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[poema] VÍRUS, MICRÓBIOS E CUPINS

 

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Este poema, inédito em livro, foi publicado originalmente em meu perfil de poemas no Instagram: @alexandre.marino.poeta. 

BRASÍLIA, 60

Quando cheguei a Brasília, a cidade não era muito diferente daquela que foi inaugurada em 1960, como símbolo de tempos melhores que viriam. Em 1982, a ditadura militar exalava sinais de que não duraria muito tempo, e a Lei da Anistia já estava em vigor. A capital, com apenas 22 anos, inspirava poemas, canções e lendas. Uma dessas dizia que todos os recém-chegados passariam por três fases, os chamados “3Ds”: o deslumbramento, fruto do primeiro contato com a cidade; o desencanto, que viria com o aprofundamento desse contato, e o desespero, trazido pelo tédio, pela solidão e pelo vazio existencial, inevitável em meio ao espaço sem fim do Planalto Central. A essas três fases alguns acrescentavam outras duas: a demência, caracterizada pela intenção de aqui permanecer em definitivo, e a despedida, que se opunha à anterior, ou viria muito tempo depois.

Escrevi o poema As cinco estações em 1999, portanto com tempo suficiente para ter vivido todas as fases. E permaneci em Brasília, não por demência, mas talvez por destino. Procurei fazer uma interpretação poética de minha vivência na cidade e de sua gradual transformação, que eu observava e tentava compreender. No mesmo ano eu lancei meu terceiro livro de poemas, “O delírio dos búzios”, de que este poema fez parte. Agora, abril de 2020, Brasília é outra, vive os mesmos problemas urbanos de qualquer grande metrópole do país e a sentença dos “5Ds” parece ter sido esquecida. Aos 60 anos, Brasília é uma cidade real. 






LANÇAMENTO DE HIATOS EM BRASÍLIA


Convido amigos, leitores, escritores, todo o público interessado em poesia para o primeiro lançamento de meu novo livro de poemas, Hiatos. Será realizado em Brasília, no dia 23 de agosto, quarta-feira, no Martinica Café, localizado na CLN 303, Asa Norte, a partir das 19h30. 

Hiatos é uma publicação da Editora Patuá, de São Paulo. 

Informarei oportunamente lançamentos em outras cidades. 

Conto com todos vocês. 

É PRECISO SILÊNCIO PARA OUVIR MÚSICA


Quando Brasília foi inventada, a civilização parecia prestes a aportar por aqui. Quase 60 anos depois, o que foi feito da cidade democrática, humanista, que garantiria qualidade de vida a seus moradores? Temos trânsito engarrafado, criminalidade e insegurança, falta de mobilidade, estresse, barulho, conflitos urbanos, poluição. Grande parte da área urbana carece de calçadas, muitas de nossas ciclovias dão em lugar algum, áreas centrais estão cobertas de mato, não há transporte público ligando o leste ao oeste (e vice-versa), o poder público não consegue definir como coletar e tratar o lixo, a cidade que reluz em sua arquitetura está sufocada de sujeira em seus pedaços mais íntimos. 

O bem-estar e a convivência pacífica da massa humana que se aglomera na urbe devem ser garantidos por leis civilizatórias, que promovam o respeito ao espaço e à liberdade de cada um. Por enquanto há alguns sinais de que podemos chegar à civilidade sonhada por seus inventores. Brasília foi a primeira cidade brasileira a proibir o fumo em locais fechados, tornando a convivência mais saudável; foi a primeira a adotar o respeito à faixa de pedestre. E conta com uma lei moderna e civilizatória para controlar a poluição sonora, a lei 4.092/2008, que alguns detratores chamam pejorativamente de Lei do Silêncio, como se fosse um instrumento de censura e não de organização da convivência no espaço público. 

Há quem diga que o controle da poluição sonora representa o atraso e uma virada à direita, como se o respeito à lei e aos direitos individuais não representassem a civilidade, e como se a selvageria e o caos fossem nossos ideais políticos. A Lei da Poluição Sonora estabelece parâmetros para controle de emissão de som, não apenas para música, e não são valores aleatórios – são aqueles definidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que por sua vez segue valores estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS), respeitados internacionalmente. 

