[crônica] O RELÓGIO DE MEU AVÔ



Meu avô morreu em janeiro de 1975, aos 85 anos. Eu, aos 18, não entendia bem a morte e não imaginava que, quanto mais se vive, mais ela se torna real e presente. Naquele dia eu estava em Belo Horizonte, fazendo as últimas provas do curso colegial. Morava numa república no 22º andar do edifício JK. No final da tarde, bateram à porta. Era um amigo, Helder Piantino, conterrâneo que morava alguns andares abaixo. Nosso apartamento não tinha telefone. Sempre que ele batia à minha porta, eu sentia certo desconforto. Naquele dia foi pior, porque havia deixado meu avô doente. Minha mãe pedia que eu ligasse. 

No domingo anterior, pouco antes que eu saísse em direção à rodoviária de Passos, minha mãe me puxou para um canto, olhou-me nos olhos e disse: “Vá se despedir de seu avô, pode ser que você não o veja mais.” Lembrei-me dessas palavras quando tomei o elevador ao lado do Helder, para lhe telefonar. 

Era uma terça-feira. Havia um ônibus para Passos à meia-noite. Dormi pouco durante a viagem. Pensava nas histórias sobre tempos antigos de Passos, que meu avô gostava de contar. À noite, sentava-se à mesa da sala do sobrado; minha avó, minha mãe e minhas tias ao redor e eu no colo de alguma delas, para ouvi-lo falar. 

O velho Chico Gomes, como era conhecido, teve inúmeras profissões. Quando bem jovem foi ferrador de cavalos. Nessa época, um fabricante de cigarros oferecia prêmios em troca dos selos que lacravam os maços. Meu avô, que foi fumante a vida inteira, conseguiu juntar mil selos e ganhou um relógio de parede. Quando contava isso, apontava orgulhosamente para o relógio às suas costas, imponente na parede da sala. Badalava de meia em meia hora, e duas vezes por semana meu avô subia numa cadeira para lhe dar corda. 

Desde menino, eu gostava de ouvir os badalos do relógio, que permaneceu naquela mesma parede por mais tempo que meu próprio avô dentro do sobrado. Pelo processo natural da vida, um homem nasce, amadurece, envelhece e morre, e Chico Gomes morreu de velho. De certa forma, a casa que ele construiu passou pelo mesmo processo. Consta que ficou pronta antes de 1910. Em dezembro de 2007, foi fechada por falta de moradores. 

Cheguei a Passos ao amanhecer. O ônibus da Transilva estacionou na velha rodoviária da Praça do Rosário. Atravessei a rua e desci a Antônio Carlos. Seria mais rápido pela Deputado Lourenço de Andrade, mas fiz meu caminho habitual, passando pela Praça da Matriz, rua Santo Antônio e virando à direita na Travessa Inconfidentes. Na esquina, parei por alguns momentos. Depois, virei à esquerda e cheguei ao velho sobrado. Na época, os velórios aconteciam nas próprias residências, e havia muita gente na calçada. 

Subi, sentindo cada degrau, e da sala de visitas tive a última visão de meu avô. A porta de vaivém que dava acesso ao interior da casa estava aberta. Haviam retirado a mesa da sala de jantar e a cômoda que ficava junto à parede do fundo. À esquerda de meu avô, o relógio parecia observar a cena: o velho Chico Gomes cercado de parentes, vizinhos, amigos da família, indiferente a todos. 

O relógio marcava quatro horas e alguns minutos. O horário exato da morte de meu avô. Quando ele exalou o último suspiro, o relógio parou junto. Em respeito à memória do velho, ou à estreita relação entre eles, ninguém ousou mexer no relógio por algum tempo. Mas depois o puseram para funcionar de novo, como se assim pudessem trazer meu avô de volta. 

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