À DERIVA NA CIDADE

As cidades guardam segredos em seus caminhos. As cidades e suas erosões, cicatrizes, feridas, cansaços. As cidades e suas memórias, visões, sombras e clareiras. A cidade e suas artérias, seu sangue, poeira, fragmentos, desejos. Carícias e agressões. Riquezas e misérias. Imagens e miragens.

Grafitti de José Augusto Iowa
Deixar o olhar se perder à deriva nessas cidades que se multiplicam dentro da cidade. No sábado, 17, um grupo de pessoas vai percorrer o centro de Goiânia com o espírito aberto para essa cidade que é de cada um e é de ninguém. Uma cidade inventada por um olhar pessoal. É a Deriva Fotográfica do Bem. O objetivo é descobrir a cidade imaginária de cada um. Vamos nos encontrar no coreto da Praça Cívica, às 8h, para a partir daí recriar em imagens a cidade que se expuser (ou se esconder) aos nossos olhos. 

Na sexta-feira, 16, vamos conversar sobre o que será, o que não será, o que poderá ser essa expedição que espera apenas a surpresa. Participarei de um bate-papo com a arquiteta Marcia Metran e o fotógrafo Helio de Oliveira, quando tentaremos convergir nossas visões pessoais sobre a cidade e tentar compreendê-la sob o olhar da arquitetura, da fotografia e da poesia. Será no Centro Cultural da Universidade Federal de Goiás (UFG), a partir das 20h.  

Vou apresentar aos participantes da Deriva o meu livro Exília, criado a partir do sentimento de desenraizamento que atormenta o artista e o cidadão comum e que representa a tentativa de explicar esse lugar que só existe dentro de cada um de nós, como um refúgio pessoal e utópico. E tentar compreender a poesia como ferramenta para criar espaços mentais e espirituais que nos salvem de um mundo inóspito e devorador. 

A Deriva nasceu em 2008 como disciplina do curso de Arquitetura da Universidade Estadual de Goiás (UEG), e depois passou a acontecer de maneira informal, sob a coordenação do arquiteto e professor Braúlio Vinícius Ferreira. Os inscritos doam litros de leite para a Missão Pão e Vida, entidade que apoia moradores de rua e dependentes de drogas. As imagens e textos que resultarem dessa experiência serão publicados no site da Deriva

A BABEL DA POESIA


Quando o avião pousou no aeroporto de Lima, no Peru, por volta de meio-dia do dia 3 de julho, tinha início uma fascinante experiência. Eu chegava à cidade para participar do II Festival Internacional de Poesia de Lima, o Fiplima, a convite de seus organizadores, e estava ansioso para saber como se daria o encontro, durante os quatro dias do evento, entre os 114 poetas de 30 países que o evento anunciava. 

A Casa da Literatura Peruana
Realizado pela prefeitura da cidade e pela Associação Fórnix Poesia, o Fiplima contou com o apoio de grande número de empresas e entidades, incluindo a Unesco e a Embaixada do Brasil. Quem manteve a máquina funcionando , resolvendo pequenos e grandes problemas, foi o poeta Renato Sandoval, que contou com uma equipe dedicadíssima e um grande número de jovens voluntários. 

Outro personagem importante foi o próprio público, que prestigiou o evento. O Peru tem uma relação carinhosa com seus escritores, que se manifesta em entidades como a Casa da Literatura Peruana, sediada em edifício majestoso, no centro da capital. Não se faz um festival internacional de poesia em lugar qualquer.  

Fizemos 23 recitais, distribuídos em auditórios de bibliotecas, parques, universidades, centros culturais, em diferentes pontos de uma cidade enorme e caótica. Lima tem clima úmido, onde o tempo é permanentemente nublado e raramente se vê a cor do céu. Para chegar ao local do evento, os poetas escalados, geralmente em número entre sete e nove, eram transportados em vans contratadas pela organização do festival. No interior do carro, que inevitavelmente ficava preso em enormes engarrafamentos, o som era de uma babel, onde se misturavam as mais diversas línguas. 

