A ARTE COMO TRANSCENDÊNCIA


 Com 57 anos de carreira, o artista plástico Carlos Bracher transforma cada movimento de suas mãos diante de uma tela em um ritual mágico e transcendente. Essas mãos, que constroem catedrais, enriquecem paisagens, dão vida a naturezas mortas e revelam a alma dos personagens de seus retratos, estão em busca do caminho para a liberdade. “Estamos na vida para isso”, diz ele. “O destino do ser é se libertar. É a razão de nosso tempo de viver.” 

Carlos Bracher é mineiro de Juiz de Fora, onde nasceu em 1940. Em seu trajeto de vida, a relação com a pintura se aprofundou e se tornou fonte de enorme energia. Desde a primeira exposição, realizada em 1960 em sua cidade natal, ao lado dos irmãos Nívea e Décio, até a retrospectiva Bracher – Pintura & Permanência, que os brasilienses podem ver no Centro Cultural Banco do Brasil até 27 de julho, fez inúmeras mostras no Brasil e tornou-se o artista brasileiro que mais expôs no exterior, em galerias e museus da França, Itália, Inglaterra, Holanda, Espanha, Portugal, Rússia, Japão, China, Uruguai, Chile e outros países. 


E, no entanto, ele ainda é o menino que vivia no Castelinho, como a casa da família em Juiz de Fora é conhecida até hoje, enriquecido pela genialidade que a vida e a dedicação à arte fertilizaram e fizeram florescer. Essa fusão de imagens e palavras é fruto de um longo caminho de iluminação, ao longo do qual ele vem plantando sua arte frondosa, regada com poesia. A arte, para Bracher, é uma espécie de religião. Não o que se entende convencionalmente como religião, “essa coisa chata, cheia de regras”, mas a permanente busca do renascer, do sonhar. 


“Quero inventar a minha santidade”, afirma ele. “Com minha vivência, vou chegando a isso. Criando novos signos, complexos, mágicos. Renascendo sempre. Sem limites. Porque a arte não tem limites, não tem regras, não quer chegar a coisa alguma, não quer provar nada. É a minha busca por Deus, que nada tem a ver com religião.”


Seguindo seu caminho, Bracher se define como “um sujeito que não pensa em nada”. Selvagem, sem regras, sem método. “Quero ilações só com a emoção. Pintar, escrever, viver.” Um sujeito que gosta de “conversas de almas”. Nessa busca transcendental, um dia ele chegou a Ouro Preto, cidade mágica entre as montanhas de Minas, que entrou em sintonia com sua viagem interior. 


A riqueza cultural de Ouro Preto, onde a arte brota da terra como nos séculos 17 e 18 brotava o ouro, faz da cidade o ambiente perfeito para Carlos Bracher. A força dessas montanhas embelezadas pelo barroco, pela arquitetura colonial, pelas “igrejas pastoreando casas”, como descreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade, está impregnada em sua pintura. 


Carlos Bracher não tem a intenção de descrever a matéria. “Quero a essencialidade imaterial da paisagem”, afirma. Não é por outra razão que suas telas causam tamanho impacto e despertam no espectador sua capacidade de se elevar, de alcançar a “cena cósmica” que se esconde na essência das igrejas, montanhas, paisagens, personagens dos retratos, incluindo os autorretratos. 

“Não sou um sujeito criativo”, Bracher diz. “Sou apenas um pintor. Pinto as mesmas coisas de sempre.” A exposição no CCBB, que tem cerca de 80 quadros, é oportunidade para quem quiser ver ou rever uma parte de sua obra e também conhecer um pouco da alma deste homem que direcionou sua vida na busca da transcendência pela arte. Lá está seu olhar sobre Ouro Preto, sobre Van Gogh, uma de suas paixões, e sobre Brasília, cidade que o encanta. 


A forte ligação de Bracher com Brasília, retratada por ele em mais de 60 quadros, em 2006, vem desde o berço. Sua avó, Josefina, era vizinha da casa de Juscelino Kubitschek em Diamantina, e sua mãe, Hermengarda, era amiga de infância do futuro construtor de Brasília. A lembrança de Juscelino o emociona. “Um homem notável, que nasceu de uma família muito pobre, mas sempre dedicado à leitura, e que aos 38 anos se tornou prefeito de Belo Horizonte, transformando a cidade, e depois construiu Brasília, um projeto que vinha desde o império.” 


Na exposição do CCBB estão, além de algumas de suas obras mais representativas, alguns ambientes de sua intimidade, como o atelier de sua casa, em Ouro Preto. “Dos meus 74 anos, 44 os passei aqui dentro, sessenta por cento do que sou nesses parcos metros quadrados, o meu atelier”, conta, em um de seus textos para a mostra. 

E também lá está o lugar de sua infância, o Castelinho, sua casa de Juiz de Fora, “ambiente sem regras”, como ele descreve, mas transbordante de arte – podem ser vistos vários quadros de seus irmãos, e no vídeo pode-se ouvir seu pai, Waldemar, ao piano. Esse ambiente familiar tem tudo a ver com a retrospectiva de Bracher, porque a habilidade manual vem de várias gerações. Desde o bisavô suíço, Cristiano, que era floricultor, passando pelo avô Frederico, típógrafo e violinista, o tio Frederico Júnior, pintor; o pai, músico amador que também trabalhou com cerâmica; Lótus Lobo, prima, gravadora de renome, além de Décio e Nívea, irmãos, também pintores. Mas a arte permanece na família, com Fani, a esposa há 50 anos, pintora, as filhas Larissa, atriz, casada com o músico Paulinho Moska, e Blima, jornalista e videomaker. 


A concepção da mostra é de Larissa Bracher, com seleção de Olívio Tavares de Araújo e do próprio artista, produção executiva de Carlos Chapéu e concepção cenográfica de Fernando Mello da Costa. Blima Bracher cuidou da pesquisa, documentação e dos vídeos. “É uma das exposições mais bem estruturadas que já vi”, observa Carlos Bracher, elogiando o trabalho da equipe e especialmente das filhas, que se dedicam a divulgar a obra do pai. “O Brasil tem 9 mil exposições por ano, e essa aqui é uma epopeia, a cenografia, a sonoplastia, um trabalho enorme para mostrar que a pintura é uma arte linda, linda e atual. A Larissa, a Blima e a Fani estão comigo nisso, é muito bonito.” 


Prazer em conhecê-lo, Bracher!
A mostra Bracher – Pintura & Permanência foi contemplada com o Prêmio Destaque Especial 2014 pela Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA), superando exposições de artistas clássicos, como Salvador Dali, Kandinski e Picasso. Foi vista por 120 mil pessoas em Belo Horizonte, 90 mil pessoas em São Paulo e mais de 200 mil no Rio de Janeiro. 

Bracher – Pintura & Permanência
10 de junho a 27 de julho, quarta a segunda, das 9h às 21h
Centro Cultural Banco do Brasil – CCBB

[Matéria publicada na revista Roteiro Brasília nº 240, junho/2015]

LIVRARIA NA RUA


A Le Calmon Livraria e Café marca a volta das livrarias de rua a Brasília. Meus livros Exília (SP, Dobra Editorial, 2013) e Arqueolhar (LGE/Varanda, 2005) estão à venda lá, assim como livros de outros autores de Brasília. 

O espaço é convidativo e aconchegante. As estantes não sufocam o leitor; ao contrário, sugerem que se tome o livro para folhear e ler algumas linhas. E o ambiente não parece impor ao cliente o best-seller da hora, mas o deixa à vontade para suas próprias descobertas. Talvez seja assim a livraria ideal, já que o livro, antes de ser um produto comercial, é – ou deveria ser – um suporte para o pensamento e a reflexão. 

