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[poema] DEFINIÇÃO DE CIDADE

 
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O poema Definição de cidade faz parte de meu sexto livro, Exília, ganhador da Bolsa Funarte de Criação Literária em 2008 e publicado pela Dobra Editorial de São Paulo em 2013. O livro aborda a dissolução da urbe e do sujeito, levando o poeta a sentir-se um exilado, ou mais precisamente, um indivíduo sem lugar no mundo.

[poema] PAISAGEM INVISÍVEL

 
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Em meu livro Exília, ganhador da Bolsa Funarte de Criação Literária em 2008 e publicado em 2013, fiz uma reflexão poética sobre as ausências. Começando pela falta de lugar, o tempo que se vai, até a ausência definitiva dos que partem. Paisagem invisível faz parte desse inventário. 

[poema] O PIANO

 

Este poema faz parte de meu livro Exília, publicado em 2013 pela Dobra Editorial. O livro foi criado com o apoio da Bolsa Funarte de Criação Literária, numa época em que o governo brasileiro apoiava e patrocinava a criação artística.

A imagem é do fotógrafo francês Romain Thiery, aficcionado em pianos abandonados e edifícios em ruínas. Autor do livro de fotografias Requiem pour pianos, disponível em seu site romainthiery.fr. Seu perfil no Instagram é uma das mais interessantes coleções de fotos daquela rede social. Thiery já publicou nos jornais The Guardian, Der Spiegel, El Pais, Daily Mail, entre outros. 

[poema] AMÁLGAMA

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Este poema foi publicado originalmente em meu sexto livro, Exília, criado com o apoio da Bolsa Funarte de Criação Literária e lançado em 2013. O livro começou a ser escrito em 2008. Naquele tempo existia no Brasil uma política de estímulo oficial à literatura e às artes em geral. 

 

[poema] NÁUFRAGOS

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 Poema que faz parte de meu livro Exília, de 2013. Também pode ser lido no meu novo perfil no Instagram - @alexandre.marino.poeta - onde pretendo divulgar meu trabalho em poesia, tanto inédito quanto já publicado. 

[hiatos] PALAVRAS DE MARCO TÚLIO COSTA

Marco Túlio Costa é um dos meus poucos amigos de infância, mas vale por todos que eu poderia ter tido e não tive. De nosso cinema desenhado da pré-adolescência à maturidade literária, atravessamos juntos ou pelo menos ao alcance da vista as agruras de tempos turbulentos, curando com a escrita as nossas aflições e impossibilidades. Minha admiração por ele ou pela sua literatura não precisa ser declarada. O texto que se segue, que ele publicou no Facebook, me deixou emocionado e orgulhoso. 

HIATOS E DITONGOS

Impossível ler completamente um livro de poemas. Embora tenha ido da primeira à última página de Hiatos (Patuá Editora, São Paulo, 2017) do Alexandre Marino, relido do último ao primeiro poema, não terei lido o livro todo. Mas, possivelmente, fui lido por ele.

São os poemas que nos declamam, nos escandem a alma da pele aos ossos, dão ritmo e rimam os sentimentos que nos alinham em versos de riso e lágrimas, nos decifram e nos definem em versos brancos. 

Tomar nas mãos uma obra como Hiatos, é sentar-se na antessala dessa ressonância poética, dessa tomografia lírica, do ecocardiograma trágico – Ecocardiografia, aliás, é título do primeiro poema do volume, que fala de nosso próprio coração exposto: “ali se guarda toda a tristeza do mundo/ labirinto onde o homem feliz se esconde”. 

Hiatos, esses momentos de estupor do poeta, diante de cenas de um mundo visto de forma desesperançada, mesmo que com ternura de despedida, melancolia. Marino já tinha demonstrado essa perplexidade, essa impotência diante da cena mundana em obra anterior (Exília, Dobra Editorial, SP, 2013) como no poema O Velho Poeta, pessoa que “divaga sobre refazer o mundo/ reordenar a história” mas “cansado de caminhos/quer só a viagem”. A viagem é esse hiato entre o partir e o chegar, origem e destino, entre passado e futuro, onde flutua a consciência do indivíduo que recolhe provas da própria existência, coleciona trivialidade que deem sentido à vida, pequenos objetos capazes de fazer a amálgama entre uma ponta e outra. 

