OS SUBTERRÂNEOS DA PRAÇA


Apesar de Oscar Niemeyer ter desistido de impor a Brasília a sua Praça da Soberania (veja postagem anterior), "ao menos provisoriamente", a população da cidade precisa refletir sobre esse episódio e lembrar-se de algumas coisas.

DESTRUIÇÃO CIVIL
O governador José Roberto Arruda governa em nome das grandes construtoras, que vêem em Brasília uma mina de ouro e não estão preocupadas com a qualidade de vida da população. Seu governo planeja a construção de grande número de setores habitacionais, uma verdadeira invasão de áreas verdes e de mananciais. Os monumentos também satisfazem a fome das construtoras.

O SONHO DA ESTÁTUA
A idéia da praça nasceu de uma sugestão do presidente Lula, que deseja a construção, em Brasília, de um local “para abrigar a memória da República brasileira”. Esse local estava previsto no projeto de Niemeyer. “Um prédio baixo, em curvas e pilotis, dedicado à memória dos presidentes da República”, descreveu o arquiteto, segundo matéria do Correio Braziliense de 10 de janeiro. Lula, o messias, pretende virar estátua.

PROPRIEDADE PRIVADA
Oscar Niemeyer, que se diz comunista, é aliado de todos os poderosos que passam pelos palácios do Planalto ou do Buriti. Aos 101 anos, do alto de seu escritório que dá frente para o mar de Copacabana, ele se considera legítimo proprietário de Brasília, mais do que as pessoas que vivem e padecem dos problemas urbanos na capital federal.

REJEIÇÃO AO PROJETO
A desistência foi anunciada em manchete pelo Correio Braziliense, na edição de 4 de fevereiro.Uma enquete realizada pelo jornal, com 4.066 internautas, indicou a rejeição da proposta por 75,87% dos votantes.

Se a população de Brasília não estiver mobilizada, é possível que Lula, Arruda e Niemeyer estejam apenas aguardando a hora certa de nos enfiar essa aberração pela goela abaixo.


[A foto de Niemeyer foi tomada emprestada do sítio Debatedouro]

ARQUITETURA DO ESTORVO

Toda a população de Brasília reconhece a genialidade de Oscar Niemeyer e a importância de suas obras arquitetônicas. Mas isso não a obriga a engolir, sem um debate, sem qualquer discussão, projetos que agridem não apenas os conceitos sobre os quais se pensou Brasília, como o próprio bom senso. Niemeyer propõe a construção da Praça da Soberania, no gramado central da Esplanada, próximo à rodoviária. Propor é força de expressão; na verdade, Niemeyer, apoiado na fama e nos funcionários de seu escritório, impõe. E Brasília que aceite.

ESPANTO
“Toda capital deve ter uma praça aonde o povo chega e se espanta”, disse Niemeyer, ao justificar a “necessidade” de construção da praça. Na referência a esse projeto, o verbo “espantar” deveria ser lido no sentido de “rejeitar”, e não de “admirar”, como supõe-se que o arquiteto usou. A principal característica desse projeto é a aridez. Uma praça que não tem um gramado, uma única árvore, um único espaço acolhedor, vai espantar o povo para longe.

CONJUNTO CULTURAL
Veja-se o exemplo da mais recente obra de Niemeyer inaugurada em Brasília, o Conjunto Cultural da República. O amplo espaço que se estende desde a Catedral até a rodoviária é inóspito como um deserto. Ou se caminha debaixo de um sol abrasador, ou debaixo de chuva. Não há um abrigo, um local que convide o passante a uma parada para admirar a paisagem. É desagregador. O contrário do que deveria ser um espaço que reúne um museu e uma biblioteca.

INADEQUAÇÃO
Visto em fotografia, o Conjunto pode até atrair admiração, apesar das controvérsias. Mesmo assim, é questionável, por oprimir a imagem da Catedral, esta sim uma obra-prima. Além disso, é falho na funcionalidade: o Museu é uma enorme bola de concreto e no seu interior não entra um único raio da intensa luz natural disponível em Brasília, obrigando o dispêndio permanente de energia com iluminação artificial. Já a Biblioteca abre-se toda para o sol, tanto do lado leste quanto do oeste, inviabilizando a armazenagem de livros. Não foi à toa que a Secretaria de Cultura já gastou R$ 6,5 milhões para a sua readaptação, e muitos problemas permanecem. É um prédio totalmente inadequado para as funções às quais se destina.