A Le Calmon Livraria e Café, localizada na quadra 111 Sul, foi criada com esse espírito e marca a volta das livrarias de rua a Brasília, abrindo caminho, quem sabe, para outras iniciativas semelhantes. Criada por um casal de advogados, Adriana Beltrame e Petrônio Calmon, ela faz parte de um projeto que inclui uma editora especializada, a Gazeta Jurídica, com dois anos de existência e já com 60 títulos publicados, e um selo literário, a LeCalmon Editora. Deste, Uvas, Vinhos e Tulipas, romance de Vanda Amorim, e Causos de São Chico e Outras Querências, de Athos Gusmão Carneiro, são os destaques. 

Adriana lembra que o cliente não encontrará nas estantes livros de autoajuda ou religiosos, que não fazem parte da proposta da Le Calmon. Este é mais um detalhe que dá à livraria uma personalidade diferenciada, já que são outros os seus “best-sellers”, como romances de literatura brasileira e estrangeira e biografias. Mas, caso o leitor não encontre na casa o que procura, a Le Calmon aceita encomendas de qualquer tipo de livro.


No andar superior da livraria foi montado o café, que complementa o ponto de encontro de pessoas que têm em comum o prazer da leitura. Os dois ambientes funcionam de segunda a sábado, das 9 às 21 horas.

Le Calmon Livraria e Café
CLS 111, bloco C, loja 22
(61) 3345-6233
De segunda a sábado, das 9h às21h
www.lecalmon.com

UMA NOVA LEITURA DE EXÍLIA

O escritor Alexandre Bonafim, professor de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade Estadual de Goiás (UEG), escreve no Diário da Manhã, de Goiânia (edição de domingo, 7/12/2014), sobre meu livro de poemas Exília


Em Exília (Ed. Dobra), o mais recente livro de poemas de Alexandre Marino, podemos contemplar uma linguagem de tensões, escritura a se esmerilar em si mesma, afiando-se num jogo de associações livres, oníricas, responsável por uma linguagem que, a despeito de voltar-se permanentemente para situações da realidade, tem em si mesma, pelo efeito da função poética, um burilado pergaminho de metáforas. Desde os românticos alemães, passando por Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé, a poesia tornou-se um emaranhado de associações lexicais raras, em que o processo de metaforização atinge uma agudeza intensa. Dessa forma, Marino não se atenta apenas aos referentes do real, mas sobretudo à própria expressão linguística, o que o torna um poeta sobretudo da consciência verbal. É o que podemos notar nessa pequena obra prima, O cavalo em chamas:

Um cavalo selvagem
branco como o assombro,
carrega uma labareda
a atiçar-lhe o lombo.

Mergulha no nevoeiro
onde uma ponte houvera,
pênsil sobre o penhasco
arrimo de corredeiras.

Este cavalo em chamas
galopa entre as brumas
à margem do precipício
por uma trilha sem rumo.

Atravessador de abismos,
o cavalo meio pássaro
enfrenta dor e cansaço
e a inépcia para o voo.

O fogo, essa estrela
cadente de encontro ao rio,
ilumina o cavalo peixe
sobre as águas bravias.

Para enfrentar o mistério,
incêndio no precipício,
resta a luz do homem
entregue à montaria.

Em seu fim e seu início
a vida costura rotas
nos passos iluminados
em caminhos sem respostas.

Essa assustadora chama
atiça a cavalgada
sobre o rio ignoto
que encanta e ameaça.

O cavalo porta as almas
de peixe, pássaro e fera.
E essa eterna chama,
alimento de quimeras
(p.11-12)

O cavalo a conduzir o cavaleiro é a própria linguagem a impulsionar o poeta, ou em um sentido existencial, o destino a talhar a condição humana. Nesse percurso de abismos, de fascínios, resta sempre a ambiguidade desse cavalo que, paradoxalmente, encarna o pássaro e o peixe, animais de outro habitat. Eis as tensões, enfim, que vão conflagrando a complexidade da própria linguagem, gerando paradoxos e associações encantatórias capazes de agudizar o mistério desse cavalo cujo fundamento, como a existência em si, é pura magia, denso enigma.

Em outro poema de bela fatura, Majestade, temos uma árvore que, assim como em O cavalo em chamas, encarna o real, mas o ultrapassa, instaurando no solo concreto o próprio arroubo do desconhecido:

Esta árvore
te acolhe e consola,
mas também tem fome.

Ao te assustares
com teus arredores,
feitos de não lugares,
sabes onde encontrá-la
para verter-lhe nos braços
teu pranto farto.

Ela também carrega
na carne
sinais do massacre
que te retalhou a pele
e as entranhas.

Mas ao contrário
dos que vacilam
em busca de um sinal
e apodrecem no solo,
a árvore
visita o paraíso
como hóspede de honra
e enfrenta o inferno,
onde deita suas garras.

Esta árvore
renuncia à seiva
para consolar-te
das tormentas e das secas,
e retrata tuas veias,
onde trafega o desamparo.

A única sombra
a protege-la
de teu olhar cruel
é a noite,
escultora de teus pesadelos.

Os pássaros
aninhados em seus galhos
te ensinam:

embora possas
adormecer
recostado em seu corpo,

o teu voo é falso,
teu abraço é falho.

A árvore, cravada em um cerne que não mais é o umbigo do mundo, âmago dessacralizado, possui, ao redor, não-lugares, vazios, desertos inóspitos onde o homem e a árvore têm de estabelecer morada, desvelando-nos uma situação existencial de extrema indigência e fragilidade. Dessa forma, a árvore, tal como o homem, vive em desterro, em exílio, circunstância vivencial que é, na verdade, o húmus de todo o livro e nos traz, em clave pós-moderna, a velha questão do poeta inadaptado, do albatroz baudelairiano sopesado pela força de uma sociedade cujo valor não mais é a beleza, a poesia, mas o dinheiro, a ambição e a usura. No entanto, teimosa, com raízes no inferno e a fronde no paraíso, a árvore resiste aos massacres, tal como o poeta que, também resistente, é um combatente audaz a fazer da linguagem o último refúgio no qual ainda resguarda sua humanidade.

Se no nível psicológico o exílio se desvela pela inadaptação, no plano físico do corpo vislumbramos um processo também angustiante, pois a carne perde a liberdade e enclausura-se em limites claustrofóbicos:

[...]
Este corpo
mal se acomoda
em suas esperas,
mas cercado de fronteiras
revolve o infinito,
porque só o ínfimo
interessa.

Este corpo emudece
no momento do grito
dentro da noite imensa,
[...]

Este corpo desconhece
o espaço que o acolhe
e rejeita,
e sabe a trilha secreta
dos deuses,
feita de abismos
e delicadezas.
[...]

Este corpo
cria um novo sonho
a cada pedaço
amputado,
recria o ninho
a cada exílio,
mas não compreende
mapas e rotas.

[...
Este corpo
se alimenta a esmo
e colhe da vida,
gota a gota,
o mais saboroso
veneno.
(p. 46-48)

O corpo, por fim, esfacela-se, fragmenta-se num amplo processo de desrealização da concretude física humana. Exílio a se findar em múltiplos exílios, cujo fim é a lenta dissolução da vida. Em um mundo inóspito, reificado, onde os processos de desumanização atingem uma agudeza antes nunca vista, o poeta ecoa seu canto dolorido, mas ao mesmo tempo vivo, num grito de prometeu rebelde, acorrentado, mas audaz na perspicácia de sua luta.

