[estante afetiva] O BANAL E O ASSOMBRO

Os dias começam com a luz que avança aos poucos sobre o céu negro, mas ninguém sabe como terminam. A sensação de normalidade é sempre enganadora. A banalidade do dia a dia, de vidas medianas, não é garantia de que as próximas horas não serão profundamente alteradas por um fato ou outro, às vezes igualmente banal. E nesse universo do imponderável, atua ainda um outro elemento transformador: o criador de histórias.

Francisco de Morais Mendes é um criador de histórias. Seu livro Onde terminam os dias traz uma dúzia de narrativas construídas com tal senso de liberdade que as torna simplesmente surpreendentes, em que personagens à beira do assombro são levados por caminhos tortuosos a um fecho inusitado, tão inusitado quanto real. E, para complicar ainda mais esse percurso humano acidentado, não raramente aparece o escritor, às vezes na pele de um personagem que, dessa forma, ganha outro perfil, como o super-herói que emerge de sua identidade secreta.

Mas não há super-heróis no livro de Francisco. Em Pitanga verde, há  um herói derrotado, sutilmente instalado em momento histórico conturbado, no qual o heroísmo brota apenas das fantasias infantis. O tempo dos sinais, um dos momentos mais fortes do livro, é protagonizado pela mulher que, enquanto aguarda o sinal verde dar-lhe a ordem de retomar o movimento, mergulha em inesperado inferno, a partir do gesto banal de alisar os cabelos. Em Vanessa espera, o escritor se intromete para criar uma história paralela à outra que insiste em se desenrolar, como se a tensão não fosse suficiente.

Mitre no Hotel Júpiter persegue o leitor sem tréguas, ainda que ele esteja distante do livro, da mesma forma que o personagem persegue (ou é perseguido?) por uma mulher improvável. Também é fruto dessa luta do escritor com os fantasmas que o assessoram – ou o perturbam. Enquanto se desenrola a narrativa, não se sabe quem é o ficcionista – se o gerente do hotel, que escreve a história, ou apenas finge; se o hóspede, personagem dissimulado e sempre suspeito; ou o autor do livro, que oscila entre contar a história ou dar voz a quem pretende fazê-lo.

Em Os bonecos, ficção e memória se misturam dentro de uma ficção maior. Mundo louco é uma abordagem original dos simulacros que criam mundos em espiral. São universos sempre a meio caminho entre o real e o irreal, em que o fio dos acontecimentos é frequentemente conduzido a desvios inesperados. Assim prossegue a sequência de histórias, até outro de seus pontos altos, O sumiço do gigante verde. Aqui, o clima de estranhamento e horror, gradual como o dia que anoitece, não é quebrado pela explosão repentina que deveria repor os acontecimentos em novo eixo, mas, ao contrário, os atira em outra turbulência imprevisível.

[história afetiva] PROTÓTIPO, O COMEÇO

Em dezembro de 1972, circulou na cidade de Passos, sudoeste de Minas Gerais, a primeira edição da revista literária Protótipo. Publicava contos e poemas de um grupo de estudantes do ensino médio, ou ginasial, como se dizia na época, com idades entre 16 e 19 anos. O expediente da revista explicava: “(...) Objetivando a descoberta de novos valores, voltados para o mundo que nos cerca, em forma e conteúdo, o sempre/real mágico, correndo livre na imaginação de cada um: aquilo que desejaríamos criar ou estamos botando pra fora do corpo.”
 
A revista era patrocinada pelos comerciantes da cidade, aqueles que se sensibilizaram com a inquietação dos jovens – filhos, sobrinhos, filhos de amigos, ou simplesmente conterrâneos. Passos, localizada a 350 km de Belo Horizonte, por estrada não totalmente asfaltada, tinha uma população de 30 mil habitantes. O país vivia conturbado momento político e efervescente momento cultural. Jovens artistas de todo o país colocavam sua criatividade a serviço da resistência à ditadura militar. Protótipo despertou a atenção dos oficiais que administravam o chamado Tiro de Guerra, onde os jovens prestavam o serviço militar obrigatório. E também de professores e artistas da cidade.

