COMEÇA A FLIP


Montagem da Tenda dos Autores
Foto: Flip Festa Literária (Flickr)
Começa nesta quarta-feira, 4 de agosto, a Festa Literária Internacional de Paraty. Na mesa de abertura do evento, o sociólogo e professor universitário Fernando Henrique Cardoso, autor do prefácio da edição mais recente de Casa-grande & Senzala e um dos principais estudiosos de Gilberto Freire no Brasil, fala sobre a obra do intelectual pernambucano.

O anúncio da presença de Fernando Henrique, ex-presidente do Brasil, na Flip, foi suficiente para despertar algumas polêmicas, especialmente entre petistas exacerbados, que saíram por aí perguntando se a Flip "tucanou". Ora, FHC é sociólogo, professor universitário e especialista na obra de Freire... O que há de errado, então, em convidá-lo para falar a respeito, e na mesa de abertura, já que Freire é o homenageado oficial da festa?

Mais estranho seria convidar o atual presidente, Lula da Silva, para falar sobre qualquer coisa.

Há outras polêmicas sobre a Flip rolando na imprensa. Uma delas é o pequeno número de escritores ficcionistas, numa festa que se propõe literária, privilegiando ensaístas.

Faz sentido. Mas é importante lembrar que a Flip, hoje o mais badalado evento literário do Brasil, é na verdade um evento comercial, comandado pelas grandes editoras. A Flip é realizada pela Associação Casa Azul, uma Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) criada com o objetivo de contribuir para a solução dos problemas de infraestrutura urbana de Paraty, informa a página oficial do evento na internet. 

Paraty é cidade turística. Realizar na cidade uma festa literária, reunindo escritores de nome internacional, com o patrocínio de grandes empresas e dos governos federal e estadual, só poderia dar certo. Além de levar à cidade turistas interessados em ouvir palestras durante duas horas do dia, e depois badalar pelas charmosas ruas da cidade, a Flip também atrai aquele tipo de turista endinheirado que vai aonde a badalação está, não importa em função de quê. 

Escritores "não oficiais" que comparecem a Paraty apenas para aproveitar o clima e exibir e vender seus livros nas ruas não são bem-vindos à cidade. Nos últimos anos, houve casos de apreensão de livros e repressão policial. 

A partir desta oitava edição, a preocupação dos organizadores passa a ser uma forma de impedir o contínuo crescimento da festa, que a cidade parece já não comportar.

A BIENAL DE POESIA E A PALESTINA

 No mesmo dia em que o diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, Antonio Miranda, oficializou o cancelamento da II Bienal Internacional de Poesia de Brasília (BIP), por falta de patrocínio,  o presidente da República, Lula da Silva, sancionava a lei 12.292, autorizando o Poder Executivo a doar R$ 25 milhões à Autoridade Nacional Palestina, "para a reconstrução de Gaza".

As palavras que você lê acima são as mesmas que estão no texto da lei: doar R$ 25 milhões, etc... Repito para não haver dúvidas.

Não sei os verdadeiros propósitos dessa doação, nem se o governo brasileiro tem feito doações semelhantes pelo mundo afora. É possível que os defensores da lisura petista digam que os recursos de doações para o exterior nada têm a ver com os investimentos que se façam ou deixem de ser feitos em cultura no Brasil.

O Brasil é um país miserável e uma das razões dessa miséria é o baixíssimo grau de educação de seu povo. E educação não é apenas ensinar crianças a ler e investir em professores.

Um povo educado e civilizado não sabe apenas ler. Sabe admirar a boa música, a boa literatura, e prefere trocar o Domingão do Faustão por um passeio a um museu ou uma galeria de arte.
 

Além de saber ler e escrever com correção, um povo civilizado admira e respeita as artes e seus artistas. E, convenhamos, nem o nosso presidente entende muito bem o que é isso, a julgar por centenas de suas frases folclóricas: "Ler dá uma preguiça desgramada." Apesar de seus desejos secretos, nem tão secretos assim, de ocupar um cargo de destaque na ONU ou ganhar o Prêmio Nobel.

Por tudo isso, pode fazer todo sentido que o governo ache uma bobagem "investir num festivalzinho de poesia" e relevante doar R$ 25 milhões à autoridade palestina.

Mas, para este solitário escriba, isso é uma aberração. Ainda que reconheça que essa aberração é típica do Brasil.


