BRASÍLIA TERÁ BIENAL DE LIVROS


Depois de dar um pontapé na segunda edição da Bienal Internacional de Poesia de Brasília, que vinha sendo planejada há dois anos, e de demitir Antonio Miranda do cargo de diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, a secretaria de Cultura do DF anuncia a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, a se realizar em abril de 2012.

Pois é, mais uma “bienal”. E o nome é pretensioso. O secretário de Cultura, Hamilton Pereira, anuncia a captação de R$ 7,5 milhões em patrocínio, depois de negar apoio ao evento de poesia, que precisava de R$ 1,5 milhão para se viabilizar. Hamilton se apresenta como poeta, mas é apenas um político como todos os outros.

A secretaria convocou o escritor Luiz Fernando Emediato e deu-lhe o cargo de coordenador literário da anunciada Bienal do Livro e Leitura. Emediato critica a Biblioteca Nacional por não ter livros disponíveis para empréstimo. Talvez ele não saiba que a Secretaria de Cultura negou recursos para que bibliotecários fossem contratados para cadastrar as dezenas de milhares de volumes que a biblioteca já possui. Os poucos bibliotecários que lá trabalham eram obrigados a cumprir funções burocráticas e seus salários estavam constantemente atrasados.

Luiz Emediato lembra que o brasiliense é “leitor de peso”, e o DF é o maior consumidor de livros per capita do país, segundo pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Esses dados são uma falácia. Se fosse assim, as editoras correriam para participar de eventos na cidade, o que não acontece. O poder público – mais especificamente, o governo do DF – não entende nada de cultura. Brasília foi pensada para ser o centro cultural do país, mas essa ideia foi desvirtuada pelos militares e os governos locais, capitaneados por Joaquim Roriz, não querem saber disso. Agnelo Queiroz não é diferente.

O prometido evento terá o arquiteto Oscar Niemeyer como convidado, de acordo com o coordenador. É uma ótima ideia. Ao percorrer a Biblioteca Nacional de Brasília, Niemeyer terá uma noção do péssimo resultado de seu projeto – um prédio absolutamente inadequado para uma biblioteca.

LEONARD COHEN DE VOLTA!


Algumas das questões mais profundas da condição humana são abordadas nas canções de Old Ideas, novo CD de Leonard Cohen, que terá lançamento mundial no dia 31 de janeiro. É o 12º disco de estúdio do genial bardo canadense, e ele está em plena forma, do alto de seus 77 anos. Depois de uma turnê mundial iniciada em maio de 2008 e encerrada em dezembro de 2010, Cohen lança 10 canções inéditas, das quais apenas duas foram apresentadas durante a turnê. O álbum é produzido por  Patrick Leonard, Anjani Thomas, Ed Sanders e Dino Soldo. Cohen está, como sempre, apoiado por belos vocais femininos: Dana Glover, Sharon Robinson, The Webb Sisters (Hattie e Charley Webb) e Jennifer Warnes. A arte da capa é do próprio Leonard Cohen. Agora, é controlar a expectativa!

POESIA NA RUA

[Clique para ampliar]
O Açougue Cultural T-Bone (quadra 312 Norte, em Brasília) promove nesta quarta, quinta e sexta, 26, 27 e 28, a 1ª Bienal do B, A Poesia na Rua. O evento é uma reação ao cancelamento da II Bienal Internacional de Poesia de Brasília, mas não precisava copiar-lhe o nome, que se tornou um estigma. Especialmente porque pretende ser anual, e nesse caso o termo realmente perde o sentido. 

Eventos poéticos são muito bem-vindos, ainda mais neste momento em que o poder público em Brasília demonstrou total aversão à poesia, desprezando um evento internacional que já vinha sendo organizado há mais de dois anos, alegando falta de recursos que, se houvesse vontade política, estariam sobrando. 

Para o festival do T-Bone, confirmaram presença nomes importantes da poesia brasiliense, como Antonio Miranda, Chico Alvim, Vicente Sá, Wilson Pereira, Luís Martins, Carla Andrade e muitos outros. Vindos de fora, foram anunciados Wilmar Silva (Belo Horizonte), Ésio Macedo Ribeiro (São Paulo) e o português Luís Serguilha. 

Thiago de Mello acaba de confirmar presença para uma homenagem. Além dele, serão homenageados a diretora da Biblioteca Demonstrativa, Maria da Conceição Moreira Salles, o livreiro Ivan Presença e o poeta Ézio Pires, todos imprescindiveis ao movimento cultural da cidade.

Haverá shows musicais, incluindo a participação do grupo VivoVerso, que trabalha música e poesia. 

Este escriba participa do evento nesta quinta, 27. E convida eventuais leitores a comparecer às três noites. 

