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Brasília, árida e bela. |
BONS TEMPOS AQUELES
Trabalhei na sucursal de Brasília do Jornal do Brasil entre 1985 e 1988, e considero esse período a mais importante experiência da minha vida profissional. O JB, apesar da fama de empresa eternamente endividada, era um dos quatro grandes da imprensa nacional, e na opinião da maioria dos jornalistas, o melhor de todos. Ali estava o jornalismo mais criativo, o melhor texto, as reportagens mais originais.
Hoje, 31 de agosto de 2010, circula pela última vez a edição impressa do Jornal do Brasil, fundado há 119 anos e mergulhado numa dívida de R$ 800 milhões. As últimas edições tiveram tiragem de 30 mil exemplares, segundo o próprio jornal, que, nos anos 60, chegou a tirar 230 mil exemplares aos domingos. A partir de agora, o JB será lido apenas na internet, em "nova e melhor fase", anunciada por um editorial que enaltece o "primeiro jornal 100% digital"...
Em meados dos anos 80, quando a redação brasiliense tinha uns 30 jornalistas, os grandes jornais brasileiros adotavam a impressão offset, com fotos a cores e importantes mudanças gráficas. Só o JB, primo pobre, continuava com o anacrônico sistema leterpress, pouco mais evoluído que a tipografia. As fotos, sempre em preto-e-branco, tinham baixa nitidez, o que não tolhia o talento dos fotógrafos.
Ricardo Noblat era o editor executivo da sucursal, dirigida por Luiz Orlando Carneiro. O braço direito de Noblat era João Santana, um talentoso ex-poeta, que no passado era conhecido como Patinhas e escrevia belas letras para as canções da banda baiana Bendegó. Hoje ele abandonou também o jornalismo e transformou-se em vendedor de ilusões... Que evolução!
O lendário colunista político Carlos Castelo Branco publicava todos os dias na página dois, e eventualmente aparecia na redação para entregar sua coluna datilografada. Luiz Orlando raramente saía de sua sala, afastada da redação, mas de vez em quando aparecia para um comentário interessante, um papo rápido com os repórteres presentes. Além de jornalista, Luiz Orlando é um dos maiores especialistas brasileiros em jazz, essa forma elevada de música, e desenhista diletante. Dois de seus desenhos a crayon, de temática jazzística, decoram uma parede de meu apartamento.
"Jornalista trabalha melhor sob tensão", ensinava Noblat, que atribuía a si essa nobre missão - estressar os repórteres. Contam as lendas da época que todos os jornalistas da redação mantinham agenda semanal com a mesma psicanalista. Ao chegar um novato, ela advertia: "Fale-me de sua mãe, porque do Noblat eu já sei tudo."
Bons tempos aqueles. Acho que estou ficando velho. Não há mais JB nas bancas e tenho cada vez mais histórias para contar.
Hoje, 31 de agosto de 2010, circula pela última vez a edição impressa do Jornal do Brasil, fundado há 119 anos e mergulhado numa dívida de R$ 800 milhões. As últimas edições tiveram tiragem de 30 mil exemplares, segundo o próprio jornal, que, nos anos 60, chegou a tirar 230 mil exemplares aos domingos. A partir de agora, o JB será lido apenas na internet, em "nova e melhor fase", anunciada por um editorial que enaltece o "primeiro jornal 100% digital"...
Em meados dos anos 80, quando a redação brasiliense tinha uns 30 jornalistas, os grandes jornais brasileiros adotavam a impressão offset, com fotos a cores e importantes mudanças gráficas. Só o JB, primo pobre, continuava com o anacrônico sistema leterpress, pouco mais evoluído que a tipografia. As fotos, sempre em preto-e-branco, tinham baixa nitidez, o que não tolhia o talento dos fotógrafos.
Ricardo Noblat era o editor executivo da sucursal, dirigida por Luiz Orlando Carneiro. O braço direito de Noblat era João Santana, um talentoso ex-poeta, que no passado era conhecido como Patinhas e escrevia belas letras para as canções da banda baiana Bendegó. Hoje ele abandonou também o jornalismo e transformou-se em vendedor de ilusões... Que evolução!
O lendário colunista político Carlos Castelo Branco publicava todos os dias na página dois, e eventualmente aparecia na redação para entregar sua coluna datilografada. Luiz Orlando raramente saía de sua sala, afastada da redação, mas de vez em quando aparecia para um comentário interessante, um papo rápido com os repórteres presentes. Além de jornalista, Luiz Orlando é um dos maiores especialistas brasileiros em jazz, essa forma elevada de música, e desenhista diletante. Dois de seus desenhos a crayon, de temática jazzística, decoram uma parede de meu apartamento.
"Jornalista trabalha melhor sob tensão", ensinava Noblat, que atribuía a si essa nobre missão - estressar os repórteres. Contam as lendas da época que todos os jornalistas da redação mantinham agenda semanal com a mesma psicanalista. Ao chegar um novato, ela advertia: "Fale-me de sua mãe, porque do Noblat eu já sei tudo."