Em Exília, portanto, encontramos uma fecunda crítica à situação do homem contemporâneo, feita por uma linguagem cortante, mas altamente lírica, simbólica, escritura que denuncia, mas que também se desvela em desejo, em pulsão de vida, telúrica, força pujante do verbo humano. Alexandre Marino, em Exília, rende-nos, portanto, momentos de alta literatura.

A POESIA SEM FRONTEIRAS DE ANA RAMIRO

Na poesia, a palavra é um horizonte aberto de possibilidades imagéticas. A riqueza da poesia, em contraponto à contenção de palavras, é essa explosão de sentidos que brotam das sílabas, silêncios, ritmos e espaços em branco. Para medi-la, se é que é mensurável, é preciso, mais do que os olhos, abrir o coração.

A poesia de Ana Maria Ramiro é exemplar dessa linguagem sem limites, que oferece a possibilidade da transcendência na leitura. Em Fronteiras da Pele, ela traz para a condição de arte o corpo e seus elementos. E se a perspectiva do prazer, sua razão de ser, provoca a inquietação do corpo, a poesia é fruto da inquietação da alma. Não é por outra razão que o primeiro verso do poema Belzing Bug já revela a mão tateando a possibilidade do rosto, vertida em tarântula, que nesse gesto executa o preciso movimento que tem como fim a saciedade – logo, o prazer.

Sem a pretensão de desvendá-la, o melhor a fazer é mergulhar na poesia de Ana Maria Ramiro e entregar-se ao ritmo de seus versos, deixar que a minuciosa elaboração conduza a leitura. Entre as boas surpresas proporcionadas por esse exercício está o encontro de algumas palavras que se destacam das demais – como se tivessem som mais agudo ou cor mais vibrante – e que se apresentam como guias de viagem. Tais palavras, que o leitor deve assumir o risco de identificar (ou não), darão o tom das diversas sensações proporcionadas por essa entrega. E aqui é bom lembrar que, em poesia, o importante é abrir-se à sensação, mais que buscar o entendimento racional.

Ana Maria trabalha com palavras e imagens delicadamente escolhidas, com esmero e precisão, para elaborar a ideia que o poema contém. Algumas parecem ter sido inventadas especificamente para amalgamar os seus poemas. “Quadro a quadro / o tempo retrocede // descaminham / os pés / sob um solo móvel” (Abissínia).

A autora lança mão do poder das metáforas para intensificar a interação entre palavra e corpo, como no belo Linhas de fuga (“um mergulho // sistemático no fundo do aquário / em busca da escama, no hiato / da pedra, o salto / atávico”) ou em Origami urbano (“A cada vinco, mudanças / na química do asfalto // embotar o gris, romper / a lápide que se estende / sob o casco humano // céu de agapanto”).

Nesse exercício de enfrentar as fronteiras da pele, Ana Ramiro brinca de esfinge e assim se apresenta ao leitor perplexo. Mas ler poesia não é desvendar enigmas; é romper, ao lado do poeta, os limites que a ambos se apresentam, para assim se respirar a liberdade oferecida pelo voo das palavras (“bailarina no globo / da morte, o pensamento fixo / num ponto sem foco”), pelo mergulho na metáfora (“acima da sombra, um pássaro / renega casa, identidade / e se desfolha // nômade”), pelo gozo diante do encontro a realizar (“no deserto da pele (sinuosa) // uma jóia desliza / nua”).

A poesia de Ana Maria Ramiro abre possibilidades de leituras e releituras que absorvem o parceiro-leitor em redemoinho, oferecendo-lhe não respostas, mas perplexidades. Fronteiras da pele prossegue o caminho aberto em seu livro anterior, Desejos de Gaia, um tratado sobre os sagrados calores que alimentam o corpo e lhe proporcionam energia vital. Mas, se no volume de 2007 Ana Ramiro carregava em fina ironia, em Fronteiras da pele ela intensifica a “elaboração do gesto” (“reconhecer-se na fome / do tigre, // sentir seus músculos, / seu hálito, // ler o segredo / estampado // no rajado da pele”). Esse salto além faz de sua poesia uma bela aventura. 

Escrevi este texto em 2009, e Ana Ramiro o publicou no blog Fronteiras da Pele, que criou para divulgar o livro que acabara de lançar. Também o site literário Conexão Maringá, que infelizmente não existe mais, o publicou. Sempre gostei muito da poesia da Ana e a poesia nos fez amigos. Ana estava morando há alguns anos em Portugal, onde o marido Dario Sensi, diplomata, ocupa cargo na Embaixada do Brasil. Ana Ramiro faleceu em Brasília, no dia 19 de julho. Uma grande perda para a poesia e os amigos. Uma homenagem é muito pouco, mas é o possível. 

O PRESENTE DE NILTO MACIEL

No dia 27 de julho, ao voltar para casa depois de uma ausência de duas semanas, encontrei na caixa de correspondências um envelope pardo que imediatamente identifiquei como um livro. Recebo muitos livros; alguns de amigos, outros de desconhecidos em retribuição aos que eu próprio envio. Livros viajam sem parar. Antes de abrir o envelope, verifiquei o remetente: o cearense Nilto Maciel, inquieto autor de mais de uma dezena de livros, entre romances, contos, crônicas, ensaios, poesia. 

Nada de estranho, a não ser pelo fato de que Nilto Maciel faleceu no dia 29 de abril, três meses antes. Verifiquei a data de postagem do envelope: 14 de abril de 2014. 

O presente que eu acabava de receber de Nilto, que morou durante muitos anos em Brasília e que ultimamente escrevia e espalhava seus livros diretamente de Fortaleza, era o volume Sôbolas manhãs, coletânea de ensaios sobre literatura, escritores, memórias e outras reflexões sempre interessantes com que presenteava os amigos a curtos intervalos. Por enquanto, não farei maiores comentários sobre o conteúdo, pois não terminei a leitura. 

Dentro do livro, encontrei um bilhete digitado, rubricado com dois rabiscos e datado de 10 de abril, 20 dias antes de seu corpo ser encontrado na sala de sua casa, no bairro Monte Castelo, em Fortaleza. “A Alexandre Marino, presenteio este exemplar de Sôbolas manhãs”, li no bilhete. “Tenho dúvida de ter ou não mencionado seu nome em algum dos artigos.” E prosseguia: “Tenho certeza de ter escrito um livro de boas ideias ou, pelo menos, com o melhor dos intuitos: o de divulgar os escritores brasileiros avessos ao ‘jornalismo de resultado’, à crítica tendenciosa e aos vendedores de pedras falsas.” 

Certamente permanecerá um mistério o caminho percorrido pelo livro, desde que o próprio Nilto Maciel o levou aos correios até que o apanhei na caixa de correspondências. É possível que o volume tenha ficado esquecido em algum centro de distribuição, caído atrás de uma mesa, até que, quem sabe, o espírito de Nilto cutucasse um carteiro e exigisse a entrega. Onde Nilto estiver, agradeço o cuidado. E agradeço também que ele me tenha incluído na seleta lista de “escritores avessos aos vendedores de pedras falsas”, um privilégio e tanto. 

[crônica] O INFERNO

Ao anunciar os jogadores que defenderão o Brasil durante a Copa do Mundo, o técnico Luiz Felipe Scolari garantiu: “Irei com eles até o inferno.” Não cheguei a ler a lista, mas fiquei intrigado com a frase. Que inferno seria esse? 