A programação completa está aqui

POESIA CONTEMPORÂNEA


O livro Poesia Contemporânea - Olhares e Lugares, coletânea de reflexões organizada por Sylvia Helena Cyntrão, será lançado nesta sexta-feira, 21, no Teatro Eva Herz da Livraria Cultura (shopping Iguatemi) em Brasília. Reúne ensaios de professores e escritores convidados do simpósio realizado na Universidade de Brasília em setembro do ano passado. O livro é especialmente importante por um detalhe: o simpósio foi o único evento da II Bienal Internacional de Poesia de Brasília que de fato se realizou - e que, agora, dá um novo fruto. Este escriba participa do livro com o texto Brasília é apenas um lugar comum, uma reflexão sobre o excesso de clichês na poesia que se faz em Brasília, ou sobre Brasília. Também participam José Castello, Rodrigo Garcia Lopes, Luís Turiba, Nicolas Behr, Amneres Santiago, Alexandre Pilati, entre vários outros autores. Haverá uma performance do grupo VivoVerso. Estaremos lá.

ABRAÇO ÀS NASCENTES


O Parque Olhos D´Água ocupa 21 hectares na Asa Norte de Brasília, equivalente a uma quadra residencial. É uma área de preservação, com espécies do cerrado, e possui trilhas internas e parquinho infantil. Dentro de seus limites corre um riacho que deságua numa lagoa, e essa água flui em direção ao Lago Paranoá. As nascentes ficam fora da área do parque, e estão ameaçadas pela especulação imobiliária. A população se mobiliza para que o governo determine a integração das nascentes, que ficaM entre as quadras 212 e 213, à área do parque. Este vídeo reporta a manifestação realizada em 25 de setembro de 2011.

LEMBRANDO FERNANDO M. VIANNA


Neste mês de setembro, mais precisamente no dia 10, completam-se cinco anos de morte de Fernando Mendes Vianna. Quem o conheceu sabe a falta que ele faz ao cenário poético de Brasília. Não só pela alta qualidade de sua poesia, como também por sua personalidade iluminada e agregadora. O poema que se lê nesta imagem (clique para ampliá-la) é uma singela homenagem que faço a um dos mais notáveis seres humanos com quem tive a oportunidade de conviver. Contraluz faz parte de meu livro inédito Exília, criado com o apoio da Bolsa Funarte de Criação Literária.

CANCELADA A BIENAL DE POESIA

 Poetas de 21 países, além dos brasileiros ¬– nomes como Alcides Buss, Álvaro Alves de Faria, Felipe Fortuna, Floriano Martins, Horácio Costa, Lêdo Ivo, Miriam Fraga, Ricardo Silvestrin, Ruy Espinheira Filho, Wilmar Silva, entre outros – receberam na tarde desta segunda-feira, 22 de agosto, um comunicado do diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, Antonio Miranda. Em texto lacônico, frustrado e triste, ele informava, sem esclarecer os motivos, que a II Bienal Internacional de Poesia de Brasília, que seria realizada de 14 a 17 de setembro, estava cancelada.
 
Sem que tenha havido um comunicado oficial, fica difícil analisar as razões para o segundo cancelamento de um evento que parecia ter sua morte anunciada. Por ser bienal, como foi batizado desde a primeira edição, ocorrida em 2008, esse evento deveria ter acontecido no ano passado, mas foi adiado por falta de recursos. O ano de 2010 foi histórico para Brasília: foi o ano do cinquentenário de inauguração da cidade e o ano em que, pela primeira vez, um governador foi preso em pleno exercício do mandato. Além disso, o Distrito Federal bateu um triste recorde: teve quatro governadores em um único ano. 

 
Com a eleição do petista Agnelo Queiroz para governar o DF, houve quem visse renascer uma perdida esperança. Mas em pouco tempo percebeu-se que o novo governo de novo tinha muito pouco: não havia um projeto cultural a ser proposto ou implantado, e o secretário de Cultura, Hamilton Pereira, parece perdido no cargo. 

 
O resultado não poderia ser diferente. Os equipamentos culturais do DF continuam sucateados, com o Cine Brasília abandonado, o Museu de Arte fechado para uma misteriosa reforma, uma Biblioteca Nacional ainda sem livros disponíveis, apesar dos quatro anos de inauguração e os esforços de seu diretor, Antonio Miranda. Outros espaços, em Brasília e demais cidades, estão em situação equivalente. Enquanto isso, os artistas e a sociedade parecem em estado de letargia e perplexidade. 