TOMBAMENTO
Em artigo no Correio Braziliense, o arquiteto ditador de Brasília argumenta, em defesa de seu projeto, que em Paris, “se seu plano urbanístico original fosse mantido, não existiriam nem os Champs Elysées nem o Arco do Triunfo”. O que é isso? Niemeyer defende agora a agressão ao plano urbanístico de Brasília, feito por Lúcio Costa? Parece que sim. Mais à frente, ele diz que, no Rio de Janeiro, o prefeito Pereira Passos derrubou morros e prédios para abrir grande avenida, “uma solução que uma cidade tombada não permitiria”. A julgar por sua argumentação, Niemeyer agora combate o tombamento de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade, um título que salva a cidade da ganância imobiliária.

NATUREZA
Os grandes arquitetos souberam e sabem integrar suas obras à natureza, como o próprio Niemeyer fez, por exemplo, no Palácio do Itamaraty e no Palácio da Alvorada. Mas, tanto no Conjunto Cultural quanto no projeto da Praça, ele parece ter a natureza como um estorvo, como inimiga. A natureza deve ser extirpada, para que, a distância, sua obra apareça livre e bela, como desenhada sobre o papel. Nem que para isso seja necessário espantar o povo...

ABERRAÇÃO
Niemeyer, aos 101 anos, goza de boa saúde e está muito ativo. Tem aparecido constantemente na imprensa, onde seus artigos defendem idéias cada vez mais estapafúrdias. Recentemente, na Folha de S. Paulo escreveu uma exaltação a Stalin, glorificando um dos grandes criminosos do século XX. Se apenas defendesse idéias que as pessoas já não levam a sério, faria menos mal. Mas impor essa aberração arquitetônica a Brasília, com a conivência do governador, chega a ser covardia.


[A ilustração deste texto foi tomada emprestada ao Correio Braziliense]

SURPRESA

O I Palavra Solta, realizado nesta sexta-feira, 23, além do bom público que lotou o Café Martinica, teve um espectador ilustre: o advogado Antônio Manuel Bandeira, sobrinho-neto de Manuel Bandeira, o poeta homenageado da noite. Antônio Manuel, funcionário da Advocacia Geral da União, vive em Brasília e se dedica a preservar a memória do tio-avô e a estudar a sua obra. A presença de Antônio Manuel foi uma bela surpresa para os poetas que se apresentaram no Palavra Solta. Aí está ele na foto, com Luís Turiba (direita) e este escriba (esquerda).

NOITE DE POESIA

Foi uma bela noite de poesia a I Palavra Solta, evento realizado na última sexta-feira, 23, no Café Martinica. Oito poetas apresentaram trabalhos autorais e homenagearam Manuel Bandeira, lendo alguns de seus poemas. O público ocupou todas as mesas disponíveis, e nem mesmo a chuva que caiu antes e durante prejudicou o evento.

O Palavra Solta será realizado uma vez por mês, sempre numa sexta-feira, com duração média de uma hora, e a cada edição homenageará um poeta clássico brasileiro. O Café Martinica abre suas portas para a poesia, dando prosseguimento a uma iniciativa que teve excelente resposta de público durante a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, realizada em setembro do ano passado.

Participaram desta primeira edição: Angélica Torres, Ariosto Teixeira, Carla Andrade, Fernando Marques, Ivan Sérgio, Luís Turiba e Paulo José Cunha, além deste autor que lhes escreve, que também faz a coordenação do evento.

PALAVRA SOLTA

O I Palavra Solta acontece na próxima sexta-feira, 23, nos jardins do Café Martinica, em Brasília. Será um evento poético mensal, e reunirá de seis a oito poetas, que falarão poemas de sua autoria e de um autor brasileiro consagrado. Nesta primeira edição do Palavra Solta, o homenageado será Manuel Bandeira.

O Palavra Solta terá início às 21h e duração de uma hora. É o primeiro "filhote" da Bienal Internacional de Poesia de Brasília, realizada em setembro. Segue os mesmos moldes do Poemação, que aconteceu em vários bares e cafés da cidade dentro da programação oficial da Bienal, com boa resposta do público.

Participam desta primeira edição Angélica Torres, Ivan Sérgio, Paulo José Cunha, Ariosto Teixeira e este escriba, que fará a coordenação (na seqüência da foto), além de Carla Andrade, Fernando Marques e Luís Turiba. Todos os meses haverá poetas convidados, mas o microfone não será aberto ao final das apresentações.

O Café Martinica fica na comercial da 303 norte, bloco A. O palco será montado nos jardins do café, ou, em caso de previsão de chuva, sob a marquise do bloco.

