NOS TEMPOS DO CHAPADÃO DO BUGRE

Em tempos de quarentena as paredes nos limitam. Mas também para isso servem os livros: atravessar as paredes. O escritor Mário Palmério escreveu o romance Chapadão do Bugre na Fazenda São José do Cangalha, em Mato Grosso, entre agosto de 1964 e abril de 1965. É possível que a maior parte daqueles oito meses ele tenha passado entre quatro paredes, mas empreendeu uma longa viagem pelo interior de Minas Gerais, e nos leva com ele desde o primeiro parágrafo. Monumental romance, que vai nos enredando linha por linha até que estejamos definitivamente embaraçados até o desfecho. E lá vamos nós atravessando rios, serras, chapadões, visitando vilarejos perdidos no tempo. 

O livro estava adormecido na estante. Mas os livros não dormem. Emitem chamados silenciosos, até que os ouçamos. Foi assim que abri o volume publicado pela Editora Autêntica em 2019. É uma reedição do romance lançado originalmente pela Editora José Olympio em setembro de 1965 e reimpresso continuamente nos anos seguintes, até que eu comprasse o exemplar de número 80 da sétima edição em novembro de 1975. 

Eu tinha 19 anos e sabia do que tratava o romance. Muitos anos antes, Mário Palmério, que em 1950 foi eleito pela primeira vez deputado federal por Minas Gerais, esteve em minha cidade, Passos, sudoeste do estado, para uma reunião política. Tornou-se amigo do professor Breno Soares Maia, que lhe narrou um fato histórico acontecido na cidade no início do século, episódio que ficou conhecido como “a matança do Fórum”. 

Mário Palmério se impressionou com a história e levou consigo uma série de folhetins apócrifos impressos em 1916 e 1917 em Guaxupé e Guaranésia, cidades vizinhas, sob o título de Os contratadores da morte. Posteriormente, o jornalista Antonio Celestino foi identificado como autor desses folhetins, que davam voz a um jagunço que prestou serviços a uma família poderosa da cidade na época. Com sua identificação, Celestino foi obrigado a sair da cidade e pouca notícia se teve dele depois disso. 

Apenas três números do folhetim foram de fato publicados, e não contaram a pretendida história até o fim. Tornaram-se raros e foram pouco lidos. Mas serviram de fonte para o grande romance de Mário Palmério, O Chapadão do Bugre, que culmina no episódio da chacina promovida pela força policial do estado de Minas Gerais dentro do fórum da cidade, contado no livro exatamente como ocorreu. 

Ali, os principais políticos da situação, proprietários rurais que, como em todo o Brasil, construíram seu poder às custas de violência e brutalidade, foram emboscados e mortos, no dia 26 de setembro de 1909. A movimentação policial no Largo da Matriz, onde se localizava o fórum, atraiu muita gente ao local, centro comercial da cidade. Lá estava também meu avô, então um rapazinho de 19 anos, curioso e bisbilhoteiro, que acompanhou de perto os trágicos acontecimentos. 

Meu avô foi testemunha ocular desses fatos e de muitas das histórias narradas com fidelidade no romance. As que ele não presenciou alguém lhe contou, porque não se falava de outra coisa em Passos nessa época. Mário Palmério teve o cuidado apenas de trocar os nomes dos personagens e dos cenários. Passos, por exemplo, virou Santana do Boqueirão. Os cenários rurais descritos no livro são extremamente parecidos com a região de Passos. 

Lembro-me com nitidez das noites em que meu avô se sentava à mesa da sala e contava as histórias que culminavam com a matança do Fórum. Ele narrava com riqueza de detalhes as atrocidades cometidas pelos jagunços, os conflitos entre os poderosos locais, e descrevia como era a cidade cinco ou seis décadas antes. Nas noites de chuva, quando frequentemente caía a energia elétrica, o rosto de meu avô, iluminado pela luz da vela, ficava ainda mais expressivo e suas histórias mais impressionantes. 

