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[poema] HIATO

No dia 12/12/12, há exatos 10 anos, o cirurgião Fábio Jatene me abria o peito, retirava meu coração e fazia a substituição de uma válvula, que já não cumpria sua função. Pode ser assustador, mas foi o que aconteceu. 

Daquela experiência, vivida no hospital HCor, em São Paulo, surgiram muitas histórias e muitos poemas, alguns dos quais fazem parte do livro Hiatos, que publiquei em 2017. O poema que se lê aqui é um deles. 

O Dr. Fábio Jatene é um dos seres humanos mais admiráveis que conheci. Ele é personagem importante de uma longa história que tem, e teve, outros personagens importantes, como Dr. José Carlos Quinaglia, de Brasília, que esteve ao meu lado durante quase 30 anos, até que a covid o levou para outras dimensões. 

Eu costumo dizer que um ser humano tem sempre várias idades. A minha válvula mitral, por exemplo, só viveu 56 anos. Eu estou vivo, saudável e levando vida plenamente normal graças à Ciência. 

[crônica] OS 50 ANOS DE UMA AVENTURA JUVENIL [2]

 
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Segunda parte de uma história de meio século. Publicado na Folha da Manhã, de Passos (MG), em 25/2/2022. Boa leitura. 

[crônica] OS 50 ANOS DE UMA AVENTURA JOVEM [1]

 
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Há meio século era lançada em Passos a revista literária Protótipo. Uma parte dessa história começa a ser contada aqui, nesta crônica publicada no jornal Folha da Manhã de 11/2/2022. 

[poema] A PALHA DA MEMÓRIA

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Eu tinha dois anos de idade quando Aço, o palhaço, entrou na minha vida. Foi um presente de Natal inesquecível. Ele me reapareceu em 2004, quando eu preparava meu quarto livro, Arqueolhar, com poemas que lançavam um olhar sobre minha infância. Encontrado dentro de um armário no porão da velha casa de Passos, virou capa do livro e foi homenageado no poema A palha da memória

[crônica] A MINHA RUA, parte 5

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Última crônica da série A minha rua, publicada na Folha da Manhã, principal jornal de Passos (MG). 

[poema] AVOAGEM

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No final da década de 1970, eu, adolescente tardio e meio perdido, resolvi publicar um livro de poesia. O resultado foi Os operários da palavra, lançado pela misteriosa editora Batangüera, de Belo Horizonte. Foram 2 mil exemplares vendidos pelas ruas e bares da capital mineira. Do livro ficou, entre outros poemas, este Avoagem.  

NOS TEMPOS DO CHAPADÃO DO BUGRE

Em tempos de quarentena as paredes nos limitam. Mas também para isso servem os livros: atravessar as paredes. O escritor Mário Palmério escreveu o romance Chapadão do Bugre na Fazenda São José do Cangalha, em Mato Grosso, entre agosto de 1964 e abril de 1965. É possível que a maior parte daqueles oito meses ele tenha passado entre quatro paredes, mas empreendeu uma longa viagem pelo interior de Minas Gerais, e nos leva com ele desde o primeiro parágrafo. Monumental romance, que vai nos enredando linha por linha até que estejamos definitivamente embaraçados até o desfecho. E lá vamos nós atravessando rios, serras, chapadões, visitando vilarejos perdidos no tempo. 

O livro estava adormecido na estante. Mas os livros não dormem. Emitem chamados silenciosos, até que os ouçamos. Foi assim que abri o volume publicado pela Editora Autêntica em 2019. É uma reedição do romance lançado originalmente pela Editora José Olympio em setembro de 1965 e reimpresso continuamente nos anos seguintes, até que eu comprasse o exemplar de número 80 da sétima edição em novembro de 1975. 

Eu tinha 19 anos e sabia do que tratava o romance. Muitos anos antes, Mário Palmério, que em 1950 foi eleito pela primeira vez deputado federal por Minas Gerais, esteve em minha cidade, Passos, sudoeste do estado, para uma reunião política. Tornou-se amigo do professor Breno Soares Maia, que lhe narrou um fato histórico acontecido na cidade no início do século, episódio que ficou conhecido como “a matança do Fórum”. 

