POESIA SOBRE AS ÁGUAS

Em Brasília já é tempo de seca, mas quando se fala em poesia a previsão é de chuva na horta. Neste fim de semana (21 e 22), o grupo OiPoema levou poetas e grande público a navegar nas águas do Lago Paranoá. Desta vez, com três convidados especiais: Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto e Alexandre Brito, do grupo AmeOpoema, de Porto Alegre. A bordo da Barca Brasília, a poesia deitou e rolou durante mais de três horas. Na foto acima, Luís Turiba, Bic Prado, Nicolas Behr, Cris Sobral e Paulo Djorge, que compõem o OiPoema, fazem as primeiras intervenções, ainda à luz do pôr-do-sol. Abaixo, Alexandre Brito, Ronald Augusto, Ricardo Portugal e Ricardo Silvestrin posam para o painel histórico da Barca.

Além de interpretar seus poemas, os gaúchos também mostraram um criativo trabalho musical, cantando algumas canções do cd Música Legal com Letra Bacana. O tipo de música que eles fazem é isso mesmo. Quem não foi, perdeu. Na imagem abaixo, o registro do grupo no palco.

Durante o passeio, outros poetas convidados deram seu recado, inclusive este que lhes fala (foto abaixo).

A presença dos poetas do AmeOpoema em Brasília, participando da Barca Poética e promovendo um lançamento coletivo no Café da Rua 8 (CLN 408, bloco B) na sexta, 20, contribuiu para agitar a cena literária brasiliense neste fim de semana. Espera-se que tenham levado boas lembranças.

Quem estiver em Brasília pode programar um passeio na Barca com o comandante Edmilson (61 8419-7192). Quem estiver navegando na internet, pode visitar os sítios do AmeOPoema, do Ricardo Silvestrin, do Ronald Augusto e da Editora Éblis.

AME O POEMA

O grupo AmeOpoema chega a Brasília nesta sexta-feira, 20, para um lançamento coletivo de livros, no Café da Rua 8 (CLN 408, bloco B). Haverá um sarau, autógrafos, bate-papo, essas coisas que reúnem as pessoas em torno dessa poção mágica chamada poesia. Comparecerão Alexandre Brito, Ricardo Silvestrin, Ronald Augusto e Ronaldo Machado, do time dos gaúchos, a que se unirão Luís Turiba, Nicolas Behr, Fred Maia e Ricardo Portugal, de Brasília. AmeOpoema, além de um grupo, é uma editora premiada. O Prêmio Açorianos, da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, reconhece a qualidade dos livros, da idéia e dos autores. O propósito do grupo tem tudo a ver que a inquietação que move a poesia.

CHUVA DE POESIA EM BRASÍLIA

A Câmara do Livro do DF anuncia para esta quinta-feira, 19, uma Chuva de Poesia em Brasília. Está marcada para as 17h, na área externa do Museu da República, no Eixo Monumental, entre a Catedral e a Rodoviária.

Será uma chuva estranha, porque vai chover para cima. Acontecerá assim: centenas de poemas subirão pelos ares, dentro de balões de gás. Então só vai chover mesmo quando os balões descerem... o que ninguém sabe quando ou onde acontecerá.

De acordo com a Câmara, a pessoa que encontrar um desses balões deve retirar o poema e informar à entidade, por telefone ou e-mail, seu nome, endereço e um código impresso no poema, para posteriormente receber pelos correios uma antologia com os trabalhos que fizeram parte da Chuva.

Às 19h, haverá outro evento, no auditório do Museu: o lançamento oficial da I Bienal de Poesia Internacional de Brasília, a XXVII Feira do Livro e o XXIV Prêmio Global de Poesia sem Fronteiras de Línguas e de Formas de Expressão, promovido pelo Centro Gianni Estudi Bosio, da Itália.

A má notícia: os livreiros que promovem a Feira do Livro de Brasília não tiveram a coragem de abandonar os corredores externos do shopping Pátio Brasil e fazer um evento grandioso, vinculado de fato à Bienal Internacional de Poesia. Pelas presenças prometidas e programação prevista, a Bienal tem tudo para ser um acontecimento marcante. A Feira continuará como nos últimos anos.