Nos recitais, cada poeta falava um poema em sua língua original e em seguida um dos organizadores lia uma tradução em espanhol, ouvidas, ambas as versões, por um público atento, curioso e sensível. Havia, entre os participantes, poetas de países tão distintos quanto Suécia, França, Dinamarca, Palestina, Argélia, Armênia, Espanha, Noruega, Sérvia, entre outros, além dos latino-americanos – Argentina, Uruguai, Colômbia, México, Brasil. Alguns desses escritores nem compreendiam o espanhol, o que tornava os recitais ambientes sonoros sem muito sentido para eles, a não ser pela curiosa musicalidade da poesia em línguas estranhas. 

Mesa brasileira
Do Brasil, fomos 10 poetas convidados. Além deste que lhes escreve, lá estavam Affonso Romano de Santanna, Fabrício Marques, Iacyr Anderson Freitas, Sérgio Cohn, Fabrício Corsaletti, Luiz Silva Cuti, Lucila Nogueira, Camila do Valle e Angélica Freitas. O evento coincidiu com a realização da Festa Literária de Paraty (Flip), que excita de tal forma a imprensa cultural brasileira que não se fala de outra coisa. Uma pena, porque o Brasil foi o país convidado de honra desta edição da Fiplima, e creio, sem julgar a minha parte, que nossa poesia estava bem representada. 

Ao lado de mais de 100 poetas, ainda que todos hospedados no mesmo hotel, era impossível aproximar e tomar conhecimento de todos. No entanto, foi riquíssima a experiência de entrar em contato com a poesia de escritores de grande talento. Cada um em seu canto, formados em culturas tão diversas, esses homens e mulheres praticam o ofício de ler o mundo pela linguagem da poesia, que supera fronteiras e os une ao redor das afinidades e diversidades de sua arte.

A poesia carrega o vigor de quem toma da palavra para lutar contra a adversidade, enaltecer a beleza, demonstrar seu estranhamento diante de um mundo caótico ou questionar aparentes certezas. A poesia é uma linguagem mágica, por não se prender aos limites do sentido e estar aberta a todas as possibilidades. É o que os poetas têm em comum, ainda que venham de culturas distintas.

De 4 a 7 de julho, quando se deu o encerramento do festival, ouvi poemas que me surpreenderam pela beleza, profundidade e força. Falados em idiomas familiares ou estranhos, muitos deles permaneceram reverberando na mente e no coração. Ao deixar Lima, eu tinha certeza de que havia enriquecido e aprofundado um pouco mais a minha experiência com a poesia. 

EXÍLIA E A REVOLUÇÃO DOS 20 CENTAVOS


Cheguei a São Paulo na manhã de 17 de junho, segunda-feira. Na semana anterior, milhares de pessoas começaram a lotar as ruas, se manifestando, primeiro, contra o aumento das passagens de ônibus, e depois, em defesa de outras bandeiras. O lançamento de meu sexto livro de poemas, Exília, estava marcado para o dia seguinte, terça. Enquanto eu autografava livros na Casa das Rosas, a avenida Paulista era tomada por manifestantes.  

Casa das Rosas, na av. Paulista
Era o início de uma maratona de duas semanas, que se encerraria na quinta, 27, em Brasília. Ao longo desse trajeto, os protestos caminharam ao meu lado. No dia 20, quinta, dia do lançamento em Passos, minha terra, soube que lá também o povo iria às ruas – a primeira manifestação estava marcada para a semana seguinte. Era um dos assuntos do público que me prestigiou na Livraria Mar de Minas. Em Belo Horizonte, na manhã do sábado, 22, enquanto eu conversava sobre Exília na Livraria Mineiriana, na Savassi, manifestantes se reuniam no centro. Na quinta seguinte, 27, lancei finalmente em Brasília, depois de ver pela TV alguns sinais de que o governo pensava em governar.  

Escrever um livro de poemas é sempre uma aventura. Durante três anos, pensei, refleti, observei e deixei fluir emoções e questionamentos, até chegar ao volume que tomou forma na edição da Dobra Editorial. Sair às ruas para protestar também é uma aventura, e, assim como o poeta, o manifestante tem emoção e indagações à flor da pele. Meu livro tem como tema o sentimento da falta de lugar no mundo, que incomoda o cidadão que observa seu ambiente e se sente desenraizado e acuado. Os jovens nas ruas reivindicam um melhor lugar para viver. 

