Poesia no Jardim da Filosofia

O poeta Luís Turiba volta a falar de poesia nesta quarta-feira, 4 de junho, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília, desta vez na companhia do músico Zeca Baleiro. O tema do encontro é "A música da palavra e a palavra na música". O projeto chama-se Jornada de Poesia no Jardim da Filosofia e a sua curadora, Viviane Mosé, será a apresentadora. O evento acontecerá na primeira quarta-feira de todos os meses, até outubro.

Poesia e vinho no Mosaico

O Espaço Cultural Mosaico vai aos poucos marcando presença em Brasília com eventos artísticos. Localizado na entrequadra 714/715 Norte, o Mosaico oferece oficinas de arte, workshops, peças de teatro e outros encontros periódicos. Quinzenalmente, às terças-feiras, promove o Poesia e Vinho, quando o ator e poeta Adeilton Lima recebe um convidado para conversar e apresentar seu trabalho. No dia 27 de maio, lá esteve o poeta Luís Turiba, dando uma pequena amostra do novo livro que prepara (foto). Isto não é propaganda - é apoio sincero. É o que o Espaço Cultural Mosaico merece e espera do público em geral. Brasília precisa de iniciativas desse tipo. O telefone de lá é o 3032-1330. É possível que algum evento programado interesse a você.

Tramas

É hoje a abertura de Tramas, exposição do artista plástico Gomes de Souza na Marcos Caiado Galeria de Arte, em Goiânia. Sempre surpreendente e inquieto, Gomes recicla alguns de seus trabalhos antigos, alguns com mais de 10 anos, retalhando-os com estilete, destruindo e reconstruindo, renovando. Gomes, agora, é mais artesão que artista plástico: recorrendo a materiais como couro de boi, plásticos, borrachas e papéis, e os próprios filetes que sobreviveram de suas obras recicladas, dá vida nova ao antigo. O resultado são imagens como esta, ricas em efeitos de óptica. A galeria fica na rua 1136, número 56, no Setor Marista, e a abertura é às 20h. Visitação até dia 13 de junho.

O Globo em Cannes

A atriz paulista Sandra Corveloni, protagonista de Linha de Passe, filme de Walter Salles e Daniela Thomas, deve ter ficado com essa expressão desconsolada ao ler a capa do Caderno 2 do O Globo de sábado. A matéria de Rodrigo Fonseca, reverente e bajuladora, apresentava um perfil da atriz Angelina Jolie, e a anunciava como virtual vencedora da Palma de Ouro do Festival de Cannes. Segundo o repórter, não havia concorrência. Sandra Corveloni, paulista? Nem pensar.
Acontece, é bom que se diga, que Angelina Jolie era a atriz principal de um concorrente hollywoodiano - The Exchange, de Clint Eastwood.
Bem, aconteceu o que Fonseca não esperava. O júri de Cannes premiou Sandra Corveloni. Melhor atriz do Festival.
Na segunda-feira, de ressaca moral, Rodrigo Fonseca anunciou os premiados e escreveu um pequeno box, com um tímido perfil da brasileira vencedora. No texto da matéria principal, ele falou que "Audácia é o adjetivo ideal para descrever as decisões do júri" (sic).
Qualquer dicionário da Língua Portuguesa que você consultar esclarecerá que "audácia" é um substantivo, não um adjetivo. Mas para saber disso os bons redatores não precisam consultar dicionário algum. O repórter estava mesmo atordoado.
Jornalismo colonizado, reverente ao cinema hollywoodiano. Não tem conserto.

Ainda é tempo

O Festival de Poesia Falada de Varginha (MG) recebe inscrições até a próxima terça-feira, 20, valendo o carimbo dos correios no envelope. Varginha tem 116 mil habitantes e fica a 320 quilômetros de Belo Horizonte, no sul de Minas. A cidade ganhou fama folclórica com aquela história do "ET de Varginha", mas para os poetas, especialmente os mineiros, o vínculo é outro.

O Festival de Poesia Falada é uma tradição. O prêmio é pequeno, mas para quem tem tempo e disposição para a viagem, vale a participação e a visita. Nos anos 70 e 80, a cidade era tomada por uma caravana dessas figuras estranhas, vindas principalmente de Belo Horizonte. Por lá passaram Pascoal Mota, Fritz Teixeira de Salles, Antonio Barreto, Geraldo Reis, Henry Correa de Araújo, grandes nomes da poesia mineira, revelados nas páginas do heróico e histórico Suplemento Literário do Minas Gerais, cria de Murilo Rubião.