Extinguir a Lei da Poluição Sonora ou adotar níveis aleatórios para medição do som significará mais um passo rumo à barbárie da qual Brasília deveria se distanciar. É preciso silêncio para ouvir música. O excesso de ruído – seja ele emitido por motores, betoneiras ou caixas de som – não faz bem para a saúde nem para a cultura, assim como a fumaça do cigarro em ambiente fechado nada tem a ver com liberdade individual. Da mesma forma, não se pode alterar o Código de Trânsito para que o motorista obrigado a parar na faixa de pedestre seja pontual em seu compromisso. 

Se os empresários da noite precisam de renda, é mais lógico que se adaptem à lei, e não a lei a eles. Se alguns músicos – não todos – temem o desemprego, que estimulem os empresários a cumprir a lei. Dizem que o nível sonoro permitido é tão baixo que a conversa de um grupo de pessoas é suficiente para superá-lo, mas se esquecem de que o som de uma conversa não se propaga além de alguns metros, enquanto o som amplificado atravessa barreiras e reverbera por longa distância. A situação piora quando a noite avança, e não se pode chamar de careta ou reacionária uma pessoa que se esforça para dormir quando deve acordar cedo no dia seguinte, seja para trabalhar ou estudar. 

Os artistas que combatem a lei 4.092 parecem ignorar que o Teatro Nacional está fechado há anos, assim como o Museu de Arte de Brasília e o Espaço Renato Russo; que a Biblioteca Demonstrativa fechou por falta de manutenção, e a Escola de Música está sucateada e segue o mesmo destino, e a cidade não tem uma biblioteca pública digna desse nome – e depois tentam nos convencer de que a Lei da Poluição Sonora nos empobrece culturalmente... 

A riqueza cultural de uma cidade não está relacionada à poluição sonora. As pessoas que apoiam a lei também gostam de se divertir, vão a bares e restaurantes, ouvem música e participam da vibração da cidade. Por sua vez, aqueles que defendem o som alto precisarão, em algum momento, de silêncio para descansar, os músicos precisarão de silêncio e sossego para criar, para se concentrar, porque o silêncio é saudável e necessário, porque o silêncio faz parte da harmonia. 

Não se pode confundir controle da poluição sonora com cerceamento cultural, como não se pode confundir violência urbana com progresso, trânsito engarrafado com desenvolvimento, ambiente enfumaçado com liberdades individuais. Uma cidade não precisa ser caótica e barulhenta para ser vibrante, assim como a contemplação e o silêncio podem nos enriquecer culturalmente. A sala onde descansa o piano em que meu amigo músico faz os arranjos para seu próximo show será um ambiente mais agradável e produtivo se não houver uma betoneira no apartamento ao lado. 

[Texto publicado na revista Roteiro Brasília, nº 248, de fevereiro de 2016. 
A ilustração, que circula na internet, retirei do blog Habitável Escafandro]

O NOVO QUINTAL DA JORNALISTA

Conceição Freitas na Banca da 308 Sul
À sombra de um flamboyant florido e ao som de bem-te-vis, a jornalista Conceição Freitas descobre Brasília mais uma vez. É ali, à entrada da Superquadra 308 Sul, que ela está construindo seu abrigo seguro, simbolizado pela banca de revistas que comprou logo depois de sair do Correio Braziliense, onde trabalhou por mais de 20 anos. Conceição quer fazer da banca uma referência para si própria e também para a cidade. 

Seria óbvio, mas impreciso, dizer que Conceição é uma jornalista que virou jornaleira. Ao longo de duas décadas, Brasília se espelhou nas suas reportagens e especialmente na coluna Crônica da cidade, em que defendeu, com unhas e dentes, o projeto da capital. E ela não vai parar de fazer isso. Continuará jornalista e a banca será mais que uma banca de revistas e jornais – será um centro de cultura, um ponto de encontro de turistas e brasilienses, mais um laço que a une à cidade. 

Conceição está cheia de ideias e planos, que tenta ordenar. O primeiro passo é se reciclar. Ela reconhece que por muito tempo se fechou numa redoma, voltada para a coluna do jornal, para as pautas, e até para as restrições tecnológicas que o Correio lhe permitia. Agora, convive com os moradores da quadra, com porteiros dos blocos, com os entregadores de jornais, com amigos e desconhecidos que passam para conversar. 

“Eu vim para a rua”, sintetiza. “Foi uma estratégia de sobrevivência. Eu precisava virar rapidamente a página, não poderia ficar indefinidamente à espera de novo emprego. Precisava responder à altura, e a banca me deu a energia de que eu precisava.” 