LIVROS NOVOS PARA COMUNIDADES CARENTES

Uma grande e louvável idéia do escritor Wilson Rossato: um projeto de inclusão cultural, com o objetivo de valorizar o livro e a leitura em comunidades carentes do Distrito Federal. O personagem principal do projeto é seu livro O DJ e as Armas Proibidas, publicado com o patrocínio do Fundo da Arte e Cultura (FAC), do governo do Distrito Federal. Rossato vai promover lançamentos de seu livro em escolas, entidades, bibliotecas, clubes de serviço e outras instituições de locais desassistidos, como Estrutural, Varjão, Itapoã e também no Centro de Atendimento Juvenil Especializado (Caje), que recolhe adolescentes infratores. Cada exemplar será vendido a R$ 1,00. "Aposto que muitos garotos vão ter, pela primeira vez na vida, um livro novo, saído da gráfica para suas mãos, e não livro usado, de segunda mão. Acho isso importante", comenta Rossato.

O primeiro lançamento do livro será neste sábado, 6 de dezembro, a partir de 10h da manhã, na Casa de Ismael, entidade assistencial sem fins lucrativos que abriga crianças órfãs. Fica na 914 Norte, local de fácil acesso para o público brasiliense que costumeiramente comparece a lançamentos literários. Como o preço do livro é simbólico, Rossato propõe que o comprador pague cinco e leve dois ou três, contribuindo, assim, para a distribuição gratuita de exemplares para os meninos da Casa de Ismael e do Caje. Depois desse lançamento, ele fará uma série de outros em comunidades carentes, até esgotar a edição.

Parabéns ao Rossato, e que seu gesto inspire outras iniciativas semelhantes.

UMA LIVRARIA SÓ DE POESIA


A boa notícia desta semana vem de Portugal. Mais precisamente do Bairro Alto, de Lisboa, onde se localiza a livraria Poesia Incompleta. Além de boa, a notícia é inusitada: trata-se de uma livraria dedicada exclusivamente à poesia, que se propõe a vender livros novos, raros e esgotados em mais de 20 línguas. Um espaço pequeno e aconchegante, como se vê na foto cedida pela jornalista e blogueira Sara Matos.

O proprietário da livraria, Mário Guerra, partiu de uma lógica simples: a grande quantidade de poetas, e conseqüentemente de poesia, que existe em Portugal. Segundo Mário, seu objetivo é reunir a mais alta produção poética portuguesa e estrangeira.

Torçamos para que, apesar de suas características anti-mercantis, a poesia e seu público cativo façam dessa iniciativa um sucesso. A Poesia Incompleta fica na Rua Cecílio de Sousa n. 11, entre a zona do Príncipe Real e a Praça das Flores.

Quem não puder comparecer à livraria, pode ser atendido pela internet. E aproveite para visitar o blog de Sara Matos, que nos permitiu conhecer a loja, localizada a um oceano de distância.

ENFIM, UMA GRANDE NOTÍCIA

O Diário Oficial da União de ontem, 17/11, publicou na Seção 1, página 28, os classificados do Programa de Bolsas de Estímulo à Criação Artística, e este autor que lhes escreve é um dos selecionados. Isso significa que a Funarte vai patrocinar durante seis meses o meu trabalho de criação de um livro de poemas, cujo título, ainda provisório, é Exília. O projeto foi inscrito sob o número 306. A Funarte vai distribuir 10 bolsas para criação literária, duas para cada região do país.

O Centro-Oeste teve 27 projetos, dos quais também foi selecionado o de Jamesson Buarque de Souza, de Goiás, como o título Outra Tróia. Além de criação literária, serão distribuídas bolsas para dramaturgia, música (erudita e popular), artes visuais e fotografia, além de produção crítica em diversas áreas. Esclareço aos polemistas que cumpri todas as exigências do edital e não tenho a menor idéia dos nomes dos jurados.

O Programa de Bolsas de Estímulo à Criação Artística foi lançado pela Funarte no ano passado.
No Brasil, receber uma bolsa para desenvolver um projeto artístico, ainda mais um livro de poesia, é um privilégio. Outra iniciativa semelhante é o Programa Petrobras Cultural, que está com inscrições abertas. Não vamos nos esquecer de que a criação de programas desse tipo foi uma das propostas do Movimento Literatura Urgente apresentadas ao então ministro da Cultura, Gilberto Gil, em novembro de 2004, no documento "Temos fome de literatura", assinado por centenas de escritores brasileiros.