Agora que a poesia volta a ganhar força de expressão no país, é bom saber que Varginha entra novamente no circuito. O Festival recebe até três poemas por autor até a próxima terça-feira, seleciona 20 até o dia 6 de junho e realiza a noite de apresentação no dia 28 de junho, sábado. O regulamento completo e a ficha de inscrição podem ser acessados aqui.

Esther Maciel em Brasília


A escritora mineira Maria Esther Maciel vem a Brasília lançar O Livro dos Nomes, publicado pela Companhia das Letras. O lançamento será nesta sexta-feira, 25, no Café com Letras (203 sul - 3322-4070), a partir das 19h.

Maria Esther é professora da Faculdade de Letras da UFMG e doutora em Literatura Comparada, com pós-doutorado em Cinema pela Universidade de Londres. Também é ensaísta e pesquisadora do CNPq. Mas sugiro uma atenção especial ao seu texto denso, poético, cativante.

O Livro dos Nomes é um romance construído a partir da história pessoal de 26 personagens, figuras reunidas por parentesco ou convivência. Ou, para quem preferir, uma coleção de contos interdependentes. O belo texto de Esther vai aos poucos amarrando o leitor a toda essa trama de tramas.

Brasília, 48 anos. O sonho e o pesadelo.


A Esplanada dos Ministérios, cantada como uma das obras-primas do arquiteto Oscar Niemeyer, que valeu a Brasília o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, concedido pela Unesco, recebeu 850 mil pessoas nas comemorações dos 48 anos da cidade, no dia 21 passado. Foi uma data especial, pois a cidade acaba de receber outro título importante, o de Capital Americana da Cultura 2008. Pois não é que essa massa deixou sobre os belos gramados da Esplanada mais de 70 toneladas de lixo!!!

Não é erro - foram 70 toneladas, que fizeram da bela área administrativa da capital federal um lixão a céu aberto... Há alguma coisa errada nessa história. Não é possível que alguém considere isso normal.

Capital Americana da Cultura 2008... A massa não sabe o que é isso. Foi à Esplanada para ver shows do nível do breganejo Leonardo, uma banda qualquer de axé... E, acima de tudo, para pisar, destruir, mijar onde fosse possível. Um dos comentários mais comuns, no dia seguinte, era o cheiro de pocilga da Esplanada.

O secretário de Cultura do DF, Silvestre Gorgulho, disse a este escriba que a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional é uma das mais importantes das Américas. Ela só se apresenta no espaço elitista do Teatro Nacional. Por que não oferecaram ao povo a oportunidade de ouvi-la a céu aberto?

Não. Há um mito de que o povo só gosta de lixo. Deve ser por isso que o povo devolve lixo ao logradouro admirado pelo mundo inteiro. Alguma coisa está fora da ordem. E depois me criticam quando digo que morro de saudades de passear nos gramados de Champs de Mars.

Brasília, 48. Em busca do sonho.

Não basta festejar. É preciso colecionar motivos ao longo do ano. Não é apenas o tempo. Um ano a mais, um ano a menos. É preciso criar a diferença. Não é apenas mudar. É mudar para melhor. Reformas não bastam. Maquiagem. Roupa nova. Asfalto novo. Gramados, viadutos, pontes, avenidas. Nada disso. A saída é mudar a alma. Voltar o olhar para dentro. O clima. Não basta resgatar a cidade. É preciso resgatar o espírito. Acabar com o salve-se quem puder. Estabelecer o estamos salvos. Dar fim à poluição visual. Mas também à poluição das mentes. Respeitar a poesia. “Fora da poesia não há salvação” (Mário Quintana). Não apenas respeitar, mas reverenciar. Não apenas levantar paredes. Não apenas erguer edifícios. Mas preenchê-los com vida. Museus não são prédios trancados. São espaços onde as famílias possam passar seus domingos e descobrir como é grande o mundo, infinitas as possibilidades de nossas mentes e corações. Bibliotecas não são depósitos de livros. São recintos para circulação de gente e idéias. Uma cidade não é apenas uma cidade. É um espaço humano. Uma cidade jamais estará pronta. Uma cidade é construída a cada dia pela ação daqueles que nela vivem. Construir uma cidade não é apenas colocar pedra sobre pedra. Não é erguer monumentos. É plantar árvores. É regar as árvores. É plantar utopias. Alimentar utopias. É promover encontros. É sorrir, chorar, expressar-se. Um tijolo pode ser feito de barro, mas também pode ser um desenho, um poema, um acorde musical, uma história. A cada hora, a cada dia, a cada ano, uma palavra alça vôo e adquire novos significados, transformando a alma, o olhar e o sonho das pessoas.

