[crônica] ÍCONES INFANTIS

Eu devia ter no máximo três anos quando meu pai comprou seu primeiro carro, que ele chamava de Prefetinho e que só recentemente descobri que se tratava de um Ford Prefect, de fabricação norte-americana ou inglesa. Pelas pesquisas que fiz, devia ser um modelo produzido entre as décadas de 1930 e 1940, e portanto já um respeitável ancião quando meu pai o adquiriu em 1958 ou 1959. 

O Prefetinho ficava estacionado diante de minha casa, na rua Lourenço de Andrade, em Passos. Era uma rua tranquila, mas já asfaltada. Recém-chegado ao mundo, me encantei com a máquina que meu pai incorporara a seu escasso patrimônio. E foi assim que me transformei em grande problema para minha mãe, pois eu queria passar o dia inteiro em seu interior, e algumas vezes a obriguei, usando os invencíveis argumentos de primogênito de três anos, a levar-me o almoço dentro do carrinho.

Na família não existem fotos do Prefetinho, a não ser uma em que ele pode ser visto pela lateral, apenas a metade da frente, imagem suficiente para identificar o modelo, graças a um relevo característico na lataria. Minha mãe está no banco dianteiro, de perfil, e eu estou no colo dela, olhando para o fotógrafo. Essa foto foi tirada com uma antiga câmera Kapsa, diante da Igreja de Santo Antônio, mais tarde demolida como tantos outros ícones da minha infância. 

Imagino que a foto tenha sido feita pelo meu pai, embora a fotógrafa oficial da família fosse minha mãe. Em ocasiões especiais, geralmente viagens, ela comprava um filme, que o próprio funcionário do cinefoto colocava na Kapsa. Quando voltávamos da viagem, minha mãe fazia algumas fotos em casa, nas ruas próximas ou na Praça da Matriz, e depois mandava revelar no Foto Yokoyama, anos depois substituído pelo Simosono. 

Minha mãe teve duas câmeras Kapsa. A primeira, usada para fotografar o Prefetinho, era preta. O que chamava atenção nessa câmera era que o fotógrafo tinha que segurá-la na altura da barriga, posição adequada para que a imagem fosse vista no visor. Não sei quem ensinou minha mãe a fotografar, mas ela reuniu um respeitável acervo de fotos de minha infância e de meus irmãos. Eu já era adolescente quando pela primeira vez minha mãe permitiu que eu fotografasse com a Kapsa. 

Embora o Prefetinho me fascinasse, meu pai vivia furioso com o carro, que segundo ele “não saía da oficina”. Para complicar, acredito que meu pai o comprara com o objetivo maior de viajar, porque Passos era muito pequena e ele gostava de andar a pé. A cidade ficava a meio caminho entre Belo Horizonte e São Paulo, unida às duas capitais por estradas de terra quase intransitáveis. Viajar era, de fato, uma grande aventura. Lembro-me dos quilométricos lamaçais em tempos de chuva, quando era comum passarmos por uma fila de carros fora de combate, até que nós também atolássemos e mais tarde fôssemos resgatados por um jipe ou um trator. 

O segundo carro de meu pai foi um Chevrolet fabricado também na década de 1940, porém maior e mais confortável. Certa vez, saímos de Passos no início da noite com destino a Belo Horizonte. O carro levava, além de mim, meus pais e meus avós maternos, além de Tia Raquelina. Numa curva, próxima a uma ponte, o carro saiu da estrada e despencou dentro do rio. Ninguém se machucou gravemente, mas poderia ter sido uma tragédia se o carro tivesse avançado mais dois metros. Fomos resgatados por um caminhoneiro que se tornou amigo da família. 

Lembro-me de ter sido retirado do carro, com as roupas molhadas e tremendo de frio, e levado para o interior do caminhão. E lembro-me também de minha mãe lamentando a perda da “máquina de retratos”. Anos depois ela comprou outra, da mesma marca, mas agora de cor cinza. E continuou fazendo fotos que, embora sejam belas recordações, jamais substituirão a memória. 
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