Uma série de coincidências levou Conceição Freitas a se tornar proprietária da Banca de Revistas da 308 Sul. A primeira é que ela já havia sido proprietária de uma banca, ainda nos tempos de universidade. A segunda é que havia uma banca à venda quando foi dispensada do Correio Braziliense, no final de setembro. E a terceira é que essa banca se localizava numa quadra emblemática, com projeto paisagístico de Burle Marx e única construída exatamente de acordo com o projeto urbanístico de Lúcio Costa. “Turistas e arquitetos do mundo inteiro passam por aqui para conhecer a quadra”, diz Conceição. “É impressionante.” 

“A banca de revistas é um patrimônio público. Acho que Brasília ainda não tem noção do valor dessas bancas, que ficam na entrada das quadras e congregam a comunidade. Os jornaleiros ainda não entenderam isso. Numa cidade com poucos cruzamentos, as bancas podem reunir as pessoas”, observa Conceição, que passou pela banca por acaso e, durante a conversa, o antigo proprietário propôs o negócio.

Ela tem a sensação de que alguma força superior a retirou da redação do jornal e a colocou diante da banca. Mas será que o objetivo do Correio, ao dispensá-la, não seria a de romper com a cidade, expurgando de sua equipe a profissional que melhor a representava? “Não há como saber isso, eles é que devem responder”, diz Conceição. “Mas uma coisa é certa: o Correio não vai tirar Brasília de mim.” 

Conexão epifânica – Há 30 anos Conceição vive em Brasília. Nasceu em Manaus e passou a infância em Belém, onde vivia em bairro pobre, sem saneamento, com esgoto a céu aberto. Um dia, seu pai, Isaías, que vendia terras e viajava muito, lhe deu de presente um álbum de fotografias. “Era uma cidade bonita, com prédios organizados, ruas limpas. Eu folheava aquele álbum sem parar.” 

Adolescente, Conceição sobreviveu ao acidente que matou seu pai na Belém-Brasília. Foi nessa época que ela se mudou para Goiânia, onde se formou em jornalismo e depois começou a trabalhar como repórter policial. Quando o repórter Mário Eugênio, do Correio Braziliense, foi assassinado, em 1984, ela veio para Brasília integrar a equipe do jornal. Passou alguns anos circulando de delegacia em delegacia atrás de notícias. 

Foi nessa época que teve o que chama de “conexão epifânica” com Brasília. “Comecei a observar a cidade, e me lembrei daquele álbum de fotografias da minha infância, e me toquei que a cidade que me encantava era Brasília. Lia muito sobre a história da cidade, que era muito maior em mim que eu imaginava.” 

Conceição já criou um blog para escrever sobre a capital, uma forma de dar continuidade à coluna que conquistou os leitores do Correio, enriquecida agora pelas histórias que vai colhendo na 308 Sul. Também pretende reunir em livro uma seleção dos 20 anos de crônicas e reportagens sobre lugares, personagens e casos da cidade. O tempo é curto para tanta coisa. E Conceição ainda está tentando se atualizar com a tecnologia, porque, mais do que nunca, precisa dela. Enquanto isso, o Blog da Conceição já pode ser visitado neste endereço: https://bancadaconceicao.wordpress.com/. 

“Ainda tenho resistência às redes sociais. Uso para fins profissionais, mas tenho medo dessa carga de ódio, da exposição exacerbada e vazia”, analisa. Mas reconhece: hoje, o que não passa pelas redes não existe. Foi pelas redes sociais que ela sentiu que os leitores continuavam de seu lado quando o jornal a dispensou. Mais de mil curtidas numa postagem no facebook lhe deram essa certeza e abriram o caminho. 

Apesar de tudo, Conceição acredita que as redes sociais salvaram Brasília de seus agressores. “Foi pelas redes que os defensores de Brasília ocuparam os vazios da cidade, superaram as dificuldades urbanas e se uniram”, diz ela. “As novas gerações se agregaram aos pioneiros. Mas a cidade está muito maltratada, só tem ‘gentinha’ fazendo política. Infelizmente, Brasília não é uma flor de estufa, estamos vinculados ao Brasil. Então, temos de cuidar de nosso quintal.” 

À sombra daquele flamboyant e ouvindo os bem-te-vis, Conceição Freitas cuida de seu quintal. 


[Reportagem publicada na revista Roteiro Brasília nº 245, de novembro de 2015. 
A foto é de Rodrigo Ribeiro]