 
Era muito peso para que Miranda o carregasse sozinho. Como evento nascido nos corredores oficiais, ainda que gerado no coração de um poeta com vasta história, a II Bienal Internacional de Poesia de Brasília carecia pelo menos do apoio de um governo sensível, que se dispusesse a reconduzir Brasília à condição de polo cultural no centro do Brasil. Uma condição cada vez mais distante e utópica. O cancelamento da Bienal é apenas reflexo de um caos muito maior, que cabe aos artistas, e à sociedade, reparar e ordenar.

A ARTE DE JOSÉ VASCONCELLOS

A infância redescoberta
Eu conhecia o artista plástico José Vasconcellos graças a um pequeno e belo desenho a lápis, feito por ele nos anos 70 numa folha de papel A4. Minha mãe, prima dele, o ganhou de presente e o guardava com carinho entre objetos preciosos. “Isso vale muito dinheiro em Copenhague”, me disse o próprio Vasconcellos, quando o conheci na sala Martins Pena do Teatro Nacional, em Brasília, na semana passada.
 
Vasconcellos vive desde 1974 na Dinamarca, onde é reverenciado pelos museus e galerias e, é claro, também pelo público. Suas obras fazem parte de coleções de vários países europeus e dos Estados Unidos, e livros sobre ele foram publicados em edições inglesas, francesas, alemãs, entre outras. 

Ele trabalha, hoje, basicamente com resina vegetal sobre tela ou madeira, às vezes usando colagens, criando obras complexas, de grande beleza plástica. Há muitos anos não produz mais gravuras como a que lhe mostrei no dia 2 de agosto, quando enfim o conheci pessoalmente.

Sem título
 Apesar do parentesco e de nascidos na mesma cidade – Passos, em Minas Gerais – só o encontrei agora, em Brasília, onde ele esteve para abrir uma exposição de 23 de suas obras no Espaço Cultural Zumbi dos Palmares, na Câmara dos Deputados. Fiquei impressionado com as cores, as texturas e sua abordagem muito pessoal do realismo fantástico, expressão, aliás, que dá nome à exposição. “Um mergulho no universo mágico do inconsciente coletivo, apontando certos arquétipos comuns a todos nós e resgatando fantasmas adormecidos no canto da memória de cada um”, como ele mesmo escreveu no catálogo da exposição.

Embora viva há quase 40 anos fora do Brasil, Vasconcellos é aquele mineiro típico – eu diria até um passense típico – que gosta de uma boa prosa, desenrolada com sotaque inconfundível. E é casado com uma artista igualmente talentosa, a pianista Valéria Zanini, que fez um recital inesquecível na Sala Martins Penna, tocando peças de Schubert, Schumann, Liszt, Villa-Lobos e Prokofieff. 

Valéria é goiana de Anápolis. Ela e Vasconcellos deixaram o Brasil em 1973, por pressão da ditadura militar. Foram para o Chile, de onde saíram no ano seguinte, após o golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende. Partiram direto para a Dinamarca, onde encontraram terreno fértil para desenvolver sua arte. 

SUBINDO PELAS PAREDES


Sempre que leio um livro de Sérgio Sant´Anna lembro-me de meu professor de redação e edição de textos, escrevendo nas paredes de nossa sala no Departamento de Comunicação da Universidade Católica de Minas Gerais. Sim, nas paredes: o prédio era novo e ainda não havia sido pintado. Ele preenchia o espaço do quadro negro (naquela época, ainda se usava giz) e, para não apagar, continuava escrevendo nos quatro cantos da sala. Ao fim da aula, a sala parecia coberta de tatuagens, como as que adornam o corpo de Jana, personagem de O livro de Praga, que Sérgio acaba de lançar pela Companhia das Letras. 

As aulas do Sérgio, que costumavam durar bem menos do que o tempo previsto, permaneceram em minha memória não apenas pelo inusitado, mas também pelas lições certeiras que ele nos dava, ao analisar textos, nossos e de outros autores, apresentar novos escritores e comentar o ofício da escrita. Sérgio havia publicado poucos livros, mas já recebera reconhecimento internacional, tendo participado do International Writing Program da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos. Uma de suas obras-primas, Confissões de Ralfo, estava ainda quente do forno, e ele escrevia Simulacros, cujos originais eram guardados numa gaveta de sua mesa de trabalho, num tribunal de Belo Horizonte. 


 O livro de Praga, que faz parte do projeto Amores Expressos, tem características em comum com aqueles, a começar pela tentativa de levar a experiência da narração além dos limites do mero contador de histórias. Sant´Anna mistura ficção, memória e ensaio em sua literatura, em textos que parecem transformar a linguagem proposta em simulacros desses gêneros. Em O livro de Praga, Sérgio brinca de se travestir de crítico de arte, reescreve textos lascivos de Kafka e apresenta obras de escultores delirantes, sempre em clima de sexualidade expressa. É prazeroso ler as divagações do personagem narrador sobre música, artes plásticas, literatura, Andy Warhol, Lewis Carroll, Kafka...