Já na sua obra Arqueolhar (L.G.E. Editora, Brasília, 2005) vagava Marino nessa arqueologia do tempo presente, garimpando seu passado. Lá, no poema Paisagem Doméstica, ele diz que “ninguém sabe a história inteira/ evocam-se vazios invulneráveis/ o tempo é feito de destroços”. Os vazios, os hiatos, os momentos de contemplação presente, que não podem ser transpassados. E sim, ninguém sabe a história inteira, ninguém lê um livro de poemas completamente, ainda que o esgote da primeira à última página. Nós é que vamos sendo lidos aos poucos, nesse hiato entre abrir o livro e fechar nossos olhos.

Procurei em minha confusoteca – essa biblioteca ainda de pernas pro ar – o livro de estreia do Alexandre Marino. Livros gostam de passear, parecem buscar conversas uns com os outros. Mas encontrei Os Operários da Palavra (Batanguera, Belo Horizonte, 1979) que para mim, ou para nós que conhecemos este poeta desde sua gênese, é um símbolo, um troféu que trago ‘daqueles tempos’, quem sabe nossa origem literária, de onde nos lançamos como protótipos de uma esperança adolescente. Tínhamos bandeiras, a que persiste talvez seja a defesa da liberdade de expressão. Leiam nesse livro Ó putas do meu Brasil – as putas pululam persistentes, o Brasil persistentemente se prostitui, só nós não nos vendemos, mas entregamos alguns sonhos para adoção de gerações novas.

Em 1966, quando tinha 11 anos, cheguei a Passos e fui logo conhecendo o Alexandre Marino. Meu avô materno, Geraldo Magela, assim como o pai do Alexandre, Zé Marino, eram telegrafistas e morsemente se conheciam. Tivemos uma infância compartilhada – jogos de botão, tombos de bicicleta, leitura de gibis (o que na casa dele era permitido, na minha não). Fomos cineastas, façanha que ele conta em Arqueolhar, no poema Heróis do Cinema, a mim dedicado.

Posso dizer que formamos não só uma dupla, mas um ditongo. Amadurecemos e partilhamos literariamente nossos hiatos. 

MEUS LIVROS NA BANCA DA CONCEIÇÃO

Exília e Arqueolhar, à venda na Banca da 308 Sul
Meus livros mais recentes, Exília (Dobra Editorial, SP, 2013) e Arqueolhar (LGE/Varanda, DF, 2005), estão à venda na Banca da Conceição, na 308 Sul, em Brasília. É um ponto de venda importante, por duas razões: primeiro, porque a 308 Sul é quadra símbolo de Brasília, aquela onde se conservou radicalmente a proposta de Lúcio Costa para esta cidade quase utópica onde vivo. Com projeto paisagístico de Burle Marx, a quadra é atração turística de Brasília. Segundo, porque a jornalista Conceição Freitas é desde outubro de 2015 a proprietária da banca de revistas da 308 Sul. 

Conceição Freitas tornou-se, ela própria, uma referência em Brasília, construída ao longo de muitos anos em que escreveu sobre a cidade, defendendo seu projeto, nas páginas do Correio Braziliense. Meus livros fazem parte de uma criteriosa seleção de obras que Conceição escolheu para serem vendidas no limitado espaço da banca. Estou muito bem acompanhado por outros escritores que aqui constroem não apenas a sua obra, mas o acervo literário de uma cidade ainda jovem, mas que gera e acolhe grandes talentos. 

Só posso agradecer à Conceição. O espaço da Banca da 308 Sul, além de restrito, é valioso. 

LIVRARIA NA RUA


A Le Calmon Livraria e Café marca a volta das livrarias de rua a Brasília. Meus livros Exília (SP, Dobra Editorial, 2013) e Arqueolhar (LGE/Varanda, 2005) estão à venda lá, assim como livros de outros autores de Brasília. 

