ARQUEOLHAR NA FLIPASSOS

Meu livro de poemas Arqueolhar, lançado em 2005, foi escrito durante quatro anos – desde 2001, quando me ocorreu a ideia de fazer um mergulho em minha infância, até 2005, quando o publiquei. Foi uma fascinante experiência de cavoucar meus abismos interiores por meio da literatura. Ao mesmo tempo, considero o resultado bem sucedido em termos de projeto literário, o que prova, ao menos para mim, que a poesia, a literatura e as artes em geral só se realizam plenamente quando o autor lança mão de seus fantasmas e pirações para produzir suas obras, dosando os frutos desse mergulho com a técnica, o lirismo e um certo olhar crítico, de forma a tornar sua obra palatável a quem teve outras vivências. 
 
O cenário dos poemas de Arqueolhar é minha terra, Passos, no sul de Minas Gerais, que realiza esta semana, com encerramento em 14 de maio, a sua primeira Feira Literária, a Flipassos. Volto à cidade para conversar sobre o livro com grupos de estudantes, em duas escolas, e em encontros com outros escritores. Minha expectativa é grande, porque terei a oportunidade de apresentar novamente a meus conterrâneos um trabalho que não deixa de ser, também, uma homenagem à cidade onde passei minha infância e adolescência. 

 
Os poemas de Arqueolhar abordam aquilo que poderíamos chamar de alma de uma cidade, ou ao menos um espírito que identifiquei como tal. Lá estão lugares, personagens, objetos, anônimos e banais, que podem ou não ser reconhecidos, mas que compuseram o mosaico de minha formação – e prova disso é que estão arraigados em minha memória. Conviver de novo com o cheiro do cômodo da antiga cadeia pública, onde meu pai trabalhava como radiotelegrafista, ou o sabor do sorvete vendido nas imediações da antiga rodoviária, numa máquina trêmula e barulhenta, foi uma experiência quase psicanalítica. 

 
Ao descrever o livro numa frase, eu dizia que escrever esses poemas foi como escavar o fundo do quintal, como fazem as crianças, ao sonhar com a possibilidade de descobrir a ossada de um dinossauro. Assim, minha intenção não foi de falar de saudade, nem de recordar o passado, não foi de entrar numa sessão de nostalgia. Arqueolhar é um encontro, um mergulho numa caverna escura, uma descoberta.
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