade e consistência do material encontrado.

O escritor Ezio Flavio Bazzo aproveitou para reclamar da redução do horário de funcionamento da Biblioteca Demonstrativa de Brasília, estabelecida por "ordens superiores", segundo ele - medida publicada no Diário Oficial. Ezio observa que o Ministério da Cultura deveria formular políticas públicas de incentivo à leitura e abertura de bibliotecas, viabilizando seu funcionamento 24 horas por dia. A Biblioteca do Congresso argentino, compara ele, fica aberta até de madrugada e ainda serve sopas para os mendigos.

Pois é, nenhum sinal de civilização à vista.

A biblioteca do futuro

Em entrevista à Rádio CBN (terça, 16), o novo secretário de Cultura do DF, Silvestre Gorgulho, declarou que pretende fazer da Biblioteca Nacional de Brasília a "biblioteca do Século XXI". Para quem não sabe, a citada biblioteca, recentemente inaugurada sem qualquer livro em seu interior, compõe, ao lado do Museu, o conjunto Cultural da República.

Mas o que seria a "biblioteca do Século XXI"? O próprio secretário explicou que é aquela em que os livros de papel não são tão necessários, e que o importante é o acervo digitalizado. Bem, foi uma explicação lacônica, e este escriba, que ouvia atentamente a entrevista, também achou que entendera mal.

Brasília tem 20 bibliotecas públicas administradas pelo Governo local, espalhadas pelo Plano Piloto e cidades satélites. Assim como a grande maioria das bibliotecas brasileiras, elas estão muito mais próximas da Idade Média que do Século XXI (no qual, é bom lembrar, já estamos vivendo). Logo, estão atrasadíssimas, assim como a Biblioteca Nacional de Brasília, que começou muito mal, pois foi construída sem qualquer planejamento para o seu acervo.

O secretário de Cultura, jornalista e ambientalista respeitado, não deve ter freqüentado muitas bibliotecas em sua vida, até porque o poder público brasileiro nunca entendeu o verdadeiro valor de uma boa biblioteca, artigo em falta no País. Gorgulho deve acreditar, assim como acreditam alguns profetas do apocalipse, que o livro de papel está condenado ao fim, e o futuro pertence ao livro eletrônico.

Os estudiosos do assunto não concordam. Nem os escritores, nem os pesquisadores, nem os grandes leitores. Não vou citá-los para não trazer essa discussão para este texto, que não é o caso. O livro é um objeto vivo, e o suporte papel mantém com o leitor um vínculo sensorial, que as luzes frias da tela do computador jamais substituirão. Folhear um livro antes ou durante a leitura, correr os olhos pelo texto impresso no papel, segurar o livro e virar uma página são atividades insubstituíveis pela tecnologia eletrônica.

Portanto, uma biblioteca de verdade é composta de livros de papel, sejam os livros novos, as obras raras, os periódicos, documentos diversos. Isso é História. O arquivo eletrônico não tem essa capacidade de registrar a História, porque é virtual, fugaz, efêmero.

Para que a Biblioteca Nacional de Brasília se transforme na biblioteca do Século XXI, deve ser administrada como nenhuma biblioteca do DF jamais foi, e possivelmente nenhuma biblioteca pública brasileira. Deve ser planejada, catalogada, enriquecida diariamente com livros e documentos. Deve ter, por exemplo, publicações históricas, que contem a história do Brasil, a história da cidade, em mínimos detalhes; deve estabelecer critérios racionais de atualização do acervo, de forma que receba todos os livros publicados no País, ou pelo menos grande parte deles; deve ter uma seção de obras raras; uma seção de publicações que dêem uma idéia da formação cultural de Brasília, mas também do Brasil. Deve ter uma coleção de todos os jornais que já foram publicados em Brasília desde a inauguração da cidade, e se isso não for possível, aí sim, os arquivos eletrônicos serão fundamentais.

E todo esse material deve ser enriquecido permanentemente, e cuidadosamente catalogado e administrado. O leitor deve ter acesso a cada novo livro divulgado pela imprensa, e para isso o órgão administrador não deve mendigá-lo à editora; deve comprá-lo, ainda que por um preço especial.

Além de tudo isso, é claro, a Biblioteca deverá possuir espaços adequados e confortáveis para leitura e estudo, suficientes para um grande público. Deve ter, sim, computadores ligados à internet, com conexão rápida, e ligados também a seu acervo digital.

Mas como será a aquisição desse acervo? Esta é a grande pergunta que ninguém respondeu, e foi lançada inúmeras vezes, desde que se lançou também a pedra fundamental da obra. Então, que o secretário a responda. O Depósito Legal, que recolhe exemplares de todos os livros publicados no Brasil, funciona para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Para funcionar também para a nossa, teria que haver uma nova lei, ou uma alteração na atual. E no entanto, resolveria o problema das publicações futuras, mas não as do passado. E os periódicos? E os documentos históricos?

Seria interessante colocar o tema em discussão em Brasília. Para você, o que seria a "Biblioteca do Século XXI"? Pensemos sobre o assunto.