Quer ver o texto completo da lei 12.292? Clique aqui.

SIMPÓSIO DE POESIA SERÁ EM NOVEMBRO

  O II Simpósio de Crítica de Poesia, que faria parte da programação da II Bienal Internacional de Poesia de Brasília (BIP), está confirmado pelos organizadores, mas será adiado de setembro para novembro. A professora Sylvia Cintrão, da Universidade de Brasília, que coordena o evento, informou que a mudança de data é necessária para que seja feita nova organização logística, independente da BIP. O diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, Antonio Miranda, coordenador da Bienal, cancelou o evento devido a perda de patrocínios (leia postagem anterior), mas o simpósio já conta com os recursos necessários.

O tema do II Simpósio será Poesia contemporânea: olhares e lugares. Em diversos painéis distribuídos ao longo de três dias, reunirá autores como Marina Colassanti, José Castello, Floriano Martins, Rodrigo Garcia Lopes, Fernando Fiorese, Antonio Carlos Secchin, entre outros, além de poetas radicados em Brasília, como Antonio Miranda, Sérgio de Sá, Nicolas Behr e este escriba. O compositor Oswaldo Montenegro permanece como homenageado do evento. A organização do simpósio aguarda, agora, nova confirmação dos palestrantes. A data prevista é 8, 9 e 10 de novembro, coincidindo com a Semana de Extensão da UnB.

Menos mal. Quem sabe não conseguiremos transformar o simpósio numa pequena amostra do que seria a II Bienal de Poesia - que, se não puder acontecer ainda este ano, jamais poderá ser chamada novamente de "bienal"? 

II BIENAL DE POESIA É CANCELADA

 Aconteceu a tragédia anunciada. A Biblioteca Nacional de Brasília acaba de cancelar a II Bienal Internacional de Poesia (BIP), prevista para acontecer na primeira semana de setembro.

Os escritores convidados, que já haviam confirmado sua participação, estão sendo comunicados pelo diretor da biblioteca e organizador do evento, o poeta e professor Antonio Miranda. A carta atribui a decisão à insuficiente captação de patrocínios, provocada pelo atraso na aprovação do projeto do festival pelo Ministério da Cultura e o contingenciamento de recursos do governo federal.

A página da II BIP ainda estava na internet, às 14h desta terça, 20. Lá está a lista dos poetas confirmados para o evento: Ernesto Cardenal (Nicarágua), Humberto Ak´abal (Guatemala), Leo Lobos (Chile), entre muitos outros. Marina Colasanti, Augusto de Campos, Antonio Cícero, Marco Lucchesi, Floriano Martins, Miriam Fraga, Eucanaã Ferraz, Fred Maia, Wilmar Silva, Ruy Espinheira Filho eram alguns dos brasileiros já confirmados.

Os poetas homenageados da Bienal seriam Cardenal, Augusto de Campos, Ferreira Gullar e o compositor Oswaldo Montenegro, que teve sua formação em Brasília.

A grave crise política que transtorna o Distrito Federal desde o final do ano passado foi uma das causas do cancelamento da Bienal, mas não a principal delas. Qualquer evento cultural de porte, em Brasília, sempre acontece apesar do governo local, e não graças a ele. A principal razão foi a desistência da Petrobrás de patrocinar o evento, depois de haver se comprometido a contribuir. A decisão da Petrobrás é ordem do governo federal.

A Petrobrás também retirou o patrocínio, na última hora, para a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). A diferença é que o governo do Estado do Rio reconheceu a importância do evento e injetou R$ 1,5 milhão para viabilizá-lo. Já o atual governador do Distrito Federal, o quarto em um único mandato, depois da prisão do primeiro, da renúncia do segundo e da passagem do terceiro, não chegou a pensar no assunto.

Qualquer grande evento cultural, seja no Brasil ou em Brasília, depende de muita luta e da disposição de indivíduos que acreditam e o levam adiante, como verdadeiros quixotes. O poeta Antonio Miranda é um desses personagens. Infelizmente, o sucesso da bienal de 2008 não foi suficiente para sensibilizar os patrocinadores.

A II Bienal de Poesia era a última esperança de que algum evento realmente importante marcasse o calendário de 2010, ano em que Brasília comemorou melancolicamente seus 50 anos de inauguração.