O espaço é convidativo e aconchegante. As estantes não sufocam o leitor; ao contrário, sugerem que se tome o livro para folhear e ler algumas linhas. E o ambiente não parece impor ao cliente o best-seller da hora, mas o deixa à vontade para suas próprias descobertas. Talvez seja assim a livraria ideal, já que o livro, antes de ser um produto comercial, é – ou deveria ser – um suporte para o pensamento e a reflexão. 

A Le Calmon Livraria e Café, localizada na quadra 111 Sul, foi criada com esse espírito e marca a volta das livrarias de rua a Brasília, abrindo caminho, quem sabe, para outras iniciativas semelhantes. Criada por um casal de advogados, Adriana Beltrame e Petrônio Calmon, ela faz parte de um projeto que inclui uma editora especializada, a Gazeta Jurídica, com dois anos de existência e já com 60 títulos publicados, e um selo literário, a LeCalmon Editora. Deste, Uvas, Vinhos e Tulipas, romance de Vanda Amorim, e Causos de São Chico e Outras Querências, de Athos Gusmão Carneiro, são os destaques. 

Adriana lembra que o cliente não encontrará nas estantes livros de autoajuda ou religiosos, que não fazem parte da proposta da Le Calmon. Este é mais um detalhe que dá à livraria uma personalidade diferenciada, já que são outros os seus “best-sellers”, como romances de literatura brasileira e estrangeira e biografias. Mas, caso o leitor não encontre na casa o que procura, a Le Calmon aceita encomendas de qualquer tipo de livro.


No andar superior da livraria foi montado o café, que complementa o ponto de encontro de pessoas que têm em comum o prazer da leitura. Os dois ambientes funcionam de segunda a sábado, das 9 às 21 horas.

Le Calmon Livraria e Café
CLS 111, bloco C, loja 22
(61) 3345-6233
De segunda a sábado, das 9h às21h
www.lecalmon.com

UMA NOVA LEITURA DE EXÍLIA

O escritor Alexandre Bonafim, professor de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual de Goiás (UEG), escreve no Diário da Manhã, de Goiânia (edição de domingo, 7/12/2014), sobre meu livro de poemas Exília


Em Exília (Ed. Dobra), o mais recente livro de poemas de Alexandre Marino, podemos contemplar uma linguagem de tensões, escritura a se esmerilar em si mesma, afiando-se num jogo de associações livres, oníricas, responsável por uma linguagem que, a despeito de voltar-se permanentemente para situações da realidade, tem em si mesma, pelo efeito da função poética, um burilado pergaminho de metáforas. Desde os românticos alemães, passando por Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé, a poesia tornou-se um emaranhado de associações lexicais raras, em que o processo de metaforização atinge uma agudeza intensa. Dessa forma, Marino não se atenta apenas aos referentes do real, mas sobretudo à própria expressão linguística, o que o torna um poeta sobretudo da consciência verbal. É o que podemos notar nessa pequena obra prima, O cavalo em chamas:

Um cavalo selvagem
branco como o assombro,
carrega uma labareda
a atiçar-lhe o lombo.

Mergulha no nevoeiro
onde uma ponte houvera,
pênsil sobre o penhasco
arrimo de corredeiras.

Este cavalo em chamas
galopa entre as brumas
à margem do precipício
por uma trilha sem rumo.

Atravessador de abismos,
o cavalo meio pássaro
enfrenta dor e cansaço
e a inépcia para o voo.

O fogo, essa estrela
cadente de encontro ao rio,
ilumina o cavalo peixe
sobre as águas bravias.

Para enfrentar o mistério,
incêndio no precipício,
resta a luz do homem
entregue à montaria.

Em seu fim e seu início
a vida costura rotas
nos passos iluminados
em caminhos sem respostas.

Essa assustadora chama
atiça a cavalgada
sobre o rio ignoto
que encanta e ameaça.