 
Do expediente da revista constavam os nomes de Antonio Barreto, Carlos Parreira, Alexandre Marino, Iran Machado, Antônio Rogério Daniel, Carlos Parada, Paulo Régis da Silva, Marco Túlio Costa e Marise Pacheco. “Protótipo é nós. Nosso modo de exprimir o mundo presente. Aqui-agora, nos explodimos em estilhaços/bagaços, no interior das vísceras. Por favor, reaja. Faz de conta que te agredimos”, apelava o editorial. 

 
Na imagem que ilustra este texto, a reprodução da capa da primeira edição da Protótipo, uma raridade. A revista, que pretendia mostrar aos conterrâneos os primeiros passos dos futuros escritores passenses, rompeu os limites da província e foi comentada nos principais veículos de comunicação do Brasil. 


Algum tempo depois, em 1981, o escritor Glauco Mattoso, em seu livro O que é poesia marginal, da coleção Primeiros Passos da Editora Brasiliense, informava que Protótipo era uma das pioneiras do movimento da poesia marginal, ao lado da carioca O Feto.  Na época o rótulo de "marginal" para designar a mais recente geração poética brasileira ainda não estava assimilado pela cultura acadêmica, mas já era usado pelos autores, incluindo o próprio Mattoso. 
 
Um pouco da história de Protótipo será contada aqui, em capítulos. 


Leia outros capítulos desta história aqui ou aqui.   

LITERATURA NAS ESCOLAS

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Para realizar sua primeira feira literária, a Secretaria de Educação, Cultura, Esporte e Lazer da cidade de Passos (MG) optou por priorizar as atividades nas escolas do município. Nada de falsamente grandioso: não foram convidados superstars da literatura nem foram montados pavilhões gigantescos para atrair turistas. Mas o evento deixou marcas profundas em cerca de 20 mil estudantes de 40 escolas. E também nos escritores que participaram.

A I Flipassos foi oficialmente aberta em 8 de maio. No dia 11, sexta, falei sobre a importância dos livros e da literatura a mais de 700 alunos da Escola Estadual Nazle Jabur. Os estudantes haviam lido meu livro Arqueolhar, e fizeram emocionantes apresentações de meus poemas. No mesmo dia, conheci o belo trabalho que os alunos da escola Júlia Kubitschek fizeram sobre o mesmo livro.

Cerca de 30 escritores convidados tiveram atividades semelhantes em várias escolas. Quando não estavam conversando com os estudantes, eram entrevistados na tenda montada na Praça Geraldo da Silva Maia e conversando com o público. Alguns fizeram palestras em auditórios superlotados. Diariamente houve lançamentos de livros, nas dependências do Palácio da Cultura (sede da Secretaria) ou na praça.



No dia 14 de maio, segunda-feira, aniversário dos 154 anos de Passos, os escritores foram homenageados pelas escolas, participando do desfile que atraiu grande público, mesmo debaixo de chuva, à região central da cidade.

Este ano, o tradicional Carnaval da cidade foi cancelado pela prefeitura devido à alta incidência de casos de violência. Os R$ 80 mil investidos na I Flipassos foram remanejados da festa que não houve. O aumento de interesse pelos livros e pela leitura é evidente. Tem havido crescente procura de livros nas bibliotecas escolares, que a Secretaria de Educação e Cultura tem mantido bem equipadas.



Os escritores nascidos em Passos que participaram do evento - este escriba, Antonio Barreto, Marco Túlio Costa, Alexandre Brandão, Marise Pacheco, Benedito José, Sebastião Wenceslau Borges, Deucélia Maciel - se tornaram profetas em sua terra. Uma bela homenagem prestada pela cidade, que pode reverter em enormes benefícios.

O trabalho desenvolvido pela Secretaria de Educação e Cultura e pelas escolas já fez subir o Ideb (índice que mede o grau de educação do município) para 6,3, média prevista para o Brasil em 2020. Investir em educação é garantir um futuro melhor para todos. Passos no caminho certo.  

ARQUEOLHAR NA FLIPASSOS

Meu livro de poemas Arqueolhar, lançado em 2005, foi escrito durante quatro anos – desde 2001, quando me ocorreu a ideia de fazer um mergulho em minha infância, até 2005, quando o publiquei. Foi uma fascinante experiência de cavoucar meus abismos interiores por meio da literatura. Ao mesmo tempo, considero o resultado bem sucedido em termos de projeto literário, o que prova, ao menos para mim, que a poesia, a literatura e as artes em geral só se realizam plenamente quando o autor lança mão de seus fantasmas e pirações para produzir suas obras, dosando os frutos desse mergulho com a técnica, o lirismo e um certo olhar crítico, de forma a tornar sua obra palatável a quem teve outras vivências. 
 
