NOSSO CARNAVAL

Às vésperas do carnaval que o governador do Distrito Federal passará na cadeia, é preciso relembrar que Brasília sofre a maldição de ser a capital de um país doente. A cidade, projetada para a modernidade e o futuro, só não deu certo por causa dos políticos. A comemoração de seus 50 anos, a 21 de abril, deveria ocorrer em absoluto silêncio, não um minuto de silêncio, como se homenageiam os mortos antes das partidas de futebol, mas com 24 horas de silêncio.

Este carnaval também será de silêncio, o mesmo silêncio de perplexidade e impotência, ainda que os blocos saiam às ruas para cantar versos engraçadinhos tendo como tema a desgraça que não é brasiliense, é nacional. No cárcere, ou em casa, se conseguir, o ex-governador curtirá a solidão, a da justiça fingida e hipócrita. Afinal, por que os outros personagens de todos os outros mensalões não estão ao lado de Arruda, compondo o bloco dos mensaleiros?

O governo do DF pretendia promover um festejo inesquecível para comemorar o cinquentenário. Ao invés de trazer artistas de todas as regiões do país para uma grande confraternização - Brasília é a síntese brasileira, já se cansou de repetir - pretendia trazer Paul McCartney. Pretensão e megalomania.

Com as mesmas intenções megalômanas, injetou dinheiro no carnaval carioca. O tema da escola de samba Beija-Flor é Brasília. Muitos brasilienses estarão desfilando na escola. Não sei se, diante dos últimos fatos, a platéia vaiará. Se o fizer, os passistas tentarão demonstrar seu orgulho de viver em Brasília, apesar da bandidagem que tomou o poder.

Não é bem assim. Quem dá o poder aos bandidos é o povo. Brasília se confunde com todo o Distrito Federal, mas o Distrito Federal não se identifica com Brasília. O primeiro erro foi não ter havido um projeto para todo o quadrilátero, como houve o originalíssimo projeto de Lúcio Costa para Brasília. Seria, talvez, revolucionário. Como não foi assim, tornou-se mera utopia, que se esgota enquanto a população do entorno se volta contra uma cidade com a qual não se identifica.

Nessa guerra, políticos desprovidos de ética só enxergam as perspectivas do lucro sem limites. Repetindo mais uma vez, Brasília é a síntese do Brasil.
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