Mário Palmério se impressionou com a história e levou consigo uma série de folhetins apócrifos impressos em 1916 e 1917 em Guaxupé e Guaranésia, cidades vizinhas, sob o título de Os contratadores da morte. Posteriormente, o jornalista Antonio Celestino foi identificado como autor desses folhetins, que davam voz a um jagunço que prestou serviços a uma família poderosa da cidade na época. Com sua identificação, Celestino foi obrigado a sair da cidade e pouca notícia se teve dele depois disso. 

Apenas três números do folhetim foram de fato publicados, e não contaram a pretendida história até o fim. Tornaram-se raros e foram pouco lidos. Mas serviram de fonte para o grande romance de Mário Palmério, O Chapadão do Bugre, que culmina no episódio da chacina promovida pela força policial do estado de Minas Gerais dentro do fórum da cidade, contado no livro exatamente como ocorreu. 

Ali, os principais políticos da situação, proprietários rurais que, como em todo o Brasil, construíram seu poder às custas de violência e brutalidade, foram emboscados e mortos, no dia 26 de setembro de 1909. A movimentação policial no Largo da Matriz, onde se localizava o fórum, atraiu muita gente ao local, centro comercial da cidade. Lá estava também meu avô, então um rapazinho de 19 anos, curioso e bisbilhoteiro, que acompanhou de perto os trágicos acontecimentos. 

Meu avô foi testemunha ocular desses fatos e de muitas das histórias narradas com fidelidade no romance. As que ele não presenciou alguém lhe contou, porque não se falava de outra coisa em Passos nessa época. Mário Palmério teve o cuidado apenas de trocar os nomes dos personagens e dos cenários. Passos, por exemplo, virou Santana do Boqueirão. Os cenários rurais descritos no livro são extremamente parecidos com a região de Passos. 

Lembro-me com nitidez das noites em que meu avô se sentava à mesa da sala e contava as histórias que culminavam com a matança do Fórum. Ele narrava com riqueza de detalhes as atrocidades cometidas pelos jagunços, os conflitos entre os poderosos locais, e descrevia como era a cidade cinco ou seis décadas antes. Nas noites de chuva, quando frequentemente caía a energia elétrica, o rosto de meu avô, iluminado pela luz da vela, ficava ainda mais expressivo e suas histórias mais impressionantes. 

Eu, que ainda não completara 10 anos, me familiarizava com duas cidades: aquela em que crescia, com seus 20 mil habitantes, e o vilarejo da juventude de meu avô, vivo na minha imaginação. Este, nos primeiros anos do século, já era considerado uma importante povoação, pela riqueza que ali circulava, graças à criação de gado, que promoveu o enriquecimento das classes rurais e do próprio município. Com imponentes sobrados e palacetes, pertencentes a famílias abastadas, Passos era um centro urbano movimentado, com sua bela praça e ruas calçadas, comércio dinâmico e noites agitadas pelas casas de jogos e zonas de prostituição. 

Mais recentemente, já em 2000, a Editora da Fundação de Ensino Superior de Passos publicou em livro o texto integral dos três números do folhetim Os contratadores da morte, acompanhados de estudos realizados pelos professores Antonio Grilo e Alvimar Costa. Eles enriqueceram o texto com notas explicativas e uma detalhada análise dos cenários do romance de Mário Palmério, identificando a localização real das cenas e contextualizando os fatos historicamente. 

Quando li o romance pela primeira vez, fiquei impressionado pela fidelidade com que Mário Palmério narrou algumas das histórias que eu conhecia desde a infância. Agora, ao relê-lo, a força do romance se tornou mais uma vez evidente. Devorei sem descanso as 400 páginas do livro, apreciando a narrativa, os detalhes das descrições, a riqueza do vocabulário. Além da verossimilhança das cenas, que leva o leitor para dentro delas, Palmério criou um longo glossário de termos regionais, que lhe permitiu reproduzir, sem artificialismos, o linguajar da gente da região, conferindo autenticidade aos diálogos. Parecia até que eu estava lá em Passos, nos tempos de meu avô... 