O cenário dos poemas de Arqueolhar é minha terra, Passos, no sul de Minas Gerais, que realiza esta semana, com encerramento em 14 de maio, a sua primeira Feira Literária, a Flipassos. Volto à cidade para conversar sobre o livro com grupos de estudantes, em duas escolas, e em encontros com outros escritores. Minha expectativa é grande, porque terei a oportunidade de apresentar novamente a meus conterrâneos um trabalho que não deixa de ser, também, uma homenagem à cidade onde passei minha infância e adolescência. 

 
Os poemas de Arqueolhar abordam aquilo que poderíamos chamar de alma de uma cidade, ou ao menos um espírito que identifiquei como tal. Lá estão lugares, personagens, objetos, anônimos e banais, que podem ou não ser reconhecidos, mas que compuseram o mosaico de minha formação – e prova disso é que estão arraigados em minha memória. Conviver de novo com o cheiro do cômodo da antiga cadeia pública, onde meu pai trabalhava como radiotelegrafista, ou o sabor do sorvete vendido nas imediações da antiga rodoviária, numa máquina trêmula e barulhenta, foi uma experiência quase psicanalítica. 

 
Ao descrever o livro numa frase, eu dizia que escrever esses poemas foi como escavar o fundo do quintal, como fazem as crianças, ao sonhar com a possibilidade de descobrir a ossada de um dinossauro. Assim, minha intenção não foi de falar de saudade, nem de recordar o passado, não foi de entrar numa sessão de nostalgia. Arqueolhar é um encontro, um mergulho numa caverna escura, uma descoberta.

COMEÇA A FLIPASSOS


A I Feira Literária de Passos, Flipassos, será aberta nesta terça-feira, 8 de maio, com palestra da escritora Maria Antonieta Cunha, secretária-executiva do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) do Ministério da Cultura. Passos localiza-se no sudoeste de Minas Gerais, tem cerca de 100 mil habitantes e a I Flipassos é um acontecimento histórico, no entender deste escriba. Afinal, a cidade é celeiro de escritores, tem uma História que daria um romance – ou vários, alguns dos quais já foram escritos – e precisava há muitos anos promover esse encontro, que será, acima de tudo, uma troca de experiências entre escritores e potenciais leitores.

A programação da feira é ampla e contará com debates, seminários, lançamentos de livros, oficinas, apresentações musicais e de peças teatrais, a partir desta quarta-feira, 9, até o dia 14, segunda-feira, quando uma série de festividades encerra a feira e comemora o aniversario da cidade.

Não é possível citar a programação inteira neste espaço. Mas vou citar os escritores que passarão por lá. Banca Maria de Paula (dia 9), Marco Túlio Costa (9), Jairo de Paula (9), Ronaldo Simões Coelho, Décio Martins Cançado (10), Alexandre Brandão, Marise Pacheco, Leo Cunha,  Maurílio Andréas Silveira, Nelson Cruz, Jaime Prado Gouveia, Neusa Sorrenti, Hilda Mendonça, Sérgio Fantini (dia 11), Luís Giffoni, Deucélia Maciel, Sebastião Wenceslau Borges, Alexandre Marino, Benedito José, Adriano Alcântara, Antonio Barreto, Ricardo Bastos Machado, Marcelo Xavier (dia 12).

A feira privilegia atividades que atraiam os estudantes do ensino médio, como encontros com escritores, oficinas, narração de histórias. Uma proposta extremamente importante para a cidade, que tem boas bibliotecas mas é pobre em livrarias e tem baixo índice de leitura – nada diferente de outras cidades médias de um país chamado Brasil.

FLIPASSOS, LÁ VOU EU


Praça da Matriz de Passos, Minas Gerais. Minha terra. Nesta praça, dei meus primeiros passos, fiz meus primeiros grandes amigos, namorei pela primeira vez. Nesta igreja transgredi pela primeira vez a obrigação da missa dominical. Esta semana, volto à cidade para participar da I Feira Literária de Passos, Flipassos. Em ótimas companhias.