O projeto Amores Expressos tinha uma proposta ao mesmo tempo pretensiosa e singela: patrocinar a permanência de cada um dos escritores escolhidos, durante um mês, em uma cidade do mundo, para que lá eles escrevessem uma história de amor. A Sérgio Sant´Anna coube uma temporada em Praga. Imagino meu velho mestre passeando pelas pontes, vielas e recantos da capital tcheca, em busca de uma forma de rebelar-se contra a fórmula imposta pelos promotores do projeto. Escrever uma história de amor?
 

O subtítulo do livro é Narrativas de amor e arte, mas não foi bem isso que ele fez. Sérgio promove libidinosos encontros de seu personagem Antonio Fernandes com inusitadas parceiras, e cria para esses affairs uma Praga de fantasia, uma cidade dentro da outra, que o leitor não encontrará em qualquer guia turístico. Assim, esse alter-ego conhecerá uma prestigiada pianista que se apresenta para um único espectador; fará amor com uma estátua, tão bem descrita e analisada que o leitor correrá à enciclopédia (ou ao Google) para ver sua imagem; terá um caso com uma boneca, não daquelas infláveis, mas com aspecto infantil, e antes de deixar Praga, traçará uma policial, aquela que simboliza a repressão policial às constrangedoras situações em que o personagem se envolveu. 

Sérgio Sant´Anna jamais se contentou em simplesmente contar histórias – ele sempre injetou uma boa dose de experimentações em suas narrativas. O resultado dessas experiências o transformou em escritor cult, que, sem galgar muito alto as listas de best-sellers, sempre foi incensado pelos admiradores da arte da literatura, professores e críticos literários. Em O livro de Praga, Sérgio está cada vez mais abusado, ao mostrar que seu compromisso é, acima de tudo, com sua própria arte. Como fazia décadas atrás, Sérgio Sant´Anna abandona o espaço que lhe fora reservado e sobe pelas paredes.



[A foto de Sérgio Sant´Anna que ilustra esta postagem foi tomada
emprestada ao blog de João Gilberto Noll, e não tem crédito]

A QUESTÃO DA NORMA CULTA


  A polêmica da semana foi o livro didático Por um mundo melhor, de Heloísa Ramos e outros autores, publicado pela Editora Global e distribuído pelo MEC para uso de jovens e adultos em processo de alfabetização. O assunto rendeu matérias em vários jornais e debates em redes sociais e mesas de bar, e muita gente que se posicionou sobre o caso, contra ou a favor, não teve o cuidado de pelo menos ler o capítulo que deu início à polêmica – Escrever é diferente de falar, página 11.

Os autores são simpáticos à causa dos linguistas, que defendem o mesmo valor para a linguagem culta e a linguagem popular e pregam que a língua culta é instrumento de dominação. A partir dessa idéia, ensinam que a falta de concordância na frase (“os livro”, “os peixe”) não identifica um falar errado, mas apenas inadequado.

Está escrito no livro que a concordância entre artigo, substantivo, adjetivo “ocorre na norma culta”, mas, “na norma popular, a concordância acontece de maneira diferente”, o que não prejudica o entendimento.

Seguindo o raciocínio, o livro ensina ao estudante que ele pode falar “os livro”, “claro que pode”, mas adverte que em determinadas situações, ele “corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico”.

Os autores não esclarecem, no entanto, se o aluno estará sendo vítima de “preconceito linguístico” se sua fala “inadequada” for corrigida pelo professor, cuja obrigação é, obviamente, ensinar-lhe a norma culta...

O livro estabelece uma espécie de luta de classes linguística, ao contrapor classes populares e classes dominantes, e variedade culta e variedade popular da língua. Veja este trecho: “As classes sociais menos escolarizadas usam uma variante da língua diferente da usada pelas classes sociais que têm mais escolarização. Por uma questão de prestígio – vale lembrar que a língua é um instrumento de poder -, essa segunda variante é chamada de variedade culta ou norma culta, enquanto a primeira é denominada variedade popular ou norma popular.”

Depois de observar
que as duas variantes são eficientes como meios de comunicação, o livro afirma que “a classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio”.

Discutir esses conceitos na universidade, onde se aprofundam as discussões, é uma coisa. Outra, muito diferente, é colocá-las de modo superficial para jovens e adultos em processo de alfabetização, que estão entrando em contato com o conhecimento muito tardiamente, e deveriam ser estimulados a adquiri-lo. Ao contrapor a linguagem “da classe dominante” à linguagem das classes populares, os autores correm o enorme risco de jogar o estudante não só contra a norma culta, como também contra o conhecimento.