As manifestações aconteciam todos os dias. Após o lançamento em São Paulo, recebi mensagens de amigos e escritores, que se desculpavam por não terem conseguido chegar ao local. Outros, que não se explicaram, não precisaram fazê-lo: eu sabia que para muita gente era mais importante estar nas ruas protestando do que no lançamento de um livro de poemas. Também houve os que chegaram já no fim do evento, ou não chegaram a tempo de pegar a Casa das Rosas aberta. E houve os que driblaram passeatas e engarrafamentos para me encontrar na Casa das Rosas. 

Quando se planeja o lançamento de um livro, para dois meses depois, deve-se contar com o imprevisto, embora nada se possa fazer contra ele. Neste caso, o imprevisto foi a enorme energia que levou centenas de milhares de pessoas às ruas, diariamente, em dezenas de cidades. As ausências, em qualquer tipo de evento, e em particular em lançamentos de livros de poesia, são inevitáveis e previsíveis. Por isso, ao invés de lamentá-las, prefiro enaltecer as presenças. E recordar encontros, reencontros e boas, ainda que rápidas, conversas.  

“Não por ser gentil, / mas ardiloso, / meu país me acolhe nos braços / e expulsa meus sonhos / entre um e outro cansaço / (por mais abertos / os horizontes / mais faltam espaços).” Uma estrofe do poema Infinitos limites, página 59 de Exília, me descreve em meio à confusão. Mas estou cercado de pessoas queridas. Amigos novos, amigos antigos, amigos de sempre. Penso em cada um e fico feliz. Exília chega às mãos de pessoas importantes para mim. A guerra acontece lá fora. A guerra sempre acontece. Mas, se esse deserto inóspito me acolhe com mãos ásperas, a presença dos amigos é a marca que permanece. 

A CAMINHO DE EXÍLIA

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Esta é a capa de meu novo livro de poemas, Exília, um belo trabalho de Regina Kashihara. Edição da Dobra Literatura, o livro terá lançamentos a partir da próxima semana. 

Na terça-feira, 18 de junho, vamos lançá-lo em São Paulo, na Casa das Rosas. Na quinta-feira, 20, em Passos, na Livraria Mar de Minas. E no sábado, 22, em Belo Horizonte, na Livraria Mineiriana. Volto a Brasília para lançá-lo no restaurante Carpe Diem na quinta, 27 de junho. 

Mais detalhes desses eventos - endereços, telefones, horários - estão disponíveis na coluna à direita. Informações sobre o livro podem ser lidas no menu superior deste blog, na aba "Exília". 

Contatos com o autor: am.versoseprosas@gmail.com

Outras informações: Alexandre Marino Versos e Prosas, no Facebook. 

[crônica] O RELÓGIO DE MEU AVÔ



Meu avô morreu em janeiro de 1975, aos 85 anos. Eu, aos 18, não entendia bem a morte e não imaginava que, quanto mais se vive, mais ela se torna real e presente. Naquele dia eu estava em Belo Horizonte, fazendo as últimas provas do curso colegial. Morava numa república no 22º andar do edifício JK. No final da tarde, bateram à porta. Era um amigo, Helder Piantino, conterrâneo que morava alguns andares abaixo. Nosso apartamento não tinha telefone. Sempre que ele batia à minha porta, eu sentia certo desconforto. Naquele dia foi pior, porque havia deixado meu avô doente. Minha mãe pedia que eu ligasse. 

No domingo anterior, pouco antes que eu saísse em direção à rodoviária de Passos, minha mãe me puxou para um canto, olhou-me nos olhos e disse: “Vá se despedir de seu avô, pode ser que você não o veja mais.” Lembrei-me dessas palavras quando tomei o elevador ao lado do Helder, para lhe telefonar. 

Era uma terça-feira. Havia um ônibus para Passos à meia-noite. Dormi pouco durante a viagem. Pensava nas histórias sobre tempos antigos de Passos, que meu avô gostava de contar. À noite, sentava-se à mesa da sala do sobrado; minha avó, minha mãe e minhas tias ao redor e eu no colo de alguma delas, para ouvi-lo falar. 