Alguns de meus ancestrais levaram os clichês bíblicos ao pé da letra. Desconfio que meus avós e minhas tias acreditavam piamente na existência do Inferno e do Paraíso, este como o lugar do júbilo eterno, suprema premiação a quem viveu uma vida voltada para o bem, a obediência a Deus e principalmente ao sacrifício, à provação, à vitória sobre as “tentações”. Tentação, no caso, englobaria quase tudo que dissesse respeito ao prazer, e aqui me vem à memória um verso do poeta inglês John Donne, traduzido por Augusto de Campos e eternizado no Brasil por Caetano Veloso: “Todo prazer provém de um corpo (como a alma sem corpo) sem vestes.” O texto no original não é exatamente assim, mas o sentido é o mesmo. 

O paraíso, o prazer, o inferno. E, diante da promessa da redenção eterna, tínhamos também a ameaça do sofrimento eterno, se não resistíssemos. Aos seis anos, eu me preparava para a primeira comunhão, que diziam ser a “chegada de Deus” a meu corpo. Para me treinar, minhas tias me forçavam a “comungar” com hóstias que os padres da Igreja de Santo Antônio lhes davam, obviamente antes de “receber” a presença divina. Um dia, me engasguei e cuspi aquela massa insípida. Meu avô me encarou com olhar ameaçador: “Se você fizer isso lá na igreja, vai parar sabe onde?”, apontando o indicador para o chão, mostrando o caminho do inferno. Pobre menino de seis anos, que nem conhecia o mal do mundo. 

Eu, na minha peculiar ingenuidade, acreditava, ia à missa, rezava. Fiz a primeira comunhão, engoli a hóstia direitinho, e a partir dos sete anos cumpria todos os domingos o ritual da missa. Na época, comungava-se em jejum. As missas eram muito demoradas, e normalmente eu não conseguia esperar pela hora da comunhão: morto de fome, caía desmaiado antes que o padre distribuísse o “corpo de Cristo”. 

Até os 14 anos, vivi a rotina de comungar nas missas dominicais, inventando pecados para o padre sempre que passava muito tempo sem me confessar. Achava que era melhor inventar excessos que receber a hóstia com algum pecado esquecido – e ser castigado por aquele Deus barbudo com cara de mau. Eu não era muito criativo com essas invenções – “briguei com meus irmãos, desrespeitei minha mãe”, etc, etc. Ah, tinha um pecado muito interessante – “Tive maus pensamentos”. Isso significava desejar alguma garota, coisa que eu nem sabia direito o que significava, pois, afinal, sexo era assunto tabu. 

O inferno é uma instituição humana, assim como o Paraíso. O poeta Dante Alighieri, nascido em Florença, cidade eterna, no século 13, percorreu o inferno, o purgatório e o paraíso, encontrou conhecidos e desconhecidos e voltou à terra para narrar sua viagem, em versos, num dos monumentos da literatura universal, A Divina Comédia. E algo que me chamou a atenção é que no Inferno de Dante não há apenas fogo. Há, por exemplo, uma lama imunda onde alguns espíritos vivem sua provação. 

Pensei em tudo isso ao tomar conhecimento da frase de Scolari. E desconfio que ele não precisará ir muito longe se tiver de acompanhar seus pupilos ao inferno. O inferno está muito próximo – dele e de nós. 

[Imagem: uma das ilustrações de Salvador Dali para A Divina Comédia, de Dante Alighieri] 

SÉRGIO DUBOC É COISA NOSSA!


O cantor e compositor Sérgio Duboc é um dos pioneiros do Liga Tripa, grupo e movimento poético-musical que surgiu em Brasília no início dos anos 80. Faz parte, portanto, de uma linguagem, uma cidade e um tempo emblemáticos. Brasília havia sido inaugurada há 20 anos, e portanto era uma cidade ainda em busca de identidade. O país ainda vivia tempos de ditadura e censura. E a música do Liga Tripa, que reunia artistas vindos de várias partes do país, embalou essa cultura nascida de uma experiência absolutamente nova.

Como se vê, o Liga Tripa, que já tem mais de 30 anos, só poderia ter surgido em Brasília e sua música é capítulo obrigatório na história cultural da capital brasileira, hoje uma cidade já consolidada e com excesso de problemas urbanos e políticos, portanto, a cara do Brasil.

Sérgio Duboc é parte dessa história. E será em homenagem e solidariedade a ele que músicos e poetas de Brasília se reunirão para uma grande festa no palco do Teatro dos Bancários, na próxima quarta-feira, 14 de maio. Duboc se recupera de um problema de saúde que o surpreendeu há algumas semanas, em Goiânia, e ainda vai mantê-lo no estaleiro por algum tempo.

Mas Duboc não é qualquer um e os espíritos que tentavam conduzi-lo ao "outro lado" - segundo relato dele mesmo - devem estar convencidos que pegaram o cara errado. Duboc bateu o pé, brigou, esbravejou, se segurou, disse que não iria e não foi. "Eu disse pra eles que meu lugar é aqui e daqui não sairia", conta. "Eles, quem?" "Sei lá, uns demônios que me cercaram", disse.

Agora será diferente. O palco do Teatro dos Bancários estará lotado de amigos. Será um belo show poético-musical. Além de poesia e música, o evento contará com um bazar em que serão vendidos CDs, livros e trabalhos de artistas da cidade, com renda revertida para Sérgio Duboc. 

EXÍLIA NA BIENAL DE BRASÍLIA

Nesta sexta-feira, 18, lançamento de Exília no Café Literário Jorge Ferreira na Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília. 
A Livraria do Chico (estande 33, bloco A) vende Exília na Bienal de Brasília. 


SARAU POÉTICO NA BIENAL

Uma pequena história da poesia em Brasília. Organização de Jorge Amâncio e participação de toda a turma. Nesta sexta-feira, 18 de abril, a partir das 21 horas, na Arena Infantil Monteiro Lobato. 


LITERATURA E INTERNET NA TV

No programa Entrelivros, da TV Brasil, uma conversa sobre literatura, internet e mercado. Foi ao ar na segunda-feira, 14 de abril, durante a 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília. Participação de André Giusti e deste escriba. 


[crônica] ÍCONES INFANTIS

Eu devia ter no máximo três anos quando meu pai comprou seu primeiro carro, que ele chamava de Prefetinho e que só recentemente descobri que se tratava de um Ford Prefect, de fabricação norte-americana ou inglesa. Pelas pesquisas que fiz, devia ser um modelo produzido entre as décadas de 1930 e 1940, e portanto já um respeitável ancião quando meu pai o adquiriu em 1958 ou 1959. 

O Prefetinho ficava estacionado diante de minha casa, na rua Lourenço de Andrade, em Passos. Era uma rua tranquila, mas já asfaltada. Recém-chegado ao mundo, me encantei com a máquina que meu pai incorporara a seu escasso patrimônio. E foi assim que me transformei em grande problema para minha mãe, pois eu queria passar o dia inteiro em seu interior, e algumas vezes a obriguei, usando os invencíveis argumentos de primogênito de três anos, a levar-me o almoço dentro do carrinho.

Na família não existem fotos do Prefetinho, a não ser uma em que ele pode ser visto pela lateral, apenas a metade da frente, imagem suficiente para identificar o modelo, graças a um relevo característico na lataria. Minha mãe está no banco dianteiro, de perfil, e eu estou no colo dela, olhando para o fotógrafo. Essa foto foi tirada com uma antiga câmera Kapsa, diante da Igreja de Santo Antônio, mais tarde demolida como tantos outros ícones da minha infância. 