Bons tempos aqueles. Acho que estou ficando velho. Não há mais JB nas bancas e tenho cada vez mais histórias para contar.
INCLUSÃO CULTURAL
O escritor e jornalista Wilson Rossato teve a idéia de escrever o livro O sonho de Fernão - Uma aventura com Fernão Dias Paes ao descobrir que é descendente do bandeirante. Com essa obra, voltada para o público infanto-juvenil, Rossato dá prosseguimento a um interessante projeto, o de contribuir para a inclusão cultural de jovens carentes. Ao vender o exemplar ao preço simbólico de R$ 1,00, ele permite que os estudantes das escolas que visita adquiram o livro, e estimula a leitura ao conversar com eles sobre seu trabalho. Para os leitores tradicionais, Rossato lança o livro na próxima quinta-feira, 26, a partir das 19h, no Açougue Cultural T-Bone (312 norte). A eles o livro também é vendido a R$ 1,00, mas Rossato sugere que quem puder pague um pouco mais, levando apenas um exemplar, contribuindo, assim, para a distribuição de mais volumes. O projeto de inclusão cultural promovido por Rossato começou em 2008, com o livro O DJ e as armas proibidas. Total apoio ao Wilson.
A REINVENÇÃO DO ESCRITOR
Jornalista e crítico literário, Sérgio de Sá lança nesta terça-feira, 24, no Restaurante Carpe Diem (104 sul), A reinvenção do escritor: literatura e mass media. O livro, publicado pela Editora da UFMG, analisa as conexões entre a vida literária latino-americana e seu contexto histórico e social, e questiona o papel da literatura e do escritor no mundo urbano. Sérgio de Sá tem tido importante participação no movimento literário de Brasília.
MARCELO SAHEA EM BRASÍLIA
O poeta Marcelo Sahea volta a Brasília para apresentar sua performance poética intermídia e lançar seu novo livro, Nada a dizer - além, é claro, de rever os velhos amigos e incorporar os novos.
Vamos encontrá-lo na Galeria Objeto Encontrado (102 Norte, Bloco B, Loja 56, Asa Norte), a partir das 19h, na próxima terça-feira, 24.
Sahea é diretor de arte, além de artista visual e sonoro, e participou de exposições coletivas como a Obranome II, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio, no ano passado, e na I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, em 2008. No mesmo ano fez uma individual na Mostra Sesc de Artes, em São Paulo.
Artista inquieto e criativo, Sahea tem investido em performances poéticas que reúnem palavras a sonoridades diversas. Em seus livros, utilizando conhecimentos de artes gráficas e as possibilidades ilimitadas da informática, ele desenvolve um trabalho absolutamente pessoal. Será uma bela experiência comparecer e ver o que ele nos reserva.
Vamos encontrá-lo na Galeria Objeto Encontrado (102 Norte, Bloco B, Loja 56, Asa Norte), a partir das 19h, na próxima terça-feira, 24.
Sahea é diretor de arte, além de artista visual e sonoro, e participou de exposições coletivas como a Obranome II, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio, no ano passado, e na I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, em 2008. No mesmo ano fez uma individual na Mostra Sesc de Artes, em São Paulo.
Artista inquieto e criativo, Sahea tem investido em performances poéticas que reúnem palavras a sonoridades diversas. Em seus livros, utilizando conhecimentos de artes gráficas e as possibilidades ilimitadas da informática, ele desenvolve um trabalho absolutamente pessoal. Será uma bela experiência comparecer e ver o que ele nos reserva.
DESENVOLVIMENTISMO DESTRUIDOR
Esta foto, feita por Wilson Pedrosa e publicada no jornal O Estado de S. Paulo desta quinta-feira, 19, ilustra com perfeição o tipo de desenvolvimento proposto pelo bando de Dilma Rousseff e seu partido e que a mim, como eleitor, não interessa. Ela mostra o avanço da Ferrovia Transnordestina, como um tanque de guerra, sobre a histórica igreja de São Luiz Gonzaga, no povoado de Fazendinha, sertão de Moxotó, Pernambuco.
A igreja, de acordo com reportagem de Leonêncio Nossa, é um raro símbolo do Brasil Colônia, encravado na caatinga desde o século 18. Antes de chegar às proximidades da igrejinha, as máquinas sedentas do desenvolvimentismo a todo custo passaram por cima de velhas baraúnas, também cultuadas pelas cerca de 200 famílias descendentes de africanos e portugueses, que vivem no local.
Há um livro que conta a história do povoado e da igreja, e cita os ancestrais dos nativos enterrados dentro da igreja, alguns deles personagens históricos. Uma equipe de arqueólogos contratados pela Odebrecht já andou revirando as ossadas.
Muitos dos nativos vivem da bolsa-família, mas todos sabem do óbvio: a ferrovia passará pelo povoado como um bólido, sem deixar qualquer benefício. Os políticos locais estão em cima do muro, preocupados apenas com votos a ganhar ou a perder. E a ferrovia, que poderia muito bem fazer uma volta ao redor do sítio histórico, aguarda apenas a destruição de mais um de nossos bens culturais para seguir em frente.