Destacar apenas a fidelidade aos fatos históricos não faz jus à literatura de Mário Palmério. É certo que, para mim, conhecedor dos casos narrados por uma testemunha ocular (ou quase isso), esta pode ter sido sua principal qualidade e fonte de interesse – ao menos na primeira leitura. Mas Chapadão do Bugre é uma obra de ficção, e não uma obra histórica. Palmério se concede a liberdade de criar personagens, cenas e fatos fictícios, porém verossímeis dentro do contexto histórico do qual fazem parte. Dessa forma, um leitor que não tem conhecimento da história real que inspirou o livro o apreciará com igual interesse. 

A virtude da literatura não é apresentar um mundo estranho ao leitor, mas criar um universo paralelo e trazer o leitor para dentro dele. Ítalo Calvino dizia que “toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”, e por isso os clássicos devem ser lidos sempre. O romance de Palmério, um clássico da literatura brasileira, retrata, em suas várias camadas, tipos humanos complexos, habitantes de um universo desconhecido da história oficial, revelado em toda sua crueza escondida.  

Os personagens de Chapadão do Bugre
 são brutalizados em sua história de enfrentamento às forças da natureza e dos homens, e a violência gerada pelo convívio entre eles corre solta pelos recantos mais profundos de um Brasil selvagem e sem lei, ou com leis próprias, quase sempre injustas. A construção desses personagens exigiu um conhecimento que Mário Palmério acumulou em suas incansáveis andanças pelo interior de Minas Gerais, como deputado federal e educador. O leitor afeiçoa-se aos personagens, rudes porém profundamente humanos, vítimas de um ambiente adverso, algozes de si mesmos. Dissecados pelo romance, esses personagens se revelam o espelho de um mundo onde ninguém é inocente. 

[hiatos] PALAVRAS DE MARCO TÚLIO COSTA

Marco Túlio Costa é um dos meus poucos amigos de infância, mas vale por todos que eu poderia ter tido e não tive. De nosso cinema desenhado da pré-adolescência à maturidade literária, atravessamos juntos ou pelo menos ao alcance da vista as agruras de tempos turbulentos, curando com a escrita as nossas aflições e impossibilidades. Minha admiração por ele ou pela sua literatura não precisa ser declarada. O texto que se segue, que ele publicou no Facebook, me deixou emocionado e orgulhoso. 

HIATOS E DITONGOS

Impossível ler completamente um livro de poemas. Embora tenha ido da primeira à última página de Hiatos (Patuá Editora, São Paulo, 2017) do Alexandre Marino, relido do último ao primeiro poema, não terei lido o livro todo. Mas, possivelmente, fui lido por ele.

São os poemas que nos declamam, nos escandem a alma da pele aos ossos, dão ritmo e rimam os sentimentos que nos alinham em versos de riso e lágrimas, nos decifram e nos definem em versos brancos. 

Tomar nas mãos uma obra como Hiatos, é sentar-se na antessala dessa ressonância poética, dessa tomografia lírica, do ecocardiograma trágico – Ecocardiografia, aliás, é título do primeiro poema do volume, que fala de nosso próprio coração exposto: “ali se guarda toda a tristeza do mundo/ labirinto onde o homem feliz se esconde”. 

Hiatos, esses momentos de estupor do poeta, diante de cenas de um mundo visto de forma desesperançada, mesmo que com ternura de despedida, melancolia. Marino já tinha demonstrado essa perplexidade, essa impotência diante da cena mundana em obra anterior (Exília, Dobra Editorial, SP, 2013) como no poema O Velho Poeta, pessoa que “divaga sobre refazer o mundo/ reordenar a história” mas “cansado de caminhos/quer só a viagem”. A viagem é esse hiato entre o partir e o chegar, origem e destino, entre passado e futuro, onde flutua a consciência do indivíduo que recolhe provas da própria existência, coleciona trivialidade que deem sentido à vida, pequenos objetos capazes de fazer a amálgama entre uma ponta e outra. 