ORGULHO E VERGONHA

A senhora sorridente da foto levará desta vida um orgulho e uma vergonha. O orgulho é por ser filha de um dos maiores escritores brasileiros, João de Guimarães Rosa. A vergonha é por ter solicitado à Justiça a proibição de um livro, inspirada, quem sabe, nos truculentos censores da ditadura militar, de triste memória. Pior, essa sorridente senhora, que se apresenta como Wilma Guimarães Rosa, tenta retirar de circulação o livro Sinfonia Minas Gerais: a vida e a literatura de João Guimarães Rosa, biografia escrita por Alaor Barbosa e publicada pela LGE Editora, de Brasília.

O fato que leva D. Wilma a orgulhar-se independe de suas ações. Ela é filha dele por força da natureza, e o pai foi grande escritor por força dos méritos dele. Quando, além de grande escritor, se tornou um herói, durante a segunda guerra mundial, trabalhando como diplomata e salvando a vida de milhares de judeus, Guimarães já vivia outro casamento e construíra outra família.

Já o fato que a marcará para sempre com a mancha da vergonha foi fruto de seu gesto consciente e deliberado. Ela moveu uma ação contra a LGE e Alaor Barbosa, pedindo à justiça que o livro seja retirado de circulação. Sua parceira nesse ato de censura, pasmem, é a Editora Nova Fronteira, uma casa publicadora de livros.

Ambas alegam incorreções e inverdades na obra de Barbosa, mas a verdade é cristalina: o interesse é comercial. Um livro escrito há tempos por Wilma Guimarães Rosa, Relembramentos, será reeditado pela Nova Fronteira. "Escrito" é força de expressão: o livro é apenas uma coleção de documentos, fotografias, bilhetes. A obra de Alaor Barbosa poderia prejudicar sua venda.

Wilma disse ao jornal Folha de S. Paulo que Alaor Barbosa nunca foi amigo de seu pai, contestando os encontros freqüentes entre os dois, na década de 50, narrados na biografia. Além disso, Wilma chamou Alaor de "vigarista", que, segundo ela, "se aproxima de gente importante para ganhar dinheiro".

Wilma cometeu crimes de calúnia, injúria e difamação. Mas Alaor Barbosa não vai processá-la. "Não quero incorporar à minha biografia a autoria de uma ação penal contra uma anciã que a experiência de quase 80 anos de vida não livrou de tremenda incontinência verbal morbidamente compulsiva", explicou ele.

Ao tomar conhecimento da ação de Wilma contra o livro, a LGE Editora se adiantou e o retirou das livrarias, contestando a ação em seguida. Por mais inconsistentes que sejam as razões de Wilma Guimarães Rosa e infrutífera a sua ação, é triste que um País que tanto lutou contra a censura assista agora, em pleno século XXI, tal gesto obscurantista da filha de Guimarães Rosa.

NOVOS LIVROS EM BRASÍLIA

Nesta terça-feira, 14 de outubro, o poeta Ésio Macedo Ribeiro lança Estranhos Próximos, no Rayuela (CLS 412), a partir das 19h.

Na quinta-feira, 16 de outubro, Mário Araújo lança o livro de contos Restos, na Livraria Dom Quixote do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a partir das 19h30. Haverá um bate-papo com o jornalista Sérgio de Sá. É interessante conhecer o que Millôr Fernandes escreveu sobre o livro: "Os contos do escritor paranaense são observações angustiantes do mundo que vivemos. Estilisticamente imprecisos em sua estonteante imprecisão. Mário é um escritor perigoso."

POESIA CENSURADA

A imprensa tem noticiado nos últimos dias a demissão, pela Escola Parque do Rio de Janeiro, do professor de literatura Oswaldo Martins, dedicado mestre que lecionava para as turmas de sétima e oitava séries do Fundamental. Martins é poeta. Tem quatro livros de poesia publicados pela editora carioca 7 Letras. O mais recente é Cosmologia do Impreciso, de 2008.

A Escola Parque é uma escola de classe média alta, que segundo a Folha de S. Paulo, cobrava mensalidade de R$ 1.161 dos alunos de suas unidades da Barra da Tijuca e da Gávea. O slogan da instituição: "Uma escola que estimula a expansão cultural."

Por que Oswaldo Martins foi demitido? Alguns pais de alunos "descobriram" que ele escreve poemas eróticos e pediram sua cabeça. Como se escrever poemas eróticos fosse uma atividade ilegal, criminosa, a escola atendeu ao pedido.

