A festa do Liga Tripa

O Clube do Choro recebeu no último sábado a trupe do Liga Tripa, para fazer a alegria de um bom público que compareceu à sala. Não é sempre que podemos preencher nossas noites de sábado com duas instituições brasilienses. Toninho (flauta), Caloro (contrabaixo africano), Carrapa (cavaquinho), Aldo Justo (violão), Fino (percussão) e Duboc (violão) fizeram a festa. Para quem perdeu, resta esperar pela próxima.

Bric-a-Brac, Maior Idade

Bric-a-Brac, se estivesse viva, completaria 21 anos. Mas quem disse que não está viva a revista litero-cultural experimental que circulou entre 1986 e 1992, levando a poesia de Brasília a surpreender a mídia nacional? Espiritualmente vivíssima, como prova a exposição Bric-a-Brac, Maior Idade, Poética Multimídia, que será aberta no dia 14, quinta, na galeria principal da CEF, em Brasília.

O jornalista e poeta Luís Turiba, editor da revista, explica que será uma exposição retrospectiva, com novas leituras de antigos trabalhos e muitos documentos inéditos, cartas, manuscritos, etc. Haverá uma parede dedicada a novos trabalhos, que também serão publicados em forma de catálogo, como se fosse uma nova edição, "a Bric-a-Brac 2007, Maior Idade."

Também está sendo produzido um documentário-clip sobre a trajetória da publicação.

A imagem que você vê no alto desta postagem é a capa da edição 4, de 1990. Poderá ser relida na galeria da Caixa.

Liga Tripa no Clube do Choro!

O Liga Tripa vai apresentar sua música feita de lirismo, crítica social e irreverência, no Clube do Choro, no próximo dia 9, sábado. Por incrível que pareça, há gente em Brasília, ligada em música, que não conhece o Liga Tripa. Mas quem conhece quer ouvi-los de novo, e não há público mais fiel, assim como não há música mais tipicamente brasiliense.

O Clube do Choro fica próximo ao Centro de Convenções de Brasília, no meio do gramado que separa as duas pistas do Eixo Monumental. É um espaço informal, descontraído, totalmente adequado a uma apresentação do Liga Tripa, que costuma arrastar o público pelos gramados e avenidas depois de descer do palco.

Já lá se vão mais de 25 anos que o Liga Tripa emitiu seus primeiros acordes nos gramados brasilienses. Misturando influências do baião, do frevo, do samba e outros ritmos desse Brasil adentro, Aldo Justo e sua trupe criaram um ritmo - a "ligada" - que não poderia ter surgido em outra cidade. Na formação atual, Sérgio Duboc, Toninho Alves, Carrapa, Fino e Caloro completam o grupo, com violões, flautas, cavaquinho, percussão e o "negão" - um contrabaixo monocórdio de origem africana que é uma das atrações do Liga.

O grupo já se apresentou em diversas capitais brasileiras e em cidades da Nicarágua, onde representou o Brasil no V Encuentro Iberoamericano de la Cultura.

Portanto, para não esquecer: Liga Tripa no Clube do Choro, dia 9, sábado, às 21h30. Ingressos a R$ 10 e R$ 5.

A palavra

palavra deu a natureza por origem a cabeça da áspera artéria, o ar por corpo, a língua por mãe, e a boca por berço, mas com tão instantâneo descanso que apenas nascida voa, e com tão breve vida, que logo nos ouvidos dos circunstantes se sepulta. Porém não acaba a palavra quando morre, porque ainda que metida na tortuosa sepultura do ouvido, com o osso petroso por campa, e com várias membranas por mortalhas, e quase perdida nos ocultos meatos da parte que os Anatomistas chamam de Labirinto, alentada com o impulso e comoção do ar implantado, acha a palavra abertas as válvulas, ou pequenas portas, por onde passam as espécies de som para o nervo auditório, e dele para os ventrículos do cérebro, onde estão depositados os tesouros da memória; e por este modo fica a palavra na impressão da sua própria espécie, epitáfio de si mesma, sombra da voz e cadáver da locução, até que chegue a lograr outra vida, quando, suscitada da reminiscência, torna a sair da boca ou da pena dos Escritores, e sucessivamente atada a outras com o fio do discurso, participa, com a doutrina dos sábios, nas obras da eloqüência."
Padre Rafael Bluteau (1638-1734), uma das grandes figuras do Iluminismo português.