Já na sua obra Arqueolhar (L.G.E. Editora, Brasília, 2005) vagava Marino nessa arqueologia do tempo presente, garimpando seu passado. Lá, no poema Paisagem Doméstica, ele diz que “ninguém sabe a história inteira/ evocam-se vazios invulneráveis/ o tempo é feito de destroços”. Os vazios, os hiatos, os momentos de contemplação presente, que não podem ser transpassados. E sim, ninguém sabe a história inteira, ninguém lê um livro de poemas completamente, ainda que o esgote da primeira à última página. Nós é que vamos sendo lidos aos poucos, nesse hiato entre abrir o livro e fechar nossos olhos.

Procurei em minha confusoteca – essa biblioteca ainda de pernas pro ar – o livro de estreia do Alexandre Marino. Livros gostam de passear, parecem buscar conversas uns com os outros. Mas encontrei Os Operários da Palavra (Batanguera, Belo Horizonte, 1979) que para mim, ou para nós que conhecemos este poeta desde sua gênese, é um símbolo, um troféu que trago ‘daqueles tempos’, quem sabe nossa origem literária, de onde nos lançamos como protótipos de uma esperança adolescente. Tínhamos bandeiras, a que persiste talvez seja a defesa da liberdade de expressão. Leiam nesse livro Ó putas do meu Brasil – as putas pululam persistentes, o Brasil persistentemente se prostitui, só nós não nos vendemos, mas entregamos alguns sonhos para adoção de gerações novas.

Em 1966, quando tinha 11 anos, cheguei a Passos e fui logo conhecendo o Alexandre Marino. Meu avô materno, Geraldo Magela, assim como o pai do Alexandre, Zé Marino, eram telegrafistas e morsemente se conheciam. Tivemos uma infância compartilhada – jogos de botão, tombos de bicicleta, leitura de gibis (o que na casa dele era permitido, na minha não). Fomos cineastas, façanha que ele conta em Arqueolhar, no poema Heróis do Cinema, a mim dedicado.

Posso dizer que formamos não só uma dupla, mas um ditongo. Amadurecemos e partilhamos literariamente nossos hiatos. 

[história afetiva] HÁ VAGAS - OU HAVIA?


Capa da terceira edição
A revista literária Há Vagas circulou em Brasília de setembro de 1982 a agosto de 1985, em três edições, que contaram com o apoio da Universidade de Brasília. Seus fundadores foram Armando Veloso, Chico Leite, José Adércio Leite e Paulo Joe, com a participação de Regina Ramalho, que fez o projeto gráfico da primeira edição, e um grande número de colaboradores. No início da década de 1980, o movimento literário de Brasília era muito intenso e os criadores da revista conseguiram agregar grande parte dos escritores que circulavam na cidade. Na época, a perspectiva de mudanças políticas, com o fim iminente da ditadura militar, e a capital ainda em busca de identidade, com apenas 22 anos de inaugurada, apontavam para um horizonte sem limites e muita expectativa também na cultura.  

A primeira edição de Há Vagas trazia na capa um desenho que vazava para a contracapa, em que se viam todos os colaboradores da revista segurando a carteira de trabalho. Quem assinava o editorial, sob o título O homem é o lobby do homem, era o jornalista e poeta Tetê Catalão. Apesar de rico em metáforas, ainda hoje o texto não deixa dúvidas quanto à conjuntura política e econômica da época. “A pior recessão será aquela capaz de desfibrar sonho por sonho, letra por letra, carícia por carícia”, afirmava logo na primeira frase. “Em pleno desemprego nacional, afirma-se que HÁ VAGAS.” O país vivia os últimos suspiros da ditadura militar, em meio a crise econômica, mas ainda faltavam três anos para que o último presidente de fardas entregasse o poder. 