O cavalo porta as almas
de peixe, pássaro e fera.
E essa eterna chama,
alimento de quimeras
(p.11-12)

O cavalo a conduzir o cavaleiro é a própria linguagem a impulsionar o poeta, ou em um sentido existencial, o destino a talhar a condição humana. Nesse percurso de abismos, de fascínios, resta sempre a ambiguidade desse cavalo que, paradoxalmente, encarna o pássaro e o peixe, animais de outro habitat. Eis as tensões, enfim, que vão conflagrando a complexidade da própria linguagem, gerando paradoxos e associações encantatórias capazes de agudizar o mistério desse cavalo cujo fundamento, como a existência em si, é pura magia, denso enigma.

Em outro poema de bela fatura, Majestade, temos uma árvore que, assim como em O cavalo em chamas, encarna o real, mas o ultrapassa, instaurando no solo concreto o próprio arroubo do desconhecido:

Esta árvore
te acolhe e consola,
mas também tem fome.

Ao te assustares
com teus arredores,
feitos de não lugares,
sabes onde encontrá-la
para verter-lhe nos braços
teu pranto farto.

Ela também carrega
na carne
sinais do massacre
que te retalhou a pele
e as entranhas.

Mas ao contrário
dos que vacilam
em busca de um sinal
e apodrecem no solo,
a árvore
visita o paraíso
como hóspede de honra
e enfrenta o inferno,
onde deita suas garras.

Esta árvore
renuncia à seiva
para consolar-te
das tormentas e das secas,
e retrata tuas veias,
onde trafega o desamparo.

A única sombra
a protege-la
de teu olhar cruel
é a noite,
escultora de teus pesadelos.

Os pássaros
aninhados em seus galhos
te ensinam:

embora possas
adormecer
recostado em seu corpo,

o teu voo é falso,
teu abraço é falho.

A árvore, cravada em um cerne que não mais é o umbigo do mundo, âmago dessacralizado, possui, ao redor, não-lugares, vazios, desertos inóspitos onde o homem e a árvore têm de estabelecer morada, desvelando-nos uma situação existencial de extrema indigência e fragilidade. Dessa forma, a árvore, tal como o homem, vive em desterro, em exílio, circunstância vivencial que é, na verdade, o húmus de todo o livro e nos traz, em clave pós-moderna, a velha questão do poeta inadaptado, do albatroz baudelairiano sopesado pela força de uma sociedade cujo valor não mais é a beleza, a poesia, mas o dinheiro, a ambição e a usura. No entanto, teimosa, com raízes no inferno e a fronde no paraíso, a árvore resiste aos massacres, tal como o poeta que, também resistente, é um combatente audaz a fazer da linguagem o último refúgio no qual ainda resguarda sua humanidade.

Se no nível psicológico o exílio se desvela pela inadaptação, no plano físico do corpo vislumbramos um processo também angustiante, pois a carne perde a liberdade e enclausura-se em limites claustrofóbicos:

[...]
Este corpo
mal se acomoda
em suas esperas,
mas cercado de fronteiras
revolve o infinito,
porque só o ínfimo
interessa.

Este corpo emudece
no momento do grito
dentro da noite imensa,
[...]

Este corpo desconhece
o espaço que o acolhe
e rejeita,
e sabe a trilha secreta
dos deuses,
feita de abismos
e delicadezas.
[...]

Este corpo
cria um novo sonho
a cada pedaço
amputado,
recria o ninho
a cada exílio,
mas não compreende
mapas e rotas.

[...
Este corpo
se alimenta a esmo
e colhe da vida,
gota a gota,
o mais saboroso
veneno.
(p. 46-48)

O corpo, por fim, esfacela-se, fragmenta-se num amplo processo de desrealização da concretude física humana. Exílio a se findar em múltiplos exílios, cujo fim é a lenta dissolução da vida. Em um mundo inóspito, reificado, onde os processos de desumanização atingem uma agudeza antes nunca vista, o poeta ecoa seu canto dolorido, mas ao mesmo tempo vivo, num grito de prometeu rebelde, acorrentado, mas audaz na perspicácia de sua luta.