O que os alfabetizandos precisam entender é que a norma culta e o conhecimento são, na verdade, instrumentos de libertação. E que o acúmulo de conhecimento poderá abrir-lhes novas perspectivas e opções de vida. E isso o livro não mostra. Mostra, isso sim, depois de expor as contradições sociais, que “o falante tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião”.

Na página 12 do livro, está escrito que “como a linguagem possibilita acesso a muitas situações sociais, a escola deve se preocupar em apresentar a norma culta aos estudantes, para que eles tenham mais uma variedade à sua disposição, a fim de empregá-la quando for necessário”.

Equivocado e simplista. A escola tem obrigação de ensinar a norma culta, porque ela representa conhecimento. Representa civilização. É a norma culta que porta o conhecimento gerado pela humanidade. A partir do momento que adquirir contato com a norma culta, ele transformará sua vida – e sua fala. O conhecimento não ocupa lugar, e quanto mais é adquirido, mais amplos se tornam os horizontes.

Mas, para os autores, a norma culta é apenas “uma variedade da língua portuguesa” (pág. 11).

Não se pode dizer ao estudante que a norma culta gera preconceito – o livro não diz isso, mas insinua, ao afirmar que pessoas que dominam a norma culta podem manifestar esse preconceito. Mas em nenhum lugar diz que os falantes da linguagem popular podem manifestar preconceito contra os falantes da língua culta.

Ambas as formas de preconceito são de origem social, mas chamar os críticos do livro de “pseudointelectuais” é manifestação de um preconceito mais grave, porque denota desprezo pelo conhecimento. É como aquele sujeito que diz que “eu nunca precisei de livros pra chegar aonde cheguei”. Afinal, o papel da escola e dos livros é levar o indivíduo a adquirir conhecimento e aprender a norma culta. Ou seja, educar.

O Brasil já perdeu o bonde da educação há muito tempo. Hoje, pagamos alto preço por isso. O baixo nível dos políticos, a corrupção, o desprezo pela língua portuguesa, o grande número de analfabetos, a pobreza e a miséria, o analfabetismo funcional... Sem uma população bem educada – ou seja, que domine a norma culta, tenha acesso aos bens culturais e saiba discernir e criar seus próprios conceitos – o desenvolvimento econômico do país será apenas uma bolha, e o desenvolvimento social dependerá sempre de benesses do governo.

UMA LIÇÃO DE OUTRO MUNDO


Mundialmente famoso, o bairro parisiense Quartier Latin, onde fica a Universidade Sorbonne, está perdendo a essência de sua alma: as livrarias. O número passou de 225 para 124 na última década. Boa parte foi substituída por lojas de roupas. Para estancar esse esvaziamento e evitar a descaracterização do bairro, a prefeitura de Paris decidiu incentivar a abertura de livrarias. O método utilizado é simples: apoio financeiro aos comerciantes, com aluguéis abaixo dos níveis de mercado. Por meio de uma sociedade de economia mista, a Semaest, a prefeitura compra os locais, realiza as obras necessárias e os aluga. O projeto, chamado Vital'Quartier, garante aos livreiros três meses de aluguel grátis para cobrir despesas iniciais com a abertura do negócio e também oferece aconselhamento em relação a empréstimos bancários e contratação de funcionários. Desde 2008, 11 livrarias foram inauguradas no Quartier Latin e duas novas editoras, com lojas, serão abertas nas próximas semanas.
Valor Econômico (20/05/2011) - Por Daniela Fernandes

BRASÍLIA, 51 ANOS [2]

Tratores destroem o gramado da Esplanada...
...para montar um gramado artificial.
Os gramados da Esplanada dos Ministérios serão palco, no final de maio, de um evento internacional de motocross. A Esplanada é tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional e é considerada área intocável, em função do título de Patrimônio da Humanidade concedido pela Unesco a Brasília. Mas o governo do DF ignora isso.
 

Para as comemorações do aniversário da cidade, em 21 de abril, cobriram toda a extensão da Esplanada com circos, palcos, arquibancadas, barracos e até campos de futebol. Provavelmente vão desmontar tudo isso em seguida, deixando os gramados destruídos. Mas será por pouco tempo.

O governo do DF trará para Brasília, no final de maio, o Red Bull X-Fighter, evento internacional de motocross. A empresa Red Bull vai montar uma grande estrutura nos gramados da Esplanada. Se a Esplanada é tombada, a Red Bull não tem nada com isso.
 

Quem anuncia o evento é o secretário de Turismo do DF, Luiz Otávio Neves. Em entrevista à revista Roteiro Brasília, ele anuncia "um show de motocross, de piruetas de motos, iluminação, fogos, um grande espetáculo". Para se ter idéia da qualidade dos secretários que assumiram o "novo" governo do DF.