Capa da primeira edição
“Quem achar que deve, se apresente. Afinal, quem diz que você pode ou não pode é você mesmo: se a vaga é tua, vai na vaga. Abre o vago-simpático e brilha vagau no brinquedo de estar lúcido.” Tetê Catalão fechou assim o editorial, e deu gás para que alguns escritores que enviaram colaborações à revista e não foram publicados protestassem contra a “falta de vagas”. No entanto, em suas três edições a revista veiculou textos de grande qualidade literária, de autores de diversos estilos e propostas, de vários pontos do país, comprovando que as portas estavam, de fato, abertas. 

Primeiro número – Um dos destaques da primeira edição de Há Vagas era o poeta Francisco Alvim, participante do movimento literário brasiliense, nome importante da poesia dos anos 70. Ele contribuiu com poemas e uma interessante entrevista, em que refletia sobre a ainda recente poesia marginal. 

Entre os autores de contos, poemas e ilustrações publicados no primeiro número estão, além de seus criadores e editores, Ariosto Teixeira, Cassiano Nunes, Cesário de Sousa, Eduardo Rangel, João Borges, Jô Oliveira, Luis Eduardo Resende (Resa), Luís Martins, Paulo Andrade e Turiba. 

Após a publicação do primeiro número de Há Vagas, houve uma dissidência de alguns escritores desse grupo, que se afastaram para criar a Bric-a-brac, outra revista literária de grande importância na história cultural de Brasília. 

Capa da segunda edição
Segundo número – Na capa, o artista plástico Felix Valois reproduziu graficamente uma frase poética pichada em um muro de Brasília: “Não sei como as pal-/avras/ ainda são feitas/ de silenci-os!” O segundo número da revista foi editado por Chico Leite, Armando Veloso, Domingos Pereira Netto e Alexandre Marino, com a colaboração de Paulo Joe (São Paulo) e Theophilus (Fortaleza), e edição de arte de Milton Goes, Resa, Jô Oliveira, Evandro Abreu, Renato Ferrari e Rômulo Andrade. A data de edição é primavera de 1984. 

Colaboraram no segundo número, além dos editores, Adriano Espinola, Cassiano Nunes, Carlos Herculano Lopes, Evandro Abreu, Lourenço Cazarré, Nirton Venancio, Patt Raider e Luís Turiba, entre outros. Chico Leite, Armando Veloso e Alexandre Marino conduziram a entrevista desta edição, com o poeta Affonso Romano de Santanna. 

Uma das curiosidades desta segunda edição foi um conto cedido pelo poeta Paulo Leminski, de título Sintomas. De Leminski também foi publicado um poema, sem título. 

Marino, Chico, Domingos,
Goes, Armando
Outra curiosidade foi o poema enviado por Waly Salomão, O cólera e a febre. O poema fala de uma situação de tédio num domingo de sol. Waly teria ficado furioso ao ver a ilustração de Milton Goes para seu poema, cuja primeira estrofe trazia os versos “Um bode imundo irrompe/ (...) e perante minha pessoa a fera/ estaca e já dentro de mim se esmera/ (...)”. Na ilustração, Goes usou a imagem literal de um bode, o animal, que se transforma numa seta e fere o peito de um homem. Waly talvez não tenha compreendido que, neste caso, o bode foi a metáfora da metáfora, e o realismo reforçou a imagem figurada. 

Terceiro número – Aquela que seria a última edição de Há Vagas, de agosto de 1985, foi feita por Armando Veloso, Chico Leite e Alexandre Marino, com a colaboração de Paulo Joe e Theophilus. A edição de arte ficou a cargo de Milton Goes e Chico Leite. Cristina Bastos teve importante contribuição em todo o trabalho. A imagem da capa, do fotógrafo Juan Pratginestós, mostra um casal sentado nas arquibancadas vazias do antigo anfiteatro do Parque da Cidade, cenário do lendário Concerto Cabeças, e na contracapa as mesmas arquibancadas, lotadas, ambas fotos feitas do alto. 