Em Exília, portanto, encontramos uma fecunda crítica à situação do homem contemporâneo, feita por uma linguagem cortante, mas altamente lírica, simbólica, escritura que denuncia, mas que também se desvela em desejo, em pulsão de vida, telúrica, força pujante do verbo humano. Alexandre Marino, em Exília, rende-nos, portanto, momentos de alta literatura.

EXÍLIA NA BIENAL DE BRASÍLIA

Nesta sexta-feira, 18, lançamento de Exília no Café Literário Jorge Ferreira na Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília. 
A Livraria do Chico (estande 33, bloco A) vende Exília na Bienal de Brasília. 


O NÃO-LUGAR DA POESIA

A escritora Paula Cajaty, do Rio de Janeiro, escreve sobre meu livro de poemas Exília, na edição 165 do jornal de literatura Rascunho, de Curitiba (janeiro/2014). Leia abaixo a íntegra de seu texto.

 
Muito embora tenha finalizado seu sexto livro em 2009, Alexandre Marino trabalhou em Exília durante três anos, até a sua publicação, em junho de 2013. Nestes mais de sessenta poemas, distribuídos em cinco partes (“O homem”; “O exílio”; “O amor”; “O tempo”; “A morte”), Marino realiza o deslocamento do leitor, tornando-o alheio à condição humana, em uma espécie de despertencimento do mundo.

Na verdade, para escrever poesia há mesmo essa necessidade de exilar-se, colocar-se distante e à parte — sair do lugar de conforto para olhar o mundo sob outra perspectiva. A poesia é, pois, o próprio lugar de exílio do poeta, mas um exílio voluntário, um deslocamento de tempo e lugar em que se permitem reflexões impossíveis aos que se encontram imersos no turbilhão da vida.

Exília é o lugar que não há, longe da terra que acolhe e expulsa sonhos, o vazio além da janela, o ninho diversas vezes recriado. Fica fácil, portanto, identificar a razão da repartição em cinco partes no livro do poeta mineiro: exilando-se da condição de homem, o eu-lírico se transforma em poeta; exilando-se do mundo, o poeta encontra seu lugar nesse exílio; afastando-se das paixões que regem o homem-consumidor e competidor, o poeta descobre a mansidão e eternidade do amor; e, por fim, distanciando-se da vida, efêmera, escreve sob a égide do tempo e da morte, inexoráveis e imutáveis.

Caixa de vidro

O eu-lírico de “O homem” é um deus aleijado, andarilho, criatura sem norte, viajante perdido e cigano no deserto. É náufrago de si mesmo, intruso em seu próprio habitat. O título da obra, embora não conste do dicionário, é a junção da palavra “exílio” com “Brasília”, cidade onde mora o poeta. Mas Alexandre explica que não se sente exilado em Brasília: na verdade, ele se sente exilado em qualquer cidade, pois, como na história do rio cujas águas sempre são diferentes, pessoas e cidades vão mudando com o tempo. Nós mudamos, a cidade muda e logo nos sentimos estranhos e deslocados em nosso próprio bairro.

A sensação de estranhamento, própria do efeito da leitura poética, é fruto desse auto-exílio: estranhamos o que não nos é próximo, desconfiamos daquilo que não nos é familiar, duvidamos de tudo o que muda — embora a natureza das coisas seja exatamente a mudança.

Em “O exílio”, Alexandre perscruta as condições em que esse homem, alheado de tudo e até de si mesmo, passa seus dias: “Nunca estou onde estou/ fogem-me abraços, harmonias e desalinhos”. É “terra estéril/ onde planto sonhos”, o mundo lá fora que insiste em invadir esconderijos, sol e vida que atravessam nossas celas de vidro. Como o próprio autor declara, é essencial o sentimento de desenraizamento que atormenta o poeta e explica a importância de que exista um lugar dentro de cada um de nós que possa ser esse refúgio pessoal e utópico. A poesia é, então, a ferramenta de criação do espaço mental e espiritual que salva os sentimentos do homem de um mundo inóspito e devorador.