O velho Chico Gomes, como era conhecido, teve inúmeras profissões. Quando bem jovem foi ferrador de cavalos. Nessa época, um fabricante de cigarros oferecia prêmios em troca dos selos que lacravam os maços. Meu avô, que foi fumante a vida inteira, conseguiu juntar mil selos e ganhou um relógio de parede. Quando contava isso, apontava orgulhosamente para o relógio às suas costas, imponente na parede da sala. Badalava de meia em meia hora, e duas vezes por semana meu avô subia numa cadeira para lhe dar corda. 

Desde menino, eu gostava de ouvir os badalos do relógio, que permaneceu naquela mesma parede por mais tempo que meu próprio avô dentro do sobrado. Pelo processo natural da vida, um homem nasce, amadurece, envelhece e morre, e Chico Gomes morreu de velho. De certa forma, a casa que ele construiu passou pelo mesmo processo. Consta que ficou pronta antes de 1910. Em dezembro de 2007, foi fechada por falta de moradores. 

Cheguei a Passos ao amanhecer. O ônibus da Transilva estacionou na velha rodoviária da Praça do Rosário. Atravessei a rua e desci a Antônio Carlos. Seria mais rápido pela Deputado Lourenço de Andrade, mas fiz meu caminho habitual, passando pela Praça da Matriz, rua Santo Antônio e virando à direita na Travessa Inconfidentes. Na esquina, parei por alguns momentos. Depois, virei à esquerda e cheguei ao velho sobrado. Na época, os velórios aconteciam nas próprias residências, e havia muita gente na calçada. 

Subi, sentindo cada degrau, e da sala de visitas tive a última visão de meu avô. A porta de vaivém que dava acesso ao interior da casa estava aberta. Haviam retirado a mesa da sala de jantar e a cômoda que ficava junto à parede do fundo. À esquerda de meu avô, o relógio parecia observar a cena: o velho Chico Gomes cercado de parentes, vizinhos, amigos da família, indiferente a todos. 

O relógio marcava quatro horas e alguns minutos. O horário exato da morte de meu avô. Quando ele exalou o último suspiro, o relógio parou junto. Em respeito à memória do velho, ou à estreita relação entre eles, ninguém ousou mexer no relógio por algum tempo. Mas depois o puseram para funcionar de novo, como se assim pudessem trazer meu avô de volta. 

[poema] PELO DIA NACIONAL DA POESIA

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Comemorando o Dia Nacional da Poesia, 14 de março. Uma data para nos lembrar que a poesia está presente em todas as horas e todos os dias. 


YOANI SANCHEZ E OS MILITARES


Yoani, durante a viagem de seus sonhos

Eu não nasci ontem. Eu senti o que foi a ditadura militar. Quando estudante, fui acuado muitas vezes por policiais a cavalo por participar de manifestações. Nunca fui preso, mas amigos foram. Alguns foram torturados. Ainda adolescente, fui pressionado por oficiais do Exército por causa de uma revista literária que co-editava. Minha formatura na universidade se realizou sob estado de tensão, por causa da grande quantidade de carros da polícia estacionados diante do auditório. Sonhei muito com liberdade, democracia e o fim do maniqueísmo da época da ditadura: ou contra ou a favor. 

Tenho pensado muito nisso ao ler as notícias sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez. Nunca fui a Cuba. Era admirador de Che Guevara. Também cheguei a ser fã da revolução de Fidel Castro. Acredito nos avanços sociais que a ilha alcançou. Mas não posso entender por que é tão difícil para os cubanos saírem da ilha, nem que seja a convite de entidades internacionais. Não posso admitir que aqueles que saem às escondidas sejam capturados e fuzilados, como fugitivos de prisões. Por isso, Cuba não me seduz. 

Aquele país com liberdade, democracia e um universo político amplo, aberto a manifestações e ideologias diversas, com que eu sonhava na época da ditadura, está cada vez mais distante da realidade. Tive um choque ao ler no jornal que Yoani, em visita ao Brasil, foi impedida de lançar um livro na Livraria Cultura de São Paulo. O evento foi cancelado por falta de segurança, devido às hostilidades praticadas por manifestantes barulhentos. 

Tento imaginar qual era a intenção desse grupo. Impedir uma autora de autografar um livro? Ou queimar os livros dela, da mesma forma que os militares faziam durante a ditadura? A mesma laia de gente havia impedido a exibição de um filme na Bahia, assim como a censura fez com inúmeros filmes, livros e jornais. 