FESTIVAL DE POESIA EM VARGINHA

A cidade de Varginha, no sul de Minas, realiza no sábado, 28, seu Festival de Poesia Falada. É evento tradicional, que nos anos 70/80 já reunia poetas reconhecidos, de Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e outras origens. Este ano, o festival recebe Mano Melo, cearense radicado no Rio, Alê Machado e Márcio Cassoni, de São Paulo, Glênio Vilela, de Belo Horizonte, e vários poetas vindos de Minas, São Paulo, Rio, Mato Grosso do Sul - interior e capitais. Este escriba também foi selecionado. Três representantes de Varginha serão escolhidos na sexta, 27, para se unirem no sábado aos outros 17 poetas, que apresentarão seus trabalhos, pessoalmente ou por intermédio de outros intérpretes. O evento será realizado no Teatro Marista, centro de Varginha, a partir das 20h.

BIZARRAS CRIATURAS MUTANTES (BCM) [1]

O desequilíbrio ecológico, desastres naturais e a explosão demográfica são as causas mais prováveis do aparecimento no interior do Brasil de um ser mutante identificado pelos cientistas como homo bregus, popularmente conhecido como breganejo. As teorias mais aceitas indicam que se trata de um fenômeno involucionista, que fez surgir um ramo horizontal na escala ascendente da evolução do homo sapiens.

A mutação da criatura se deve ao derretimento da área do cérebro responsável pelo bom gosto, fato cujas causas são ainda desconhecidas pelos cientistas. Concomitantemente ocorrem profundas alterações nas cordas vocais desses indivíduos, levando-os a emitir ondas sonoras características, uma inusitada mistura de tons e semitons altamente prejudicial aos cérebros de indivíduos normais, que dessa forma passam por idêntica mutação. É fenômeno semelhante ao dos lendários vampiros, que ao se alimentar do sangue de pessoas normais as transformam em novos vampiros.

A terceira característica comum a tais criaturas, também motivo de polêmicas entre os pesquisadores, é a sua incapacidade de ter vida autônoma e independente, o que freqüentemente os leva a reunir-se dois a dois (veja foto). Essa forma de hermafroditismo bicorpóreo os torna gêmeos siameses unidos não pelos corpos, mas por ondas cerebrais e sonoras interdependentes.

De acordo com alguns cientistas, há indivíduos normais resistentes à ação dos breganejos. A razão para isso parece ser o desenvolvimento de bom gosto musical desde a infância, o que lhes criaria uma capa protetora eficiente. Ouvidos moucos também são excelente proteção. Os cientistas, no entanto, divergem quanto ao grau de resistência e vulnerabilidade. É conhecido o caso de um cineasta brasileiro que, ao realizar um filme sobre essas criaturas, foi inoculado pelo veneno sonoro e tornou-se um deles. Também há registros de casos de contaminação de pesquisadores, jornalistas, artistas e até um presidente da República (o que, convenhamos, não quer dizer muita coisa).

A mutação dos homo bregus tem sido muito explorada pela indústria musical, devido ao seu alto potencial lucrativo, o que torna ainda mais difícil a sua cura, devido aos altos investimentos na disseminação da doença - ou seja o que for esse fenômeno, que alguns cientistas insistem em inserir na categoria de desarranjo psicossocial, e não de doença.

Sabe-se, com certeza, que é ocorrência extremamente contagiosa, podendo alastrar-se por comunidades inteiras. Há casos conhecidos até em países civilizados, o que leva muitos cientistas a alertar para um perigo que talvez seja maior que originalmente suposto. De acordo com esses estudiosos, há teoricamente o risco de toda a civilização humana ser afetada, o que reduziria os resistentes a uma pequena seita.