Aliás, não é somente a poesia que promete esse lugar do sagrado e inatingível onde guardamos nossas sensibilidades, onde admiramos a rosa delicada da besta-fera ameaçadora e arredia que criamos para sobreviver: na filosofia iogue e nos estudos rosacrucianos há esse recolhimento a um outro espaço/tempo, diverso e distante do espaço/tempo do mundo. No estudo rosacruz, por exemplo, chega-se a erigir um pórtico mental que deve ser atravessado pelo aprendiz todas as vezes que inicia seu processo de meditação: o pórtico representando a entrada humilde do peregrino em um novo local, feito de silêncio, magia e beleza. Assim como poetas, iogues e rosacrucianos buscam esse auto-exílio como forma de expandir suas sensibilidades, um lugar de proteção contra barulhos, aborrecimentos, mudanças: uma caixa de vidro para guardar o que há em nós de mais precioso e frágil.

Pela filosofia iogue, através da meditação visitamos esse auto-exílio, que não é somente um lugar para entesourar nosso interior sagrado, mas lembrar de nossa própria essência, ouvir o chamado interno, ter contato com nossas verdades, e sobretudo não nos distanciarmos — em nome de necessidades materiais — de tudo aquilo que realmente precisamos para resgatar a felicidade.

A significação dos poemas de Alexandre também remete a uma espécie de exílio urbano, à falta de identidade de quem habita a urbe, metrópole sem rosto. Em suas entrelinhas, lemos a solidão compartilhada da grande cidade e a dissolução do indivíduo transformado em cliente, quando o homem é investido de condição financeira e desprovido de sua condição humana, substância lírica que insiste em resistir como flor nascida numa fenda de concreto.

Libertação

Na seção dedicada ao amor, um bem precioso e frágil, o poeta encontra histórias metafóricas, incorpóreas, perigo e beleza. Amor pode ser fantasia e longa espera, caminho imponderável do acaso, mistério impossível de enunciar, aquilo que as vozes emudecem. Amor pode ser aquarela, cheiro das tardes quase comuns, um baile de borboletas amarelas, o céu rosa enquanto guardamos algo dos pássaros apressados em busca de abrigo.

O modo singular e transgressor como o poeta lida com os poemas de “O homem” e “O exílio” cede e suaviza quando encontra “O amor”. Aqui, Alexandre descortina o primeiro poema com sua face mais cruel, camoniana: quando, impuro, tem mãos sujas, e quando, insensível, se diverte “enquanto ela chora no quarto ao lado”, reavivando a antiga “ferida que dói e não se sente”. Mas o poeta reencontra o amor divino, aquele paciente e bondoso, que “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

Nos dois últimos capítulos, “O tempo” e “A morte”, a poesia se exibe como momento de lucidez, uma forma de libertação da vida prática. A vida é “fútil fortuna, ilusão de eternidade”, pó que voa sobre um lago de águas plácidas. E a morte, animal de estimação quase palpável, é sombra do invisível, parece que dorme ou que desaparece, mas a qualquer momento volta a sorrir e nos pede companhia pela eternidade. A morte é algo que cabe numa caixa de sapatos, é a imagem da mãe sentada no alpendre, o vento nas árvores, o telhado vazio de pássaros. As metáforas de Alexandre Marino aqui são profundas, preciosas.

Na linguagem poética, uma razão sobre-humana sobrevoa toda a racionalidade que aprendemos. Na poesia, sob o signo das sensações, retiramos a máscara que nos alheia a todo o tempo de nossa real condição — fugaz, frágil, efêmera — e nos encastela entre paredes de concreto, vidro e metal.