[Foto: Wilson Pedrosa, Agência Estado]
NOVOS POEMAS DE ANDERSON HORTA
O poeta Anderson Braga Horta (à esquerda, na foto) lançou em Brasília, na última quarta-feira, 4, seu livro Signo - Antologia Metapoética. No livro, o poeta conta um pouco da história da poesia por meio de seus próprios poemas, criados ao longo de décadas e fiéis a diferentes estilos e vanguardas. O livro foi publicado pela Thesaurus Editora, de Brasília, e lançado no restaurante Carpe Diem.
Na primeira foto, aparece também o tradutor e poeta Jeronymo Rivera (à direita).
Mineiro de Carangola, Anderson Braga Horta vive desde 1960 em Brasília, e sua presença enriquece o meio literário da cidade. Não apenas pelo grande poeta que é, como também pela amizade e prestatividade. Quando publiquei o livro Poemas por amor, reunindo versos dedicados a minha companheira, Nádia (a meu lado na foto), Anderson escreveu um belo texto de apresentação, publicado na contracapa, em que ficava evidente sua sensibilidade de leitor.
COMEÇA A FLIP
Começa nesta quarta-feira, 4 de agosto, a Festa Literária Internacional de Paraty. Na mesa de abertura do evento, o sociólogo e professor universitário Fernando Henrique Cardoso, autor do prefácio da edição mais recente de Casa-grande & Senzala e um dos principais estudiosos de Gilberto Freire no Brasil, fala sobre a obra do intelectual pernambucano.
O anúncio da presença de Fernando Henrique, ex-presidente do Brasil, na Flip, foi suficiente para despertar algumas polêmicas, especialmente entre petistas exacerbados, que saíram por aí perguntando se a Flip "tucanou". Ora, FHC é sociólogo, professor universitário e especialista na obra de Freire... O que há de errado, então, em convidá-lo para falar a respeito, e na mesa de abertura, já que Freire é o homenageado oficial da festa?
Mais estranho seria convidar o atual presidente, Lula da Silva, para falar sobre qualquer coisa.
Há outras polêmicas sobre a Flip rolando na imprensa. Uma delas é o pequeno número de escritores ficcionistas, numa festa que se propõe literária, privilegiando ensaístas.
Faz sentido. Mas é importante lembrar que a Flip, hoje o mais badalado evento literário do Brasil, é na verdade um evento comercial, comandado pelas grandes editoras. A Flip é realizada pela Associação Casa Azul, uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) criada com o objetivo de contribuir para a solução dos problemas de infraestrutura urbana de Paraty, informa a página oficial do evento na internet.
Paraty é cidade turística. Realizar na cidade uma festa literária, reunindo escritores de nome internacional, com o patrocínio de grandes empresas e dos governos federal e estadual, só poderia dar certo. Além de levar à cidade turistas interessados em ouvir palestras durante duas horas do dia, e depois badalar pelas charmosas ruas da cidade, a Flip também atrai aquele tipo de turista endinheirado que vai aonde a badalação está, não importa em função de quê.
Escritores "não oficiais" que comparecem a Paraty apenas para aproveitar o clima e exibir e vender seus livros nas ruas não são bem-vindos à cidade. Nos últimos anos, houve casos de apreensão de livros e repressão policial.
A BIENAL DE POESIA E A PALESTINA
No mesmo dia em que o diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, Antonio Miranda, oficializou o cancelamento da II Bienal Internacional de Poesia de Brasília (BIP), por falta de patrocínio, o presidente da República, Lula da Silva, sancionava a lei 12.292, autorizando o Poder Executivo a doar R$ 25 milhões à Autoridade Nacional Palestina, "para a reconstrução de Gaza".
As palavras que você lê acima são as mesmas que estão no texto da lei: doar R$ 25 milhões, etc... Repito para não haver dúvidas.
Não sei os verdadeiros propósitos dessa doação, nem se o governo brasileiro tem feito doações semelhantes pelo mundo afora. É possível que os defensores da lisura petista digam que os recursos de doações para o exterior nada têm a ver com os investimentos que se façam ou deixem de ser feitos em cultura no Brasil.
O Brasil é um país miserável e uma das razões dessa miséria é o baixíssimo grau de educação de seu povo. E educação não é apenas ensinar crianças a ler e investir em professores.
Um povo educado e civilizado não sabe apenas ler. Sabe admirar a boa música, a boa literatura, e prefere trocar o Domingão do Faustão por um passeio a um museu ou uma galeria de arte.
Além de saber ler e escrever com correção, um povo civilizado admira e respeita as artes e seus artistas. E, convenhamos, nem o nosso presidente entende muito bem o que é isso, a julgar por centenas de suas frases folclóricas: "Ler dá uma preguiça desgramada." Apesar de seus desejos secretos, nem tão secretos assim, de ocupar um cargo de destaque na ONU ou ganhar o Prêmio Nobel.
Por tudo isso, pode fazer todo sentido que o governo ache uma bobagem "investir num festivalzinho de poesia" e relevante doar R$ 25 milhões à autoridade palestina.