Oswaldo Martins é formado em letras pela PUC, mestre pela Universidade Estadual do Rio, com a dissertação Erotismo e gramática, índices da defloração - uma leitura de Manoel de Barros. Na Universidade Federal Fluminense, prepara doutorado com tese sobre o poeta italiano Pietro Aretino (1492-1556), conhecido autor de poesia erótica.

A Escola Parque promoveu em setembro uma semana literária. Martins foi convidado a comentar seu processo de escrita. Depois de ouvi-lo falar de sua paixão pela literatura, os estudantes foram à internet e descobriram seu blog, onde publica alguns de seus poemas. Não durou muito para que o pedido de demissão chegasse à escola. No dia 11 de setembro, foi demitido.

A hipocrisia da direção da escola e dos pais de alunos é incomensurável. Ou será que pensam mesmo que jovens de 14, 15 anos não sabem o que é sexo e não pensam no assunto? Será que vão proibi-los de ler Capitães de Areia, de Jorge Amado?

Sexo faz bem à saúde e derruba máscaras. Que Oswaldo Martins possa, agora, escrever seus poemas em paz.

A VELHA SENHORA ABENÇOA A CIDADE

É uma velha senhora, uma avó centenária, com seus longos braços abertos para o aconchego dos netos. Enorme, como se fosse gorda, oferece colo e conforto. A longa cabeleira redonda toma conta da praça, de uma rua a outra. Na verdade não é uma cabeleira, é uma copa, e não são cabelos, são folhas. É uma árvore, mas tem nome de mulher e, mais que isso, de santa: Árvore de Santa Bárbara. Não tem certidão de nascimento, mas há registros que lhe asseguram muito mais que 100 anos de vida. 

A história da árvore mistura-se à história da cidade que cresceu à sua sombra – Passos, que já foi uma pequena vila no sudoeste de Minas e hoje se espalha por antigos campos de café e pastagem. Conheci e convivi com essa árvore até a adolescência, e desde então penso nela sempre, se estou longe, e periodicamente volto para revê-la. Essa história de amor dura coisa de meio século. Ao dizê-lo, penso que estou velho, você também pensará, mas olho para a árvore e ela está quase do mesmo jeito que sempre a vi, jovem e bonita - então concluo que o tempo não faz tanto estrago assim. 
 
Perdi a conta de quantas vezes fotografei essa velha árvore. As fotos estão espalhadas em paredes, em alguns velhos álbuns, outras arquivadas no computador, estou cercado de árvores de Santa Bárbara. Também fiz vários poemas para ela, e é possível que faça outros, porque a árvore é um depositário de histórias e segredos, que se escondem estrategicamente a seus pés, dentro das dobras de sua pele, nos caminhos que só os pássaros conhecem, ainda que as crianças também andem por seus galhos à procura de aventuras ou para fazer voar suas fantasias.
 
A árvore posta-se, com elegância e paradoxalmente certa displicência, na praça do Cemitério - para ser mais exato, do lado oposto. É posição estratégica. Quase todos os passenses que vão a um velório, ou a algum enterro, ou simplesmente chorar diante de algum túmulo, passam antes sob sua sombra, e o estado emocional em que se encontram os deixa sensíveis para receber os benditos fluidos dessa santa árvore. Aconteceu comigo em dezembro passado, quando viajei em estado de desespero por 740 quilômetros, desde Brasília, para visitar minha mãe no hospital e acabei tendo de mudar o rumo, para vê-la pela última vez. 
 
Antigamente, os passenses velavam seus mortos em casa - foi assim com meus avós maternos - e os enterros percorriam as ruas diante dos homens que tiravam os chapéus e as lojas que cerravam as portas. E o último consolo do morto, depois dos sofrimentos deste mundo, era a sombra da árvore, que o acolhia por breves minutos, importantes minutos, ainda que o futuro fosse a eternidade. 
 
Falar de mortos e velórios pode ser triste, mas a Árvore de Santa Bárbara tem uma aura de felicidade e esperança, que atrai os passarinhos para seus galhos e os passantes para os bancos distribuídos sob sua copa. São taxistas, moradores das redondezas, gente que passa a trabalho, gente que passa vadiando, mendigos, engravatados, prostitutas, pensantes. Ali debaixo acaba o estresse, acabam os maus pensamentos, e o choro, se não acaba, pelo menos vem sem desespero. 
 