Alexandre Marino transita com desenvoltura pela linguagem poética, aberto para todas as linguagens e estilos, dialogando com a poesia drummondiana, o lirismo de Fernando Pessoa, a melancolia de Sophia de Mello Breyner e, ao mesmo tempo, evocando a memória de obras clássicas, como A Bela e a Fera ou O corcunda de Notre Dame. Em seus poemas, o autor foge da crueza e crueldade da cidade e do cotidiano para se refugiar em sua Exília, de onde escreve com paixão, força, riqueza de sensações e uma profunda experiência de vida.
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EXÍLIA NO LEITURAS


O jornalista Maurício Melo Júnior comenta, no programa Leituras, da TV Senado, os livros O jugo das palavras, de Raul da Távola, e Exília, deste que lhes escreve.

MARX HAMLET BERMAN MARINO


Uma análise do escritor W. J. Solha sobre o livro de poemas Exília:
 
"  Marx diz sobre a época em que viveu, no Manifesto de 1848, que TUDO QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR, frase que se tornou título de uma obra bem mais recente, de Marshall Berman, em cujo prefácio se lê:

São todos movidos, ao mesmo tempo, pelo desejo de mudança — de autotransformação e de transformação do mundo em redor — e pelo terror da desorientação e da desintegração, o terror da vida que se desfaz em pedaços. Todos conhecem a vertigem e o terror de um mundo no qual “tudo o que é sólido desmancha no ar”.

“Todos”, ele diz. Shakespeare, venerado por Marx, faz Hamlet se lamentar, ante a situação que vive (conforme tradução de Luís I, de Portugal):

Ultimamente, nem sei por que, perdi toda a minha alegria, renunciei a toda a especie de exercicio; e sinto na alma uma tal tristeza, que esta maravilhosa machina, a terra, me parece um esteril promontorio, este esplendido docel, o céu, esse magnifico firmamento suspenso sobre nossas cabeças, essa abobada sumptuosa, onde brilha o oiro de innumeras estrellas, tudo me parece um infecto monturo de vapores pestilentes.

E eis o “clima” de Exília, conforme seus melhores versos:

A cidade
é o lado de fora dos muros do cemitério.

(Definição de cidade, pág. 49)

Este é meu corpo (que) a cada retorno a ancestrais paisagens
descobre jamais ter estado lá.

(Amálgama, pág. 52)

Se nem meus limites
dão forma ao que sou,
onde procurar
o que não sou?

Infinitos Limites, pág. 60)

Quando me acerco da cidade sonhada
não está lá

(A cidade Sonhada, pág. 65)

Nunca estou onde estou.
(A cidade Sonhada, 65)

Atônito nada
sempre à espera.

(Nenhuma Nuvem, 67)

Homens perdidos entre lapsos de memória.
(Brasília sob a Neve, 68)

Correndo atrás do sonho que acabou.
(London sweet Londres, 71)

Criatura sem norte,
inventa perfídias,
sonhos e fábulas,
e diante da morte
erige catedrais
onde perde a alma.

(Dia das Caças, pág. 26)

Paredes nada sustentam,
não há imagem no espelho.

(Desconstrução, 102)

Aqui houve uma cidade.
(Desconstrução, 104)

E eis o seu momento mais Hamlet-Marx-Berman:

Há o cosmo, o universo,
e no entanto
todo o concreto se desvanece.

(O Velho Poeta, 107)

Nesse contexto, só a arte salva. Porque os poemas guardam/ o que outras vozes / emudecem. (Aquarela, 87)

Há um momento em que as luzes se apagam
e tudo se ilumina:
as razões incompreensíveis,
o caminho dos acasos,
a ordem do universo,
e os mistérios
impossíveis de enunciar.

(Cenário ao Fim da Tarde, 81)

Daí A luta por um lugar/ no poema.
(Palavras, 74)

"

EXÍLIA E A REVOLUÇÃO DOS 20 CENTAVOS


Cheguei a São Paulo na manhã de 17 de junho, segunda-feira. Na semana anterior, milhares de pessoas começaram a lotar as ruas, se manifestando, primeiro, contra o aumento das passagens de ônibus, e depois, em defesa de outras bandeiras. O lançamento de meu sexto livro de poemas, Exília, estava marcado para o dia seguinte, terça. Enquanto eu autografava livros na Casa das Rosas, a avenida Paulista era tomada por manifestantes.  