Mas, para este solitário escriba, isso é uma aberração. Ainda que reconheça que essa aberração é típica do Brasil.
As palavras que você lê acima são as mesmas que estão no texto da lei: doar R$ 25 milhões, etc... Repito para não haver dúvidas.
Não sei os verdadeiros propósitos dessa doação, nem se o governo brasileiro tem feito doações semelhantes pelo mundo afora. É possível que os defensores da lisura petista digam que os recursos de doações para o exterior nada têm a ver com os investimentos que se façam ou deixem de ser feitos em cultura no Brasil.
O Brasil é um país miserável e uma das razões dessa miséria é o baixíssimo grau de educação de seu povo. E educação não é apenas ensinar crianças a ler e investir em professores.
Um povo educado e civilizado não sabe apenas ler. Sabe admirar a boa música, a boa literatura, e prefere trocar o Domingão do Faustão por um passeio a um museu ou uma galeria de arte.
Além de saber ler e escrever com correção, um povo civilizado admira e respeita as artes e seus artistas. E, convenhamos, nem o nosso presidente entende muito bem o que é isso, a julgar por centenas de suas frases folclóricas: "Ler dá uma preguiça desgramada." Apesar de seus desejos secretos, nem tão secretos assim, de ocupar um cargo de destaque na ONU ou ganhar o Prêmio Nobel.
Por tudo isso, pode fazer todo sentido que o governo ache uma bobagem "investir num festivalzinho de poesia" e relevante doar R$ 25 milhões à autoridade palestina.
Mas, para este solitário escriba, isso é uma aberração. Ainda que reconheça que essa aberração é típica do Brasil.
SIMPÓSIO DE POESIA SERÁ EM NOVEMBRO
O tema do II Simpósio será Poesia contemporânea: olhares e lugares. Em diversos painéis distribuídos ao longo de três dias, reunirá autores como Marina Colassanti, José Castello, Floriano Martins, Rodrigo Garcia Lopes, Fernando Fiorese, Antonio Carlos Secchin, entre outros, além de poetas radicados em Brasília, como Antonio Miranda, Sérgio de Sá, Nicolas Behr e este escriba. O compositor Oswaldo Montenegro permanece como homenageado do evento. A organização do simpósio aguarda, agora, nova confirmação dos palestrantes. A data prevista é 8, 9 e 10 de novembro, coincidindo com a Semana de Extensão da UnB.
Menos mal. Quem sabe não conseguiremos transformar o simpósio numa pequena amostra do que seria a II Bienal de Poesia - que, se não puder acontecer ainda este ano, jamais poderá ser chamada novamente de "bienal"?
II BIENAL DE POESIA É CANCELADA
Aconteceu a tragédia anunciada. A Biblioteca Nacional de Brasília acaba de cancelar a II Bienal Internacional de Poesia (BIP), prevista para acontecer na primeira semana de setembro.
Os escritores convidados, que já haviam confirmado sua participação, estão sendo comunicados pelo diretor da biblioteca e organizador do evento, o poeta e professor Antonio Miranda. A carta atribui a decisão à insuficiente captação de patrocínios, provocada pelo atraso na aprovação do projeto do festival pelo Ministério da Cultura e o contingenciamento de recursos do governo federal.
A página da II BIP ainda estava na internet, às 14h desta terça, 20. Lá está a lista dos poetas confirmados para o evento: Ernesto Cardenal (Nicarágua), Humberto Ak´abal (Guatemala), Leo Lobos (Chile), entre muitos outros. Marina Colasanti, Augusto de Campos, Antonio Cícero, Marco Lucchesi, Floriano Martins, Miriam Fraga, Eucanaã Ferraz, Fred Maia, Wilmar Silva, Ruy Espinheira Filho eram alguns dos brasileiros já confirmados.
Os poetas homenageados da Bienal seriam Cardenal, Augusto de Campos, Ferreira Gullar e o compositor Oswaldo Montenegro, que teve sua formação em Brasília.
A grave crise política que transtorna o Distrito Federal desde o final do ano passado foi uma das causas do cancelamento da Bienal, mas não a principal delas. Qualquer evento cultural de porte, em Brasília, sempre acontece apesar do governo local, e não graças a ele. A principal razão foi a desistência da Petrobrás de patrocinar o evento, depois de haver se comprometido a contribuir. A decisão da Petrobrás é ordem do governo federal.
A Petrobrás também retirou o patrocínio, na última hora, para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A diferença é que o governo do Estado do Rio reconheceu a importância do evento e injetou R$ 1,5 milhão para viabilizá-lo. Já o atual governador do Distrito Federal, o quarto em um único mandato, depois da prisão do primeiro, da renúncia do segundo e da passagem do terceiro, não chegou a pensar no assunto.
Qualquer grande evento cultural, seja no Brasil ou em Brasília, depende de muita luta e da disposição de indivíduos que acreditam e o levam adiante, como verdadeiros quixotes. O poeta Antonio Miranda é um desses personagens. Infelizmente, o sucesso da bienal de 2008 não foi suficiente para sensibilizar os patrocinadores.