Imagino que a foto tenha sido feita pelo meu pai, embora a fotógrafa oficial da família fosse minha mãe. Em ocasiões especiais, geralmente viagens, ela comprava um filme, que o próprio funcionário do cinefoto colocava na Kapsa. Quando voltávamos da viagem, minha mãe fazia algumas fotos em casa, nas ruas próximas ou na Praça da Matriz, e depois mandava revelar no Foto Yokoyama, anos depois substituído pelo Simosono. 

Minha mãe teve duas câmeras Kapsa. A primeira, usada para fotografar o Prefetinho, era preta. O que chamava atenção nessa câmera era que o fotógrafo tinha que segurá-la na altura da barriga, posição adequada para que a imagem fosse vista no visor. Não sei quem ensinou minha mãe a fotografar, mas ela reuniu um respeitável acervo de fotos de minha infância e de meus irmãos. Eu já era adolescente quando pela primeira vez minha mãe permitiu que eu fotografasse com a Kapsa. 

Embora o Prefetinho me fascinasse, meu pai vivia furioso com o carro, que segundo ele “não saía da oficina”. Para complicar, acredito que meu pai o comprara com o objetivo maior de viajar, porque Passos era muito pequena e ele gostava de andar a pé. A cidade ficava a meio caminho entre Belo Horizonte e São Paulo, unida às duas capitais por estradas de terra quase intransitáveis. Viajar era, de fato, uma grande aventura. Lembro-me dos quilométricos lamaçais em tempos de chuva, quando era comum passarmos por uma fila de carros fora de combate, até que nós também atolássemos e mais tarde fôssemos resgatados por um jipe ou um trator. 

O segundo carro de meu pai foi um Chevrolet fabricado também na década de 1940, porém maior e mais confortável. Certa vez, saímos de Passos no início da noite com destino a Belo Horizonte. O carro levava, além de mim, meus pais e meus avós maternos, além de Tia Raquelina. Numa curva, próxima a uma ponte, o carro saiu da estrada e despencou dentro do rio. Ninguém se machucou gravemente, mas poderia ter sido uma tragédia se o carro tivesse avançado mais dois metros. Fomos resgatados por um caminhoneiro que se tornou amigo da família. 

Lembro-me de ter sido retirado do carro, com as roupas molhadas e tremendo de frio, e levado para o interior do caminhão. E lembro-me também de minha mãe lamentando a perda da “máquina de retratos”. Anos depois ela comprou outra, da mesma marca, mas agora de cor cinza. E continuou fazendo fotos que, embora sejam belas recordações, jamais substituirão a memória. 

[história afetiva] HÁ VAGAS - OU HAVIA?


Capa da terceira edição
A revista literária Há Vagas circulou em Brasília de setembro de 1982 a agosto de 1985, em três edições, que contaram com o apoio da Universidade de Brasília. Seus fundadores foram Armando Veloso, Chico Leite, José Adércio Leite e Paulo Joe, com a participação de Regina Ramalho, que fez o projeto gráfico da primeira edição, e um grande número de colaboradores. No início da década de 1980, o movimento literário de Brasília era muito intenso e os criadores da revista conseguiram agregar grande parte dos escritores que circulavam na cidade. Na época, a perspectiva de mudanças políticas, com o fim iminente da ditadura militar, e a capital ainda em busca de identidade, com apenas 22 anos de inaugurada, apontavam para um horizonte sem limites e muita expectativa também na cultura.  

A primeira edição de Há Vagas trazia na capa um desenho que vazava para a contracapa, em que se viam todos os colaboradores da revista segurando a carteira de trabalho. Quem assinava o editorial, sob o título O homem é o lobby do homem, era o jornalista e poeta Tetê Catalão. Apesar de rico em metáforas, ainda hoje o texto não deixa dúvidas quanto à conjuntura política e econômica da época. “A pior recessão será aquela capaz de desfibrar sonho por sonho, letra por letra, carícia por carícia”, afirmava logo na primeira frase. “Em pleno desemprego nacional, afirma-se que HÁ VAGAS.” O país vivia os últimos suspiros da ditadura militar, em meio a crise econômica, mas ainda faltavam três anos para que o último presidente de fardas entregasse o poder. 

Capa da primeira edição
“Quem achar que deve, se apresente. Afinal, quem diz que você pode ou não pode é você mesmo: se a vaga é tua, vai na vaga. Abre o vago-simpático e brilha vagau no brinquedo de estar lúcido.” Tetê Catalão fechou assim o editorial, e deu gás para que alguns escritores que enviaram colaborações à revista e não foram publicados protestassem contra a “falta de vagas”. No entanto, em suas três edições a revista veiculou textos de grande qualidade literária, de autores de diversos estilos e propostas, de vários pontos do país, comprovando que as portas estavam, de fato, abertas. 

Primeiro número – Um dos destaques da primeira edição de Há Vagas era o poeta Francisco Alvim, participante do movimento literário brasiliense, nome importante da poesia dos anos 70. Ele contribuiu com poemas e uma interessante entrevista, em que refletia sobre a ainda recente poesia marginal. 

Entre os autores de contos, poemas e ilustrações publicados no primeiro número estão, além de seus criadores e editores, Ariosto Teixeira, Cassiano Nunes, Cesário de Sousa, Eduardo Rangel, João Borges, Jô Oliveira, Luis Eduardo Resende (Resa), Luís Martins, Paulo Andrade e Turiba. 

Após a publicação do primeiro número de Há Vagas, houve uma dissidência de alguns escritores desse grupo, que se afastaram para criar a Bric-a-brac, outra revista literária de grande importância na história cultural de Brasília. 

Capa da segunda edição
Segundo número – Na capa, o artista plástico Felix Valois reproduziu graficamente uma frase poética pichada em um muro de Brasília: “Não sei como as pal-/avras/ ainda são feitas/ de silenci-os!” O segundo número da revista foi editado por Chico Leite, Armando Veloso, Domingos Pereira Netto e Alexandre Marino, com a colaboração de Paulo Joe (São Paulo) e Theophilus (Fortaleza), e edição de arte de Milton Goes, Resa, Jô Oliveira, Evandro Abreu, Renato Ferrari e Rômulo Andrade. A data de edição é primavera de 1984. 

Colaboraram no segundo número, além dos editores, Adriano Espinola, Cassiano Nunes, Carlos Herculano Lopes, Evandro Abreu, Lourenço Cazarré, Nirton Venancio, Patt Raider e Luís Turiba, entre outros. Chico Leite, Armando Veloso e Alexandre Marino conduziram a entrevista desta edição, com o poeta Affonso Romano de Santanna. 

Uma das curiosidades desta segunda edição foi um conto cedido pelo poeta Paulo Leminski, de título Sintomas. De Leminski também foi publicado um poema, sem título. 

Marino, Chico, Domingos,
Goes, Armando
Outra curiosidade foi o poema enviado por Waly Salomão, O cólera e a febre. O poema fala de uma situação de tédio num domingo de sol. Waly teria ficado furioso ao ver a ilustração de Milton Goes para seu poema, cuja primeira estrofe trazia os versos “Um bode imundo irrompe/ (...) e perante minha pessoa a fera/ estaca e já dentro de mim se esmera/ (...)”. Na ilustração, Goes usou a imagem literal de um bode, o animal, que se transforma numa seta e fere o peito de um homem. Waly talvez não tenha compreendido que, neste caso, o bode foi a metáfora da metáfora, e o realismo reforçou a imagem figurada. 

