O LINCHAMENTO DE MARIA BETHÂNIA

A semana que começou no Dia Nacional da Poesia, 14 de março, foi marcada por uma tentativa de linchamento, na internet, de uma das mais importantes artistas da música brasileira: Maria Bethânia. A partir da revelação, por um jornal paulista, de que o Ministério da Cultura aprovara um projeto que prevê a gravação de 365 vídeos em que a cantora lê poemas importantes da língua portuguesa, uma horda de gente preconceituosa e mal informada avançou contra ela com paus e pedras.
 
 O projeto O mundo precisa de poesia foi apresentado ao Ministério da Cultura pela Quitanda Produções Artísticas, e previa a captação de R$ 1,79 milhão, por renúncia fiscal, para a produção e veiculação dos vídeos, um por dia, durante um ano. O Ministério aprovou, reduzindo o valor para R$ 1,3 milhão. De acordo com a Lei Rouanet, esse valor poderá ser obtido junto a empresários, que descontarão uma parte dele ao pagar seus impostos de renda. Portanto, o Ministério não deu o dinheiro, apenas autorizou a produtora a solicitá-lo ao empresariado.

 
De acordo com a proposta, os vídeos serão veiculados em um blog na internet, no YouTube e outros espaços, um por dia, durante um ano, e estarão acessíveis para quem quiser vê-los e copiá-los. A seleção dos poemas será feita pela própria Maria Bethânia, que ao longo de uma irrepreensível carreira de mais de quatro décadas tem prestado inestimável serviço não apenas à melhor música brasileira, como também à poesia de língua portuguesa, levando a obra de autores como Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes, Sophia de Mello Breyner Andresen e inúmeros outros a um público totalmente seduzido pela beleza de suas interpretações.

 
Ao tornar acessíveis, pela internet, 365 poemas de primeira grandeza, Maria Bethânia levará a poesia a um público nem sempre íntimo dessa arte, hoje disponível apenas em livros de circulação restrita. A interpretação de Maria Bethânia resgata a oralidade da poesia, revelando sua beleza a pessoas que nem sempre compreendem os mistérios dessa linguagem. 

 
O episódio merece reflexões profundas. É assustadora a reação das pessoas, entre as quais há até mesmo poetas brasileiros que deveriam ter aplaudido a iniciativa, pois, afinal, como diz o próprio título do projeto, o mundo precisa de poesia, e o Brasil muito mais. Sabemos que o Brasil é um país iletrado, mas pior que isso é nossa vocação para cultuar a ignorância. Entre as manifestações que se reproduziram em redes sociais, blogs e seções de comentários dos jornais, era evidente que a grande maioria dos que protestaram o fizeram pelo simples prazer de protestar, sem ler o projeto, sem saber o que é a Lei Rouanet ou conhecer suas regras, e especialmente por um sadismo pouco disfarçável, alimentado pelo covarde ataque em massa a uma pessoa que obteve prestígio nacional graças a seu talento, coerência e integridade.

 
A obtenção de recursos para produções culturais, via renúncia fiscal, é prática comum e totalmente legítima, prevista em lei. Shows, DVDs, livros, filmes, peças de teatros, CDs são produzidos dessa forma. Pode-se questionar a qualidade dos artistas e vários outros aspectos, mas a aprovação, ou não, do projeto obedece a critérios puramente técnicos, e assim deve ser. 


O mais irônico dessa história é que a maior parte dessas produções não presta qualquer contribuição à cultura brasileira, e nem por isso se organizam protestos contra essa ou aquela. Turnês gigantescas, promovidas por empresas multinacionais, com retorno financeiro garantido, e que nenhuma contrapartida oferecem, são produzidas dessa forma. Há artistas descaradamente comerciais que assim gravam CDs e DVDs, vendidos a preços de mercado. Filmes sem qualquer valor cultural, lançados com estrondosas campanhas de marketing, são patrocinados pela mesma lei. 
 
Qual é o mistério por trás da campanha contra Maria Bethânia? Eu tendo a acreditar, mesmo sem querer, que se a produtora houvesse apresentado um projeto de R$ 2 milhões, ou R$ 5 milhões, apenas para uma turnê de shows de Maria Bethânia, ou gravação de um DVD, não teria havido tal reação. Ninguém protesta contra os milhões obtidos por artistas como Ivete Sangalo, Roberto Carlos, Gilberto Gil, duplas sertanejas ou grupos de axé. O filme Bruna Surfistinha captou R$ 4 milhões da mesma forma. Ninguém protestou. A Lei Rouanet viabiliza a produção de artistas importantes, mas também patrocina o esgoto da cultura brasileira. Tudo sob respeitoso silêncio. Praticamente todos os filmes produzidos no Brasil, alguns vistos por não mais que 3 mil, 5 mil pessoas, obtêm financiamento da mesma maneira. 

 
Duas palavras mágicas desencadearam a onda de protestos contra Bethânia. A primeira é “blog”, um espaço gratuito na internet, onde qualquer um escreve o que quiser. A segunda é “poesia”, uma arte vítima de muitos preconceitos, que para alguns é apenas obra de desocupados (como se a campanha contra Bethânia não fosse também obra de desocupados). As pessoas não entenderam, ou não quiseram entender, que o projeto O mundo precisa de poesia prevê captação de recursos não para a produção de um blog, e sim para a produção de 365 vídeos de nível profissional. E também não se percebe que a Poesia pode prestar grande contribuição para melhorar a qualidade de nossa educação e, em cascata, ajudar a aprimorar nosso senso crítico e nossa capacidade de reflexão. 

 
A onda de protestos encontrou terreno fértil também na irresponsabilidade da imprensa, que adora esse tipo de polêmica, mas é incapaz de analisar a fundo o alcance de um projeto que, ao contrário de quase todos os outros, pode ser uma valiosa ferramenta para as escolas, de todos os níveis, e que levará a melhor poesia de língua portuguesa a um público imensurável. E criará um acervo de grande importância, para agora e para o futuro. Esse desdobramento previsto pelo projeto da Quitanda não existe nas produções meramente comerciais, algumas até mesmo nefastas para nossa cultura, que se multiplicam sob o patrocínio da Lei Rouanet.

 
Maria Bethânia tem uma história irrepreensível e merece respeito. A Poesia também.

[O proprietário deste blog tomou a liberdade de usar a foto de Juan Guerra, da Agência Estado, para ilustrar este texto] 
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