Bruna Surfistinha, musa da UFRJ


Bruna Surfistinha, aquela garota de programa que trocou a "vida fácil" pela vida mais fácil ainda de escritora, parece ter conquistado o coração dos professores do Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O NCE, além de "desenvolver os sistemas que gerenciam a vida acadêmica e administrativa da universidade", responsabiliza-se pela elaboração, aplicação e correção de provas de concursos públicos. Foram eles que organizaram as provas do mais recente concurso da Agência Nacional da Aviação Civil (ANAC). Em uma dessas provas, nível técnico, o candidato precisava entender de Bruna Surfistinha para responder a uma pergunta. Se nossa elite intelectual está ligada numa ex-prostituta que virou best-seller, como censurar quem deixa de ler outros livros para ler a história dela? Não que este escriba tenha alguma coisa contra prostitutas ou ex-prostitutas - tem, apenas, contra subliteraturas, quaisquer que sejam. Bem, os intelectuais da UFRJ devem ter algum argumento a favor. Mas que estão ligados nos "grandes" temas da atualidade, não há dúvida. Tanto que a pergunta seguinte da mesma prova diz respeito ao tal de Big Brother Brasil. Assim os intelectuais testam os "conhecimentos gerais" da patuléia. É bom saber. A partir de agora, para se sair bem nessa área, talvez seja melhor que os candidatos, em vez de acompanhar os grandes acontecimentos do Brasil e do mundo, passem a ler Caras e a ligar a TV no Faustão, nas novelas e no Fantástico. Boa sorte a todos.

Drummond em Itabira?

A prefeitura da cidade mineira de Itabira anuncia a volta de seu filho mais ilustre, Carlos Drummond de Andrade, 87 anos depois de se estabelecer em Belo Horizonte e 73 anos após sua mudança para o Rio de Janeiro. O prefeito João Izael Querino Coelho propõe o traslado dos restos mortais do poeta para um memorial a se construir na cidade. De acordo com matéria publicada no mês passado no jornal O Cometa Itabirano (n. 315), o neto do poeta, Pedro Augusto Graña Drummond, responsável legal pela obra e imagem do avô, está aberto à negociação.

Drummond não freqüentava Itabira e manifestou sua vontade de ser sepultado no Rio, onde seus restos descansam ao lado dos da filha, Maria Julieta, no Cemitério São João Batista. Sua cidade natal também não o cultuava muito - dizia-se, quando vivo, que poucos itabiranos sabiam quem ele era.

A prefeitura parece estar preparando um roteiro turístico fúnebre. Deixem os restos de Drummond em paz, onde ele queria que ficassem, e preservem sua memória com um centro de estudos e pesquisas, um museu vivo, onde sua obra, seu pensamento, seu acervo e suas fontes de inspiração possam ser melhor conhecidos. A imagem de Drummond está totalmente integrada ao Rio, ainda que em sua voz soe o espírito de Minas. Que esse espírito lance sobre a administração itabirana seu claro raio ordenador.

Deu no jornal

"O poeta Alexandre Marino, mineiro radicado em Brasília, é um incansável batalhador pela literatura brasileira, nas mais diversas frentes. Autor de quatro livro de poesia — o último deles Arqueolhar, pela LGE, em 2005 —, acaba de lançar um novo projeto: o volume Poemas por amor, por sua Varanda Edições (80 páginas). (...) São 31 poemas escritos nos últimos 10 anos, todos dedicados a sua mulher, todos possuidores de forte veia lírica. O sentimento amoroso, para Marino, compõe com qualquer tema, seja o futebol, seja uma gripe, seja o ato de descascar uma laranja. Na poética do autor, palavras e imagens servem ao poema com naturalidade, sem afetação. O resultado envolve e comove, como só o sentimento amoroso verdadeiro é capaz."

Simpáticas palavras de Clara Arreguy no caderno Pensar do Correio Braziliense deste sábado, 21 de abril, sobre o novo livro deste escriba.

Poemas por amor

Poesia para celebrar o amor - este é o propósito de Poemas por amor, volume que reúne versos escritos ao longo dos últimos 10 anos por este escriba. É um livro especial, todo dedicado a Nádia, musa e companheira, e terá uma trajetória fora do convencional. Não irá para as livrarias - o autor fará com que chegue às mãos dos bons leitores. Alguns já o receberam. Outros o receberão em breve. O poeta espera apenas que "abra-se este livro com reverência", como pede Anderson Braga Horta no texto da contracapa. Boa leitura!

Homenagem sim, mas...

O poeta Fernando Mendes Vianna, falecido em setembro do ano passado, será homenageado pela Secretaria de Cultura do DF na próxima quinta-feira, 5, às 19h, no auditório da Biblioteca Nacional de Brasília.