Terceiro número – Aquela que seria a última edição de Há Vagas, de agosto de 1985, foi feita por Armando Veloso, Chico Leite e Alexandre Marino, com a colaboração de Paulo Joe e Theophilus. A edição de arte ficou a cargo de Milton Goes e Chico Leite. Cristina Bastos teve importante contribuição em todo o trabalho. A imagem da capa, do fotógrafo Juan Pratginestós, mostra um casal sentado nas arquibancadas vazias do antigo anfiteatro do Parque da Cidade, cenário do lendário Concerto Cabeças, e na contracapa as mesmas arquibancadas, lotadas, ambas fotos feitas do alto. 

O poeta Ferreira Gullar foi entrevistado pela jornalista Patrícia Assis. A professora Maria Duarte escreveu um ensaio sobre arte e cultura nos novos tempos que se inauguravam no país. Encartadas na revista vinham as Breves anotações para um provável manigesto, com texto final de Chico Leite, que discutiam a proposta literária dos editores da revista, voltada para uma poesia de linguagem universal, uma “viagem da pedra primitiva ao neon”, revelada nos versos de Paulo Joe: “Nem vanguarda, nem retaguarda, apenas o que o coração aguarda.” 

Entre os colaboradores desta edição estavam ainda Alice Ruiz, Antonio Barreto, Guido Heleno, Nevinho Alarcão, Nilto Maciel, Paulo Leminski, Reynaldo Jardim, Thais Guimarães e Zaida Regina. 

Há Vagas reuniu, em suas três edições, nomes de grande importância da literatura que se fazia na época em Brasília, publicando ainda escritores que se destacavam em outros estados por uma postura de inquietação e questionamento. Novos tempos chegavam. Há Vagas cumpriu sua parte. 
 

O NÃO-LUGAR DA POESIA

A escritora Paula Cajaty, do Rio de Janeiro, escreve sobre meu livro de poemas Exília, na edição 165 do jornal de literatura Rascunho, de Curitiba (janeiro/2014). Leia abaixo a íntegra de seu texto.

 
Muito embora tenha finalizado seu sexto livro em 2009, Alexandre Marino trabalhou em Exília durante três anos, até a sua publicação, em junho de 2013. Nestes mais de sessenta poemas, distribuídos em cinco partes (“O homem”; “O exílio”; “O amor”; “O tempo”; “A morte”), Marino realiza o deslocamento do leitor, tornando-o alheio à condição humana, em uma espécie de despertencimento do mundo.

Na verdade, para escrever poesia há mesmo essa necessidade de exilar-se, colocar-se distante e à parte — sair do lugar de conforto para olhar o mundo sob outra perspectiva. A poesia é, pois, o próprio lugar de exílio do poeta, mas um exílio voluntário, um deslocamento de tempo e lugar em que se permitem reflexões impossíveis aos que se encontram imersos no turbilhão da vida.

Exília é o lugar que não há, longe da terra que acolhe e expulsa sonhos, o vazio além da janela, o ninho diversas vezes recriado. Fica fácil, portanto, identificar a razão da repartição em cinco partes no livro do poeta mineiro: exilando-se da condição de homem, o eu-lírico se transforma em poeta; exilando-se do mundo, o poeta encontra seu lugar nesse exílio; afastando-se das paixões que regem o homem-consumidor e competidor, o poeta descobre a mansidão e eternidade do amor; e, por fim, distanciando-se da vida, efêmera, escreve sob a égide do tempo e da morte, inexoráveis e imutáveis.

Caixa de vidro

O eu-lírico de “O homem” é um deus aleijado, andarilho, criatura sem norte, viajante perdido e cigano no deserto. É náufrago de si mesmo, intruso em seu próprio habitat. O título da obra, embora não conste do dicionário, é a junção da palavra “exílio” com “Brasília”, cidade onde mora o poeta. Mas Alexandre explica que não se sente exilado em Brasília: na verdade, ele se sente exilado em qualquer cidade, pois, como na história do rio cujas águas sempre são diferentes, pessoas e cidades vão mudando com o tempo. Nós mudamos, a cidade muda e logo nos sentimos estranhos e deslocados em nosso próprio bairro.

A sensação de estranhamento, própria do efeito da leitura poética, é fruto desse auto-exílio: estranhamos o que não nos é próximo, desconfiamos daquilo que não nos é familiar, duvidamos de tudo o que muda — embora a natureza das coisas seja exatamente a mudança.

Em “O exílio”, Alexandre perscruta as condições em que esse homem, alheado de tudo e até de si mesmo, passa seus dias: “Nunca estou onde estou/ fogem-me abraços, harmonias e desalinhos”. É “terra estéril/ onde planto sonhos”, o mundo lá fora que insiste em invadir esconderijos, sol e vida que atravessam nossas celas de vidro. Como o próprio autor declara, é essencial o sentimento de desenraizamento que atormenta o poeta e explica a importância de que exista um lugar dentro de cada um de nós que possa ser esse refúgio pessoal e utópico. A poesia é, então, a ferramenta de criação do espaço mental e espiritual que salva os sentimentos do homem de um mundo inóspito e devorador.

Aliás, não é somente a poesia que promete esse lugar do sagrado e inatingível onde guardamos nossas sensibilidades, onde admiramos a rosa delicada da besta-fera ameaçadora e arredia que criamos para sobreviver: na filosofia iogue e nos estudos rosacrucianos há esse recolhimento a um outro espaço/tempo, diverso e distante do espaço/tempo do mundo. No estudo rosacruz, por exemplo, chega-se a erigir um pórtico mental que deve ser atravessado pelo aprendiz todas as vezes que inicia seu processo de meditação: o pórtico representando a entrada humilde do peregrino em um novo local, feito de silêncio, magia e beleza. Assim como poetas, iogues e rosacrucianos buscam esse auto-exílio como forma de expandir suas sensibilidades, um lugar de proteção contra barulhos, aborrecimentos, mudanças: uma caixa de vidro para guardar o que há em nós de mais precioso e frágil.

Pela filosofia iogue, através da meditação visitamos esse auto-exílio, que não é somente um lugar para entesourar nosso interior sagrado, mas lembrar de nossa própria essência, ouvir o chamado interno, ter contato com nossas verdades, e sobretudo não nos distanciarmos — em nome de necessidades materiais — de tudo aquilo que realmente precisamos para resgatar a felicidade.

A significação dos poemas de Alexandre também remete a uma espécie de exílio urbano, à falta de identidade de quem habita a urbe, metrópole sem rosto. Em suas entrelinhas, lemos a solidão compartilhada da grande cidade e a dissolução do indivíduo transformado em cliente, quando o homem é investido de condição financeira e desprovido de sua condição humana, substância lírica que insiste em resistir como flor nascida numa fenda de concreto.

Libertação

Na seção dedicada ao amor, um bem precioso e frágil, o poeta encontra histórias metafóricas, incorpóreas, perigo e beleza. Amor pode ser fantasia e longa espera, caminho imponderável do acaso, mistério impossível de enunciar, aquilo que as vozes emudecem. Amor pode ser aquarela, cheiro das tardes quase comuns, um baile de borboletas amarelas, o céu rosa enquanto guardamos algo dos pássaros apressados em busca de abrigo.

O modo singular e transgressor como o poeta lida com os poemas de “O homem” e “O exílio” cede e suaviza quando encontra “O amor”. Aqui, Alexandre descortina o primeiro poema com sua face mais cruel, camoniana: quando, impuro, tem mãos sujas, e quando, insensível, se diverte “enquanto ela chora no quarto ao lado”, reavivando a antiga “ferida que dói e não se sente”. Mas o poeta reencontra o amor divino, aquele paciente e bondoso, que “tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”.

