O PRESENTE DE NILTO MACIEL

No dia 27 de julho, ao voltar para casa depois de uma ausência de duas semanas, encontrei na caixa de correspondências um envelope pardo que imediatamente identifiquei como um livro. Recebo muitos livros; alguns de amigos, outros de desconhecidos em retribuição aos que eu próprio envio. Livros viajam sem parar. Antes de abrir o envelope, verifiquei o remetente: o cearense Nilto Maciel, inquieto autor de mais de uma dezena de livros, entre romances, contos, crônicas, ensaios, poesia. 

Nada de estranho, a não ser pelo fato de que Nilto Maciel faleceu no dia 29 de abril, três meses antes. Verifiquei a data de postagem do envelope: 14 de abril de 2014. 

O presente que eu acabava de receber de Nilto, que morou durante muitos anos em Brasília e que ultimamente escrevia e espalhava seus livros diretamente de Fortaleza, era o volume Sôbolas manhãs, coletânea de ensaios sobre literatura, escritores, memórias e outras reflexões sempre interessantes com que presenteava os amigos a curtos intervalos. Por enquanto, não farei maiores comentários sobre o conteúdo, pois não terminei a leitura. 

Dentro do livro, encontrei um bilhete digitado, rubricado com dois rabiscos e datado de 10 de abril, 20 dias antes de seu corpo ser encontrado na sala de sua casa, no bairro Monte Castelo, em Fortaleza. “A Alexandre Marino, presenteio este exemplar de Sôbolas manhãs”, li no bilhete. “Tenho dúvida de ter ou não mencionado seu nome em algum dos artigos.” E prosseguia: “Tenho certeza de ter escrito um livro de boas ideias ou, pelo menos, com o melhor dos intuitos: o de divulgar os escritores brasileiros avessos ao ‘jornalismo de resultado’, à crítica tendenciosa e aos vendedores de pedras falsas.” 

Certamente permanecerá um mistério o caminho percorrido pelo livro, desde que o próprio Nilto Maciel o levou aos correios até que o apanhei na caixa de correspondências. É possível que o volume tenha ficado esquecido em algum centro de distribuição, caído atrás de uma mesa, até que, quem sabe, o espírito de Nilto cutucasse um carteiro e exigisse a entrega. Onde Nilto estiver, agradeço o cuidado. E agradeço também que ele me tenha incluído na seleta lista de “escritores avessos aos vendedores de pedras falsas”, um privilégio e tanto. 

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