UM POEMA DE ROBERTO PIVA

Poema submerso

Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror
quando os cílios do anjo verde enrugavam as
chaminés da rua onde eu caminhava
E via tuas meninas destruídas como rãs por
uma centena de pássaros fortemente de passagem
Ninguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o
infinito pousava na palma da minha mão vazia
E meninos prodígios eram seviciados pela Alma
ausente do Criador
Havia um revólver imparcialíssimo vigiado pelas
Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas
Um jardim azul sempre grande deitava nódoas nos
meus olhos injetados
Eu caminhava pelas aléias olhando com alucinada ternura
as meninas na grande farra dos canteiros de
insetos baratinados
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos
piratas trucidados
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava
para mim, em leves mazurcas

Roberto Piva nasceu em São Paulo no dia 25 de setembro de 1937. Poeta ligado aos marginais dos anos 60, esteve na Antologia dos Novíssimos de Massao Ohno em 1961 e em 26 poetas hoje de Heloisa Buarque de Holanda. Piva foi marginal por natureza, e crítico feroz do conformismo e da cultura oficial. Tudo a ver com uma das epígrafes de seu último livro, Estranhos sinais de saturno: "A verdadeira poesia se encontra fora das leis", frase de Georges Bataille. Piva morreu no dia 3 de julho, aos 72 anos. Algumas semanas antes dele, morreu também o editor Massao Ohno, responsável pelo lançamento de seu primeiro livro e por revelar um grupo importante de poetas brasileiros. Duas grandes perdas, que atestam o enorme capacidade deste país de se empobrecer culturalmente ao negligenciar o que tem de bom.

EM MEMÓRIA

Já pensei várias vezes em não mais escrever obituários neste blog. Recentemente, tivemos perdas importantes de grandes artistas: Glauco, Wilson Bueno, Antonio Poteiro e, agora, José Saramago. Bem, pessoas chegam ao fim de suas trajetórias todos os dias, e nem sempre seus nomes alcançam a mídia ou o nosso conhecimento. Certamente muitos trabalhos interessantes são interrompidos sem nos darmos conta. Mas é impossível não lembrar da grandeza de algumas dessas trajetórias e lamentar as perdas, embora o mais agradável seja contribuir para o conhecimento de suas obras. 

RONALDO FERNANDES, PRÊMIO DA ACADEMIA

A poesia de Ronaldo Costa Fernandes não silencia sobre os ruídos obscenos do mundo. Seus versos são serenos, como se ao abrir a cortina ele apenas pronunciasse as palavras exatas, sem alterações na voz, para analisar a cena que desnuda. São poemas altamente líricos, coloridos com ironia sutil e imagens às vezes inusitadas, que fazem mudar o foco do sentido nos objetos descritos. É o caso, por exemplo, do intrigante Churrasco: "Da minha janela, vejo fornos crematórios. / (...) / Nos fins de semana, / começa o sacrifício de bois e rins ; e a fumaça se evola, em suas cólicas / cinzas, a passagem das horas, / o riso grotesco dos feriados (...)".
 
 Seu livro A máquina das mãos, onde se lê esse poema, valeu a Ronaldo Costa Fernandes, maranhense radicado em Brasília, o Prêmio de Poesia da Academia Brasileira de Letras deste ano. Os acadêmicos Lêdo Ivo, Affonso Arinos de Mello Franco e Alberto da Costa e Silva assim explicaram a sua escolha: “Trata-se de um livro em que a experiência pessoal do poeta, convertida em linguagem, se transmuda em poemas de excelente nível, e nos quais se casam a emoção e a execução apurada, sob a regência de um rigor que não exclui a aventura e a transgressão.” A máquina das mãos foi publicado pela Editora 7 Letras, do Rio de Janeiro. 

 
Os demais vencedores do Prêmio Literário da ABL foram, respectivamente, Rodrigo Lacerda (romance Outra vida), Ângela-Lago (Marginal à esquerda) e Milton Lins (Pequenas traduções de grandes poetas), nas categorias ficção, literatura infanto-juvenil e tradução. O mais importante dos prêmios, o Machado de Assis, pelo conjunto da obra, coube ao crítico literário, professor, escritor, ensaísta e filósofo paraense Benedito Nunes.

