A capital da truculência [3]

A foto registra o fato que marcou a semana passada, em Brasília. O artista plástico Henrique Gougon recolhe os cacos de um dos painéis de mosaico que ele criou e instalou há quatro anos, por sua própria conta e risco, em várias quadras da Asa Sul. Eram seis pares de painéis. Cinco foram destruídos a marretadas.

Os painéis veiculavam poemas de vários autores da cidade - entre os quais Cassiano Nunes, que morreu no ano passado, Nicolas Behr, Angélica Torres Lima e Fernando Mendes Vianna (morto em 2006).

A ordem para a ação truculenta veio da Administração de Brasília, que decidiu acabar com os painéis de propaganda irregular que proliferaram na cidade desde o governo anterior. Não se sabe o que poesia tem a ver com propaganda irregular. Na cidade que acaba de receber o título de "Capital Americana da Cultura 2008" (?), a confusão seria uma piada, se não fosse uma agressão.

Vários painéis de mosaico de Gougon podem ser vistos na cidade. É dele o totem em homenagem ao educador Paulo Freire, instalado em frente ao Ministério da Educação. Outro painel, numa das estações de metrô de Águas Claras, homenageia o autor do projeto urbanístico de Brasília, Lúcio Costa.

Os painéis poéticos que adornavam praças e paradas de ônibus da Asa Sul foram um presente que Gougon deu à população. Não foram encomendados por ninguém. Mas Brasília é a cidade do oficial. O poder não respeita as manifestações espontâneas.

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