[crônica] AS IDADES DO HOMEM



Há algum tempo uma revista anunciou com certo estardalhaço que o brasileiro que chegará aos 120 anos de idade já havia nascido. Com a morte recente do arquiteto Oscar Niemeyer, o tema da longevidade voltou à discussão. Ele nos deixou alguns dias antes de completar 105 anos, idade a que também chegou outra brasileira famosa, a D. Canô, mãe de Caetano Veloso e Maria Bethania. Serena e sábia, ela percebeu que seu tempo se esgotara, e pediu que os filhos a retirassem do hospital onde se tratava de uma isquemia e a levassem para casa. Morreu no dia de Natal. Até um ano antes, estava cheia de saúde, encarando noitadas para ver shows dos filhos.

Ainda que o misterioso conterrâneo que chegará aos 120 esteja entre nós, a garantia da idade avançadíssima jamais nos livrará do processo do envelhecimento, que segundo a ciência tem início antes dos 40 anos e, na minha visão de leigo, no momento do nascimento. Porque viver, afinal, é envelhecer. 

O ser humano, e talvez todas as demais criaturas, envelhece aos pedaços. E um dos pedaços mais complicados do homem – e aqui me refiro ao gênero masculino – é um pequeno órgão chamado próstata. Dizem que, se o homem fosse um automóvel, haveria um “recall” em massa para resolver os problemas dessa peça, muito sujeita a defeitos devido ao seu posicionamento mal projetado. 

Por isso, quando uma médica, após uma ecografia, me disse que eu tinha “próstata de menino”, me espantei. Olhei-a com meus olhos de sexagenário e agradeci a comparação, que sintetizava o estado geral e dispensava explicações. 

Os olhos deram seu primeiro sinal de envelhecimento aos 17 anos. Pela janela do apartamento onde morava, no bairro Carlos Prates, de Belo Horizonte, percebi que o relógio da torre da igreja, a três quarteirões de distância, parecia embaçado e pouco preciso quando eu fechava o olho direito. Hoje, aos 56, ambos carregam significativa miopia, um pouco de diplopia, astigmatismo e agora deram para reclamar de cansaço. Assim, carrego comigo dois óculos, que uso de acordo com a necessidade. E me lembro que minhas tias, antes de pegar na máquina de costura, me convocavam, quando menino, para enfiar a linha no buraco da agulha... 

A audição, para minha surpresa, foi classificada como “excelente” após um teste. Cismado de que estava ficando surdo, fui tirar a prova. Para o médico, que me deu nota dez, não havia o que contestar. Para mim, ficou a dúvida: embora às vezes eu ouça excessivamente bem, há outras em que quero ouvir e não consigo. 

Talvez o problema esteja no cérebro, que, mesmo protegido na caixa craniana, tem sofrido com o calor. Meus cabelos diminuíram bastante ao longo do tempo, e os que permaneceram estão mais finos. Além disso, boa parte deles vai perdendo a cor. Quando senti saudades do garoto cabeludo que fui e tentei deixar crescerem os cabelos, eles simplesmente se recusaram. 

Manter o espírito jovem significa manter a inquietação, a curiosidade e o inconformismo naturais da juventude, mas o corpo, ou seja, a matéria, submete-se às mudanças ditadas pelo tempo que passa. Nossas células têm prazo de validade, e a passagem do tempo é visível no rosto, no corpo e nos gestos. Ou às vezes é invisível. Ainda que eu goste muito de caminhar, no mato ou na cidade, suba e desça escadas com desenvoltura, há alguns dias ouvi de um médico: “Sua válvula mitral está com prazo vencido.” 

Como se vê, não temos uma idade, mas várias. E a grande vantagem da maturidade que vem com o passar do tempo é o que aprendemos. Aprendemos, por exemplo, a encarar as adversidades com serenidade. E a tornar realidade aquele que é meu slogan preferido: “Um dia vamos rir disso tudo.” 

É o que pretendo, lá na frente. Não rir da vida, mas rir com ela. Com todos os sentidos ainda vivos, mesmo que de óculos, careca, de barbas brancas e coração reformado. 


[Publicada em CNP Notícias, edição de dezembro de 2012]

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