Nos dois últimos capítulos, “O tempo” e “A morte”, a poesia se exibe como momento de lucidez, uma forma de libertação da vida prática. A vida é “fútil fortuna, ilusão de eternidade”, pó que voa sobre um lago de águas plácidas. E a morte, animal de estimação quase palpável, é sombra do invisível, parece que dorme ou que desaparece, mas a qualquer momento volta a sorrir e nos pede companhia pela eternidade. A morte é algo que cabe numa caixa de sapatos, é a imagem da mãe sentada no alpendre, o vento nas árvores, o telhado vazio de pássaros. As metáforas de Alexandre Marino aqui são profundas, preciosas.

Na linguagem poética, uma razão sobre-humana sobrevoa toda a racionalidade que aprendemos. Na poesia, sob o signo das sensações, retiramos a máscara que nos alheia a todo o tempo de nossa real condição — fugaz, frágil, efêmera — e nos encastela entre paredes de concreto, vidro e metal.

Alexandre Marino transita com desenvoltura pela linguagem poética, aberto para todas as linguagens e estilos, dialogando com a poesia drummondiana, o lirismo de Fernando Pessoa, a melancolia de Sophia de Mello Breyner e, ao mesmo tempo, evocando a memória de obras clássicas, como A Bela e a Fera ou O corcunda de Notre Dame. Em seus poemas, o autor foge da crueza e crueldade da cidade e do cotidiano para se refugiar em sua Exília, de onde escreve com paixão, força, riqueza de sensações e uma profunda experiência de vida.
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[crônica] A MAIS LONGA VIAGEM

Algumas notícias, lidas aleatoriamente em jornais recentes, dizem muito sobre os mistérios da humanidade. Um homem armado entra num edifício da Marinha em Washington e mata 12 pessoas. Um ataque com armas químicas contra uma população civil na Síria deixa mais de mil mortos. E, pela primeira vez na história, um objeto construído por seres humanos atravessou os limites do sistema solar.

O objeto em questão é a sonda Voyager 1, que acaba de chegar ao abismo do espaço interestelar, bela e poética expressão usada pelos cientistas para descrever os limites entre a área do cosmo sob influência de nossa estrela, o Sol, e o espaço infinito por onde essa pequena heroína navegará até os domínios de uma próxima estrela.

Será uma longa viagem. A previsão é que ela só alcance um planeta de outro sistema dentro de 40 mil anos. Lançada pela Nasa a 5 de setembro de 1977,  percorreu até agora 19 mil milhões de quilômetros, e por volta de 2025 perderá a capacidade de enviar informação à Terra. Os dados que ela tem enviado levam 17 horas para chegar a nosso planeta. As últimas fotos que mandou, em 1980, retratavam cenas inimagináveis de Júpiter e Saturno, incluindo as duas luas de Júpiter. Depois os cientistas desligaram sua câmera, para poupar energia, pois ela demonstrava capacidade de ir muito mais longe do que no início se esperava.

O maior especialista na missão Voyager, Edward C. Stone, tem 77 anos e está no projeto desde 1972. Ele não saberá o que acontecerá quando a sonda chegar a outro planeta. Nem eu. E nem vocês, caro leitor, cara leitora. Mas ele acredita num futuro melhor para a humanidade. Eu gostaria muito de lhe perguntar o que ele pensa dos cientistas que criam para a indústria bélica projetos de armas cada vez mais mortais. Ou daqueles que descobriram o mecanismo do gás sarin sobre as células humanas, fazendo dele uma arma terrivelmente mortífera.

Quando pensei na contradição entre os feitos heroicos e nobres dos humanos e seus gestos mais mesquinhos, folheei alguns jornais em busca de feitos dignos de admiração. Mas nossas páginas estão coalhadas de tragédias, de tal forma que não há espaço para mostrar exemplos dessa nossa face quase oculta. 

Tendo a acreditar que o mal nos seduz. Tanto que notícias de acidentes, tragédias, crimes, ainda que muito distantes de nossa realidade imediata, nos atraem mais do que a viagem da Voyager. E não é por ela própria estar distante, pois isto é o que ela tem de mais sublime.

Tento imaginar o que pensarão sobre nós os seres inteligentes que habitarem o distante planeta onde a Voyager pousará dentro de 40 mil anos. Talvez, em futuro tão inimaginável, a Terra nem exista mais, ou tenha sido abandonada, em ruínas, por seres que no futuro precisarão de outro planeta para destruir. Mas quem receber a Voyager terá informações, ainda que falsas e incompletas, sobre o que somos hoje. Ela carrega, por exemplo, em discos analógicos, uma gravação da Quinta Sinfonia de Bethoven, um dos pontos altos da criatividade humana. Terão exemplos de sons da Terra, como trovões, vulcões, vento, chuva, e ouvirão vozes de animais como hienas e elefantes. Também serão saudados em 55 idiomas diferentes.

Só não saberão que os homens, pelo menos os de hoje, são incapazes de viver em paz. Nossa vocação belicosa foi mantida em segredo.  


[Ilustração: sonda Voyager 1 - Nasa]

[crônica] AS ASAS DA PASSARINHA

Bárbara era uma adolescente em 1959. Seus pais, Ruth e Elliot, achavam estranho que a garota gostasse de brincar com bonecas. Donos de uma fábrica de brinquedos, tiveram a luminosa ideia de criar uma boneca adolescente, que combinasse melhor com a filha. Assim nasceu Barbie, obra do designer Jack Ryan e principal produto da Mattel, a fábrica localizada em Nova York.

A bonequinha alastrou-se pelo mundo e pelos armários de crianças e pré-adolescentes, e virou sonho de consumo de meninas que sonham com o universo adulto. Com seios volumosos, cabelos lisos escorridos e corpo longilíneo, bem ao estilo norte-americano, ganhou, ao longo dos anos, um enorme guarda-roupa e até um namorado, sujeitinho bombado e mal-encarado, que as menininhas guardam nas gavetas ao lado da Barbie.

Nascida em 1959, Barbie tornou-se, mais que um brinquedo, um símbolo da mulher produzida e submissa aos modelos de beleza estabelecidos pela mídia. Já tem lá seu meio século de idade, e parece cada vez mais viva na mente de outras adolescentes – incluindo aí moças que já passaram dos vinte ou trinta. A mente feminina é um mistério.

A Barbie é uma espécie de modelo de mulher que vai na contramão da natureza, enchendo-se de plásticos e se esquecendo de que o ser humano é, na verdade, feito de carne, ossos, suores, pelos e cheiros, com todas as suas semelhanças, diferenças, virtudes e defeitos, sinais, anormalidades, biótipos.

É muita pretensão: a indústria da beleza, que enche seus cofres ao vender produtos para a mulher, agora se propõe a fabricar a própria mulher. Na linha de montagem, as barbies estão vivas. Enquanto os corpos vão passando pela esteira, cirurgiões plásticos, depiladores, dermatologistas, cabeleireiros, como operários numa fábrica de automóveis, vão transformando a imperfeita e sedutora mulher de carne e osso numa insossa boneca de plástico.

Cosméticos eliminam os cheiros e ceras eliminam os pelos. Os cabelos, lisos, ondulados ou crespos, adquirem o mesmo aspecto padronizado e artificial. Os corpos são esculpidos pelos cirurgiões, que não são artistas, como o anônimo escultor que fez a Vênus de Milo, uma sedutora mulher de pedra que perdeu os braços. São apenas comerciantes de silicone.