O VAGABUNDO SAGRADO

A lenda do Vagabundo Sagrado, por meu amigo Ivan Sérgio e sua lendária banda. Ivan é autor do romance No submundo do sucesso, em que ele conta a história de um roqueiro que oscila entre inferno e paraíso, paraíso e inferno. Ele diz que o romance é autobiográfico, mas há controvérsias... Mas a lenda do Vagabundo é demais!



[poema] A LARANJA


Em 2007, publiquei o livro Poemas por amor, todo ele dedicado a Nádia, minha especial companheira de poesia e de todas as horas. Entre os poemas, este que apresento aqui, ilustrado pelo gesto hábil que inspirou sua escrita. Espero que apreciem.

DIA NACIONAL DA POESIA, SEMPRE

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No dia 14 de março, aniversário de Castro Alves, comemoramos o Dia Nacional da Poesia. Este escriba aproveita para homenagear Claude Monet. O poema que se lê na imagem faz parte do livro Exília, que declaro oficialmente concluído neste 14 de março de 2012. Exília foi um dos ganhadores da Bolsa Funarte de Criação Literária, em 2008. A primeira versão do livro foi encaminhada à fundação em julho de 2009, em acordo com o edital. Agora, considero-o pronto para publicação. A bolsa da Funarte foi importante para que esse livro deixasse de ser apenas um projeto e se tornasse real - embora, por enquanto, inédito.

SERGUILHA EM BRASÍLIA

O poeta português Luis Serguilha comparece a Brasília esta semana - mais precisamente na próxima quinta-feira, 15 de março - para lançar seu novo livro, KOA´E. Poeta e ensaísta, escritor premiado, com textos publicados em revistas de literatura no Brasil, Espanha e Portugal, além de traduções para várias línguas, Serguilha é atração imperdível.

KOA'E projeta o holomovimento poético, a contínua dança energética-poética, a teia dançante de infinitas possibilidades, explica o crítico de arte Daniel-Karys Strauss. Luis Serguilha é conhecido como um dos mais transgressivos e inovadores da atual poesia portuguesa - e da poesia lusófona, se poderia acrescentar. 

Strauss prossegue: "KOA'E recria o mapa cósmico como uma melodia de imersões e emersões fractais onde o possível leitor se transforma em músico e bailarino. Um corpo-teatro-sensorial em ebulição. KOA'E expande, constrói e recolhe curto-circuitos nos corpos dos leitores. As multiplicidades estéticas deste livro criam um rizoma de fusões imaginárias-perceptivas. A violência das construções poéticas de KOA'E desoculta a vida e recria-a onde cada golpe imagético resgata abismos e cartografa arquitecturas mágicas fazendo da sua heterogeneidade um fluxo intensificador de forças estéticas."

Serguilha lança KOA´E em Brasília na próxima quinta-feira, 15 de março, das 19h às 21h, no Balaio Café, 201 Norte, bloco B. É preciso ver isso de perto.

[discoteca afetiva] OUVIR SEM PARAR

Liebe Paradiso: como um livro
Classificar obras de arte com expressões como "o melhor", "o maior", "o mais importante" me parece um gesto injusto, antipático e arrogante, porque pressupõe uma tentativa de impor o julgamento de quem o faz sobre os critérios do leitor, ou receptor. No entanto, vou tomar a liberdade de dizer que nenhum CD lançado no Brasil em 2011 me proporcionou tamanho prazer quanto Liebe Paradiso, de Celso Fonseca e Ronaldo Bastos. É de ouvir sem parar.

A história da música brasileira está cheia de exemplos de parcerias inesquecíveis, como Toquinho e Vinícius, João Bosco e Aldir Blanc, Ivan Lins e Vitor Martins e inúmeras outras. Agora, se você ainda não se tocou, preste atenção nessa dupla, que já criou alguns álbuns de primeira grandeza.

Em 1997, Celso Fonseca gravou o CD Paradiso, segundo resultado de suas parcerias com o letrista Ronaldo Bastos, cujo talento já era conhecido desde o Clube da Esquina. Paradiso é um CD belíssimo, do primeiro ao último acorde. Por isso, a ideia de recriar o disco pode ter soado meio incompreensível.