O poeta Ferreira Gullar foi entrevistado pela jornalista Patrícia Assis. A professora Maria Duarte escreveu um ensaio sobre arte e cultura nos novos tempos que se inauguravam no país. Encartadas na revista vinham as Breves anotações para um provável manigesto, com texto final de Chico Leite, que discutiam a proposta literária dos editores da revista, voltada para uma poesia de linguagem universal, uma “viagem da pedra primitiva ao neon”, revelada nos versos de Paulo Joe: “Nem vanguarda, nem retaguarda, apenas o que o coração aguarda.” 

Entre os colaboradores desta edição estavam ainda Alice Ruiz, Antonio Barreto, Guido Heleno, Nevinho Alarcão, Nilto Maciel, Paulo Leminski, Reynaldo Jardim, Thais Guimarães e Zaida Regina. 

Há Vagas reuniu, em suas três edições, nomes de grande importância da literatura que se fazia na época em Brasília, publicando ainda escritores que se destacavam em outros estados por uma postura de inquietação e questionamento. Novos tempos chegavam. Há Vagas cumpriu sua parte. 
 

[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 7

A sétima edição de Protótipo, publicada em novembro de 1975, que pretendia ser a primeira de uma segunda fase, marcou a despedida da revista literária, lançada em novembro de 1972 na cidade de Passos (MG). Ela veio com aspecto gráfico totalmente diferente das anteriores, pois foi a única impressa em offset, tecnologia surgida havia poucos anos, que representava grande avanço em relação ao mimeógrafo a tinta. A capa da revista simbolizava essa mudança: trazia um desenho de Wagner de Castro, artista residente em Passos e nome importante das artes plásticas em Minas Gerais.

Nessa nova fase, até a sede da revista mudou, passando a ser Belo Horizonte. O contista João Antônio, que algum tempo depois alcançaria projeção nacional, foi um dos destaques da edição. Protótipo também publicou Wander Piroli, Jeferson de Andrade, Henry Correa de Araújo e Ronald Claver, autores que ganhariam importância na literatura brasileira, além dos habituais editores da revista. Em suas páginas apareceram ainda dois escritores estrangeiros: o guatemalteco Otto René Castillo e o peruano Jorge Spinoza Sanchez.

Apesar do longo intervalo entre esta edição e a anterior, publicada dois anos antes, o núcleo da equipe permaneceu ativo, seus integrantes amadureceram. Saídos do ninho no interior de Minas, todos já viviam em centros maiores, frequentavam universidades e começavam a tocar a vida. Para alguns dos fundadores da revista, a literatura já representava claramente um projeto para o futuro. Outros já haviam feito outras opções e, embora tenham publicado seus exercícios literários nas primeiras edições, já nem constavam mais do expediente. Infelizmente, a fase da maturidade de Protótipo durou apenas um número.

A efervescência cultural e literária que marcou a década de 1970 no Brasil, e gerou grande número de revistas, não indicava para os escritores da época perspectivas muito otimistas. Na entrevista concedida ao jornalista José Louzeiro, publicada nessa edição, João Antonio reclamava da falta de editores, da falta de crítica literária e da falta de uma política de governo para a literatura. Na época, ele defendia que a televisão, “maior veículo de divulgação do mundo atual”, acolhesse o escritor como profissional de criação.

Na contracapa da revista eram anunciadas algumas das atrações do oitavo número, nunca publicado: Roberto Drummond, Elias José, Adão Ventura, Sérgio Santanna e o chileno Alfonso Alcalde. Por ironia, era a primeira vez que uma edição da revista anunciava a seguinte.

Foi a única edição de Protótipo que não veiculou anúncios do comércio de Passos, onde a revista nasceu, mas o editorial destacava a colaboração financeira da Prefeitura Municipal daquela cidade. E, embora a tecnologia de impressão fosse bem mais moderna que o rudimentar mimeógrafo, o excesso de detalhes gráficos “sujou” a revista, prejudicando a leitura. Fruto da inexperiência dos editores, que exageraram ao brincar com as possibilidades da editoração gráfica.