Fernando merece todas as homenagens que lhe fizerem. Poeta de alta estirpe, original, erudito, grande amigo, figura iluminada. Autor de obra extensa, expressiva, traduzida para vários idiomas, saiu do Rio de Janeiro e veio morar em Brasília na década de 60. Seu último livro foi Rosa Anfractuosa, publicado pela Thesaurus.

Homenagear Fernando, isso está certo. O que está errado é marcar essa homenagem para esta quinta-feira, véspera de sexta-feira da Paixão, data que, por razões óbvias, é inadequada para qualquer evento, ainda mais uma homenagem a um poeta. Outro fato estranho é que os convites estão circulando entre amigos de Fernando, mas não há qualquer informação oficial no sítio da Secretaria de Cultura.

Além disso, a Biblioteca Nacional de Brasília é um prédio oco - quatro meses após sua "inauguração", não possui qualquer acervo, absolutamente nenhum livro. Foi mandada construir por um político semi-analfabeto, o ex-governador Joaquim Roriz, e inaugurada por um indivíduo que detesta livros, o presidente Lula. Embora seu projeto seja de um gênio da arquitetura, Oscar Niemeyer, dizem que o prédio é inadequado para o fim proposto, devido à incidência do sol. Bem, quanto mais demorarem a colocar esse prédio para funcionar, mais disse-me-disse.

Duas notícias

1) Desde 2002, o jornalista e poeta baiano (radicado em São Paulo) Carlos Machado distribui, via e-mail, o Poesia.net, um interessante boletim semanal em que divulga poemas e seus autores. O Poesia.net 201, que circula a partir de hoje, é dedicado a este escriba. Alguns poemas de Arqueolhar, meu livro lançado em 2005, estão nos monitores de mais de 2 mil internautas que recebem o boletim. É um trabalho feito por amor à poesia, que pode ser melhor conhecido no site Ave, Palavra, que guarda as 201 edições já distribuídas.

2) O jornalista e escritor Galeno Amorim acaba de inaugurar seu blog, com o claro objetivo de "contribuir para que o papel da leitura na vida das pessoas seja algo cada vez mais claro e também mais presente no imaginário coletivo". Para buscar esse nobre propósito, ele se propõe a contar, semanalmente, novas histórias de personagens, anônimos ou não, que modificaram suas perspectivas de vida graças aos livros e à leitura. E conclama os militantes da causa a dividir com ele a tarefa. É visita indispensável. Conheça!

14 de março, Dia Nacional da Poesia


Entre as nuvens, Castro Alves declama para os anjos.
O jovem poeta faz hoje 160 anos de idade,
e continua nos fazendo chorar.

Adormecida













Uma noite, eu me lembro... Ela dormia
Numa rede encostada molemente...
Quase aberto o roupão... solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.


'Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina...
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos - beijá-la.

Era um quadro celeste!... A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia....
Quando ela serenava... a flor beijava-a...
Quando ela ia beijar-lhe... a flor fugia...

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças...
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se...
Mas quando a via despeitada a meio,
P'ra não zangá-la... sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio...

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
"Ó flor! - tu és a virgem das campinas!
"Virgem! - tu és a flor da minha vida!..."


Castro Alves, 1868

Na capital do Brasil, é proibido entrar na Biblioteca

Quem tenta visitar a Biblioteca Nacional de Brasília, inaugurada com toda a pompa pelo presidente Lula em dezembro, esbarra em dois policiais militares que guardam a porta do edifício. É proibido. Só é possível conhecer uma pequena sala à esquerda da entrada, onde está montada uma desinteressante exposição de fotografias pertencente ao Arquivo Público do DF.

A Biblioteca Nacional, edifício de cinco pavimentos, com 11.500 metros quadrados, está literalmente vazia, três meses depois de sua inauguração e suposta abertura ao público. Deverá contar com um acervo de 500 mil volumes. Teoricamente - porque nenhuma autoridade se dispõe a informar de onde virá esse acervo, quando virá, se virá. Enquanto isso, o secretário de Cultura do DF, Silvestre Gorgulho, a quem cabe (também teoricamente) a administração da Biblioteca, discute com o Ministério da Cultura um projeto comum para "tornar Brasília a capital cultural do Brasil" e com o Ministério da Ciência e Tecnologia a criação de um acervo digital.

Emir Suaiden, diretor do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), instituição vinculada ao Ministério, já deu uma aula aos 16 secretários do GDF sobre a futura (?) Biblioteca Nacional Digital, um projeto que, segundo ele, "viabiliza a implantação de um centro de inclusão social numa biblioteca onde o virtual, o digital e o bibliográfico funcionarão em harmonia".