Pois foi justamente o que eles fizeram. E reuniram um time - aliás, vários - de primeira grandeza para participar do trabalho. Recriaram todas as faixas e acrescentaram duas, retiradas de outros CDs da dupla. O resultado é brilhante e, por que não dizer, indescritível, porque só ouvindo o CD - do princípio ao fim, como se lê um livro - será possível compreender esses comentários.

Além da bela voz de Celso Fonseca, outras grandes estrelas interpretam essas canções. É emocionante ouvir Luiz Melodia, Adriana Calcanhotto, Milton Nascimento, Paulo Miklos, Nana Caymmi, além de outros artistas excepcionais que participam, como Marcos Valle, João Donato, Robertinho Silva, Nivaldo Ornelas... e outros, muitos outros. E aqui destaco a participação de Antonio Cícero, declamando um belo poema.

Liebe Paradiso foi citado em várias listas de melhores CDs do ano. É o bastante. Não vou dizer que é melhor que outros citados. Mas vou dizer que cada faixa, ao tocar, nos parece a melhor do disco. Ao chegar ao final, fica aquela indecisão e somos obrigados a ouvir de novo. E assim indefinidamente. Obrigado pelo presente, Celso e Ronaldo!

A POESIA MERECE


A poesia de alto quilate de Ferreira Gullar, um artista que jamais deixou escapar a dignidade e a coerência em seus mais de 80 anos, acaba de ganhar mais um prêmio merecidíssimo, o Moacyr Scliar de Literatura do RS. Para esses indivíduos estranhos, assim como eu, para quem a poesia é altamente necessária e, mais que isso, vital, é prazeroso analisar esse prêmio. Para começar, o objetivo de distinguir exclusivamente poetas e contistas, a cada dois anos, com um prêmio de R$ 150 mil, terceiro maior do país, já é um mérito. As menções honrosas para A Vida Submarina, de Ana Martins Marques, Lar, de Armando Freitas Filho, Em Trânsito, de Alberto Martins, e Aleijão, de Eduardo Sterzi, também me parecem merecidas, especialmente para os dois primeiros, que eu li. 

Na lista de inscritos, há vários outros livros que, na minha opinião de leitor, poderiam ter sido premiados, como Nada a dizer, de Marcelo Sahea, Viavária, de Iacyr Anderson Freitas, Treva Alvorada, de Mariana Ianelli, O silêncio tange o sino, de Mariana Botelho, entre outros. São belíssimos trabalhos que revelam o bom momento da poesia brasileira, e sinto-me um privilegiado por ter lido alguns dos 152 livros inscritos. 

O Instituto Nacional do Livro do Rio Grande do Sul merece uma menção pela realização deste concurso, especialmente num momento em que, só para citar um mau exemplo, o governo de Minas Gerais, estado que sempre revelou boa literatura, ameaça acabar com prêmios tradicionais e até com o mais antigo periódico dedicado às letras neste país, o Suplemento Literário de MG.

A foto que ilustra esta postagem foi tomada emprestada à Agência Estado
e é de autoria de Fábio Motta.

ADEUS, WISLAWA


 A poetisa polonesa Wislawa Szymborska (pronuncia-se Vissuáva Chembórska) morreu nesta quarta-feira, 1º de fevereiro, aos 88 anos, em sua casa, na Cracóvia. Seu único livro publicado no Brasil, sob o singelo título de Poemas, lançado no ano passado, é uma belíssima amostra de sua poesia, mas apenas despertou minha sede de conhecê-la melhor. Apesar de seu nome quase imemorizável para nós, brasileiros, eu não me esqueci dessa autora premiada com o Nobel em 1996 desde que li na revista Piauí, em 2007, alguns de seus poemas. Um dos melhores exemplos de sua poesia forte, contundente, vigorosa é este que você lê abaixo. Ele não consta da coletânea publicada pela Companhia das Letras, mas quem sabe não constará de futuras traduções brasileiras?