FERREIRA GULLAR, PRÊMIO CAMÕES

"A arte existe porque a vida, só, não basta." Esta é uma das frases lapidares do poeta Ferreira Gullar, maranhense prestes a completar 80 anos e a lançar mais um livro - Em alguma parte alguma. Ao longo do tempo, Gullar refinou sua linguagem poética sem jamais perder a capacidade de observação e indignação que o leva a ganhar, agora, o Prêmio Camões, principal distinção concedida a autores de língua portuguesa. 
 
Gullar está cheio de energia, e esta semana participa do programa Viagem Literária, da Secretaria Estadual de Cultura de São Paulo, que leva escritores a cidades do interior para falar com estudantes e leitores. Em setembro, mês de seu aniversário, Gullar será um dos homenageados da II Bienal Internacional de Poesia de Brasília, que deve reunir na capital do país poetas de todas as linguagens artísticas, vindos das Américas, Europa e Ásia.
 

Um viva para Ferreira Gullar.

HOMENAGEM AOS POETAS DE BRASÍLIA

  O poeta e compositor Climério Ferreira presta uma inusitada homenagem aos poetas que vivem em Brasília. Seu livro Da poética candanga - Poesia sobre poesia (Ed. Casa das Musas) traz releituras e recriações de versos de autores da cidade. Este escriba é um dos homenageados, ao lado de Reynaldo Jardim, Guido Heleno, Cassiano Nunes, Ariosto Teixeira, Paulo Tovar, Eudoro Augusto, Chico Alvim, entre outros. 

Climério é professor aposentado da Universidade de Brasília e autor de canções de sucesso da MPB, ao lado de seus irmãos Clodo e Clésio. 

O livro será lançado nesta quinta-feira, 29, no Açougue Cultural T-Bone, 312 norte, em Brasília. Estaremos lá. 

[Foto: Arquivo Correio Braziliense, Elza Fiúza - 1979]

BELO MONTE DE MERDA

O Greenpeace depositou diante da entrada principal da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a melhor representação da Usina de Belo Monte e de outros projetos do governo: um monte de esterco. Sem maiores comentários. 

[clique na foto para ampliá-la]

BRASÍLIA NÃO TEM O QUE FESTEJAR

Os compêndios médicos tratam de uma rara doença, a síndrome de Hutchinson-Gilford, popularmente conhecida como progéria, que se caracteriza pelo envelhecimento precoce de crianças. Apresenta-se antes da adolescência e a perspectiva de vida é de no máximo 17 anos. A cidade de Brasília padece de uma síndrome parecida - uma certa progéria urbana.

 Ao completar 50 anos, Brasília sofre de todos os males de metrópoles que o tempo arruinou aos poucos. O péssimo serviço de transporte urbano cria o caos no trânsito. O desemprego estimula a violência, e a segurança pública é a pior possível. Miséria, corrupção sem disfarces em todos os níveis da administração pública, problemas ambientais. Hospitais não oferecem nem o mais básico serviço esperado. Crianças vivem nas ruas, sobrevivendo de esmolas e consumindo drogas. E para completar, a própria população carece de respeito pela cidade. Um retrato do Brasil.

Inaugurada em 1960, trazia o germe de males que grandes cidades do Brasil e do mundo já enfrentavam. Muitos desses problemas poderiam ter sido previstos ainda na prancheta, e sanados gradualmente.

Seus criadores esqueceram-se de um detalhe: como qualquer aglomerado urbano, nascia ali um organismo vivo, e seu destino era ser habitado por milhões de almas, criando uma sociedade, ou várias sociedades, complexas e carentes de boas condições de vida.

 O primeiro erro de seus construtores, que sonharam uma cidade meramente estática, foi não pensar o projeto de ocupação de todo o quadrilátero do Distrito Federal. Prevista para ser um centro administrativo, a capital do país é uma cidade artificial, com uma população de 200 mil habitantes. Tombada pela Unesco como patrimônio cultural da humanidade, ocupa uma área de 450 quilômetros quadrados dentro dos 5.800 quilômetros quadrados do quadrilátero do Distrito Federal, que na época da construção de Brasília era uma enorme extensão de terra vazia sem qualquer planejamento de ocupação.

Os 200 mil habitantes dessa área privilegiada estão cercados de uma população de 2,4 milhões de “vizinhos” sem qualquer identidade com Brasília, que vivem em dezenas de cidades que se multiplicaram ao redor, sem qualquer planejamento urbano.