A árvore de Santa Bárbara é um símbolo. É um símbolo de Passos e do aconchego que a cidade oferece a seu povo e a esses passenses desgarrados. Ao olhar para ela, ao vivo ou em fotos, penso que esta cidade pode continuar bonita e forte, como cada vez mais tem sido, serena, acolhedora, de braços abertos. É assim que a árvore está, num velho desenho do artista plástico Wagner de Castro, ele mesmo com idade de tê-la conhecido pouco mais que um arbusto, e ainda assim até hoje exalando os bons fluidos de sua arte, como a própria árvore. No desenho, ela oferece sombra a um animal que pasta a seus pés, em cenário quase rural. Ela deve se espantar com a urbanidade que se espalhou a seu redor. 

A árvore é o vínculo histórico de Passos com seu povo. É um símbolo porque Passos, para mim, se parece com ela: uma sombra onde eu posso respirar e ser acolhido. Ao vê-la, sonho que a sabedoria que exala de seus velhos galhos e o carinho que transpira de sua casca grossa são incorporados pelas ruas, pelos paralelepípedos, pelas paredes das casas e pelas almas de seus viventes, numa relação abençoada. 

BREVE MEMÓRIA DA BIENAL DE POESIA

Ao falar para uma platéia de 700 pessoas que lotavam o auditório do Museu da República, na abertura oficial da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, o poeta Affonso Romano de Sant´Anna perguntava por que o século XX, o mais sangrento da História, insistiu tanto em decretar a morte da poesia. E não apenas da poesia – falou-se em morte do livro, morte do romance, morte da história, morte da arte. Ninguém soube responder – espera-se, agora, que se decrete, isto sim, a morte dessa conversa. Em Brasília, a poesia mostrou-se viva e vigorosa, ao longo dos cinco dias da Bienal. Foi um contraponto aos chatíssimos desfiles militares da Semana da Pátria.

O QUIXOTE CONTRA OS POLÍTICOS CABEÇA-DE-VENTO
O evento, promovido pela Secretaria de Cultura do DF com o apoio de grande número de instituições e entidades, realizou-se graças à batalha quixotesca de Antonio Miranda, poeta, professor e diretor da Biblioteca Nacional de Brasília. Houve falhas, gafes, frustrações. Mas houve também grande mobilização de escritores e público em torno de uma proposta, reconheçamos, pretensiosa. Não do poder público, é claro. A experiência só vai se tornar tradição na cidade se for transformada em lei. Fora algumas experiências isoladas, o poder público no Brasil não prioriza eventos como esse.

O GOVERNADOR CONFESSOU QUE ERA POETA

Ao contrário do poeta e compositor Arnaldo Antunes, que não veio abrir o evento porque faltou dinheiro, o governador José Roberto Arruda compareceu à abertura. Chegou de helicóptero. Falou sobre sua infância e adolescência, e confessou que não estudou letras porque o pai não permitiu. Teve a coragem de recordar a derrubada dos totens poéticos do artista plástico Gougon por funcionários do governo. E até falou um poeminha. O público estava de alto astral e preferiu não vaiá-lo.

UM NOVO MOVIMENTO POÉTICO
“A modernidade fez a apologia do desencontro, invertendo o pacto que sempre houve entre poeta e comunidade”, falou Affonso Romano. “Se no passado o poeta era um oráculo e falava em nome da tribo, nos tempos atuais ele se escondeu para monologar.” Sant´Anna convoca os poetas para tomar de assalto os novos canais e recuperar o tempo perdido no século XX. É possível, se não mensurável, que isso já esteja acontecendo com a ajuda da internet, que abriu novas possibilidades de troca e divulgação, e um novo movimento poético se encontre em plena eclosão.

POETAS ESTRANGEIROS NÃO ATRAÍRAM PÚBLICO
A multiplicação de eventos cidade adentro levou bom público a auditórios, galerias, bares e cafés, bibliotecas, exposições. O Simpósio de Crítica de Poesia, realizado na UnB, foi prestigiado e agradou os ouvintes inscritos. Infelizmente, aquele que era talvez o programa mais interessante da Bienal, que reuniu grande número de poetas estrangeiros para leitura de seus textos, foi o que menor público atraiu. Acuado nos auditórios do Museu da República e com um nome péssimo – “Sessões magnas” – o evento estimulou pouca gente a se mover até lá.

REVERÊNCIA À POESIA E AOS LIVROS
Mais importante que a dimensão do público foi a reverência à poesia, o que se observou em praticamente todos os espaços. A ampla distribuição gratuita de livros, no primeiro dia da Bienal, chegou a ser surpreendente. Às quatro antologias comemorativas do evento se juntaram grande número de livros, por autores e editores a quem parecia importar apenas a disseminação da poesia. Foi um espetáculo.