A sétima edição abria uma nova perspectiva para a revista, e os erros certamente seriam corrigidos nas edições seguintes. Protótipo ainda prometia muito para o futuro. Deixou saudades.


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[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 6

“Grupo formado em Passos com o objetivo de mostrar ao resto do país a sua literatura e divulgar outros novos autores que surgem sem chances de publicar seus trabalhos” – assim se definia o Grupoema, nome com que os fundadores da revista literária Protótipo se apresentavam. Criada no interior de Minas Gerais, a revista já tinha a pretensão de ensaiar voos mais altos. A sexta edição da Protótipo foi lançada em novembro de 1973, apenas 11 meses depois de seu número de estreia. A partir daí, veio um longo intervalo de dois anos.

O comércio da cidade de Passos continuava prestando todo o apoio à revista, como acontecia desde o primeiro número. No entanto, a dispersão do grupo inviabilizou a continuidade da publicação. No início de 1974, a maior parte dos seus integrantes, jovens entre 17 e 21 anos, se mudaram para outros centros, com o objetivo de prosseguir seus estudos. O destino da maioria era Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília.

A sexta edição, com capa de Antônio Barreto, representou a despedida da primeira fase, mas, ao menos para alguns dos integrantes do grupo, não foi o fim de um sonho. A literatura permaneceu forte como atividade ou projeto de vida. Era uma semente incubada, que renasceria no futuro.

Entre os autores publicados nesta edição, além daqueles que já frequentavam suas páginas desde o primeiro número, é interessante citar a presença de Afonso Henriques Neto, nome importante do grupo carioca do movimento da poesia marginal, filho e neto de importantes poetas brasileiros. Mas participaram também Romes Aziz Sabbag (Guaxupé-MG), Gilberto Andrade Abreu (Passos), Irene Tavares (São Paulo), Julio Cesar Nery Ferreira (Belo Horizonte), Duneya West e Sandra Siqueira (Rio de Janeiro),  Ricardo Costa Vaz (Formiga-MG) e Paulo Nassar de Oliveira (Londrina-PR).


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[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 5

 “Fique por dentro da literatura jovem deste país: leia e passe pra frente”, clamava o texto publicado na primeira página da quinta edição de Protótipo, lançada em agosto de 1973, apenas dois meses após a edição anterior. A revista estava a todo vapor. Elogiada pela imprensa especializada, recebia cartas, livros e colaborações de várias regiões do país e a turma de escritores do grupo conquistava prêmios literários.

O texto da primeira página mostrava um pouco do currículo desses autores, listando alguns dos prêmios conquistados em concursos e festivais de vários estados brasileiros. Definitivamente, a turma da Protótipo rompia as fronteiras de Passos, cidade com pouco mais de 50 mil habitantes no sudoeste de Minas Gerais, onde não se fazia uma ideia exata dos estragos causados pela ditadura militar país adentro.

Novos autores apareciam pela primeira vez nas páginas da quinta edição da Protótipo, que trazia na capa um desenho deste escriba. Mas o expediente registrava uma sentida ausência: Carlos Anselmo Parada, um dos fundadores, se afastou da revista, por discordar de alguns métodos adotados pelo grupo. Posteriormente, ele criou outra, Ardeia, de orientação mais jornalística e cultural, voltada para questões locais.

Neste quinto número, publicaram, pela primeira vez na Protótipo, os autores Geraldo Rezende e José Francisco da Silveira (Guaxupé-MG), Heber Fonseca Santos (Recife), Susete de Lourdes (Passos), Ronaldo Botrel (Belo Horizonte) e Leônidas Azevedo Filho (Salvador). Entre os escritores que não pertenciam ao grupo, mas se tornavam frequentes nas páginas da revista, estavam os paranaenses Domingos Pelegrini e Rui Werneck de Capistrano.


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