A II Bienal de Poesia era a última esperança de que algum evento realmente importante marcasse o calendário de 2010, ano em que Brasília comemorou melancolicamente seus 50 anos de inauguração.
Os escritores convidados, que já haviam confirmado sua participação, estão sendo comunicados pelo diretor da biblioteca e organizador do evento, o poeta e professor Antonio Miranda. A carta atribui a decisão à insuficiente captação de patrocínios, provocada pelo atraso na aprovação do projeto do festival pelo Ministério da Cultura e o contingenciamento de recursos do governo federal.
A página da II BIP ainda estava na internet, às 14h desta terça, 20. Lá está a lista dos poetas confirmados para o evento: Ernesto Cardenal (Nicarágua), Humberto Ak´abal (Guatemala), Leo Lobos (Chile), entre muitos outros. Marina Colasanti, Augusto de Campos, Antonio Cícero, Marco Lucchesi, Floriano Martins, Miriam Fraga, Eucanaã Ferraz, Fred Maia, Wilmar Silva, Ruy Espinheira Filho eram alguns dos brasileiros já confirmados.
Os poetas homenageados da Bienal seriam Cardenal, Augusto de Campos, Ferreira Gullar e o compositor Oswaldo Montenegro, que teve sua formação em Brasília.
A grave crise política que transtorna o Distrito Federal desde o final do ano passado foi uma das causas do cancelamento da Bienal, mas não a principal delas. Qualquer evento cultural de porte, em Brasília, sempre acontece apesar do governo local, e não graças a ele. A principal razão foi a desistência da Petrobrás de patrocinar o evento, depois de haver se comprometido a contribuir. A decisão da Petrobrás é ordem do governo federal.
A Petrobrás também retirou o patrocínio, na última hora, para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A diferença é que o governo do Estado do Rio reconheceu a importância do evento e injetou R$ 1,5 milhão para viabilizá-lo. Já o atual governador do Distrito Federal, o quarto em um único mandato, depois da prisão do primeiro, da renúncia do segundo e da passagem do terceiro, não chegou a pensar no assunto.
Qualquer grande evento cultural, seja no Brasil ou em Brasília, depende de muita luta e da disposição de indivíduos que acreditam e o levam adiante, como verdadeiros quixotes. O poeta Antonio Miranda é um desses personagens. Infelizmente, o sucesso da bienal de 2008 não foi suficiente para sensibilizar os patrocinadores.
A II Bienal de Poesia era a última esperança de que algum evento realmente importante marcasse o calendário de 2010, ano em que Brasília comemorou melancolicamente seus 50 anos de inauguração.
UM POEMA DE ROBERTO PIVA
Poema submerso
Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror
quando os cílios do anjo verde enrugavam as
chaminés da rua onde eu caminhava
E via tuas meninas destruídas como rãs por
uma centena de pássaros fortemente de passagem
Ninguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o
infinito pousava na palma da minha mão vazia
E meninos prodígios eram seviciados pela Alma
ausente do Criador
Havia um revólver imparcialíssimo vigiado pelas
Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas
Um jardim azul sempre grande deitava nódoas nos
meus olhos injetados
Eu caminhava pelas aléias olhando com alucinada ternura
as meninas na grande farra dos canteiros de
insetos baratinados
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos
piratas trucidados
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava
para mim, em leves mazurcas
quando os cílios do anjo verde enrugavam as
chaminés da rua onde eu caminhava
E via tuas meninas destruídas como rãs por
uma centena de pássaros fortemente de passagem
Ninguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o
infinito pousava na palma da minha mão vazia
E meninos prodígios eram seviciados pela Alma
ausente do Criador
Havia um revólver imparcialíssimo vigiado pelas
Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas
Um jardim azul sempre grande deitava nódoas nos
meus olhos injetados
Eu caminhava pelas aléias olhando com alucinada ternura
as meninas na grande farra dos canteiros de
insetos baratinados
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos
piratas trucidados
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava
para mim, em leves mazurcas
Roberto Piva nasceu em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937. Poeta ligado aos marginais dos anos 60, esteve na Antologia dos Novíssimos de Massao Ohno em 1961 e em 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Piva foi marginal por natureza, e crítico feroz do conformismo e da cultura oficial. Tudo a ver com uma das epígrafes de seu último livro, Estranhos sinais de saturno: "A verdadeira poesia se encontra fora das leis", frase de Georges Bataille. Piva morreu no dia 3 de julho, aos 72 anos. Algumas semanas antes dele, morreu também o editor Massao Ohno, responsável pelo lançamento de seu primeiro livro e por revelar um grupo importante de poetas brasileiros. Duas grandes perdas, que atestam o enorme capacidade deste país de se empobrecer culturalmente ao negligenciar o que tem de bom.