UMA GRANDE CELEBRAÇÃO
A idéia de distribuição gratuita de livros foi de Antonio Miranda, que contagiou participantes e o próprio público a fazer parte dessa idéia grandiosa. Muitos supunham que o projeto era excessivamente grande. Miranda achava que não, mas fez questão de advertir que só daria certo se houvesse empenho e envolvimento dos próprios poetas. Houve. Tanto de Brasília, quanto dos que espontaneamente vieram de outros lugares, movidos pela vontade de participar. Ao contrário de outras bienais envolvendo livros e literatura, a Bienal de Poesia de Brasília nada teve de comercial; foi uma grande celebração.

FIGURAÇAS, OS HOMENAGEADOS
A Bienal Internacional de Poesia de Brasília elegeu quatro poetas como homenageados oficiais, e eles estiveram entre as figuras mais interessantes do evento. Affonso Romano de Sant´Anna fez uma belíssima palestra sobre a resistência da Poesia. Reynaldo Jardim, garoto de 82 anos, marcou presença nos eventos, surpreendendo até quem o conhece. E a exposição sobre sua obra, no terceiro andar da Biblioteca Nacional, é simplesmente imperdível. Thiago de Mello, na Feira do Livro, e Wlademir Dias-Pino, na exposição Obranome-2, outras boas lembranças.

CAMPANHA PELA IMPLOSÃO DO CONJUNTO CULTURAL
Apesar do aspecto imponente, o Conjunto Cultural da República, formado por um museu inadequado para grandes exposições e uma biblioteca sem espírito agregador de leitores, é o grande vacilo na obra do arquiteto Oscar Niemeyer. Sem rampas de acesso ou mesmo escadas, a não ser as de incêndio, a biblioteca provoca aglomerações diante dos elevadores em qualquer evento que atraia mais de uma dezena de pessoas. Deveriam implodir tudo e fazer de novo.

O JORNAL E AS PAUTAS PERDIDAS
A imprensa agiu burocraticamente, sem espírito de reportagem. O Correio Braziliense, principal jornal de Brasília, anunciou o evento com bons espaços, mas dele nada aproveitou. Apesar da presença de grandes autores na cidade, muitos estrangeiros, foi incapaz de realizar uma entrevista ou uma matéria mais aprofundada. Não teve a curiosidade de ver – e informar sobre – o que estava acontecendo nos mais diversos espaços onde houve programação. Havia dezenas de boas pautas se oferecendo ao Caderno de Cultura, e todas se perderam.

FEIRA DO LIVRO, O VEXAME
A Feira do Livro, que a Câmara do Livro do Distrito Federal insiste em realizar em local inadequado e improvisado – os corredores externos do shopping Pátio Brasil – tentou pegar carona na Bienal e acabou se tornando um vexame. Trouxe quatro escritores portugueses para um lançamento que não houve, as palestras e recitais foram prejudicados pela falta de isolamento acústico de ambientes improvisados, e ainda foi ameaçada de terminar antes da data marcada, por falta de recursos.

LIGA TRIPA ENCERRA POEMAÇÃO

A participação do grupo Liga Tripa foi o fecho perfeito para o Poemação, evento realizado no sábado, 9 de setembro, no Café Martinica, dentro da programação da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília. O Liga Tripa é uma instituição da cultura brasiliense e vários poetas gravitam ao redor do grupo, que na verdade é mais que um grupo de música: é um movimento cultural.

O Poemação do Café Martinica reuniu poetas da cidade, além de alguns convidados de fora, para apresentar sua poesia ao público. O evento aconteceu de quinta a sábado, e outros bares e cafés promoveram eventos semelhantes. No Martinica, todos os poetas eram jornalistas profissionais. A I Bienal Internacional de Poesia de Brasília envolveu milhares de pessoas, entre público e participantes, muitos dos quais vindos de fora de Brasília e do Brasil.

O Martinica recebeu grande público nas três noites, que permaneceu atento e curioso. No sábado, participaram este que lhes escreve (também responsável pela coordenação do projeto), Ariosto Teixeira, Fernando Marques, Aloísio Brandão, Ivan Sérgio, Luís Martins, Paulo José Cunha e Vicente Sá. Apresentaram-se ainda Ronaldo Werneck, vindo de Cataguases (MG), o músico Octávio Scapin, vindo de Goiânia, e o ator Adeilton Lima.

Os músicos José Cabrera e Tiago Vovô acompanharam, respectivamente, Fernando Marques e Octávio Scapin. O poeta Fábio Carvalho leu alguns versos (ou artigos?) de seu livro A Constituição da Poesia.