Enquanto as autoridades discutem idéias e propostas, o elefante branco dorme. O edifício faz parte do Complexo Cultural da República, que custou R$ 110 milhões ao Governo do Distrito Federal. O outro edifício, inaugurado no mesmo dia, é o Museu da República. Segundo o governo local, sua missão é incluir a cidade no circuito nacional e internacional de exposições. Conta com sistema de climatização e dois auditórios, além de salas para restauração de obras e laboratórios. Por enquanto, está ocupado com uma exposição de fotos de projetos do arquiteto Oscar Niemeyer ao redor do mundo.

O Complexo faz parte do projeto original de Brasília, de autoria de Niemeyer, e ocupa a ala sul da Esplanada dos Ministérios, próximo à Catedral Metropolitana. A ala norte ainda está vazia, o que por enquanto não faz grande diferença.

Na estrada virtual

Além de grande músico, que já registrou seu nome na história da MPB, Luís Carlos Sá é um ótimo contador de histórias. Esse perfil pode ser conhecido no blog Cadernos de Viagem, que ele acaba de lançar na net. Se sua ficha ainda não caiu, ele é co-autor de sucessos inesquecíveis como Sobradinho, Dona, Primeira Canção da Estrada, Mestre Jonas e tantos outros, ao lado dos parceiros Guarabyra e Zé Rodrix. Ele também é jornalista e participou de pelo menos um grande momento do jornalismo brasileiro, o jornal Sol, dirigido por Reynaldo Jardim no final da década de 60, que deu origem a um verso clássico de Caetano Veloso - "o Sol nas bancas de revista / me enche de alegria e preguiça / quem lê tanta notícia". O blog Cadernos de Viagem é visita obrigatória e vai para a seleção de linques deste minifúndio. Bem-vindo à blogosfera, Sá!

Presente para os argentinos

Cerca de cem livros de escritores que vivem em Brasília serão doados a três bibliotecas argentinas pelo escritor Ronaldo Cagiano. Arqueolhar, quarto volume de poemas deste escriba, está entre eles. Ronaldo visita na próxima semana a Biblioteca da Universidade Nacional da província de Catamarca, e posteriormente vai a Buenos Aires, onde também deixará exemplares na Biblioteca Nacional e na universidade local. Cagiano, que tem mantido um saudável intercâmbio com escritores portenhos, observou que a literatura brasileira não marca presença na Argentina. "Nas livrarias, só se vê obras de Paulo Coelho", diz ele. Os livros que Cagiano entregará às bibliotecas daquele país foram doados pelos próprios autores. Essa iniciativa antecede outra boa idéia que Ronaldo colocará em prática ainda este ano: a publicação de uma antologia poética bilíngüe, reunindo escritores brasileiros e argentinos.

Poemas por amor

Abra-se este livro com reverência:
são poemas de amor da mais comovente delicadeza.
Queria comentá-los com o leitor,
mas percebo que não é preciso, nem seria conveniente.
Este livro fala e se diz por si mesmo,
em versos de um amor além do tempo e do espaço,
mão do Poeta levemente pousada
no ombro da Amada.
Ah! o poema que se esconde nos olhos dela,
as palavras aninhadas ao redor de seu silêncio
luminoso!
Este é o livro do amor que desaprende a língua dos homens
para que o trôpego coração diga as palavras
impronunciáveis.
A nós, leitores, a graça de ouvi-las
e entendê-las.

Texto de Anderson Braga Horta
para a contracapa de meu livro
Poemas por amor,
saindo do forno.

A biblioteca do futuro [2]

O jornalista Mário Salimon participou da 14a. Reunião Interamericana de Bibliotecários, Documentaristas e Profissionais da Informação, na Universidade Autônoma do México, em 2006. A tônica das discussões foi o valor das bibliotecas no futuro. Salimon conta que as principais conclusões foram as seguintes:
1) Biblioteca tem que ter livros. Os repositórios organizados de arquivos digitais, que incluem áudio, fotografia e vídeo, são Infotecas;
2) os profissionais das bibliotecas devem sair da postura passiva de esperar que alguém os procure para buscar formas de compilar referências condizentes com as necessidades estratégicas da sociedade;
3) As pessoas, incluindo os acadêmicos, estão se acostumando a buscar informação no Google sem maior preocupação com validade e consistência do material encontrado.

O escritor Ezio Flavio Bazzo aproveitou para reclamar da redução do horário de funcionamento da Biblioteca Demonstrativa de Brasília, estabelecida por "ordens superiores", segundo ele - medida publicada no Diário Oficial. Ezio observa que o Ministério da Cultura deveria formular políticas públicas de incentivo à leitura e abertura de bibliotecas, viabilizando seu funcionamento 24 horas por dia. A Biblioteca do Congresso argentino, compara ele, fica aberta até de madrugada e ainda serve sopas para os mendigos.