Até meninas adolescentes já entraram nessa onda. O número de adolescentes entre 14 e 18 anos que se submetem a cirurgias plásticas mais do que dobrou nos últimos quatro anos, segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica. Foram 91.100 cirurgias em 2011. O Brasil é o segundo país do mundo nesse tipo de intervenção, atrás apenas da pátria da Barbie. A lipoaspiração e o implante de silicone nas mamas são as mais comuns, tanto para adultas quanto para adolescentes.

O dado mais impressionante, no entanto, é que, de acordo com dados da mesma entidade, mais de 9 mil brasileiras se submeteram em 2011, de acordo com os números mais recentes, a cirurgias plásticas de correção da vagina – a chamada labioplastia. O Brasil é campeão no procedimento, com 16% do total praticado no mundo. Estão cortando as asas da passarinha!

E pensar que em meados do século passado as mulheres lutaram tanto para deixar de ser um objeto sexual... Se naquele tempo ser objeto tinha um sentido figurado, agora, em pleno século 21, o sentido se torna cada vez mais literal! 


[Ilustração: batkatcreations.com]

[cinema] UM FRACASSO MONUMENTAL


Plano B: Brasília sem máscaras
O documentário Plano B, de Getsemane Silva, conta a história de um gigantesco fracasso. Ele parte do quase inacreditável caso de censura do filme Contradições de uma cidade nova, vetado pelo próprio patrocinador, e que teve uma única exibição pública. De 1967, quando o filme deveria ter sido lançado, até 2013, quando o documentário de Getsemane será visto pela primeira vez, foram 46 anos de consolidação do fracasso que a empresa italiana Olivetti, a patrocinadora, tentou esconder. 

Plano B é um dos três filmes brasilienses classificados para a 46ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de 2013. O documentário resgata a história do filme perdido de Joaquim Pedro de Andrade, um dos ícones do Cinema Novo, que, logo após sua exibição no mesmo festival, em 1967, foi apreendido pela censura da ditadura militar. 

Produzido sob encomenda da Olivetti, Contradições de uma cidade nova não chegou a ser finalizado, porque os diretores da empresa retiraram o patrocínio quando viram a cópia de trabalho. Mesmo assim, o filme foi inscrito no Festival de Cinema de Brasília naquele ano, mas, apreendido pela censura, tornou-se uma raridade. “Finalmente vou ver esse filme”, exclamou a escritora Edla Van Steen, ao ser procurada por Getsemane Silva para falar sobre a obra. Na época, ela era assessora cultural da Olivetti. 

“Vi esse filme quatro anos atrás”, conta Getsemane Silva. “É um filme lindo, e achei interessante investigar a história do veto. Além disso, o filme é extremamente atual, foi como ver uma profecia do passado acontecendo no presente.” Havia três cópias do filme, restaurado recentemente. Para que fosse feita a restauração, a Olivetti italiana cedeu os direitos, desde que fossem retirados o nome da empresa e os dizeres: “A Olivetti, produzindo este filme, tem a intenção de salientar a coragem e a imaginação com que foi resolvido, de modo contemporâneo e inusitado, problema tão antigo quanto a história da civilização: projetar e construir uma cidade.” 

Plano B reforça e intensifica o desnudamento das elites brasileiras feito pelo filme de Joaquim Pedro de Andrade. Foi o preconceito e o desprezo pelas classes menos favorecidas que levaram ao fracasso uma das ideias mais geniais do século XX. “A atitude de exclusão, arraigada na classe média brasileira da época, seria a grande barreira para realizar um projeto modernista em sua totalidade”, reflete Getsemane. “O modernismo foi negado aos mais pobres. Foi um projeto de elite, vendido ao povo como mito de modernidade e igualdade”.

Chega a ser hilária a narração que se ouve aos 45 minutos de Plano B, retirada da propaganda oficial da época, com imagens atuais e da década de 1960: “A mística de Brasília contamina o país. A jovem cidade do Planalto Central é a estrela guia do futuro, a menina dos olhos do Brasil. Uma equipe dedica-se à arte de fazer cidades, dentro de perfeitas soluções dos problemas urbanos. Será a cidade dos parques e avenidas intensamente arborizadas, (...) como se no Planalto Central brasileiro a humanidade tivesse atingido a última expressão da civilização moderna.” 

O filme de Getsemane colhe depoimentos de várias pessoas que trabalharam no filme de Joaquim Pedro, como o roteirista Jean Claude Bernadet e o poeta Ferreira Gullar, que fez a narração. E de pessoas que trabalharam na implantação da capital, como a assistente social Maria Abadia, ex-governadora do DF, que atuou na remoção de favelas à época da inauguração. Ela se lembra até hoje “das ruas empoeiradas, com caminhões pipa distribuindo água entre os barraquinhos”. 

Os “barraquinhos”, que cercavam os edifícios monumentais de Brasília, foram transferidos para um cerrado absolutamente vazio, a quilômetros de distância. “Brasília foi defendida como mito, mas a cidade real é bem diferente”, observa Getsemane. “Apenas 8% da população do DF vive hoje no Plano Piloto. Uma micro minoria vive o mito do modernismo.” 

Este texto foi publicado na revista Roteiro Brasília, edição 220, de setembro de 2013

EXÍLIA NO LEITURAS


O jornalista Maurício Melo Júnior comenta, no programa Leituras, da TV Senado, os livros O jugo das palavras, de Raul da Távola, e Exília, deste que lhes escreve.

[estante afetiva] À BEIRA DE QUASE NADA

Os personagens de Sérgio Fantini parecem viver numa comunidade onde todos têm muito em comum. Estão sempre na pindaíba, mas encaram a dureza da vida com bom-humor; andam à toa pela cidade; tomam cerveja em botecos pé-sujo; comem um pastel; esperam ônibus de madrugada, gostam de filosofar enquanto esperam passar a chuva. E, no entanto, quando essas figurinhas comuns circulam pelas páginas dos livros de Fantini, há sempre alguma coisa fora do comum para acontecer. E, mesmo que não aconteça, a gente prossegue na leitura até o fim.

Qual é o segredo? Em Novella, seu livro lançado recentemente pela Jovens Escribas, de Natal, a lição está posta. Por que Novella? – ele responde num prefácio que mais se parece uma peça de ficção. Você pode até pensar que ele está mesmo enrolado com processos judiciais, mas desconfie. Sérgio Fantini já enganou até a comissão editorial de uma grande editora, ao enviar-lhes um conto em forma de carta – eles acharam que era mesmo uma carta e publicaram seu conto com nome trocado. É uma história divertida, se quiser saber os detalhes, peça a ele que lhe conte. 

Novella começa com duas histórias sobre personagens muito comuns, tipo aqueles que parecem nada fazer que valha uma história, mas depois Fantini começa a plantar umas armadilhas no caminho do leitor. Em Sua, ele mostra que em pouco mais de duas páginas é capaz de transformar uma figura absolutamente fútil numa boa personagem, ou em personagem de uma boa história. Em Daqui pra frente, ele invoca Wander Piroli para construir um mini-conto instigante. Mão certíssima.

Há outras histórias assim; não vou falar de todas. Mas é preciso falar de Praia da Estação, um manifesto pela liberdade, pela alegria e pela vida que ele transforma em texto poético, e de Dorinha, uma historinha feliz vivida por personagens simples, não simplórios, que parece advertir o leitor que tudo aquilo que ele almeja para sua aposentadoria é uma grande bobagem. No final, vem a história mais longa, Muito silêncio (por nada), mas essa eu vou deixar engatilhada para o leitor encerrar o livro. Vamos dizer, Maria, que a vida é feita de equívocos, mas sempre nos resta a fantasia.