Poema de amor

Um retrato

Alexandre Marino

Teu olhar me abraça, mulher,
e me sobrevoa
como o silêncio das corujas
como os que temendo os abismos
à borda de si mesmos se debruçam

Tua viagem imóvel
faz de mim um pirata arrependido
que naufraga em si próprio
para não morrer no mar como um corpo estranho

E diante de teu rosto permaneço estático
deixando que teus olhos se escorreguem
sobre minha superfície pálida

(Eu bebo soluços, mulher,
e vomito sonhos
por não ter como os engolir)

É o que sente um homem
ao levantar o rosto e rever-te nua
refletida nas estrelas entre roupas no varal
e ao tentar voar descobrir que a lua
se desprendeu da poça d´água
e despenca no quintal

E eu revolucionário aleijado
que jogo sal no café
entre poemas e biscoitos
sem poder tomar em armas
ou destruí-las todas
miro mais uma vez o teu retrato
e sorrio quando teu cheiro
invade o quarto

Mas antes que me asfixies com um sorriso
eu bebo a multidão para ficarmos sós
e sem procurar caminhos
ou dividir fronteiras
fecho os olhos como um pescador de almas
que perdeu a linha
e se feriu com os anzóis.


Publicado no livro
O delírio dos búzios (Varanda, 1999), Um retrato venceu o XI Festival de Poesia Falada de Varginha em 1986. Voltaremos ao Festival este ano.

Poesia no Jardim da Filosofia

O poeta Luís Turiba volta a falar de poesia nesta quarta-feira, 4 de junho, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília, desta vez na companhia do músico Zeca Baleiro. O tema do encontro é "A música da palavra e a palavra na música". O projeto chama-se Jornada de Poesia no Jardim da Filosofia e a sua curadora, Viviane Mosé, será a apresentadora. O evento acontecerá na primeira quarta-feira de todos os meses, até outubro.

Poesia e vinho no Mosaico

O Espaço Cultural Mosaico vai aos poucos marcando presença em Brasília com eventos artísticos. Localizado na entrequadra 714/715 Norte, o Mosaico oferece oficinas de arte, workshops, peças de teatro e outros encontros periódicos. Quinzenalmente, às terças-feiras, promove o Poesia e Vinho, quando o ator e poeta Adeilton Lima recebe um convidado para conversar e apresentar seu trabalho. No dia 27 de maio, lá esteve o poeta Luís Turiba, dando uma pequena amostra do novo livro que prepara (foto). Isto não é propaganda - é apoio sincero. É o que o Espaço Cultural Mosaico merece e espera do público em geral. Brasília precisa de iniciativas desse tipo. O telefone de lá é o 3032-1330. É possível que algum evento programado interesse a você.

Tramas

É hoje a abertura de Tramas, exposição do artista plástico Gomes de Souza na Marcos Caiado Galeria de Arte, em Goiânia. Sempre surpreendente e inquieto, Gomes recicla alguns de seus trabalhos antigos, alguns com mais de 10 anos, retalhando-os com estilete, destruindo e reconstruindo, renovando. Gomes, agora, é mais artesão que artista plástico: recorrendo a materiais como couro de boi, plásticos, borrachas e papéis, e os próprios filetes que sobreviveram de suas obras recicladas, dá vida nova ao antigo. O resultado são imagens como esta, ricas em efeitos de óptica. A galeria fica na rua 1136, número 56, no Setor Marista, e a abertura é às 20h. Visitação até dia 13 de junho.

O Globo em Cannes

A atriz paulista Sandra Corveloni, protagonista de Linha de Passe, filme de Walter Salles e Daniela Thomas, deve ter ficado com essa expressão desconsolada ao ler a capa do Caderno 2 do O Globo de sábado. A matéria de Rodrigo Fonseca, reverente e bajuladora, apresentava um perfil da atriz Angelina Jolie, e a anunciava como virtual vencedora da Palma de Ouro do Festival de Cannes. Segundo o repórter, não havia concorrência. Sandra Corveloni, paulista? Nem pensar.
Acontece, é bom que se diga, que Angelina Jolie era a atriz principal de um concorrente hollywoodiano - The Exchange, de Clint Eastwood.
Bem, aconteceu o que Fonseca não esperava. O júri de Cannes premiou Sandra Corveloni. Melhor atriz do Festival.
Na segunda-feira, de ressaca moral, Rodrigo Fonseca anunciou os premiados e escreveu um pequeno box, com um tímido perfil da brasileira vencedora. No texto da matéria principal, ele falou que "Audácia é o adjetivo ideal para descrever as decisões do júri" (sic).
Qualquer dicionário da Língua Portuguesa que você consultar esclarecerá que "audácia" é um substantivo, não um adjetivo. Mas para saber disso os bons redatores não precisam consultar dicionário algum. O repórter estava mesmo atordoado.
Jornalismo colonizado, reverente ao cinema hollywoodiano. Não tem conserto.