Os sucessivos governos do Distrito Federal, ao longo desses 50 anos, permitiram e até incentivaram essa ocupação desordenada, alimentada por uma especulação imobiliária descontrolada e pelo mito de que Brasília era um eldorado. O governo local chegou ao ponto de distribuir gratuitamente lotes para moradia de milhares de famílias, criando aglomerações urbanas populosas, sem que se criasse uma estrutura econômica geradora de empregos.

Essa enorme população, sem consciência de cidadania, sem qualquer projeto para o futuro, sem quaisquer intenções coletivas, só tem olhos para os problemas individuais de cada um. Os políticos entenderam que somente com propostas assistencialistas terão chance de se eleger. O eleitor do Distrito Federal não se incomoda com a corrupção, e é o grande culpado, sim, pela gente desqualificada que ocupa cada vez mais cargos públicos. Repito: é o retrato do Brasil.

 Algumas das maiores cidades do Distrito Federal, com mais de 200 mil habitantes, não têm cinemas ou teatros. Todos os equipamentos públicos do setor cultural, quase todos localizados na pequena área central tombada pela Unesco, estão abandonados. Obras importantes de artistas do Brasil e exterior, que compõem o acervo do Museu de Arte de Brasília, estão empacotadas para se proteger de goteiras e do mofo. O Cine Brasília, onde se realiza um dos mais tradicionais festivais de cinema do país, o Espaço Cultural 508 Sul, Concha Acústica, envelheceram sem manutenção.

Monumentos de grande importância cultural, como o Memorial JK, Teatro Nacional, Catedral Metropolitana, Palácio do Planalto (sede do governo federal) estão em péssimo estado de conservação. Os três últimos estão em obras, que não ficarão prontas na data de comemoração dos 50 anos, 21 de abril.

Criada para ser um modelo para o futuro, Brasília falhou em tudo e, ao completar 50 anos, não tem do que se orgulhar. A cidade é hoje um microcosmo do Brasil, um país incapaz de planejar seu desenvolvimento e que tenta resolver os problemas depois que eles surgem, sem criar uma estrutura de prevenção.

A grande utopia de Brasília, cidade cheia de propostas utópicas, foi a tentativa de se criar no centro do Brasil uma civilização avançada, de primeiro mundo. Foi também o grande fracasso. Se Brasília tivesse sido criada no mundo civilizado, provavelmente seria uma das cidades mais visitadas do planeta. Mas foi criada no Brasil, país que prefere crescer como um câncer, sem qualquer planejamento. Brasília tornou-se, assim, apenas a caricatura de uma utopia. 

[Foto 1: Poesia Nômade; foto 2: Ecotidiano; foto 3: UnB]

A PROFECIA DE SÁ, RODRIX & GUARABYRA

Gravado no segundo semestre de 2008, o CD Amanhã, de Sá, Rodrix e Guarabyra só foi lançado em fevereiro de 2010, quase um ano após a morte de Zé Rodrix. O CD traz 12 canções inéditas do trio, mas a faixa que mais chama a atenção é Novo Rio, uma profecia, carregada de lirismo, da tragédia que assolou o Rio de Janeiro nos últimos dias. Clique para ouvir.

UMA PERGUNTA E INFINITAS RESPOSTAS

O que é poesia? A pergunta desperta mais questões do que respostas. O livro organizado por Edson Cruz, fundador e ex-editor do portal de literatura Cronópios, é, por isso, um labirinto em espiral. Affonso Romano de Sant´Anna, Antonio Cícero, Cláudio Daniel, Frederico Barbosa, Sebastião Nunes são alguns dos 45 poetas que tentaram responder a pergunta. O resultado gerou uma instigante antologia reflexiva sobre essa linguagem que encanta, seduz e às vezes assusta leitores. O que é poesia?, publicação das editoras Calibán e Confraria do Vento, será lançada nesta sexta-feira, 26 de março, em Brasília, com a presença dos poetas Antonio Cícero, Antonio Miranda, Chico Alvim, Felipe Fortuna, Frederico Barbosa, Nicolas Behr e Ronaldo Costa Fernandes, em debate com apresentação e mediação do próprio Edson Cruz. Será na Livraria Dom Quixote, no Centro Cultural Banco do Brasil, a partir das 18h.

