A POESIA SEM FRONTEIRAS DE ANA RAMIRO

Na poesia, a palavra é um horizonte aberto de possibilidades imagéticas. A riqueza da poesia, em contraponto à contenção de palavras, é essa explosão de sentidos que brotam das sílabas, silêncios, ritmos e espaços em branco. Para medi-la, se é que é mensurável, é preciso, mais do que os olhos, abrir o coração.

A poesia de Ana Maria Ramiro é exemplar dessa linguagem sem limites, que oferece a possibilidade da transcendência na leitura. Em Fronteiras da Pele, ela traz para a condição de arte o corpo e seus elementos. E se a perspectiva do prazer, sua razão de ser, provoca a inquietação do corpo, a poesia é fruto da inquietação da alma. Não é por outra razão que o primeiro verso do poema Belzing Bug já revela a mão tateando a possibilidade do rosto, vertida em tarântula, que nesse gesto executa o preciso movimento que tem como fim a saciedade – logo, o prazer.

Sem a pretensão de desvendá-la, o melhor a fazer é mergulhar na poesia de Ana Maria Ramiro e entregar-se ao ritmo de seus versos, deixar que a minuciosa elaboração conduza a leitura. Entre as boas surpresas proporcionadas por esse exercício está o encontro de algumas palavras que se destacam das demais – como se tivessem som mais agudo ou cor mais vibrante – e que se apresentam como guias de viagem. Tais palavras, que o leitor deve assumir o risco de identificar (ou não), darão o tom das diversas sensações proporcionadas por essa entrega. E aqui é bom lembrar que, em poesia, o importante é abrir-se à sensação, mais que buscar o entendimento racional.

Ana Maria trabalha com palavras e imagens delicadamente escolhidas, com esmero e precisão, para elaborar a ideia que o poema contém. Algumas parecem ter sido inventadas especificamente para amalgamar os seus poemas. “Quadro a quadro / o tempo retrocede // descaminham / os pés / sob um solo móvel” (Abissínia).

A autora lança mão do poder das metáforas para intensificar a interação entre palavra e corpo, como no belo Linhas de fuga (“um mergulho // sistemático no fundo do aquário / em busca da escama, no hiato / da pedra, o salto / atávico”) ou em Origami urbano (“A cada vinco, mudanças / na química do asfalto // embotar o gris, romper / a lápide que se estende / sob o casco humano // céu de agapanto”).

Nesse exercício de enfrentar as fronteiras da pele, Ana Ramiro brinca de esfinge e assim se apresenta ao leitor perplexo. Mas ler poesia não é desvendar enigmas; é romper, ao lado do poeta, os limites que a ambos se apresentam, para assim se respirar a liberdade oferecida pelo voo das palavras (“bailarina no globo / da morte, o pensamento fixo / num ponto sem foco”), pelo mergulho na metáfora (“acima da sombra, um pássaro / renega casa, identidade / e se desfolha // nômade”), pelo gozo diante do encontro a realizar (“no deserto da pele (sinuosa) // uma jóia desliza / nua”).

A poesia de Ana Maria Ramiro abre possibilidades de leituras e releituras que absorvem o parceiro-leitor em redemoinho, oferecendo-lhe não respostas, mas perplexidades. Fronteiras da pele prossegue o caminho aberto em seu livro anterior, Desejos de Gaia, um tratado sobre os sagrados calores que alimentam o corpo e lhe proporcionam energia vital. Mas, se no volume de 2007 Ana Ramiro carregava em fina ironia, em Fronteiras da pele ela intensifica a “elaboração do gesto” (“reconhecer-se na fome / do tigre, // sentir seus músculos, / seu hálito, // ler o segredo / estampado // no rajado da pele”). Esse salto além faz de sua poesia uma bela aventura. 

Escrevi este texto em 2009, e Ana Ramiro o publicou no blog Fronteiras da Pele, que criou para divulgar o livro que acabara de lançar. Também o site literário Conexão Maringá, que infelizmente não existe mais, o publicou. Sempre gostei muito da poesia da Ana e a poesia nos fez amigos. Ana estava morando há alguns anos em Portugal, onde o marido Dario Sensi, diplomata, ocupa cargo na Embaixada do Brasil. Ana Ramiro faleceu em Brasília, no dia 19 de julho. Uma grande perda para a poesia e os amigos. Uma homenagem é muito pouco, mas é o possível. 

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