A capital da truculência [3]

A foto registra o fato que marcou a semana passada, em Brasília. O artista plástico Henrique Gougon recolhe os cacos de um dos painéis de mosaico que ele criou e instalou há quatro anos, por sua própria conta e risco, em várias quadras da Asa Sul. Eram seis pares de painéis. Cinco foram destruídos a marretadas.

Os painéis veiculavam poemas de vários autores da cidade - entre os quais Cassiano Nunes, que morreu no ano passado, Nicolas Behr, Angélica Torres Lima e Fernando Mendes Vianna (morto em 2006).

A ordem para a ação truculenta veio da Administração de Brasília, que decidiu acabar com os painéis de propaganda irregular que proliferaram na cidade desde o governo anterior. Não se sabe o que poesia tem a ver com propaganda irregular. Na cidade que acaba de receber o título de "Capital Americana da Cultura 2008" (?), a confusão seria uma piada, se não fosse uma agressão.

Vários painéis de mosaico de Gougon podem ser vistos na cidade. É dele o totem em homenagem ao educador Paulo Freire, instalado em frente ao Ministério da Educação. Outro painel, numa das estações de metrô de Águas Claras, homenageia o autor do projeto urbanístico de Brasília, Lúcio Costa.

Os painéis poéticos que adornavam praças e paradas de ônibus da Asa Sul foram um presente que Gougon deu à população. Não foram encomendados por ninguém. Mas Brasília é a cidade do oficial. O poder não respeita as manifestações espontâneas.

(Leia postagens anteriores)

A capital da truculência [2]


Um dos pares de painéis poéticos construídos pelo artista plástico Henrique Gougon, que foram instalados há quatro anos em paradas de ônibus da Asa Sul. Dois seis pares, cinco foram destruídos a marretadas por funcionários da Administração de Brasília. Na foto, poemas de Nicolas Behr.

(Leia postagem anterior e seguinte)

A capital da truculência [1]

O artista plástico Henrique Gougon e o escritor Cassiano Nunes em 2004, na inauguração dos painéis poéticos que adornavam paradas de ônibus na Asa Sul, em Brasília. Os painéis foram destruídos a marretadas na semana passada pela Administração de Brasília. A ordem era retirar painéis de propaganda irregular.

(Leia postagens seguintes)

Agenda literária de Brasília para a semana

Quinta, 27 de março
O escritor Antônio Temóteo faz palestra sobre a poetisa Maria Braga Horta, no auditório da Associação Nacional de Escritores (ANE), na 707/907 Sul, às 20h.

Segunda, 24 de março
Antonio Miranda e o fotógrafo Robson Corrêa de Araújo lançam Grito Interrompido, primeiro título da Edições Fresta, dedicada a livros de arte em tiragens reduzidas. No Carpe Diem, 104 Sul.

Sexta, 28 de março
José Jeronymo Rivera presta tributo ao poeta Anderson Braga Horta, no auditório da Biblioteca Nacional de Brasília, a partir das 19h.

Um brinde ao Dia Nacional da Poesia

Sangria

um amor triste
expulso do recinto
revolto, revolta-se,
bate à porta, insiste

sou um deus farto de fantasmas
e orações inúteis
pobre diabo
só cometo pecados fúteis

poeta vulgar
rastejo no assoalho
doente de miopia
tateio o alcadafe —
será vinho ou sangria?

na paisagem bordô
sonho um bacanal
paixão sem pudor
o líquido se agita
o amor nada

entre os cacos da garrafa
o sorriso ferido do retrato
ah, sonho de cabernet!
ah, pobre zurrapa!

Bob Dylan. Eu estive lá.

Estar frente a frente com uma das maiores lendas de nosso tempo é uma oportunidade rara. Por isso, valeu o sacrifício de comprometer o cartão de crédito durante alguns meses e deixar de comprar meia dúzia de CDs para assistir o show de Bob Dylan, na Via Funchal, em São Paulo. A casa tem uma acústica excelente e, apesar dos garçons chatos cruzando à frente das ridículas mesas de seis lugares em que a platéia foi confinada, a visão e audição de Bob Dylan e sua fenomenal banda compensaram qualquer discurso sessentista de hippies-velhos frustrados.