BRASÍLIA, 51 ANOS

Roupa de festa
Isto é a Esplanada dos Ministérios ou a Feira de Caruaru?

Brasília completa 51 anos de inauguração no dia 21 de abril. A cidade que nasceu das utopias é hoje vítima da cultura do saque e da ganância. A cidade que surgiu das pranchetas como um projeto de obra de arte vai aos poucos incorporando o espírito da favelização: ocupação desordenada, desprezo pelo planejamento urbano, desrespeito aos monumentos históricos.

Para a comemoração do aniversário de 51 anos, o Governo do DF, em vez de embelezar a cidade, enche a esplanada de barracos, palcos, arquibancadas, altares e até campos de futebol. Destrói o gramado e faveliza a área mais importante da cidade.

Pelo projeto original de Brasília, a Esplanada dos Ministérios foi desenhada para ser um grande espaço aberto, por onde se pudesse observar o Congresso Nacional desde a rodoviária. A Esplanada é tombada pelo Patrimônio Histórico e faz parte da área tornada intocável pelo título de Patrimônio Cultural da Humanidade, concedido pela Unesco. Ali, é proibida a execução de qualquer edificação acima do solo, de forma a garantir total visibilidade do Congresso Nacional.

Com todo respeito à Feira de Caruaru, Brasília é outra coisa. A Feira de Caruaru é um grande encontro espontâneo, uma festa popular. O atrativo de Caruaru é a multidão e a muvuca bem organizada; o da Esplanada dos Ministérios é o espaço vazio. Os governos querem atrair turistas para Brasília, mas se esquecem de manter a cidade bem arrumada para quando eles chegarem.

Assim como o governo local pratica e é conivente com esses atentados contra a integridade da cidade, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) se omite e o Instituto dos Arquitetos do Brasil silencia. Então, por que a população, que tantas vezes se levantou em defesa de Brasília, não grita? Ou será que essa população, outrora consciente e atuante, agora prefere ouvir a música de péssima qualidade que emana dos palcos na Esplanada?


[A foto que ilustra esta postagem foi tomada emprestada ao Correio Braziliense]

QUE U2, QUE NADA!


Segundo fim de semana de abril, o clima de São Paulo oscila entre sol, nuvens e ameaça de chuva e os hotéis estão superlotados. Noventa e nove por cento dos turistas que invadiram a cidade neste sábado vão se reunir todos no mesmo lugar. À noite, a banda irlandesa U2 faz um megashow no Morumbi. 
 
Nada contra. Mas o que me levou a São Paulo foi um histórico encontro, visto apenas por algumas centenas de privilegiados, nas belas instalações do Sesc no bairro de Belenzinho. Ali, Egberto Gismonti e Naná Vasconcelos, músicos brasileiros de enorme prestígio internacional, se reencontraram para reinterpretar o Dança das Cabeças, álbum mitológico que gravaram na segunda metade da década de 70.
Daniel, Nádia, Egberto e Naná
 
Sem tumultos e fácil estacionamento, chegamos na companhia de Daniel e Ana, que nos garantiram antecipadamente os melhores lugares da platéia de 400 lugares: na primeira fila, de frente para o palco, onde Gismonti e Naná, com entendimento perfeito e sua reconhecida capacidade de improviso, extasiaram o público.
 
Não tenho fotos do show para mostrar. Era proibido fotografar e, mesmo que não fosse, seria difícil. A presença daqueles seres iluminados no palco criava um ambiente de tal harmonia que o simples espocar de um flash poderia quebrar. Havia tal equilíbrio entre o silêncio e as delicadas ondas sonoras emitidas pelos músicos que qualquer movimento, qualquer ruído estranho, uma tosse ou um disparador de câmera, poderiam interromper. A memória se encarregaria de gravar aquele acontecimento. Era melhor assim.
Este escriba e Naná
 
Na saída, Egberto e Naná atenderam com simpatia aos pedidos para posar para fotos e autografar discos, CDs e vinis que apareceram aos montes nas mãos de fãs deslumbrados. Dança das Cabeças vem atravessando as décadas com o mesmo encantamento misterioso que lhe valeu dezenas de prêmios ao redor do mundo. A magia sonora de dois gênios. Velhos vinis e CDs que pairam acima do tempo.
 
O show fez parte do Projeto Álbum, do Sesc Belenzinho, que propõe a recriação no palco de álbuns clássicos da música brasileira. Antes de pegar nos instrumentos, Gismonti contou a história do disco, gravado em Oslo, na Noruega, de forma improvisada. Convidado por um estúdio, ele viajava sozinho, mas dois dias antes da data marcada encontrou-se com Naná em Paris e propôs que vivessem juntos a aventura. 
Ana, Egberto e este escriba
 
“Não vai dar pra ensaiar”, respondeu Naná, depois de ouvir de Gismonti o que ele pretendia: “Levar um piano para dentro da mata e ouvir animais, rios, sentir a umidade, ver pântanos e clareiras.” Mais de 30 anos depois, lá estávamos nós, cercados por aquele mundo mágico.