Leia aqui todas as notas e informações sobre a Bienal Internacional de Poesia de Brasília publicadas neste blog.

POESIA FAZ A CABEÇA EM BRASÍLIA


O poeta Fabrício Carpinejar está em Brasília mergulhado nas atividades da I Bienal Internacional de Poesia. Para não deixar dúvidas, ele trouxe a poesia na cabeça. Veja esta e outras fotos da Bienal no Flickr.

POETAS JORNALISTAS NO MARTINICA

O Poemação, evento integrante da programação da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, apresenta, nesta quinta-feira, 4, e no sábado, 6, no Café Martinica (303 norte), um grupo de jornalistas da cidade que têm na poesia seu meio de expressão pessoal.

A apresentação começa pontualmente às 21h30. Na foto, alguns dos participantes: Ariosto Teixeira, Ivan Sérgio, Guido Heleno e Alexandre Marino (de pé); Luiz Martins, Aloísio Brandão, Paulo José Cunha e Carla Andrade (sentados).


Na sexta-feira, 5, será a vez do grupo OiPoema, formado por Luís Turiba, Nicolas Behr, Amneres Santiago, Cristiane Sobral, Bic Prado e Paulo Djorge.

POESIA PARA TODOS OS GOSTOS

O livro de poemas Arqueolhar, deste autor que lhes escreve, e a antologia Deste Planalto Central, que reúne 50 poetas participantes da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, estarão ao alcance do público a partir desta quarta-feira, 3 de setembro, na Mini-Feira do Livro de Poesia, que funcionará até o próximo domingo, 7, nos pilotis da Biblioteca Nacional de Brasília.

Arqueolhar, editado pela parceria LGE-Varanda em 2005, com ótimo acolhida da crítica, será vendido pela metade do preço de tabela. Ele também poderá ser adquirido no Café Martinica, durante o Poemação, evento que acontecerá na quinta, sexta e sábado (4, 5 e 6), a partir das 21h, reunindo diversos poetas da cidade numa grande confraternização lírica.

Deste Planalto Central, organizado por Salomão Souza, será distribuído gratuitamente aos interessados, a partir da tarde desta quarta-feira, 3, na Biblioteca Nacional, durante e após a abertura oficial da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, marcada para as 18h30, no auditório do Museu da República.

Veja a programação completa da I BIP no sítio oficial do evento .

Acompanhe neste blog as sugestões diárias de eventos da Bienal de Poesia. Clique no atalho
Bienal de Poesia-2008 para ler todas as notícias e comentários sobre a I BIP neste blog.

TUDO PRONTO PARA A FESTA DA POESIA


A I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (BIP) será aberta oficialmente nesta quarta-feira, 3 de setembro, no auditório do Museu da República. O poeta Affonso Romano de Sant´Anna, um dos homenageados da Bienal, fala sobre "As muitas vidas e muitas mortes da Poesia", e em seguida o grupo VivoVerso, da UnB, realiza recital que enfatiza a vertente lírica da obra de Sant´Anna.

Os eventos que fazem parte da I BIP estarão acontecendo desde cedo. Na Biblioteca Nacional, podem ser vistas mostras de Poesia Visual e Arte Poética. O Simpósio de Crítica e Poesia, que acontece de 3 (quarta) a 5 (sexta) no Anfiteatro 9 da UnB, terá início às 8h30, prosseguindo à tarde, a partir das 14h30.

A Câmara do Livro do DF organiza a Mini-Feira do Livro de Poesia, nos pilotis da Biblioteca Nacional, no Conjunto Cultural da República, com abertura às 15h30. No mesmo local, a partir das 17h30, terá início o Poemação da Praça da Cultura, com a Cena Contemporânea e poetas convidados.

No Cine Brasília, sessões às 16h30 e às 20h exibem vários filmes, entre curtas e longas, sobre poetas brasileiros.

As sessões magnas, dedicadas aos poetas estrangeiros e brasileiros convidados, terão leituras de poemas pelos autores, na língua original, com tradução simultânea projetada em telão. Serão realizadas no auditório do Museu da República, nos dias 4, 5 e 6, às 19h e 21h.

O concerto poético-musical Canto Latino América, da cantora chilena Elga Perez-Laborde, encerra a noite, no auditório do Museu, a partir das 22h30. Também participam o teatrólogo peruano Mario Delgado e a poetisa brasiliense Aglaia Souza, os violonistas Carlos Pascoal e Felipe Valoz; Kátia Almeida no violoncelo e piano e Jorge Macarrão na percussão.

Veja a programação completa da I BIP no sítio oficial do evento .

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