Eu, que ainda não completara 10 anos, me familiarizava com duas cidades: aquela em que crescia, com seus 20 mil habitantes, e o vilarejo da juventude de meu avô, vivo na minha imaginação. Este, nos primeiros anos do século, já era considerado uma importante povoação, pela riqueza que ali circulava, graças à criação de gado, que promoveu o enriquecimento das classes rurais e do próprio município. Com imponentes sobrados e palacetes, pertencentes a famílias abastadas, Passos era um centro urbano movimentado, com sua bela praça e ruas calçadas, comércio dinâmico e noites agitadas pelas casas de jogos e zonas de prostituição. 

Mais recentemente, já em 2000, a Editora da Fundação de Ensino Superior de Passos publicou em livro o texto integral dos três números do folhetim Os contratadores da morte, acompanhados de estudos realizados pelos professores Antonio Grilo e Alvimar Costa. Eles enriqueceram o texto com notas explicativas e uma detalhada análise dos cenários do romance de Mário Palmério, identificando a localização real das cenas e contextualizando os fatos historicamente. 

Quando li o romance pela primeira vez, fiquei impressionado pela fidelidade com que Mário Palmério narrou algumas das histórias que eu conhecia desde a infância. Agora, ao relê-lo, a força do romance se tornou mais uma vez evidente. Devorei sem descanso as 400 páginas do livro, apreciando a narrativa, os detalhes das descrições, a riqueza do vocabulário. Além da verossimilhança das cenas, que leva o leitor para dentro delas, Palmério criou um longo glossário de termos regionais, que lhe permitiu reproduzir, sem artificialismos, o linguajar da gente da região, conferindo autenticidade aos diálogos. Parecia até que eu estava lá em Passos, nos tempos de meu avô... 

Destacar apenas a fidelidade aos fatos históricos não faz jus à literatura de Mário Palmério. É certo que, para mim, conhecedor dos casos narrados por uma testemunha ocular (ou quase isso), esta pode ter sido sua principal qualidade e fonte de interesse – ao menos na primeira leitura. Mas Chapadão do Bugre é uma obra de ficção, e não uma obra histórica. Palmério se concede a liberdade de criar personagens, cenas e fatos fictícios, porém verossímeis dentro do contexto histórico do qual fazem parte. Dessa forma, um leitor que não tem conhecimento da história real que inspirou o livro o apreciará com igual interesse. 

A virtude da literatura não é apresentar um mundo estranho ao leitor, mas criar um universo paralelo e trazer o leitor para dentro dele. Ítalo Calvino dizia que “toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”, e por isso os clássicos devem ser lidos sempre. O romance de Palmério, um clássico da literatura brasileira, retrata, em suas várias camadas, tipos humanos complexos, habitantes de um universo desconhecido da história oficial, revelado em toda sua crueza escondida.  

Os personagens de Chapadão do Bugre
 são brutalizados em sua história de enfrentamento às forças da natureza e dos homens, e a violência gerada pelo convívio entre eles corre solta pelos recantos mais profundos de um Brasil selvagem e sem lei, ou com leis próprias, quase sempre injustas. A construção desses personagens exigiu um conhecimento que Mário Palmério acumulou em suas incansáveis andanças pelo interior de Minas Gerais, como deputado federal e educador. O leitor afeiçoa-se aos personagens, rudes porém profundamente humanos, vítimas de um ambiente adverso, algozes de si mesmos. Dissecados pelo romance, esses personagens se revelam o espelho de um mundo onde ninguém é inocente. 