EM MEMÓRIA
Já pensei várias vezes em não mais escrever obituários neste blog. Recentemente, tivemos perdas importantes de grandes artistas: Glauco, Wilson Bueno, Antonio Poteiro e, agora, José Saramago. Bem, pessoas chegam ao fim de suas trajetórias todos os dias, e nem sempre seus nomes alcançam a mídia ou o nosso conhecimento. Certamente muitos trabalhos interessantes são interrompidos sem nos darmos conta. Mas é impossível não lembrar da grandeza de algumas dessas trajetórias e lamentar as perdas, embora o mais agradável seja contribuir para o conhecimento de suas obras.
RONALDO FERNANDES, PRÊMIO DA ACADEMIA
A poesia de Ronaldo Costa Fernandes não silencia sobre os ruídos obscenos do mundo. Seus versos são serenos, como se ao abrir a cortina ele apenas pronunciasse as palavras exatas, sem alterações na voz, para analisar a cena que desnuda. São poemas altamente líricos, coloridos com ironia sutil e imagens às vezes inusitadas, que fazem mudar o foco do sentido nos objetos descritos. É o caso, por exemplo, do intrigante Churrasco: "Da minha janela, vejo fornos crematórios. / (...) / Nos fins de semana, / começa o sacrifício de bois e rins ; e a fumaça se evola, em suas cólicas / cinzas, a passagem das horas, / o riso grotesco dos feriados (...)".
Seu livro A máquina das mãos, onde se lê esse poema, valeu a Ronaldo Costa Fernandes, maranhense radicado em Brasília, o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras deste ano. Os acadêmicos Lêdo Ivo, Affonso Arinos de Mello Franco e Alberto da Costa e Silva assim explicaram a sua escolha: “Trata-se de um livro em que a experiência pessoal do poeta, convertida em linguagem, se transmuda em poemas de excelente nível, e nos quais se casam a emoção e a execução apurada, sob a regência de um rigor que não exclui a aventura e a transgressão.” A máquina das mãos foi publicado pela Editora 7 Letras, do Rio de Janeiro.
Os demais vencedores do Prêmio Literário da ABL foram, respectivamente, Rodrigo Lacerda (romance Outra vida), Ângela-Lago (Marginal à esquerda) e Milton Lins (Pequenas traduções de grandes poetas), nas categorias ficção, literatura infanto-juvenil e tradução. O mais importante dos prêmios, o Machado de Assis, pelo conjunto da obra, coube ao crítico literário, professor, escritor, ensaísta e filósofo paraense Benedito Nunes.
Seu livro A máquina das mãos, onde se lê esse poema, valeu a Ronaldo Costa Fernandes, maranhense radicado em Brasília, o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras deste ano. Os acadêmicos Lêdo Ivo, Affonso Arinos de Mello Franco e Alberto da Costa e Silva assim explicaram a sua escolha: “Trata-se de um livro em que a experiência pessoal do poeta, convertida em linguagem, se transmuda em poemas de excelente nível, e nos quais se casam a emoção e a execução apurada, sob a regência de um rigor que não exclui a aventura e a transgressão.” A máquina das mãos foi publicado pela Editora 7 Letras, do Rio de Janeiro.
Os demais vencedores do Prêmio Literário da ABL foram, respectivamente, Rodrigo Lacerda (romance Outra vida), Ângela-Lago (Marginal à esquerda) e Milton Lins (Pequenas traduções de grandes poetas), nas categorias ficção, literatura infanto-juvenil e tradução. O mais importante dos prêmios, o Machado de Assis, pelo conjunto da obra, coube ao crítico literário, professor, escritor, ensaísta e filósofo paraense Benedito Nunes.
FERREIRA GULLAR, PRÊMIO CAMÕES
"A arte existe porque a vida, só, não basta." Esta é uma das frases lapidares do poeta Ferreira Gullar, maranhense prestes a completar 80 anos e a lançar mais um livro - Em alguma parte alguma. Ao longo do tempo, Gullar refinou sua linguagem poética sem jamais perder a capacidade de observação e indignação que o leva a ganhar, agora, o Prêmio Camões, principal distinção concedida a autores de língua portuguesa.
Gullar está cheio de energia, e esta semana participa do programa Viagem Literária, da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo, que leva escritores a cidades do interior para falar com estudantes e leitores. Em setembro, mês de seu aniversário, Gullar será um dos homenageados da II Bienal Internacional de Poesia de Brasília, que deve reunir na capital do país poetas de todas as linguagens artísticas, vindos das Américas, Europa e Ásia.
Um viva para Ferreira Gullar.
HOMENAGEM AOS POETAS DE BRASÍLIA
O poeta e compositor Climério Ferreira presta uma inusitada homenagem aos poetas que vivem em Brasília. Seu livro Da poética candanga - Poesia sobre poesia (Ed. Casa das Musas) traz releituras e recriações de versos de autores da cidade. Este escriba é um dos homenageados, ao lado de Reynaldo Jardim, Guido Heleno, Cassiano Nunes, Ariosto Teixeira, Paulo Tovar, Eudoro Augusto, Chico Alvim, entre outros.
Climério é professor aposentado da Universidade de Brasília e autor de canções de sucesso da MPB, ao lado de seus irmãos Clodo e Clésio.