Ainda é tempo

O Festival de Poesia Falada de Varginha (MG) recebe inscrições até a próxima terça-feira, 20, valendo o carimbo dos correios no envelope. Varginha tem 116 mil habitantes e fica a 320 quilômetros de Belo Horizonte, no sul de Minas. A cidade ganhou fama folclórica com aquela história do "ET de Varginha", mas para os poetas, especialmente os mineiros, o vínculo é outro.

O Festival de Poesia Falada é uma tradição. O prêmio é pequeno, mas para quem tem tempo e disposição para a viagem, vale a participação e a visita. Nos anos 70 e 80, a cidade era tomada por uma caravana dessas figuras estranhas, vindas principalmente de Belo Horizonte. Por lá passaram Pascoal Mota, Fritz Teixeira de Salles, Antonio Barreto, Geraldo Reis, Henry Correa de Araújo, grandes nomes da poesia mineira, revelados nas páginas do heróico e histórico Suplemento Literário do Minas Gerais, cria de Murilo Rubião.

Agora que a poesia volta a ganhar força de expressão no país, é bom saber que Varginha entra novamente no circuito. O Festival recebe até três poemas por autor até a próxima terça-feira, seleciona 20 até o dia 6 de junho e realiza a noite de apresentação no dia 28 de junho, sábado. O regulamento completo e a ficha de inscrição podem ser acessados aqui.

Esther Maciel em Brasília


A escritora mineira Maria Esther Maciel vem a Brasília lançar O Livro dos Nomes, publicado pela Companhia das Letras. O lançamento será nesta sexta-feira, 25, no Café com Letras (203 sul - 3322-4070), a partir das 19h.

Maria Esther é professora da Faculdade de Letras da UFMG e doutora em Literatura Comparada, com pós-doutorado em Cinema pela Universidade de Londres. Também é ensaísta e pesquisadora do CNPq. Mas sugiro uma atenção especial ao seu texto denso, poético, cativante.

O Livro dos Nomes é um romance construído a partir da história pessoal de 26 personagens, figuras reunidas por parentesco ou convivência. Ou, para quem preferir, uma coleção de contos interdependentes. O belo texto de Esther vai aos poucos amarrando o leitor a toda essa trama de tramas.

Brasília, 48 anos. O sonho e o pesadelo.


A Esplanada dos Ministérios, cantada como uma das obras-primas do arquiteto Oscar Niemeyer, que valeu a Brasília o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, concedido pela Unesco, recebeu 850 mil pessoas nas comemorações dos 48 anos da cidade, no dia 21 passado. Foi uma data especial, pois a cidade acaba de receber outro título importante, o de Capital Americana da Cultura 2008. Pois não é que essa massa deixou sobre os belos gramados da Esplanada mais de 70 toneladas de lixo!!!

Não é erro - foram 70 toneladas, que fizeram da bela área administrativa da capital federal um lixão a céu aberto... Há alguma coisa errada nessa história. Não é possível que alguém considere isso normal.

Capital Americana da Cultura 2008... A massa não sabe o que é isso. Foi à Esplanada para ver shows do nível do breganejo Leonardo, uma banda qualquer de axé... E, acima de tudo, para pisar, destruir, mijar onde fosse possível. Um dos comentários mais comuns, no dia seguinte, era o cheiro de pocilga da Esplanada.

O secretário de Cultura do DF, Silvestre Gorgulho, disse a este escriba que a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional é uma das mais importantes das Américas. Ela só se apresenta no espaço elitista do Teatro Nacional. Por que não oferecaram ao povo a oportunidade de ouvi-la a céu aberto?