Quem é esse pessoal agressivo, violento, que tem perseguido a cubana? Qual o problema de criticar Fidel Castro? Qual o problema de Yoani falar a quem gostaria de ouvi-la? Não me interessam neste momento os argumentos dela ou de seus adversários. Mas eu gostaria muito de saber quem são esses moleques que a têm impedido de se manifestar, da mesma forma que os generais, ou qualquer soldadinho pé rapado, faziam com os adversários na época da ditadura militar. 

Se tudo isso vai acabar em piada de salão, como sempre acontece no Brasil, é bom lembrar que a ditadura não foi uma piada. É bom lembrar sempre de Rubens Paiva, um ex-deputado assassinado cujo corpo jamais foi encontrado; é bom lembrar do poeta Nicolas Behr, que era pouco mais que um adolescente ao ser processado pela Lei de Segurança Nacional por vender livros de poesia em bares de Brasília; é bom lembrar de Carlos Alexandre Azevedo, que se suicidou aos 40 anos sem conseguir superar o trauma da tortura que sofreu quando não tinha dois anos. 

Se nos anos 60-70-80 a repressão vinha do próprio governo militar, hoje temos nas ruas um grupo de jovens intolerantes, arrogantes e donos da verdade que não admitem liberdade para quem vai falar o que não lhes agrada. Provavelmente alguns desses jovens ficam indignados quando um homossexual é espancado na rua, mas não conseguem compreender um princípio básico da democracia, que é o de ouvir e ser ouvido, que a violência, na verdade, não cala ninguém. Da mesma forma, algumas pessoas que nas redes sociais combatem a visita da cubana, com frases agressivas ou piadas, costumam postar protestos contra homofóbicos e racistas. 

A imprensa divulgou fotos de Yoani em companhia de representantes do que há de pior na política brasileira, quando ela esteve no Congresso Nacional. Gente como o deputado Jair Bolsonaro, fascista que defendeu a tortura praticada pelos governos militares. Mas onde estava a presidente Dilma Rousseff, testemunha das atrocidades dos porões da ditadura? Onde estava Chico Buarque, que teve tantas canções censuradas? 

Essa gente não está entendendo nada. Não está entendendo que muita gente lutou, sofreu e morreu para construir um país melhor e mais justo, o que só é possível em ambiente democrático. Eu gostaria muito de viver num país onde a liberdade de manifestação fosse realidade, mas por enquanto consigo apenas me envergonhar.  


A foto que ilustra este texto é de Edmar Melo (agência Efe)

[crônica] AS IDADES DO HOMEM



Há algum tempo uma revista anunciou com certo estardalhaço que o brasileiro que chegará aos 120 anos de idade já havia nascido. Com a morte recente do arquiteto Oscar Niemeyer, o tema da longevidade voltou à discussão. Ele nos deixou alguns dias antes de completar 105 anos, idade a que também chegou outra brasileira famosa, a D. Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethania. Serena e sábia, ela percebeu que seu tempo se esgotara, e pediu que os filhos a retirassem do hospital onde se tratava de uma isquemia e a levassem para casa. Morreu no dia de Natal. Até um ano antes, estava cheia de saúde, encarando noitadas para ver shows dos filhos.

Ainda que o misterioso conterrâneo que chegará aos 120 esteja entre nós, a garantia da idade avançadíssima jamais nos livrará do processo do envelhecimento, que segundo a ciência tem início antes dos 40 anos e, na minha visão de leigo, no momento do nascimento. Porque viver, afinal, é envelhecer. 

O ser humano, e talvez todas as demais criaturas, envelhece aos pedaços. E um dos pedaços mais complicados do homem – e aqui me refiro ao gênero masculino – é um pequeno órgão chamado próstata. Dizem que, se o homem fosse um automóvel, haveria um “recall” em massa para resolver os problemas dessa peça, muito sujeita a defeitos devido ao seu posicionamento mal projetado. 

Por isso, quando uma médica, após uma ecografia, me disse que eu tinha “próstata de menino”, me espantei. Olhei-a com meus olhos de sexagenário e agradeci a comparação, que sintetizava o estado geral e dispensava explicações. 