O LINCHAMENTO DE MARIA BETHÂNIA

A semana que começou no Dia Nacional da Poesia, 14 de março, foi marcada por uma tentativa de linchamento, na internet, de uma das mais importantes artistas da música brasileira: Maria Bethânia. A partir da revelação, por um jornal paulista, de que o Ministério da Cultura aprovara um projeto que prevê a gravação de 365 vídeos em que a cantora lê poemas importantes da língua portuguesa, uma horda de gente preconceituosa e mal informada avançou contra ela com paus e pedras.
 
 O projeto O mundo precisa de poesia foi apresentado ao Ministério da Cultura pela Quitanda Produções Artísticas, e previa a captação de R$ 1,79 milhão, por renúncia fiscal, para a produção e veiculação dos vídeos, um por dia, durante um ano. O Ministério aprovou, reduzindo o valor para R$ 1,3 milhão. De acordo com a Lei Rouanet, esse valor poderá ser obtido junto a empresários, que descontarão uma parte dele ao pagar seus impostos de renda. Portanto, o Ministério não deu o dinheiro, apenas autorizou a produtora a solicitá-lo ao empresariado.

 
De acordo com a proposta, os vídeos serão veiculados em um blog na internet, no YouTube e outros espaços, um por dia, durante um ano, e estarão acessíveis para quem quiser vê-los e copiá-los. A seleção dos poemas será feita pela própria Maria Bethânia, que ao longo de uma irrepreensível carreira de mais de quatro décadas tem prestado inestimável serviço não apenas à melhor música brasileira, como também à poesia de língua portuguesa, levando a obra de autores como Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes, Sophia de Mello Breyner Andresen e inúmeros outros a um público totalmente seduzido pela beleza de suas interpretações.

 
Ao tornar acessíveis, pela internet, 365 poemas de primeira grandeza, Maria Bethânia levará a poesia a um público nem sempre íntimo dessa arte, hoje disponível apenas em livros de circulação restrita. A interpretação de Maria Bethânia resgata a oralidade da poesia, revelando sua beleza a pessoas que nem sempre compreendem os mistérios dessa linguagem. 

 
O episódio merece reflexões profundas. É assustadora a reação das pessoas, entre as quais há até mesmo poetas brasileiros que deveriam ter aplaudido a iniciativa, pois, afinal, como diz o próprio título do projeto, o mundo precisa de poesia, e o Brasil muito mais. Sabemos que o Brasil é um país iletrado, mas pior que isso é nossa vocação para cultuar a ignorância. Entre as manifestações que se reproduziram em redes sociais, blogs e seções de comentários dos jornais, era evidente que a grande maioria dos que protestaram o fizeram pelo simples prazer de protestar, sem ler o projeto, sem saber o que é a Lei Rouanet ou conhecer suas regras, e especialmente por um sadismo pouco disfarçável, alimentado pelo covarde ataque em massa a uma pessoa que obteve prestígio nacional graças a seu talento, coerência e integridade.

 
A obtenção de recursos para produções culturais, via renúncia fiscal, é prática comum e totalmente legítima, prevista em lei. Shows, DVDs, livros, filmes, peças de teatros, CDs são produzidos dessa forma. Pode-se questionar a qualidade dos artistas e vários outros aspectos, mas a aprovação, ou não, do projeto obedece a critérios puramente técnicos, e assim deve ser. 


O mais irônico dessa história é que a maior parte dessas produções não presta qualquer contribuição à cultura brasileira, e nem por isso se organizam protestos contra essa ou aquela. Turnês gigantescas, promovidas por empresas multinacionais, com retorno financeiro garantido, e que nenhuma contrapartida oferecem, são produzidas dessa forma. Há artistas descaradamente comerciais que assim gravam CDs e DVDs, vendidos a preços de mercado. Filmes sem qualquer valor cultural, lançados com estrondosas campanhas de marketing, são patrocinados pela mesma lei. 
 
Qual é o mistério por trás da campanha contra Maria Bethânia? Eu tendo a acreditar, mesmo sem querer, que se a produtora houvesse apresentado um projeto de R$ 2 milhões, ou R$ 5 milhões, apenas para uma turnê de shows de Maria Bethânia, ou gravação de um DVD, não teria havido tal reação. Ninguém protesta contra os milhões obtidos por artistas como Ivete Sangalo, Roberto Carlos, Gilberto Gil, duplas sertanejas ou grupos de axé. O filme Bruna Surfistinha captou R$ 4 milhões da mesma forma. Ninguém protestou. A Lei Rouanet viabiliza a produção de artistas importantes, mas também patrocina o esgoto da cultura brasileira. Tudo sob respeitoso silêncio. Praticamente todos os filmes produzidos no Brasil, alguns vistos por não mais que 3 mil, 5 mil pessoas, obtêm financiamento da mesma maneira. 