APRENDENDO COM SÉRGIO SANT´ANNA

Sérgio Sant´Anna ainda não tinha 35 anos quando foi convidado para compor a equipe de professores da recém-criada Faculdade de Comunicação Social da Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Seu primeiro diretor, o jornalista Lélio Fabiano dos Santos, apresentou a Sérgio uma faculdade de proposta inovadora, fundada na liberdade de pensamento e debate naqueles difíceis tempos da ditadura militar.
[Quinho - Estado de Minas]

Quando me matriculei no curso de Comunicação na PUC, em 1975, o prédio da faculdade era recém-construído, e as salas ainda não haviam sido pintadas. O curso ainda não havia sido reconhecido pelo Ministério da Educação, por não ter formado sua primeira turma. Mas o nome de Sérgio Sant´Anna na lista de meus futuros professores era uma motivação a mais para seguir em frente e me formar em jornalismo, sem me desgarrar da literatura. Eu conhecia alguns dos contos que ele havia publicado em jornais e revistas, especialmente o Suplemento Literário de Minas Gerais, criado por Murilo Rubião, e sabia que ele era um escritor em ascensão.

Seu primeiro livro, O sobrevivente, de contos, editado por conta própria em 1969, já era difícil de ser encontrado nas livrarias. Naquele ano de 1975, enquanto encantava seus alunos da cadeira de Redação e Edição de Textos, ele publicou seu primeiro romance, Confissões de Ralfo, um livro fascinante pela sua proposta inovadora e narrativa fragmentária, que já dava mostras de sua inquietação criativa e busca permanente por uma linguagem além da literatura bem comportada.

Como professor, Sérgio Sant´Anna também era uma atração à parte, mesmo numa faculdade voltada para a liberdade de pensamento e criação. Ele escrevia com giz no quadro negro, como era o costume nas escolas da época, mas como se não aceitasse a efemeridade dessa escrita, preferia não apagá-la, ao acabar o espaço, e passava a escrever nas paredes, feitas de chapas de MDF ainda sem pintura. E ali sua caligrafia permanecia, como sua literatura permaneceu na memória e no coração dos estudantes que conviveram com ele.

[Foto Wilton Junior, OESP]
Para mim, um estudante de jornalismo mal saído da adolescência e interessado em literatura, ter sido aluno de Sérgio Sant´Anna foi uma dádiva que me desperta o desejo de prestar-lhe uma justa, embora inútil, homenagem. Ele me apresentou grandes escritores que eu ainda não conhecia, apontou caminhos para minha escrita, ensinou que bem escrever não se aprende estudando teoria ou gramática, mas se abrindo ao prazer da leitura e à descoberta da técnica implícita nos textos dos grandes escritores. Talvez por isso eu tenha lido, e releia, toda sua obra, marcada pela mistura de várias linguagens artísticas e de ficção e memória. Uma fonte inesgotável de descobertas literárias. Dois semestres que marcaram minha vida.


BRASÍLIA, 60

Quando cheguei a Brasília, a cidade não era muito diferente daquela que foi inaugurada em 1960, como símbolo de tempos melhores que viriam. Em 1982, a ditadura militar exalava sinais de que não duraria muito tempo, e a Lei da Anistia já estava em vigor. A capital, com apenas 22 anos, inspirava poemas, canções e lendas. Uma dessas dizia que todos os recém-chegados passariam por três fases, os chamados “3Ds”: o deslumbramento, fruto do primeiro contato com a cidade; o desencanto, que viria com o aprofundamento desse contato, e o desespero, trazido pelo tédio, pela solidão e pelo vazio existencial, inevitável em meio ao espaço sem fim do Planalto Central. A essas três fases alguns acrescentavam outras duas: a demência, caracterizada pela intenção de aqui permanecer em definitivo, e a despedida, que se opunha à anterior, ou viria muito tempo depois.

Escrevi o poema As cinco estações em 1999, portanto com tempo suficiente para ter vivido todas as fases. E permaneci em Brasília, não por demência, mas talvez por destino. Procurei fazer uma interpretação poética de minha vivência na cidade e de sua gradual transformação, que eu observava e tentava compreender. No mesmo ano eu lancei meu terceiro livro de poemas, “O delírio dos búzios”, de que este poema fez parte. Agora, abril de 2020, Brasília é outra, vive os mesmos problemas urbanos de qualquer grande metrópole do país e a sentença dos “5Ds” parece ter sido esquecida. Aos 60 anos, Brasília é uma cidade real.