Casa das Rosas, na av. Paulista
Era o início de uma maratona de duas semanas, que se encerraria na quinta, 27, em Brasília. Ao longo desse trajeto, os protestos caminharam ao meu lado. No dia 20, quinta, dia do lançamento em Passos, minha terra, soube que lá também o povo iria às ruas – a primeira manifestação estava marcada para a semana seguinte. Era um dos assuntos do público que me prestigiou na Livraria Mar de Minas. Em Belo Horizonte, na manhã do sábado, 22, enquanto eu conversava sobre Exília na Livraria Mineiriana, na Savassi, manifestantes se reuniam no centro. Na quinta seguinte, 27, lancei finalmente em Brasília, depois de ver pela TV alguns sinais de que o governo pensava em governar.  

Escrever um livro de poemas é sempre uma aventura. Durante três anos, pensei, refleti, observei e deixei fluir emoções e questionamentos, até chegar ao volume que tomou forma na edição da Dobra Editorial. Sair às ruas para protestar também é uma aventura, e, assim como o poeta, o manifestante tem emoção e indagações à flor da pele. Meu livro tem como tema o sentimento da falta de lugar no mundo, que incomoda o cidadão que observa seu ambiente e se sente desenraizado e acuado. Os jovens nas ruas reivindicam um melhor lugar para viver. 

As manifestações aconteciam todos os dias. Após o lançamento em São Paulo, recebi mensagens de amigos e escritores, que se desculpavam por não terem conseguido chegar ao local. Outros, que não se explicaram, não precisaram fazê-lo: eu sabia que para muita gente era mais importante estar nas ruas protestando do que no lançamento de um livro de poemas. Também houve os que chegaram já no fim do evento, ou não chegaram a tempo de pegar a Casa das Rosas aberta. E houve os que driblaram passeatas e engarrafamentos para me encontrar na Casa das Rosas. 

Quando se planeja o lançamento de um livro, para dois meses depois, deve-se contar com o imprevisto, embora nada se possa fazer contra ele. Neste caso, o imprevisto foi a enorme energia que levou centenas de milhares de pessoas às ruas, diariamente, em dezenas de cidades. As ausências, em qualquer tipo de evento, e em particular em lançamentos de livros de poesia, são inevitáveis e previsíveis. Por isso, ao invés de lamentá-las, prefiro enaltecer as presenças. E recordar encontros, reencontros e boas, ainda que rápidas, conversas.  

“Não por ser gentil, / mas ardiloso, / meu país me acolhe nos braços / e expulsa meus sonhos / entre um e outro cansaço / (por mais abertos / os horizontes / mais faltam espaços).” Uma estrofe do poema Infinitos limites, página 59 de Exília, me descreve em meio à confusão. Mas estou cercado de pessoas queridas. Amigos novos, amigos antigos, amigos de sempre. Penso em cada um e fico feliz. Exília chega às mãos de pessoas importantes para mim. A guerra acontece lá fora. A guerra sempre acontece. Mas, se esse deserto inóspito me acolhe com mãos ásperas, a presença dos amigos é a marca que permanece. 

A CAMINHO DE EXÍLIA

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Esta é a capa de meu novo livro de poemas, Exília, um belo trabalho de Regina Kashihara. Edição da Dobra Literatura, o livro terá lançamentos a partir da próxima semana. 

Na terça-feira, 18 de junho, vamos lançá-lo em São Paulo, na Casa das Rosas. Na quinta-feira, 20, em Passos, na Livraria Mar de Minas. E no sábado, 22, em Belo Horizonte, na Livraria Mineiriana. Volto a Brasília para lançá-lo no restaurante Carpe Diem na quinta, 27 de junho. 

Mais detalhes desses eventos - endereços, telefones, horários - estão disponíveis na coluna à direita. Informações sobre o livro podem ser lidas no menu superior deste blog, na aba "Exília". 

Contatos com o autor: am.versoseprosas@gmail.com

Outras informações: Alexandre Marino Versos e Prosas, no Facebook.