Não. Há um mito de que o povo só gosta de lixo. Deve ser por isso que o povo devolve lixo ao logradouro admirado pelo mundo inteiro. Alguma coisa está fora da ordem. E depois me criticam quando digo que morro de saudades de passear nos gramados de Champs de Mars.

Brasília, 48. Em busca do sonho.

Não basta festejar. É preciso colecionar motivos ao longo do ano. Não é apenas o tempo. Um ano a mais, um ano a menos. É preciso criar a diferença. Não é apenas mudar. É mudar para melhor. Reformas não bastam. Maquiagem. Roupa nova. Asfalto novo. Gramados, viadutos, pontes, avenidas. Nada disso. A saída é mudar a alma. Voltar o olhar para dentro. O clima. Não basta resgatar a cidade. É preciso resgatar o espírito. Acabar com o salve-se quem puder. Estabelecer o estamos salvos. Dar fim à poluição visual. Mas também à poluição das mentes. Respeitar a poesia. “Fora da poesia não há salvação” (Mário Quintana). Não apenas respeitar, mas reverenciar. Não apenas levantar paredes. Não apenas erguer edifícios. Mas preenchê-los com vida. Museus não são prédios trancados. São espaços onde as famílias possam passar seus domingos e descobrir como é grande o mundo, infinitas as possibilidades de nossas mentes e corações. Bibliotecas não são depósitos de livros. São recintos para circulação de gente e idéias. Uma cidade não é apenas uma cidade. É um espaço humano. Uma cidade jamais estará pronta. Uma cidade é construída a cada dia pela ação daqueles que nela vivem. Construir uma cidade não é apenas colocar pedra sobre pedra. Não é erguer monumentos. É plantar árvores. É regar as árvores. É plantar utopias. Alimentar utopias. É promover encontros. É sorrir, chorar, expressar-se. Um tijolo pode ser feito de barro, mas também pode ser um desenho, um poema, um acorde musical, uma história. A cada hora, a cada dia, a cada ano, uma palavra alça vôo e adquire novos significados, transformando a alma, o olhar e o sonho das pessoas.

A capital da truculência [3]

A foto registra o fato que marcou a semana passada, em Brasília. O artista plástico Henrique Gougon recolhe os cacos de um dos painéis de mosaico que ele criou e instalou há quatro anos, por sua própria conta e risco, em várias quadras da Asa Sul. Eram seis pares de painéis. Cinco foram destruídos a marretadas.

Os painéis veiculavam poemas de vários autores da cidade - entre os quais Cassiano Nunes, que morreu no ano passado, Nicolas Behr, Angélica Torres Lima e Fernando Mendes Vianna (morto em 2006).

A ordem para a ação truculenta veio da Administração de Brasília, que decidiu acabar com os painéis de propaganda irregular que proliferaram na cidade desde o governo anterior. Não se sabe o que poesia tem a ver com propaganda irregular. Na cidade que acaba de receber o título de "Capital Americana da Cultura 2008" (?), a confusão seria uma piada, se não fosse uma agressão.

Vários painéis de mosaico de Gougon podem ser vistos na cidade. É dele o totem em homenagem ao educador Paulo Freire, instalado em frente ao Ministério da Educação. Outro painel, numa das estações de metrô de Águas Claras, homenageia o autor do projeto urbanístico de Brasília, Lúcio Costa.

Os painéis poéticos que adornavam praças e paradas de ônibus da Asa Sul foram um presente que Gougon deu à população. Não foram encomendados por ninguém. Mas Brasília é a cidade do oficial. O poder não respeita as manifestações espontâneas.

(Leia postagens anteriores)

A capital da truculência [2]


Um dos pares de painéis poéticos construídos pelo artista plástico Henrique Gougon, que foram instalados há quatro anos em paradas de ônibus da Asa Sul. Dois seis pares, cinco foram destruídos a marretadas por funcionários da Administração de Brasília. Na foto, poemas de Nicolas Behr.

(Leia postagem anterior e seguinte)

A capital da truculência [1]

O artista plástico Henrique Gougon e o escritor Cassiano Nunes em 2004, na inauguração dos painéis poéticos que adornavam paradas de ônibus na Asa Sul, em Brasília. Os painéis foram destruídos a marretadas na semana passada pela Administração de Brasília. A ordem era retirar painéis de propaganda irregular.