Fotografia do 11 de setembro

Pularam dos andares em chamas -
um, dois, alguns outros,
acima, abaixo.
A fotografia os manteve em vida,
e agora os preserva
acima da terra rumo à terra.
Ainda estão completos,
cada um com seu próprio rosto
e sangue bem guardado.
Há tempo suficiente
para cabelos voarem,
para chaves e moedas
caírem dos bolsos.
Permanecem nos domínios do ar,
na esfera de lugares
que acabam de se abrir.
Só posso fazer duas coisas por eles -
descrever este vôo
e não acrescentar o último verso.

Wislawa Szymborska


 Tradução de Sylvio Fraga Neto e Danuta Haczynska da Nóbrega

UMA ODISSEIA NA FICÇÃO


Meu avô morreu em 1975, sem jamais acreditar que o homem foi à lua. Lembrei-me dele ao rever, pela enésima vez, 2001, Uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick, agora com a nitidez proporcionada pelo blue-ray. No filme, um clássico do cinema, dois astronautas viajam em direção a Júpiter numa nave controlada por um computador avançadíssimo, capaz de dialogar, deduzir, refletir e sentir.

Filmado com efeitos especiais nunca vistos no cinema, que até hoje não perderam a força, 2001 foi lançado em 1968, um ano antes da suposta viagem dos astronautas norte-americanos à lua. A epopéia de Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins foi uma resposta dos Estados Unidos à União Soviética, que haviam colocado um astronauta na órbita da Terra. Em plena Guerra Fria, a façanha foi uma vitória diante dos soviéticos.

 
Existem muitos indícios de que a viagem à lua não passou de uma montagem, uma farsa, uma ficção. Observações nas fotografias dos astronautas no solo lunar, divulgadas pela agência espacial norte-americana Nasa, revelam contradições, como a penumbra, inexistente em ambiente sem atmosfera, marcas de pegada onde não deveriam existir, devido à falta de gravidade, ausência de sinais do propulsor do módulo lunar, exposição dos astronautas à radiação solar, mortal naquelas condições, e muitas outras evidências – ou razões para dúvidas.


Há quem identifique o cineasta Stanley Kubrick numa foto anterior, produzida pela própria Nasa, o que poderia significar que ele contribuiu para a farsa. No contexto político daquela época, poderia ter sido possível ao governo norte-americano convencer alguns participantes da importância da conquista, ainda que fictícia, da lua. 

 
Ao rever o filme 2001, Uma odisséia no espaço, lembrei-me de toda essa história ao observar os detalhes das naves espaciais e especialmente das cenas passadas na lua, em cenário extremamente parecido com o das filmagens da viagem supostamente forjada. Nos créditos, no final do filme, há agradecimento aos cientistas que prestaram consultoria para roteiro e filmagens.

 
Para fazer um filme que, mais de 40 anos depois de lançado, permanece moderno e futurista, Stanley Kubrick e seu parceiro, o escritor Arthur Clarke, precisaram de uma competente assessoria, para que os detalhes científicos não se tornassem inverossímeis. Precisaram também de projetos de naves espaciais e outros equipamentos, que o governo norte-americano e a Nasa poderiam ter cedido, em troca de algum tipo de compensação. Era a parceria perfeita para dois filmes de ficção científica, e não apenas um. 

 
Assim como todas as obras de arte, o filme possui várias camadas de leitura, que vão de uma simples história de ficção a todo o simbolismo sobre a evolução da humanidade. O tempo, o ritmo, a fotografia, os cenários, tudo permanece perfeito. Do gesto do símio que transforma um osso em arma, no início do filme, ao olhar do feto diante da Terra, na cena final, 2001 é uma obra-prima do cinema. Inesquecível.

PAISAGEM NA NEBLINA


Esta é uma das mais belas cenas que já vi no cinema. Está em Paisagem na Neblina, do grego Theo Angelopoulos. Essse filme encabeçaria a lista dos que eu levaria para uma ilha deserta, com certeza. Quem viu o filme há de se lembrar da cena. É uma obra de arte carregada de simbolismo, uma lição de como a vida, em seu sentido mais amplo, pode ser profundamente refletida em uma história que se conta em duas horas. Agora, acabo de saber que Angelopoulos, aos 76 anos, acaba de falecer, em consequência de um atropelamento. É muito difícil aceitar e compreender. É um daqueles mistérios que ele próprio tentou desvendar com os belíssimos filmes que nos deixou.