LÁ VEM BOMBA!!!


Você pode dizer o que quiser, mas Sérgio Fantini é o cara. Ele gosta de zanzar por aí com seu jeito sarcástico, mais que irônico, sempre amigo, mas quando solta um livro novo, lá vem bomba. A ponto de explodir. Você que se segure com essa escrita que é só dele, ainda que ele dê uma entrevista aqui e ali tentando explicar um pouco a coisa e tal.

Algumas dessas explicações
ele deu em entrevista à Revista de Autofagia, publicada em Belo Horizonte e disponível na internet, se você procurar. "Transformei o poeta em prosador". Desde 1976 ele vinha publicando seus poemas em xerox, zines, livrinhos, folhetos, e a coisa tomou grandes dimensões.

A ponto de explodir
, sua mais recente façanha, começa com um contozinho despretensioso, HC, uma historinha adolescente, que você vai guardar na memória até a velhice,como se aquilo tivesse acontecido com você. "Um dia vamos rir disso tudo", você diz para ele, ele e os personagens, a Liz e o Pistache, você já imaginou um personagem que se chama Pistache? E de repente você já está a ponto de explodir de rir daquilo tudo.

Tem também aquela gente sofrida e amarga
que circula pelas páginas a ponto de explodir. Tem aquela história policial com um título instigante, seu deus não é o meu, tem o John Lennon marcando para sempre a agenda de três jovens soltos na vida... Sim, todo o mundo se lembra o que fazia naquele 8 de dezembro!

E tem poesia, é claro.
Implícita e explícita. Por exemplo, Diário do inclame, mais que justa homenagem a Tião Nunes, e o texto título, uma porrada que nos atira contra o muro dos becos sem saída.

O livro foi lançado pelo selo Uainote
em 2008 e circula entre amigos, parentes, eventos, lugares onde o Sérgio circula. Sempre haverá o risco de dar de cara com ele. Em Belo Horizonte, onde vive, ou qualquer outra quebrada por aí. E então, está esperando o quê para ler o livro do Sérgio Fantini? A ponto de explodir estamos todos.

NOSSO CARNAVAL

Às vésperas do carnaval que o governador do Distrito Federal passará na cadeia, é preciso relembrar que Brasília sofre a maldição de ser a capital de um país doente. A cidade, projetada para a modernidade e o futuro, só não deu certo por causa dos políticos. A comemoração de seus 50 anos, a 21 de abril, deveria ocorrer em absoluto silêncio, não um minuto de silêncio, como se homenageiam os mortos antes das partidas de futebol, mas com 24 horas de silêncio.

Este carnaval também será de silêncio, o mesmo silêncio de perplexidade e impotência, ainda que os blocos saiam às ruas para cantar versos engraçadinhos tendo como tema a desgraça que não é brasiliense, é nacional. No cárcere, ou em casa, se conseguir, o ex-governador curtirá a solidão, a da justiça fingida e hipócrita. Afinal, por que os outros personagens de todos os outros mensalões não estão ao lado de Arruda, compondo o bloco dos mensaleiros?

O governo do DF pretendia promover um festejo inesquecível para comemorar o cinquentenário. Ao invés de trazer artistas de todas as regiões do país para uma grande confraternização - Brasília é a síntese brasileira, já se cansou de repetir - pretendia trazer Paul McCartney. Pretensão e megalomania.

Com as mesmas intenções megalômanas, injetou dinheiro no carnaval carioca. O tema da escola de samba Beija-Flor é Brasília. Muitos brasilienses estarão desfilando na escola. Não sei se, diante dos últimos fatos, a platéia vaiará. Se o fizer, os passistas tentarão demonstrar seu orgulho de viver em Brasília, apesar da bandidagem que tomou o poder.

Não é bem assim. Quem dá o poder aos bandidos é o povo. Brasília se confunde com todo o Distrito Federal, mas o Distrito Federal não se identifica com Brasília. O primeiro erro foi não ter havido um projeto para todo o quadrilátero, como houve o originalíssimo projeto de Lúcio Costa para Brasília. Seria, talvez, revolucionário. Como não foi assim, tornou-se mera utopia, que se esgota enquanto a população do entorno se volta contra uma cidade com a qual não se identifica.

