EXÍLIA E A REVOLUÇÃO DOS 20 CENTAVOS


Cheguei a São Paulo na manhã de 17 de junho, segunda-feira. Na semana anterior, milhares de pessoas começaram a lotar as ruas, se manifestando, primeiro, contra o aumento das passagens de ônibus, e depois, em defesa de outras bandeiras. O lançamento de meu sexto livro de poemas, Exília, estava marcado para o dia seguinte, terça. Enquanto eu autografava livros na Casa das Rosas, a avenida Paulista era tomada por manifestantes.  

Casa das Rosas, na av. Paulista
Era o início de uma maratona de duas semanas, que se encerraria na quinta, 27, em Brasília. Ao longo desse trajeto, os protestos caminharam ao meu lado. No dia 20, quinta, dia do lançamento em Passos, minha terra, soube que lá também o povo iria às ruas – a primeira manifestação estava marcada para a semana seguinte. Era um dos assuntos do público que me prestigiou na Livraria Mar de Minas. Em Belo Horizonte, na manhã do sábado, 22, enquanto eu conversava sobre Exília na Livraria Mineiriana, na Savassi, manifestantes se reuniam no centro. Na quinta seguinte, 27, lancei finalmente em Brasília, depois de ver pela TV alguns sinais de que o governo pensava em governar.  

Escrever um livro de poemas é sempre uma aventura. Durante três anos, pensei, refleti, observei e deixei fluir emoções e questionamentos, até chegar ao volume que tomou forma na edição da Dobra Editorial. Sair às ruas para protestar também é uma aventura, e, assim como o poeta, o manifestante tem emoção e indagações à flor da pele. Meu livro tem como tema o sentimento da falta de lugar no mundo, que incomoda o cidadão que observa seu ambiente e se sente desenraizado e acuado. Os jovens nas ruas reivindicam um melhor lugar para viver. 

As manifestações aconteciam todos os dias. Após o lançamento em São Paulo, recebi mensagens de amigos e escritores, que se desculpavam por não terem conseguido chegar ao local. Outros, que não se explicaram, não precisaram fazê-lo: eu sabia que para muita gente era mais importante estar nas ruas protestando do que no lançamento de um livro de poemas. Também houve os que chegaram já no fim do evento, ou não chegaram a tempo de pegar a Casa das Rosas aberta. E houve os que driblaram passeatas e engarrafamentos para me encontrar na Casa das Rosas. 

Quando se planeja o lançamento de um livro, para dois meses depois, deve-se contar com o imprevisto, embora nada se possa fazer contra ele. Neste caso, o imprevisto foi a enorme energia que levou centenas de milhares de pessoas às ruas, diariamente, em dezenas de cidades. As ausências, em qualquer tipo de evento, e em particular em lançamentos de livros de poesia, são inevitáveis e previsíveis. Por isso, ao invés de lamentá-las, prefiro enaltecer as presenças. E recordar encontros, reencontros e boas, ainda que rápidas, conversas.  

“Não por ser gentil, / mas ardiloso, / meu país me acolhe nos braços / e expulsa meus sonhos / entre um e outro cansaço / (por mais abertos / os horizontes / mais faltam espaços).” Uma estrofe do poema Infinitos limites, página 59 de Exília, me descreve em meio à confusão. Mas estou cercado de pessoas queridas. Amigos novos, amigos antigos, amigos de sempre. Penso em cada um e fico feliz. Exília chega às mãos de pessoas importantes para mim. A guerra acontece lá fora. A guerra sempre acontece. Mas, se esse deserto inóspito me acolhe com mãos ásperas, a presença dos amigos é a marca que permanece. 

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