O TRAVESTI DO AMAURY

O jornalista Amaury Ribeiro Jr. virou celebridade nas redes sociais. O nome não me era estranho. Fui ao Google e uma matéria da Folha de S. Paulo me informou que ele é ligado ao "grupo de inteligência" da campanha de Dilma Rousseff. Não confio muito na Folha, mas se a matéria não foi desmentida, deve ser verdade.

Amaury escreveu o livro Privataria Tucana, bombando entre os best-sellers. O livro é um cozinhado de um dossiê que ele preparou contra José Serra - primeiro por encomenda de Aécio Neves, depois vendido ao PT. É estranho, mas são coisas da política.

Como se vê, Amaury só circula entre bonna gente. Mas eu sabia que o conhecia de outras plagas. Afinal, detesto os políticos - todos os políticos - e deles quero distância, assim como de seus agregados. Aí fui pesquisar minha coleção de bolachões, e achei uma preciosidade, o LP Precoce, do Amaury, lançado em Belo Horizonte em 1992. O disco é raridade até nos sebos. Certamente a produção de dossiês é muito mais lucrativa do que a música, mas até que Amaury levava jeito.
  
 


BRASÍLIA TERÁ BIENAL DE LIVROS


Depois de dar um pontapé na segunda edição da Bienal Internacional de Poesia de Brasília, que vinha sendo planejada há dois anos, e de demitir Antonio Miranda do cargo de diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, a secretaria de Cultura do DF anuncia a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, a se realizar em abril de 2012.

Pois é, mais uma “bienal”. E o nome é pretensioso. O secretário de Cultura, Hamilton Pereira, anuncia a captação de R$ 7,5 milhões em patrocínio, depois de negar apoio ao evento de poesia, que precisava de R$ 1,5 milhão para se viabilizar. Hamilton se apresenta como poeta, mas é apenas um político como todos os outros.

A secretaria convocou o escritor Luiz Fernando Emediato e deu-lhe o cargo de coordenador literário da anunciada Bienal do Livro e Leitura. Emediato critica a Biblioteca Nacional por não ter livros disponíveis para empréstimo. Talvez ele não saiba que a Secretaria de Cultura negou recursos para que bibliotecários fossem contratados para cadastrar as dezenas de milhares de volumes que a biblioteca já possui. Os poucos bibliotecários que lá trabalham eram obrigados a cumprir funções burocráticas e seus salários estavam constantemente atrasados.

Luiz Emediato lembra que o brasiliense é “leitor de peso”, e o DF é o maior consumidor de livros per capita do país, segundo pesquisa da Câmara Brasileira do Livro (CBL) e do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Esses dados são uma falácia. Se fosse assim, as editoras correriam para participar de eventos na cidade, o que não acontece. O poder público – mais especificamente, o governo do DF – não entende nada de cultura. Brasília foi pensada para ser o centro cultural do país, mas essa ideia foi desvirtuada pelos militares e os governos locais, capitaneados por Joaquim Roriz, não querem saber disso. Agnelo Queiroz não é diferente.

O prometido evento terá o arquiteto Oscar Niemeyer como convidado, de acordo com o coordenador. É uma ótima ideia. Ao percorrer a Biblioteca Nacional de Brasília, Niemeyer terá uma noção do péssimo resultado de seu projeto – um prédio absolutamente inadequado para uma biblioteca.

LEONARD COHEN DE VOLTA!


Algumas das questões mais profundas da condição humana são abordadas nas canções de Old Ideas, novo CD de Leonard Cohen, que terá lançamento mundial no dia 31 de janeiro. É o 12º disco de estúdio do genial bardo canadense, e ele está em plena forma, do alto de seus 77 anos. Depois de uma turnê mundial iniciada em maio de 2008 e encerrada em dezembro de 2010, Cohen lança 10 canções inéditas, das quais apenas duas foram apresentadas durante a turnê. O álbum é produzido por  Patrick Leonard, Anjani Thomas, Ed Sanders e Dino Soldo. Cohen está, como sempre, apoiado por belos vocais femininos: Dana Glover, Sharon Robinson, The Webb Sisters (Hattie e Charley Webb) e Jennifer Warnes. A arte da capa é do próprio Leonard Cohen. Agora, é controlar a expectativa!