Nessa guerra, políticos desprovidos de ética só enxergam as perspectivas do lucro sem limites. Repetindo mais uma vez, Brasília é a síntese do Brasil.

VITÓRIA SOBRE O NADA

O jornalista e poeta Ariosto Teixeira viveu longos anos no fio da navalha, mas era ali mesmo que ele colhia sua energia para viver. E era dali que tirava inspiração para seus notáveis poemas, carregados de um lirismo seco, que atingiam o leitor - ou ouvinte - diretamente na alma.

Portanto, não poderia ter sido diferente o que aconteceu na noite desta terça-feira, 26, no Café Martinica, quando colegas e amigos de Ariosto prestaram-lhe inesquecível homenagem. Mais de 200 pessoas lotaram as dependências do Café para ouvir, com reverência, admiração e respeito, durante quase duas horas, os poemas de Ariosto, a maioria retirados do livro Poemas do front civil (Editora 7 Letras, RJ, 2006).

Sob o mote "O poema é minha vitória sobre o nada", verso de Ariosto, um grupo de poetas com quem ele dividiu o palco do Martinica, no projeto Palavra Solta, fizeram leituras emocionadas de seus poemas. Participaram Luís Turiba, Nicolas Behr, Carla Andrade, Angélica Torres, Paulo José Cunha, além deste que lhes escreve. A viúva de Ariosto, Solange, e seu filho mais novo, João Manuel, fecharam o recital com a apresentação de poemas inéditos.

"Meu pai fazia muito esforço para vir aqui recitar poemas para vocês", revelou João Manuel, referindo-se a eventos de que Ariosto participou - o Palavra Solta e os recitais da Bienal Internacional de Poesia de Brasília, realizada em setembro de 2008. "Ele ensaiava em casa para dizer os poemas da melhor maneira possível."

HOMENAGEM A ARIOSTO TEIXEIRA


O niilista medroso

Ariosto Teixeira

Às vezes você se pergunta
Olhando o rosto no espelho
Se o reflexo é verdadeiro
Ou se a verdade é o corpo
Parado no meio do banheiro

Você acha que sabe bem o que é
Você acha que sabe bem o que quer
Você acha que sabe quem você é

Mas você sente medo
Medo de não ser você no espelho
Medo de ser mero reflexo
Do outro que consigo parece

Você não tem medo de sexo
Você gosta de sexo
Você sonha com sexo
Você procura fazer muito sexo

Sexo à distância
Sem beijo sem fluido
Higiênico e sem lirismo
Seguro como sexo com prostituta
Você de frente ela de costas
Ela por cima de costas
Você por baixo de costas deitado

É que você tem medo
Do ataque de um vírus complexo
Medo de gravidez
Medo de se apaixonar irremediavelmente
Medo de perder o controle
Medo de assumir o controle
Medo de que tudo enfim faça nexo

Você acende e apaga o cigarro
Com medo de pegar câncer de pulmão
Medo de apagar a luz
Medo de acender a luz
Medo de desligar o alarme
Medo de abrir o portão
Medo de ladrão policial pivete
Medo de colisão
De atropelamento
De ataque do coração

Medo de padre
Da certeza cristã absoluta
Da democracia liberal
Da esquerda latina
Medo da nova direita francesa
Medo do presidente americano
Medo da falta de medo do terrorista muçulmano
Medo de ser fragmentado por um raio da Al Qaeda

Medo da China capitalista
De milho transgênico
De buraco negro
De carne vermelha
Medo da falta de limite da física quântica
Do aquecimento global
Da inteligência artificial
De velocidade acima do permitido
De remédio de quinta geração
Da globalização
Do fim da globalização
Da falta de sentido

Medo de que Deus provavelmente não exista
De não haver outra vida
Você tem medo de ficar sozinho
Sem ninguém nem final feliz

Ah mas você confia no amor
O terno e doce amor
Do homem pela mulher
Do homem por outro homem
Da mulher por outra mulher
Do homem pelos animais
Da humanidade pela natureza
Você confia no amor das criancinhas

Você pensa nessas coisas
E por um instante
Acha que nada está perdido
Que o amor salvará o mundo
O amor romântico como no cinema
Como em um soneto de Shakespeare
Apesar da podridão no reino terrestre
Mas quanto tempo dura o amor
Antes de se dissolver em tédio
15 minutos uma tarde inteira uma noitada?