Pois é, nenhum sinal de civilização à vista.

A biblioteca do futuro

Em entrevista à Rádio CBN (terça, 16), o novo secretário de Cultura do DF, Silvestre Gorgulho, declarou que pretende fazer da Biblioteca Nacional de Brasília a "biblioteca do Século XXI". Para quem não sabe, a citada biblioteca, recentemente inaugurada sem qualquer livro em seu interior, compõe, ao lado do Museu, o conjunto Cultural da República.

Mas o que seria a "biblioteca do Século XXI"? O próprio secretário explicou que é aquela em que os livros de papel não são tão necessários, e que o importante é o acervo digitalizado. Bem, foi uma explicação lacônica, e este escriba, que ouvia atentamente a entrevista, também achou que entendera mal.

Brasília tem 20 bibliotecas públicas administradas pelo Governo local, espalhadas pelo Plano Piloto e cidades satélites. Assim como a grande maioria das bibliotecas brasileiras, elas estão muito mais próximas da Idade Média que do Século XXI (no qual, é bom lembrar, já estamos vivendo). Logo, estão atrasadíssimas, assim como a Biblioteca Nacional de Brasília, que começou muito mal, pois foi construída sem qualquer planejamento para o seu acervo.

O secretário de Cultura, jornalista e ambientalista respeitado, não deve ter freqüentado muitas bibliotecas em sua vida, até porque o poder público brasileiro nunca entendeu o verdadeiro valor de uma boa biblioteca, artigo em falta no País. Gorgulho deve acreditar, assim como acreditam alguns profetas do apocalipse, que o livro de papel está condenado ao fim, e o futuro pertence ao livro eletrônico.

Os estudiosos do assunto não concordam. Nem os escritores, nem os pesquisadores, nem os grandes leitores. Não vou citá-los para não trazer essa discussão para este texto, que não é o caso. O livro é um objeto vivo, e o suporte papel mantém com o leitor um vínculo sensorial, que as luzes frias da tela do computador jamais substituirão. Folhear um livro antes ou durante a leitura, correr os olhos pelo texto impresso no papel, segurar o livro e virar uma página são atividades insubstituíveis pela tecnologia eletrônica.

Portanto, uma biblioteca de verdade é composta de livros de papel, sejam os livros novos, as obras raras, os periódicos, documentos diversos. Isso é História. O arquivo eletrônico não tem essa capacidade de registrar a História, porque é virtual, fugaz, efêmero.

Para que a Biblioteca Nacional de Brasília se transforme na biblioteca do Século XXI, deve ser administrada como nenhuma biblioteca do DF jamais foi, e possivelmente nenhuma biblioteca pública brasileira. Deve ser planejada, catalogada, enriquecida diariamente com livros e documentos. Deve ter, por exemplo, publicações históricas, que contem a história do Brasil, a história da cidade, em mínimos detalhes; deve estabelecer critérios racionais de atualização do acervo, de forma que receba todos os livros publicados no País, ou pelo menos grande parte deles; deve ter uma seção de obras raras; uma seção de publicações que dêem uma idéia da formação cultural de Brasília, mas também do Brasil. Deve ter uma coleção de todos os jornais que já foram publicados em Brasília desde a inauguração da cidade, e se isso não for possível, aí sim, os arquivos eletrônicos serão fundamentais.

E todo esse material deve ser enriquecido permanentemente, e cuidadosamente catalogado e administrado. O leitor deve ter acesso a cada novo livro divulgado pela imprensa, e para isso o órgão administrador não deve mendigá-lo à editora; deve comprá-lo, ainda que por um preço especial.

Além de tudo isso, é claro, a Biblioteca deverá possuir espaços adequados e confortáveis para leitura e estudo, suficientes para um grande público. Deve ter, sim, computadores ligados à internet, com conexão rápida, e ligados também a seu acervo digital.

Mas como será a aquisição desse acervo? Esta é a grande pergunta que ninguém respondeu, e foi lançada inúmeras vezes, desde que se lançou também a pedra fundamental da obra. Então, que o secretário a responda. O Depósito Legal, que recolhe exemplares de todos os livros publicados no Brasil, funciona para a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Para funcionar também para a nossa, teria que haver uma nova lei, ou uma alteração na atual. E no entanto, resolveria o problema das publicações futuras, mas não as do passado. E os periódicos? E os documentos históricos?

Seria interessante colocar o tema em discussão em Brasília. Para você, o que seria a "Biblioteca do Século XXI"? Pensemos sobre o assunto.