Bob Dylan é um artista. Ponto. Um artista em constante mutação, não um cantorzinho mumificado. Sua música e suas apresentações ao lado de músicos talentosos e reverentes estão carregadas de energia, de vida. Você, que esteve lá na Via Funchal ao lado de milhares de pessoas, teve o privilégio de ouvir interpretações que não se repetirão. Porque Dylan jamais cantará Blowind in the wind ou qualquer outro de seus inúmeros clássicos da forma como os cantou nos anos 60, ou 70, ou 80, ou 90, ou ontem. Foi uma oportunidade única.

Bob Dylan virou um milionário do rock? Nós, seus fãs na faixa dos quarenta-cinqüenta, nos transformamos em burgueses bebedores de Chivas Regall e proprietários de BMW? Nem uma coisa nem outra, periféricos. Bob Dylan continua o iluminado que sempre foi, o genial poeta que passou a vida inteira metendo o dedo na ferida dos poderosos e alienados babões. Mas ele sempre deixou claro que nunca quis relações com o poder. Sempre questionou as injustiças, mas não será ele que acabará com elas. Isso é tarefa da humanidade. Bob Dylan é um artista, um profeta que sempre viu o mundo do alto de sua poesia genial.

Os ingressos para o show eram caros? Sim, caríssimos. Mas para alguns valeu o sacrifício de pagar o preço. Para outros, não. É uma questão de opção. Os ingressos eram caros porque existe toda uma estrutura para montar um show profissional, para transportar os músicos e para pagar as produtoras que trouxeram Dylan até o terceiro mundo. E eram caros porque aqui é o terceiro mundo, onde vê-lo é uma oportunidade rara, e onde o custo de trazê-lo é elevado.

Não promovam confusões mentais. Há quase 50 anos Bob Dylan vem denunciando os podres desse mesmo sistema que nos arranca o couro para vê-lo. São as contradições do capitalismo, e as contradições estão aí para que as enfrentemos. Bob Dylan não é Deus. Bob Dylan é apenas uma das personalidades mais importantes da cultura contemporânea. Não há qualquer contradição nisso.

Alguns dados sobre leitores e leituras

A proporção de brasileiros de 15 a 64 anos classificados como "analfabetos absolutos" vem caindo ao longo dos últimos anos, mas ainda totaliza 7% da população. Outros 25% da população de mesma faixa etária estão no nível rudimentar de alfabetismo, que corresponde à capacidade de localizar uma informação explícita em textos curtos e familiares, como um anúncio ou pequena carta, ler e escrever números usuais ou manusear pequenas quantias de dinheiro. Ou seja, 32% da população, ou algumas dezenas de milhões de pessoas, não são capazes de ler e compreender uma notícia de jornal, e muito menos um livro.
Esses dados são revelados pelo Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) em sua medição mais recente, realizada no segundo semestre de 2007 e divulgada esta semana. A pesquisa, realizada pelo Instituto Paulo Montenegro, do Grupo Ibope, e pela ONG Ação Educativa desde 2001, é baseada em entrevistas e testes cognitivos aplicados a amostras de 2 mil pessoas, residentes em zonas urbanas e rurais em todas as regiões do País.
Os testes abordam temas práticos do cotidiano e são acompanhados de amplo questionário. Os resultados definem quatro níveis de alfabetismo. Além dos citados acima, há o alfabetismo básico e o de nível pleno.
O alfabetismo básico permite a leitura e compreensão de textos de média extensão e números na casa dos milhões, solução de problemas com seqüência simples de operações e noção de proporcionalidade, mas impõe limitações quando as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas ou relações.
Os plenamente alfabetizados lêem textos longos, interpretam informações, distinguem fato de opinião, interpretam tabelas e gráficos, etc. Os alfabetizados de nível pleno são apenas 28% da população na faixa etária de 15 a 64 anos, objeto do estudo. A maior parcela está na faixa do alfabetismo básico, girando em torno dos 40%.
Entre a pesquisa anterior, de 2005, e a atual, a variação em cada faixa ficou em torno de 1% a 2%, e só os analfabetos tiveram sua parcela reduzida mais significativamente, de 11% para 7%. Os dados mais recentes indicam que os de nível rudimentar são 25%.
Entre os entrevistados para a pesquisa de 2005, 45% dos alfabetizados (os três níveis) lêem a Bíblia, o livro mais lido, e 21% não lêem nenhum, em média. Esse item revelou alguns dados bem interessantes. Enquanto o percentual de leitura da Bíblia é praticamente o mesmo entre os níveis rudimentar, básico e pleno (46%, 48% e 47%), a auto-ajuda ganhou disparado entre os de nível pleno (22%), ficando em 5% e 9% nos dois níveis mais baixos. Somente 7% dos plenamente alfabetizados declararam não ler.
A poesia (15%) ficou acima dos livros técnicos e auto-ajuda na média geral (ambos com 11%). No entanto, tem o mais baixo percentual de leitura - 19% - entre os alfabetizados de nível pleno, que teoricamente seriam os mais capazes de enfrentar as suas armadilhas e apreciar os seus prazeres. O gênero mais lido entre estes é policial e aventura, com 49%. Todos os dados revelados por essas pesquisas são interessantes para reflexão, mas nada surpreendentes para os observadores dos hábitos brasileiros.