Os olhos deram seu primeiro sinal de envelhecimento aos 17 anos. Pela janela do apartamento onde morava, no bairro Carlos Prates, de Belo Horizonte, percebi que o relógio da torre da igreja, a três quarteirões de distância, parecia embaçado e pouco preciso quando eu fechava o olho direito. Hoje, aos 56, ambos carregam significativa miopia, um pouco de diplopia, astigmatismo e agora deram para reclamar de cansaço. Assim, carrego comigo dois óculos, que uso de acordo com a necessidade. E me lembro que minhas tias, antes de pegar na máquina de costura, me convocavam, quando menino, para enfiar a linha no buraco da agulha... 

A audição, para minha surpresa, foi classificada como “excelente” após um teste. Cismado de que estava ficando surdo, fui tirar a prova. Para o médico, que me deu nota dez, não havia o que contestar. Para mim, ficou a dúvida: embora às vezes eu ouça excessivamente bem, há outras em que quero ouvir e não consigo. 

Talvez o problema esteja no cérebro, que, mesmo protegido na caixa craniana, tem sofrido com o calor. Meus cabelos diminuíram bastante ao longo do tempo, e os que permaneceram estão mais finos. Além disso, boa parte deles vai perdendo a cor. Quando senti saudades do garoto cabeludo que fui e tentei deixar crescerem os cabelos, eles simplesmente se recusaram. 

Manter o espírito jovem significa manter a inquietação, a curiosidade e o inconformismo naturais da juventude, mas o corpo, ou seja, a matéria, submete-se às mudanças ditadas pelo tempo que passa. Nossas células têm prazo de validade, e a passagem do tempo é visível no rosto, no corpo e nos gestos. Ou às vezes é invisível. Ainda que eu goste muito de caminhar, no mato ou na cidade, suba e desça escadas com desenvoltura, há alguns dias ouvi de um médico: “Sua válvula mitral está com prazo vencido.” 

Como se vê, não temos uma idade, mas várias. E a grande vantagem da maturidade que vem com o passar do tempo é o que aprendemos. Aprendemos, por exemplo, a encarar as adversidades com serenidade. E a tornar realidade aquele que é meu slogan preferido: “Um dia vamos rir disso tudo.” 

É o que pretendo, lá na frente. Não rir da vida, mas rir com ela. Com todos os sentidos ainda vivos, mesmo que de óculos, careca, de barbas brancas e coração reformado. 


[Publicada em CNP Notícias, edição de dezembro de 2012]

AOS AMIGOS, UM BOM 2013.

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Agradeço a todos os amigos e demais leitores pelas visitas a este espaço. Espero que continuemos trocando ideias em 2013.

[estante afetiva] A ARTE DE TONINO GUERRA


Eu tinha o hábito de visitar a Livraria Portugal, de Brasília, para ver as novidades de literatura portuguesa. Mas, naquela manhã de sábado, o que me encantou foi uma pequena obra prima de literatura italiana. Retirei da prateleira um volume que me atraiu pelo título: O livro das igrejas abandonadas. Eu não conhecia o autor – Tonino Guerra – ou, melhor dizendo, não sabia que ele era também o roteirista de filmes que me haviam marcado profundamente, como Amarcord, de Federico Fellini, BlowUp e Zabriskie Point, de Antonioni, Paisagem na neblina, de Theo Angelopoulos, Nostalgia, de Tarkovski... A lista é imensa. Naquele momento, folheando o pequeno livro, eu descobria a bela prosa poética de Guerra, traduzida do italiano por José Colaço Barreiros e publicada pela Assírio & Alvim, de Lisboa.

Li e reli aquelas histórias várias vezes. Tonino Guerra criou um universo poético e cinematográfico, em que as narrativas se parecem com descrições de filmes de curta metragem, que ele conta do início ao fim não para estragar a surpresa de um futuro espectador, mas para encantá-lo. Todas as histórias de O livro das igrejas abandonadas têm como cenário algum pequeno templo, nem que seja uma caverna onde vive um frade escondido do mundo.

Curioso pela obra de Tonino Guerra, pedi a uma livraria do Porto, em Portugal, dois outros volumes, igualmente surpreendentes: O mel, em que o escritor conta, em versos, a história de sua aldeia, Santarcangelo de Romagna, onde seu irmão mais velho, Dino, habitou até a morte, e Histórias para uma noite de calmaria, uma coleção de contos e poemas em que ele aborda o mesmo universo, tão singelo quanto mágico.