Você odeia sentir isso assim tão sentimentalmente
Mas é impossível ser de outro modo
É preciso agarrar-se a algo
Não ter medo de que o vazio
Tenha se espalhado em todos os quadrantes

O fato indiscutível é que você tem medo
Medo muito medo
De ficar vivo durante o inverno nuclear

Você principalmente tem medo
Do que um dia vai fazer
Quando ao anoitecer
O seu rosto tiver desaparecido do espelho do banheiro
_______

O poeta e jornalista Ariosto Teixeira será homenageado nesta terça-feira, 26, no Café Martinica (CLN 303, Asa Norte, Brasília), a partir de 21h. O Café Martinica foi palco do Palavra Solta, um programa de leitura de poesia que teve em Ariosto um dos mais fortes participantes. Prestam essa homenagem os amigos que com ele conviveram e tiveram o privilégio de ouvir suas palavras. Pois foram as palavras suas infalíveis aliadas, que o fortaleceram e lhe deram coragem. Seu livro Poemas do front civil é uma incontestável prova de que a poesia foi uma inseparável companheira nos momentos mais difíceis.

2010 COMEÇA COM UM TIRO

As tragédias que abriram o novo ano estão em todos os jornais, nas TVs, na internet e nas mesas de bar. Então voltemos nossa atenção para uma foto publicada nos portais de informação na primeira semana de janeiro. A foto é objetiva e nada esconde: um agente da Polícia Rodoviária Federal descarrega sua arma sobre um boi indefeso.

Observe a foto
que ilustra este texto, e atente para o olhar quase humano do animal. Ele sabe que está frente a frente com a morte.


E o policial?
Ele executa o boi como se cumprisse uma tarefa burocrática, como se puxasse com a enxada uma pedra para desobstruir uma pista do asfalto.


O infeliz animal
estava sendo transportado por um caminhão, que tombou na rodovia BR-040 no dia 6 de janeiro. Não era uma fera em postura de ataque. Era um animal inofensivo perdido no meio do asfalto.


O que se deve ler na foto
não é a presteza com que um servidor público eliminou o risco de acidentes, numa rodovia que já estava sofrendo com as chuvas.


O que chama a atenção
é a frieza do policial, é a arrogância de um sujeito armado, que maneja a arma como se fosse um instrumento para colocar as coisas em seus lugares, como se a arma tivesse o poder de devolver o mundo à normalidade.

[Foto de Cristiano Couto, jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte]

LIVROS E PANETONES

Encerrada no último domingo, 29 de novembro, a Feira do Livro de Brasília teve um balanço melancólico. Durante a primeira semana, segundo a Câmara do Livro do DF, recebeu 25 mil visitantes. O número total nem foi divulgado - esperava-se 300 mil visitantes. "Esperava-se" é força de expressão. Obviamente, ninguém esperava isso, depois da desorganização e falta de planejamento, que ficaram evidentes.

A agenda de convidados
foi fechada no dia da inauguração - e todos os autores de fora tiveram sua vinda cancelada. Exceção apenas para Ziraldo, um dos homenageados. O outro foi Reynaldo Jardim, que mora em Brasília. O gaúcho Marcelo Carneiro da Cunha só soube que não viria mais porque sua editora pediu à organização da feira uma posição oficial sobre a viagem do escritor.

A culpa de tamanha desorganização é da diretoria da Câmara do Livro, que não fez qualquer planejamento e esperou por verba oficial, e do governo do DF, que não dá a mínima para qualquer evento na área da cultura e é incapaz de perceber a importância que teria uma feira de livros realmente bem feita e organizada.

Bem, depois das investigações da operação Pandora, da Polícia Federal, é possível compreender melhor a política no DF, e saber por que a política cultural simplesmente não existe.

Cultura, para o governo do DF
, é qualquer coisa que traga turistas a Brasília. Por isso querem comemorar os 50 anos da cidade, em 21 de abril do ano que vem, com Paul McCartney ou Madonna, e não com artistas de todo o Brasil reunidos aos de Brasília, numa grande festa de congraçamento.


Com a crise instalada no governo do DF, que poderá levar ao impedimento do governador José Roberto Arruda, percebe-se o que está por vir. Se ele pelo menos tivesse distribuído livros ao invés de panetones...

Brasil, capital Brasília.