A VELHA SENHORA ABENÇOA A CIDADE

É uma velha senhora, uma avó centenária, com seus longos braços abertos para o aconchego dos netos. Enorme, como se fosse gorda, oferece colo e conforto. A longa cabeleira redonda toma conta da praça, de uma rua a outra. Na verdade não é uma cabeleira, é uma copa, e não são cabelos, são folhas. É uma árvore, mas tem nome de mulher e, mais que isso, de santa: Árvore de Santa Bárbara. Não tem certidão de nascimento, mas há registros que lhe asseguram muito mais que 100 anos de vida. 

A história da árvore mistura-se à história da cidade que cresceu à sua sombra – Passos, que já foi uma pequena vila no sudoeste de Minas e hoje se espalha por antigos campos de café e pastagem. Conheci e convivi com essa árvore até a adolescência, e desde então penso nela sempre, se estou longe, e periodicamente volto para revê-la. Essa história de amor dura coisa de meio século. Ao dizê-lo, penso que estou velho, você também pensará, mas olho para a árvore e ela está quase do mesmo jeito que sempre a vi, jovem e bonita - então concluo que o tempo não faz tanto estrago assim. 
 
Perdi a conta de quantas vezes fotografei essa velha árvore. As fotos estão espalhadas em paredes, em alguns velhos álbuns, outras arquivadas no computador, estou cercado de árvores de Santa Bárbara. Também fiz vários poemas para ela, e é possível que faça outros, porque a árvore é um depositário de histórias e segredos, que se escondem estrategicamente a seus pés, dentro das dobras de sua pele, nos caminhos que só os pássaros conhecem, ainda que as crianças também andem por seus galhos à procura de aventuras ou para fazer voar suas fantasias.
 
A árvore posta-se, com elegância e paradoxalmente certa displicência, na praça do Cemitério - para ser mais exato, do lado oposto. É posição estratégica. Quase todos os passenses que vão a um velório, ou a algum enterro, ou simplesmente chorar diante de algum túmulo, passam antes sob sua sombra, e o estado emocional em que se encontram os deixa sensíveis para receber os benditos fluidos dessa santa árvore. Aconteceu comigo em dezembro passado, quando viajei em estado de desespero por 740 quilômetros, desde Brasília, para visitar minha mãe no hospital e acabei tendo de mudar o rumo, para vê-la pela última vez. 
 
Antigamente, os passenses velavam seus mortos em casa - foi assim com meus avós maternos - e os enterros percorriam as ruas diante dos homens que tiravam os chapéus e as lojas que cerravam as portas. E o último consolo do morto, depois dos sofrimentos deste mundo, era a sombra da árvore, que o acolhia por breves minutos, importantes minutos, ainda que o futuro fosse a eternidade. 
 
Falar de mortos e velórios pode ser triste, mas a Árvore de Santa Bárbara tem uma aura de felicidade e esperança, que atrai os passarinhos para seus galhos e os passantes para os bancos distribuídos sob sua copa. São taxistas, moradores das redondezas, gente que passa a trabalho, gente que passa vadiando, mendigos, engravatados, prostitutas, pensantes. Ali debaixo acaba o estresse, acabam os maus pensamentos, e o choro, se não acaba, pelo menos vem sem desespero. 
 
A árvore de Santa Bárbara é um símbolo. É um símbolo de Passos e do aconchego que a cidade oferece a seu povo e a esses passenses desgarrados. Ao olhar para ela, ao vivo ou em fotos, penso que esta cidade pode continuar bonita e forte, como cada vez mais tem sido, serena, acolhedora, de braços abertos. É assim que a árvore está, num velho desenho do artista plástico Wagner de Castro, ele mesmo com idade de tê-la conhecido pouco mais que um arbusto, e ainda assim até hoje exalando os bons fluidos de sua arte, como a própria árvore. No desenho, ela oferece sombra a um animal que pasta a seus pés, em cenário quase rural. Ela deve se espantar com a urbanidade que se espalhou a seu redor. 

A árvore é o vínculo histórico de Passos com seu povo. É um símbolo porque Passos, para mim, se parece com ela: uma sombra onde eu posso respirar e ser acolhido. Ao vê-la, sonho que a sabedoria que exala de seus velhos galhos e o carinho que transpira de sua casca grossa são incorporados pelas ruas, pelos paralelepípedos, pelas paredes das casas e pelas almas de seus viventes, numa relação abençoada. 

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