 
Duas palavras mágicas desencadearam a onda de protestos contra Bethânia. A primeira é “blog”, um espaço gratuito na internet, onde qualquer um escreve o que quiser. A segunda é “poesia”, uma arte vítima de muitos preconceitos, que para alguns é apenas obra de desocupados (como se a campanha contra Bethânia não fosse também obra de desocupados). As pessoas não entenderam, ou não quiseram entender, que o projeto O mundo precisa de poesia prevê captação de recursos não para a produção de um blog, e sim para a produção de 365 vídeos de nível profissional. E também não se percebe que a Poesia pode prestar grande contribuição para melhorar a qualidade de nossa educação e, em cascata, ajudar a aprimorar nosso senso crítico e nossa capacidade de reflexão. 

 
A onda de protestos encontrou terreno fértil também na irresponsabilidade da imprensa, que adora esse tipo de polêmica, mas é incapaz de analisar a fundo o alcance de um projeto que, ao contrário de quase todos os outros, pode ser uma valiosa ferramenta para as escolas, de todos os níveis, e que levará a melhor poesia de língua portuguesa a um público imensurável. E criará um acervo de grande importância, para agora e para o futuro. Esse desdobramento previsto pelo projeto da Quitanda não existe nas produções meramente comerciais, algumas até mesmo nefastas para nossa cultura, que se multiplicam sob o patrocínio da Lei Rouanet.

 
Maria Bethânia tem uma história irrepreensível e merece respeito. A Poesia também.

[O proprietário deste blog tomou a liberdade de usar a foto de Juan Guerra, da Agência Estado, para ilustrar este texto] 

DIA NACIONAL DA POESIA

Este ano começou bem. Começou no Dia Nacional da Poesia, 14 de março, que desta vez veio colado ao Carnaval, que terminou no dia 13 de março, não na quarta-feira de Cinzas, como exigem os calendários, mas como os foliões preferem. Se no Brasil o ano só começa depois do Carnaval, melhor ainda que o primeiro dia do ano seja o Dia Nacional da Poesia, quando se comemora o aniversário de Castro Alves. 

LEONARD COHEN NO BRASIL


O cantor e compositor Octávio Scapin, de Goiânia, faz a sua leitura pessoal de I´m your man, um dos clássicos do canadense Leonard Cohen. O arranjo é dele e do tecladista Henrique Reis, que o acompanha nesta gravação, feita durante um show no Teatro Goiânia Ouro, em Goiânia, em novembro de 2010.

AMANHECER EM BRASÍLIA

Clique sobre a foto para ampliá-la.
Amanhecer na Asa Norte, em Brasília. Com o fim do horário de verão, é melhor fotografar o por do sol. 

REYNALDO JARDIM ESTÁ VIVO

Reynaldo Jardim e a moça tatuada,
na Bienal de Poesia em 2008


A imagem de Reynaldo Jardim morto não combina com ele. Era o que havia de estranho no velório realizado no Teatro Nacional, em Brasília, na tarde desta quarta-feira, 2 de fevereiro. Reynaldo, genial jornalista, poeta e artista plástico, se é que se pode falar assim de um homem rompedor de limites, no auge da juventude aos 84 anos, foi abatido por um aneurisma. Mas seus amigos e admiradores, artistas de todos os naipes, subverteram sua morte e o declararam vivo.

Reynaldo morreu em Brasília, mas é um personagem da cultura brasileira, imune a fronteiras, espaciais ou temporais. Nos anos 50, criou o Caderno B do Jornal do Brasil, promovendo uma revolução na imprensa que perdurou pelas décadas seguintes. No ano passado, seu livro Sangradas Escrituras ficou em segundo lugar na categoria Poesia do Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. A notícia da premiação o enfureceu, por considerar que sua obra merecia apenas o prêmio máximo. Ninguém o contestou.

Nos últimos anos, tive o prazer de ver Reynaldo Jardim em inspiradas performances poéticas, durante vários eventos em Brasília. Ele foi uma das grandes personagens da I Bienal Internacional de Poesia, realizada pela Biblioteca Nacional de Brasília em 2008. A segunda bienal, que deveria acontecer no ano passado, foi adiada para este ano. Homenageado na primeira edição, será novamente homenageado na segunda. E não duvido que ele nos prepare alguma surpresa.