“Há sempre uma história na sua poesia, há sempre poesia em suas histórias”, escreveu sobre ele o também italiano Italo Calvino. O livro O mel tem outra curiosidade: foi todo escrito em romagnolo, dialeto da região onde nasceu Tonino, acompanhado de uma versão em italiano. A tradução portuguesa foi feita diretamente do romagnolo, a pedido do autor, por Mário Rui de Oliveira.

Dois dos poemas de O mel foram recitados em filmes ¬– um em Casanova, de Fellini, e outro em Nostalgia, de Tarkovski. Sua capacidade de injetar altas doses de poesia a elementos da memória fez com que esses e outros filmes que ajudou a criar, especialmente naquela fase áurea do cinema italiano, se tornassem clássicos.

Tonino Guerra nasceu em 16 de março de 1920 e faleceu cinco dias depois de completar 92 anos. Ele havia retornado há poucos anos para Santarcangelo de Romagna, província de Rimini, onde nasceu.

[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 7

A sétima edição de Protótipo, publicada em novembro de 1975, que pretendia ser a primeira de uma segunda fase, marcou a despedida da revista literária, lançada em novembro de 1972 na cidade de Passos (MG). Ela veio com aspecto gráfico totalmente diferente das anteriores, pois foi a única impressa em offset, tecnologia surgida havia poucos anos, que representava grande avanço em relação ao mimeógrafo a tinta. A capa da revista simbolizava essa mudança: trazia um desenho de Wagner de Castro, artista residente em Passos e nome importante das artes plásticas em Minas Gerais.

Nessa nova fase, até a sede da revista mudou, passando a ser Belo Horizonte. O contista João Antônio, que algum tempo depois alcançaria projeção nacional, foi um dos destaques da edição. Protótipo também publicou Wander Piroli, Jeferson de Andrade, Henry Correa de Araújo e Ronald Claver, autores que ganhariam importância na literatura brasileira, além dos habituais editores da revista. Em suas páginas apareceram ainda dois escritores estrangeiros: o guatemalteco Otto René Castillo e o peruano Jorge Spinoza Sanchez.

Apesar do longo intervalo entre esta edição e a anterior, publicada dois anos antes, o núcleo da equipe permaneceu ativo, seus integrantes amadureceram. Saídos do ninho no interior de Minas, todos já viviam em centros maiores, frequentavam universidades e começavam a tocar a vida. Para alguns dos fundadores da revista, a literatura já representava claramente um projeto para o futuro. Outros já haviam feito outras opções e, embora tenham publicado seus exercícios literários nas primeiras edições, já nem constavam mais do expediente. Infelizmente, a fase da maturidade de Protótipo durou apenas um número.

A efervescência cultural e literária que marcou a década de 1970 no Brasil, e gerou grande número de revistas, não indicava para os escritores da época perspectivas muito otimistas. Na entrevista concedida ao jornalista José Louzeiro, publicada nessa edição, João Antonio reclamava da falta de editores, da falta de crítica literária e da falta de uma política de governo para a literatura. Na época, ele defendia que a televisão, “maior veículo de divulgação do mundo atual”, acolhesse o escritor como profissional de criação.

Na contracapa da revista eram anunciadas algumas das atrações do oitavo número, nunca publicado: Roberto Drummond, Elias José, Adão Ventura, Sérgio Santanna e o chileno Alfonso Alcalde. Por ironia, era a primeira vez que uma edição da revista anunciava a seguinte.

Foi a única edição de Protótipo que não veiculou anúncios do comércio de Passos, onde a revista nasceu, mas o editorial destacava a colaboração financeira da Prefeitura Municipal daquela cidade. E, embora a tecnologia de impressão fosse bem mais moderna que o rudimentar mimeógrafo, o excesso de detalhes gráficos “sujou” a revista, prejudicando a leitura. Fruto da inexperiência dos editores, que exageraram ao brincar com as possibilidades da editoração gráfica.

A sétima edição abria uma nova perspectiva para a revista, e os erros certamente seriam corrigidos nas edições seguintes. Protótipo ainda prometia muito para o futuro. Deixou saudades.


Leia os capítulos anteriores desta história aqui ou aqui.