O livro será lançado nesta quinta-feira, 29, no Açougue Cultural T-Bone, 312 norte, em Brasília. Estaremos lá.
Climério é professor aposentado da Universidade de Brasília e autor de canções de sucesso da MPB, ao lado de seus irmãos Clodo e Clésio.
O livro será lançado nesta quinta-feira, 29, no Açougue Cultural T-Bone, 312 norte, em Brasília. Estaremos lá.
[Foto: Arquivo Correio Braziliense, Elza Fiúza - 1979]
BELO MONTE DE MERDA
O Greenpeace depositou diante da entrada principal da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a melhor representação da Usina de Belo Monte e de outros projetos do governo: um monte de esterco. Sem maiores comentários.
[clique na foto para ampliá-la]
BRASÍLIA NÃO TEM O QUE FESTEJAR
Os compêndios médicos tratam de uma rara doença, a síndrome de Hutchinson-Gilford, popularmente conhecida como progéria, que se caracteriza pelo envelhecimento precoce de crianças. Apresenta-se antes da adolescência e a perspectiva de vida é de no máximo 17 anos. A cidade de Brasília padece de uma síndrome parecida - uma certa progéria urbana.
Ao completar 50 anos, Brasília sofre de todos os males de metrópoles que o tempo arruinou aos poucos. O péssimo serviço de transporte urbano cria o caos no trânsito. O desemprego estimula a violência, e a segurança pública é a pior possível. Miséria, corrupção sem disfarces em todos os níveis da administração pública, problemas ambientais. Hospitais não oferecem nem o mais básico serviço esperado. Crianças vivem nas ruas, sobrevivendo de esmolas e consumindo drogas. E para completar, a própria população carece de respeito pela cidade. Um retrato do Brasil.
Inaugurada em 1960, trazia o germe de males que grandes cidades do Brasil e do mundo já enfrentavam. Muitos desses problemas poderiam ter sido previstos ainda na prancheta, e sanados gradualmente.
Seus criadores esqueceram-se de um detalhe: como qualquer aglomerado urbano, nascia ali um organismo vivo, e seu destino era ser habitado por milhões de almas, criando uma sociedade, ou várias sociedades, complexas e carentes de boas condições de vida.
O primeiro erro de seus construtores, que sonharam uma cidade meramente estática, foi não pensar o projeto de ocupação de todo o quadrilátero do Distrito Federal. Prevista para ser um centro administrativo, a capital do país é uma cidade artificial, com uma população de 200 mil habitantes. Tombada pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade, ocupa uma área de 450 quilômetros quadrados dentro dos 5.800 quilômetros quadrados do quadrilátero do Distrito Federal, que na época da construção de Brasília era uma enorme extensão de terra vazia sem qualquer planejamento de ocupação.
Os 200 mil habitantes dessa área privilegiada estão cercados de uma população de 2,4 milhões de “vizinhos” sem qualquer identidade com Brasília, que vivem em dezenas de cidades que se multiplicaram ao redor, sem qualquer planejamento urbano.
Os sucessivos governos do Distrito Federal, ao longo desses 50 anos, permitiram e até incentivaram essa ocupação desordenada, alimentada por uma especulação imobiliária descontrolada e pelo mito de que Brasília era um eldorado. O governo local chegou ao ponto de distribuir gratuitamente lotes para moradia de milhares de famílias, criando aglomerações urbanas populosas, sem que se criasse uma estrutura econômica geradora de empregos.
Essa enorme população, sem consciência de cidadania, sem qualquer projeto para o futuro, sem quaisquer intenções coletivas, só tem olhos para os problemas individuais de cada um. Os políticos entenderam que somente com propostas assistencialistas terão chance de se eleger. O eleitor do Distrito Federal não se incomoda com a corrupção, e é o grande culpado, sim, pela gente desqualificada que ocupa cada vez mais cargos públicos. Repito: é o retrato do Brasil.
Algumas das maiores cidades do Distrito Federal, com mais de 200 mil habitantes, não têm cinemas ou teatros. Todos os equipamentos públicos do setor cultural, quase todos localizados na pequena área central tombada pela Unesco, estão abandonados. Obras importantes de artistas do Brasil e exterior, que compõem o acervo do Museu de Arte de Brasília, estão empacotadas para se proteger de goteiras e do mofo. O Cine Brasília, onde se realiza um dos mais tradicionais festivais de cinema do país, o Espaço Cultural 508 Sul, Concha Acústica, envelheceram sem manutenção.
Monumentos de grande importância cultural, como o Memorial JK, Teatro Nacional, Catedral Metropolitana, Palácio do Planalto (sede do governo federal) estão em péssimo estado de conservação. Os três últimos estão em obras, que não ficarão prontas na data de comemoração dos 50 anos, 21 de abril.
Criada para ser um modelo para o futuro, Brasília falhou em tudo e, ao completar 50 anos, não tem do que se orgulhar. A cidade é hoje um microcosmo do Brasil, um país incapaz de planejar seu desenvolvimento e que tenta resolver os problemas depois que eles surgem, sem criar uma estrutura de prevenção.