Novo minifúndio

Criado em setembro de 1997, o Sítio do Alexandre Marino, meu minifúndio na web, acaba de passar pela sua maior reforma. Trocou de endereço - www.marino.jor.br - e foi amplamente restaurado, um processo que, na verdade, não está concluído, pois é permanente. Continua com o mesmo propósito de publicar textos informativos e de reflexão sobre literatura e jornalismo; mas abrirá mais espaço a imagens.
O internauta poderá ler poemas ilustrados, ou simplesmente ver fotos comentadas, de minha autoria, é claro. Permanecem as mesmas sessões da versão anterior, divididas em 17 páginas. Poemas, crônicas, resenhas, entrevistas, reportagens, artigos, são algumas dessas sessões.
Entre setembro de 1997 e dezembro de 2007, o Sítio teve várias versões e se estabeleceu na web, a ponto de receber um número significativo de visitas diárias - considerando que é um espaço anônimo e gratuito, entre milhões de outros - e foi acessado dos mais distantes países do planeta, da Finlândia ao Japão, da Nova Zelândia à Noruega, da Arábia Saudita à Escócia, etc, etc.
Faça uma visita e depois envie comentários para sitio[at]marino.jor.br, lembrando-se de trocar "[at]" pelo sinal "@".

Apesar de tudo...

Estamos em 2008, como poderíamos estar em 2007 ou 2012. Seguimos contando o tempo, sem saber o que fazer com ele, sem que nos preparemos para o que ele fará de nós. Se o tempo não pára, quem se move somos nós, arrastados como conchas no turbilhão, barcos à deriva, ainda que acreditemos em deuses, bússolas, nortes ou bisturis. E segue o tempo, onipresente: à medida que passa, carrega nossos pedaços; um fio de cabelo, um dente, um olho, uma perna; leva um amigo, um ser amado, outro, e quando pensamos que já nos levou demais, lá vem ele se anunciando no horizonte, pronto para um novo arrastão. E, apesar disso, ou talvez por isso, só nos resta contestá-lo, desejando-nos um feliz ano novo.

I Bienal de Poesia promete iluminar Brasília

O espírito da Poesia vai visitar Brasília e lançar sobre a confusão dessa cidade, onde a beleza da arquitetura e as negociatas políticas se confundem, seu claro raio ordenador. De 3 a 7 de setembro de 2008, a Biblioteca Nacional, parte do Conjunto Cultural da República e vinculada à Secretaria de Cultura do DF, promove a I Bienal Internacional de Poesia de Brasília (BIP), ocupando vários espaços urbanos com uma programação ambiciosa. Um belo presente para a cidade que acaba de ser eleita pelo Bureau Internacional de Capitais Culturais a Capital Americana da Cultura 2008.

Escritores e estudiosos reconhecidos internacionalmente estarão na capital brasileira para participar de atividades que vão de sessões livres de recitais a conferências e debates. A BIP será realizada em salas da Biblioteca Nacional, do Teatro Nacional e de vários outros espaços, pertencentes ou não ao governo local, além de bares, cafés, escolas, livrarias, e também ao ar livre. Os eventos não se restringirão a Brasília – os poetas invadirão outras cidades do DF e do Entorno. A programação ainda não está fechada, mas o evento, segundo o diretor da Biblioteca, Antonio Miranda, já conta com patrocínio de entidades nacionais e internacionais e apoio de diversas embaixadas, além do interesse de poetas brasileiros e estrangeiros.

