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[crônica] A TRAGÉDIA DE CAPITÓLIO

 
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Em 8 de janeiro de 2022, uma rocha despencou do paredão do canyon do Lago de Furnas, em Capitólio, matando 10 pessoas. Neste artigo publicado na Folha da Manhã, de Passos (MG), em 28/1/2022, volto ao assunto. 

CAIXINHA DE SURPRESAS


O pequeno pacote chegou na quarta-feira, 12 de setembro, vindo de Jaboatão dos Guararapes (PE). Imaginei tratar-se de algum livro. A literatura me proporciona essas surpresas ocasionais, algumas bastante agradáveis. Edson Guedes de Morais, o remetente, era um desconhecido para mim.

Aberto o pacote, encontro uma caixinha de papelão. Na tampa, uma imagem pela qual tenho enorme carinho: uma fotografia de minha mãe, aos nove anos de idade. Essa foto faz parte dos arquivos familiares e serviu de inspiração para o poema Carta a Mariazinha, publicado em meu livro Arqueolhar.

As surpresas estavam apenas começando. Dentro da caixa, mais de uma centena de cartões, com uma série de poemas retirados de meus cinco livros, e um deles do mais recente, Exília, ainda inédito.

Um dos cartões trazia a dedicatória manuscrita: “Ao poeta Alexandre Marino, com os cumprimentos de Edson”.

Edson Guedes de Morais comanda a Editora Guararapes EGM, estabelecida em Jaboatão dos Guararapes. Nascido em Campina Grande (PB) em 1930, tem formação profissional em desenho, pintura, artes gráficas, jornalismo, entre outras. Soube depois que o belo trabalho que ele realizou com meus poemas faz parte de um projeto pessoal a que tem se dedicado ao longo dos anos, divulgando, com abnegação e generosidade, a obra de escritores que admira.

A escolha dos mais de vinte poemas que compõem a caixa exigiu de Edson Guedes uma cuidadosa pesquisa. Traçam um abrangente panorama de meu trabalho literário, que venho realizando desde a adolescência. As imagens com que ilustrou os poemas também demonstram o apreço e sensibilidade com que se dedicou à tarefa.

A literatura vale também por essas pequenas grandes surpresas.

PROGRAMA LEITURAS

A poesia foi o tema do programa Leituras, da TV Senado, no último domingo. Durante 20 minutos, conversei com o jornalista Maurício Melo Júnior sobre meus livros, meu método de trabalho e minhas concepções sobre poesia. A bolsa Funarte de Criação Literária foi outro tema que discutimos.

Quem se interessar, ainda tem duas chances, no próximo sábado, 14, para ver o programa - às 9h30 e às 20h. E é bom lembrar que a 14 de março se comemora o Dia Nacional da Poesia. Agradeço a atenção de quem assistiu a entrevista e aos que a comentaram. Vai também um agradecimento especial a Maurício Melo Júnior e à equipe de produção do programa pelo espaço que me deram.

POESIA NA TV SENADO

O programa Leituras, da TV Senado, apresenta neste domingo, 8 de março, uma entrevista que concedi ao jornalista Maurício Melo Júnior sobre meu trabalho literário. Há uma apresentação às 8h e uma às 20h30. O Leituras é dividido em duas partes: uma de resenhas de livros e uma entrevista de cerca de 20 minutos.

FLIP: IMPRESSÕES DE UM VISITANTE

A festa é intensa, o motivo justo: celebrar a literatura e aqueles que lhe dão sentido, escritores e leitores. O cenário é um sonho, não poderia ser mais literário; Paraty, cidade histórica do litoral fluminense. Sua população, de menos de 30 mil pessoas, recebeu cerca de 20 mil visitantes entre 2 e 6 de julho, e ainda conseguiu ser hospitaleira. Mas, ainda que tomada por essa multidão, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em sua sexta edição, continuou elitista. Julgue-se pelos altos preços de todos os serviços, incluindo os da própria Flip, a começar pelos R$ 25,00 do ingresso de cada palestra. E quem pagou R$ 25,00 pelo show de abertura, com Luís Melodia, deve ter se arrependido, pois quem não pagou viu do mesmo jeito, só que do lado de fora da cerca.

Não faltaram turistas estrangeiros, que puderam entrar em contato com algo que muitos deles adoram – a vocação brasileira para a esculhambação. O anfiteatro montado para o público permanecia fechado até o momento marcado para o início das palestras, e a fila crescia lá fora. Depois, privilegiados e “acompanhantes” entravam na frente e ocupavam os melhores lugares. Os convidados estrangeiros apresentavam-se com seriedade, mas alguns brasileiros pareciam ter sido convocados à última hora para participar de algo que nem sabiam direito o quê era. Foi o caso do crítico de arte Rodrigo Naves, que caiu de pára-quedas em meio ao evento. “Tenho 53 anos e só publiquei um pequeno livro de contos”, disse ele. “Não sei se sou escritor, isso não é uma coisa bem resolvida para mim.” Participante da mesa “Formas Breves”, com o brasileiro Modesto Carone e o alemão Ingo Schulze, parecia tonto. Modesto Carone tentou improvisar uma pergunta para Schulze que ninguém entendeu. Restou ao público ouvir o alemão narrar suas experiências de escritor nascido na Alemanha Comunista, testemunha da queda do Muro de Berlim.