A grande utopia de Brasília, cidade cheia de propostas utópicas, foi a tentativa de se criar no centro do Brasil uma civilização avançada, de primeiro mundo. Foi também o grande fracasso. Se Brasília tivesse sido criada no mundo civilizado, provavelmente seria uma das cidades mais visitadas do planeta. Mas foi criada no Brasil, país que prefere crescer como um câncer, sem qualquer planejamento. Brasília tornou-se, assim, apenas a caricatura de uma utopia.
Ao completar 50 anos, Brasília sofre de todos os males de metrópoles que o tempo arruinou aos poucos. O péssimo serviço de transporte urbano cria o caos no trânsito. O desemprego estimula a violência, e a segurança pública é a pior possível. Miséria, corrupção sem disfarces em todos os níveis da administração pública, problemas ambientais. Hospitais não oferecem nem o mais básico serviço esperado. Crianças vivem nas ruas, sobrevivendo de esmolas e consumindo drogas. E para completar, a própria população carece de respeito pela cidade. Um retrato do Brasil.
Inaugurada em 1960, trazia o germe de males que grandes cidades do Brasil e do mundo já enfrentavam. Muitos desses problemas poderiam ter sido previstos ainda na prancheta, e sanados gradualmente.
Seus criadores esqueceram-se de um detalhe: como qualquer aglomerado urbano, nascia ali um organismo vivo, e seu destino era ser habitado por milhões de almas, criando uma sociedade, ou várias sociedades, complexas e carentes de boas condições de vida.
O primeiro erro de seus construtores, que sonharam uma cidade meramente estática, foi não pensar o projeto de ocupação de todo o quadrilátero do Distrito Federal. Prevista para ser um centro administrativo, a capital do país é uma cidade artificial, com uma população de 200 mil habitantes. Tombada pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade, ocupa uma área de 450 quilômetros quadrados dentro dos 5.800 quilômetros quadrados do quadrilátero do Distrito Federal, que na época da construção de Brasília era uma enorme extensão de terra vazia sem qualquer planejamento de ocupação.
Os 200 mil habitantes dessa área privilegiada estão cercados de uma população de 2,4 milhões de “vizinhos” sem qualquer identidade com Brasília, que vivem em dezenas de cidades que se multiplicaram ao redor, sem qualquer planejamento urbano.
Os sucessivos governos do Distrito Federal, ao longo desses 50 anos, permitiram e até incentivaram essa ocupação desordenada, alimentada por uma especulação imobiliária descontrolada e pelo mito de que Brasília era um eldorado. O governo local chegou ao ponto de distribuir gratuitamente lotes para moradia de milhares de famílias, criando aglomerações urbanas populosas, sem que se criasse uma estrutura econômica geradora de empregos.
Essa enorme população, sem consciência de cidadania, sem qualquer projeto para o futuro, sem quaisquer intenções coletivas, só tem olhos para os problemas individuais de cada um. Os políticos entenderam que somente com propostas assistencialistas terão chance de se eleger. O eleitor do Distrito Federal não se incomoda com a corrupção, e é o grande culpado, sim, pela gente desqualificada que ocupa cada vez mais cargos públicos. Repito: é o retrato do Brasil.
Algumas das maiores cidades do Distrito Federal, com mais de 200 mil habitantes, não têm cinemas ou teatros. Todos os equipamentos públicos do setor cultural, quase todos localizados na pequena área central tombada pela Unesco, estão abandonados. Obras importantes de artistas do Brasil e exterior, que compõem o acervo do Museu de Arte de Brasília, estão empacotadas para se proteger de goteiras e do mofo. O Cine Brasília, onde se realiza um dos mais tradicionais festivais de cinema do país, o Espaço Cultural 508 Sul, Concha Acústica, envelheceram sem manutenção.
Monumentos de grande importância cultural, como o Memorial JK, Teatro Nacional, Catedral Metropolitana, Palácio do Planalto (sede do governo federal) estão em péssimo estado de conservação. Os três últimos estão em obras, que não ficarão prontas na data de comemoração dos 50 anos, 21 de abril.
Criada para ser um modelo para o futuro, Brasília falhou em tudo e, ao completar 50 anos, não tem do que se orgulhar. A cidade é hoje um microcosmo do Brasil, um país incapaz de planejar seu desenvolvimento e que tenta resolver os problemas depois que eles surgem, sem criar uma estrutura de prevenção.
A grande utopia de Brasília, cidade cheia de propostas utópicas, foi a tentativa de se criar no centro do Brasil uma civilização avançada, de primeiro mundo. Foi também o grande fracasso. Se Brasília tivesse sido criada no mundo civilizado, provavelmente seria uma das cidades mais visitadas do planeta. Mas foi criada no Brasil, país que prefere crescer como um câncer, sem qualquer planejamento. Brasília tornou-se, assim, apenas a caricatura de uma utopia.
[Foto 1: Poesia Nômade; foto 2: Ecotidiano; foto 3: UnB]
A PROFECIA DE SÁ, RODRIX & GUARABYRA

UMA PERGUNTA E INFINITAS RESPOSTAS

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