(Leia postagens seguintes)

Agenda literária de Brasília para a semana

Quinta, 27 de março
O escritor Antônio Temóteo faz palestra sobre a poetisa Maria Braga Horta, no auditório da Associação Nacional de Escritores (ANE), na 707/907 Sul, às 20h.

Segunda, 24 de março
Antonio Miranda e o fotógrafo Robson Corrêa de Araújo lançam Grito Interrompido, primeiro título da Edições Fresta, dedicada a livros de arte em tiragens reduzidas. No Carpe Diem, 104 Sul.

Sexta, 28 de março
José Jeronymo Rivera presta tributo ao poeta Anderson Braga Horta, no auditório da Biblioteca Nacional de Brasília, a partir das 19h.

Um brinde ao Dia Nacional da Poesia

Sangria

um amor triste
expulso do recinto
revolto, revolta-se,
bate à porta, insiste

sou um deus farto de fantasmas
e orações inúteis
pobre diabo
só cometo pecados fúteis

poeta vulgar
rastejo no assoalho
doente de miopia
tateio o alcadafe —
será vinho ou sangria?

na paisagem bordô
sonho um bacanal
paixão sem pudor
o líquido se agita
o amor nada

entre os cacos da garrafa
o sorriso ferido do retrato
ah, sonho de cabernet!
ah, pobre zurrapa!

Bob Dylan. Eu estive lá.

Estar frente a frente com uma das maiores lendas de nosso tempo é uma oportunidade rara. Por isso, valeu o sacrifício de comprometer o cartão de crédito durante alguns meses e deixar de comprar meia dúzia de CDs para assistir o show de Bob Dylan, na Via Funchal, em São Paulo. A casa tem uma acústica excelente e, apesar dos garçons chatos cruzando à frente das ridículas mesas de seis lugares em que a platéia foi confinada, a visão e audição de Bob Dylan e sua fenomenal banda compensaram qualquer discurso sessentista de hippies-velhos frustrados.

Bob Dylan é um artista. Ponto. Um artista em constante mutação, não um cantorzinho mumificado. Sua música e suas apresentações ao lado de músicos talentosos e reverentes estão carregadas de energia, de vida. Você, que esteve lá na Via Funchal ao lado de milhares de pessoas, teve o privilégio de ouvir interpretações que não se repetirão. Porque Dylan jamais cantará Blowind in the wind ou qualquer outro de seus inúmeros clássicos da forma como os cantou nos anos 60, ou 70, ou 80, ou 90, ou ontem. Foi uma oportunidade única.

Bob Dylan virou um milionário do rock? Nós, seus fãs na faixa dos quarenta-cinqüenta, nos transformamos em burgueses bebedores de Chivas Regall e proprietários de BMW? Nem uma coisa nem outra, periféricos. Bob Dylan continua o iluminado que sempre foi, o genial poeta que passou a vida inteira metendo o dedo na ferida dos poderosos e alienados babões. Mas ele sempre deixou claro que nunca quis relações com o poder. Sempre questionou as injustiças, mas não será ele que acabará com elas. Isso é tarefa da humanidade. Bob Dylan é um artista, um profeta que sempre viu o mundo do alto de sua poesia genial.

Os ingressos para o show eram caros? Sim, caríssimos. Mas para alguns valeu o sacrifício de pagar o preço. Para outros, não. É uma questão de opção. Os ingressos eram caros porque existe toda uma estrutura para montar um show profissional, para transportar os músicos e para pagar as produtoras que trouxeram Dylan até o terceiro mundo. E eram caros porque aqui é o terceiro mundo, onde vê-lo é uma oportunidade rara, e onde o custo de trazê-lo é elevado.

Não promovam confusões mentais. Há quase 50 anos Bob Dylan vem denunciando os podres desse mesmo sistema que nos arranca o couro para vê-lo. São as contradições do capitalismo, e as contradições estão aí para que as enfrentemos. Bob Dylan não é Deus. Bob Dylan é apenas uma das personalidades mais importantes da cultura contemporânea. Não há qualquer contradição nisso.