Uma das pérolas da esculhambação foi proporcionada por Carlos Augusto Calil, mediador da mesa que reuniu Schulze, Carone e Naves. “Formas breves”, definiu ele, “são aqueles textos curtos, ideais para quem não tem tempo a perder com literatura e abre brechas no seu tempo para leituras rápidas.” Sem comentários...

Não foi o único caso de mediador que tentou aparecer mais do que os palestrantes. Manuel da Costa Pinto chegou a ouvir protestos do público, na mesa que teve os italianos Alessandro Baricco e Contardo Calligaris. Ángel Gurria-Quintana por várias vezes tentou impedir o colombiano Fernando Vallejo de disparar sua verve polêmica, na mesa que promoveu seu encontro com o holandês Cees Noteboom.

A sexta edição da Flip contou com novo diretor de programação, Flávio Moura, que não se deu ao trabalho de trazer qualquer poeta para a festa. Literatura, para ele, parece ser apenas ficção. Houve muita badalação, elogios, aquelas coisas. Representantes das principais editoras brasileiras estavam lá, talvez para conferir se os nomes que indicaram participaram de fato. Era o caso da Companhia das Letras e da Cosac-Naify, entre os patrocinadores da festa. Assim como a Folha de S. Paulo, cujos colunistas, cada um mais chato que o outro, ocuparam várias mesas.

Mas a Flip não frustrou o público. O crítico e ensaísta Roberto Schwarckz fez a abertura da festa com uma brilhante conferência sobre o homenageado deste ano, Machado de Assis. Ele mostrou que a obra do escritor nada tem de conservadora. Ao contrário, Machado era um crítico da sociedade de seu tempo, que tentava convertê-lo em seu aliado, e somente após a descoberta de sua obra por estudiosos estrangeiros ele pôde ser melhor compreendido em sua terra.

A psicanalista francesa Elizabeth Roudinesco fez uma interessante palestra sobre a perversão, com base em livro publicado recentemente, que aborda o comportamento doentio de personagens clássicos da literatura, como Dorian Grey, do livro de Oscar Wilde. O escritor colombiano Fernando Vallejo, polêmico e irônico, previu que a palavra “fome” será banida dos dicionários brasileiros pelo “seu presidente, gordinho e contente” e distribuiu farpas a suas costumeiras vítimas – o papa, a Colômbia, etc, etc. O holandês Cees Noteboom falou de suas viagens ao redor do mundo, de onde retira a riqueza de seus personagens.

Houve outros autores dignos de nota, mas também é preciso falar do casario de Paraty, da paisagem, da Serra do Mar, de sua gente simpática, do Teatro de Bonecos, do Armazém da Cachaça, do Bombom da Maga, do restaurante Banana da Terra e seus pratos feitos com esmero, da moqueca vegetariana do Arpoador e do restaurante Grão da Terra e sua deliciosa cozinha vegetariana, grande descoberta. E dos passeios às praias do Sono e de Trindade. A Flip foi uma experiência proveitosa. Paraty é sempre um convite à volta.

Duas notícias

1) Desde 2002, o jornalista e poeta baiano (radicado em São Paulo) Carlos Machado distribui, via e-mail, o Poesia.net, um interessante boletim semanal em que divulga poemas e seus autores. O Poesia.net 201, que circula a partir de hoje, é dedicado a este escriba. Alguns poemas de Arqueolhar, meu livro lançado em 2005, estão nos monitores de mais de 2 mil internautas que recebem o boletim. É um trabalho feito por amor à poesia, que pode ser melhor conhecido no site Ave, Palavra, que guarda as 201 edições já distribuídas.

2) O jornalista e escritor Galeno Amorim acaba de inaugurar seu blog, com o claro objetivo de "contribuir para que o papel da leitura na vida das pessoas seja algo cada vez mais claro e também mais presente no imaginário coletivo". Para buscar esse nobre propósito, ele se propõe a contar, semanalmente, novas histórias de personagens, anônimos ou não, que modificaram suas perspectivas de vida graças aos livros e à leitura. E conclama os militantes da causa a dividir com ele a tarefa. É visita indispensável. Conheça!

A verdade sobre o Domínio Público

O portal Domínio Público, do Ministério da Educação, tem um acervo de 25.875 obras literárias e outras, nos formatos de texto, som, imagem e vídeos. Livros de Machado de Assis e Shakespeare, por exemplo, estão disponíveis para os leitores, e podem ser baixados na íntegra. Também há um banco de 2 mil teses universitárias. Criado em novembro de 2004, com um acervo inicial de 500 obras, o portal já recebeu quase 3 milhões de visitas. Apesar desses números significativos, há um "hoax" que circula insistentemente na internet afirmando que o Domínio Público será desativado por falta de acessos. Alguns jornalistas acreditam nessas mensagens e as repetem, sem checar. Foi o caso de Fausto Wolff, no Jornal do Brasil. O Domínio Público é uma excelente contribuição para a leitura no Brasil, um país onde as editoras investem em livros cada vez mais caros e tiragens cada vez menores, como se pobre não tivesse o direito de ler.
http://www.dominiopublico.gov.br/