As novas tendências da poesia contemporânea brasileira e internacional estarão representadas em diversas linguagens – escrita, falada, musical, performática. Estão previstas sessões de poesia visual, varais, exposições de banners gigantes, exibição de documentários, projeção de textos nas paredes externas de monumentos da Esplanada dos Ministérios, além da realização de oficinas, concursos, seminários e conferências.

A Bienal de Poesia, da forma como está sendo pensada, tem tudo para exercer o papel agregador que falta ao cenário poético da capital brasileira, que conta com bons escritores, muita atividade literária, mas de forma segmentada e fragmentária. Espera-se que a Poesia se desnude de paletós e gravatas e invada as ruas de Brasília, atraindo não apenas os freqüentadores de alguns auditórios isolados, como também a moçada que discute literatura nos bares. Este será o primeiro grande desafio da Bienal. O segundo será a continuidade, para que possa, de fato, ser chamada de Bienal – ou, quem sabe, até Anual, por força do sucesso.

Leia aqui todas as notas e informações sobre a Bienal Internacional de Poesia de Brasília publicadas neste blog.

Sem perdão

A poesia de J.W. Solha deve ser lida em voz alta

“Minha arte é bruta”, avisa um dos primeiros versos de Trigal com Corvos, livro de poemas do multiartista J.W. Solha. Mas é uma brutalidade serena, embora incontida; a brutalidade dos inconformados. São 110 páginas, ao longo das quais ele desfila um rosário de inconformismos, em versos que evocam desde a Rainha Má da história da Branca de Neve até Hitler, Gengis Khan, passando por Fellini e Jimmy Hendrix e, acima de todos, Deus.

Solha escreveu romances e peças de teatro, atuou no cinema e fez exposições de pintura. Trigal com Corvos, seu único livro de poesia, foi lançado em co-edição entre a Imprell, de João Pessoa, onde ele vive, e a Palimage, de Portugal, depois de classificar-se entre os finalistas da Bienal Nestlé de Literatura, em 1991.

Trigal com Corvos é um grande poema cujos versos vão trocando de temas e abordagens com a velocidade de um caleidoscópio. Parece veicular a ansiedade do autor, que derrama suas angústias acumuladas e não perdoa nada nem ninguém. “O que existe é um frio programa que usa sofrimentos como esporas que / estuguem nosso esforço pela Evolução / e onde o que importa é o superorganismo chamado Homem / não cada uma das milhões ou bilhões de céulas ambulantes que somos dele / salvaguardada entre nós a preservação de uma média permanentemente ativa / sempre renovada / que garanta a marcha ao ponto para onde convergem ou de onde partem / todas as nossas perspectivas”.

A lógica da poesia de Solha – se é que poesia e poeta devem seguir alguma lógica – é a do alienígena que testemunha absurdos e não consegue compreender a docilidade de seus agentes e vítimas. É a lógica da criança que aponta o dedo e pergunta: “Por que – se existe um Deus – não me fez melhor? / Imagino que teria sido mais fácil do que planejar / sincronizar / e programar o lépido movimento octópode das aranhas e o do exército de pernas das centopéias!”

Solha começa o livro questionando a si próprio – ou, para ser exato, o ato de escrever. Passa, em seguida, a tentar compreender, ou incompreender, o tempo e o envelhecer, inútil atividade sem fim da literatura. E, ao final, desmascara Deus: “se houvesse realmente acontecido algum momento / na História / em que alguém tivesse encravado uma coroa de espinhos em Deus / e lhe tivesse metido umas porradas na cabeça / cuspido na cara dele / despejando-lhe uma carrada de desaforos / mereceria de mim o perdão / pois o que o homem sofre neste mundo / criado por tal personagem criado por nós / ...é de um sadismo que chega a ser... torpe.”

O livro de W. J. Solha não é daqueles que o leitor esquece na estante e na memória. Sua poesia é de uma aspereza que incomoda o leitor – e ele se põe de pé, para ler em voz alta.

(dezembro/2007)

Anderson e os Criadores de Mantras

O escritor Anderson Braga Horta lança nesta terça, 4 de dezembro, no auditório da Thesaurus Editora, seu livro Criadores de Mantras, que reúne ensaios e conferências. Haverá apresentação musical do violonista Rodrigo Bezerra e do acordeonista Phillipe Alves. A Thesaurus fica no Setor Gráfico, quadra 8, lote 2356, em Brasília. O telefone é 3344-3738.