[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 6

“Grupo formado em Passos com o objetivo de mostrar ao resto do país a sua literatura e divulgar outros novos autores que surgem sem chances de publicar seus trabalhos” – assim se definia o Grupoema, nome com que os fundadores da revista literária Protótipo se apresentavam. Criada no interior de Minas Gerais, a revista já tinha a pretensão de ensaiar voos mais altos. A sexta edição da Protótipo foi lançada em novembro de 1973, apenas 11 meses depois de seu número de estreia. A partir daí, veio um longo intervalo de dois anos.

O comércio da cidade de Passos continuava prestando todo o apoio à revista, como acontecia desde o primeiro número. No entanto, a dispersão do grupo inviabilizou a continuidade da publicação. No início de 1974, a maior parte dos seus integrantes, jovens entre 17 e 21 anos, se mudaram para outros centros, com o objetivo de prosseguir seus estudos. O destino da maioria era Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro ou Brasília.

A sexta edição, com capa de Antônio Barreto, representou a despedida da primeira fase, mas, ao menos para alguns dos integrantes do grupo, não foi o fim de um sonho. A literatura permaneceu forte como atividade ou projeto de vida. Era uma semente incubada, que renasceria no futuro.

Entre os autores publicados nesta edição, além daqueles que já frequentavam suas páginas desde o primeiro número, é interessante citar a presença de Afonso Henriques Neto, nome importante do grupo carioca do movimento da poesia marginal, filho e neto de importantes poetas brasileiros. Mas participaram também Romes Aziz Sabbag (Guaxupé-MG), Gilberto Andrade Abreu (Passos), Irene Tavares (São Paulo), Julio Cesar Nery Ferreira (Belo Horizonte), Duneya West e Sandra Siqueira (Rio de Janeiro),  Ricardo Costa Vaz (Formiga-MG) e Paulo Nassar de Oliveira (Londrina-PR).


Leia os capítulos anteriores desta história aqui ou aqui.

[estante afetiva] A VIAGEM DAS PALAVRAS

 Durante uma viagem de avião, entre Brasília e São Paulo, eu soube que meu amigo, xará e conterrâneo Alexandre Brandão transou com a Gisele Bündchen.

O Xará é escritor, o que talvez o credencie a mentir, de forma não condenável. Escritores fingem completamente, como disse Fernando Pessoa, mas é outra a mentira que contam: afinal, uma das fontes da força da literatura é que cada mentira, cada fantasia, remete à realidade.

O ofício do escritor não é nada simples – não é feito de colocar palavras umas atrás de outras, mas de saber usar a palavra certa no lugar certo, o que é muito diferente. As palavras são como pedras de infinitas faces, e cada face tem um sentido e uma sutileza, o que torna a construção do texto uma função de ourives. É por isso que acreditei na história contada pelo Alexandre Brandão, embora a creia improvável, talvez não a transa em si, mas os diversos contextos.

Quem ler o livro No Osso – Crônicas Selecionadas, publicado pela Cais Pharoux, vai deparar com histórias em que Brandão revela suas várias faces de ourives da palavra. Há memória, fantasia, ficção, história e textos em que o autor simplesmente brinca com as palavras, como uma criança brinca com pedras, pedaços de ossos ou frutos verdes caídos das árvores. Escrever é, no mínimo, muito divertido, assim como ler o resultado dessas brincadeiras.

Mas o trabalho de Alexandre Brandão é muito sério – e aí talvez seja melhor tratar sua literatura não como uma brincadeira, mas como um jogo. Logo na primeira crônica, O mundinho das palavras, ele mostra de que essas pecinhas mágicas são capazes quando manipuladas por um bom artesão. Só faltou perguntar, no final, se delirium verbis é doença de escritor.

O livro traz 45 crônicas, escritas a partir de 2000. Parte delas foi publicada em jornais e blogs, especialmente o blog No Osso, que Brandão mantém há alguns anos e que emprestou o nome ao volume. Algumas referem-se à cidade de Passos, cenário de sua infância, mas alcançarão qualquer leitor sensível. Em outras, o autor exercita seus dons e imaginação de contista, em textos que pegam o leitor pelos sentidos e o conduzem sem turbulências até o final do livro, quando se percebe que a viagem foi rápida e prazerosa.