O ÚLTIMO SHOW DE ZÉ RODRIX

A TV Brasil, conhecida por aí como "a TV do Lula", apresentou ontem, quarta-feira, 27, no programa Cena Musical, o que teria sido o último show gravado pelo músico Zé Rodrix, que morreu no dia 22. Ao lado de seus parceiros Sá e Guarabyra, Rodrix interpretou os eternos sucessos do trio, agora que está para ser lançado um novo CD de canções inéditas do grupo. O show gravado pela emissora incluía trechos de entrevistas dos músicos. Foi emocionante. O ponto fraco do programa é a péssima qualidade sonora da TV Brasil. Parece que o dinheiro público investido no equipamento da emissora foi insuficiente... Ou será que uma parte dos recursos tomou outros destinos?

ZÉ RODRIX ERA UM GRANDE CARA

O dia começou com má notícia: a morte do músico Zé Rodrix. Sá, Rodrix e Guarabyra fizeram a trilha sonora da minha vida, a começar pela Primeira canção da estrada, que parecia falar de mim - "Eu tinha apenas 17 anos / no dia que saí de casa / e não fazem mais de quatro semanas / que estou na estrada". Quando completei um mês de Belo Horizonte, aos 17 anos, ouvi essa música o dia inteiro. Ela nunca mais parou de tocar.

Nessa época, Elis Regina gravou Casa no Campo, de Zé Rodrix e Tavito. Irônico, criativo, lírico, sarcástico, Zé Rodrix sabia captar em sua poesia o lado inusitado das coisas banais, ou revelar o ridículo das coisas sérias. Mas também abordava com lirismo alguns temas universais.

Depois Zé Rodrix se afastou do trio e eu continuei seguidor de Sá e Guarabyra. Até que em 2001 Zé Rodrix voltou a se unir ao grupo. Eles gravaram um CD, Outra vez na estrada, cheia de canções memoráveis e novas canções surpreendentes - entre elas, uma de suas obras-primas, Jesus numa moto.

Em janeiro, fizeram em Brasília um show de pré-lançamento do CD novo, Amanhã, que misteriosamente ainda não chegou às lojas. Cantaram todas as músicas do novo disco e estavam num astral ótimo, entrando numa nova fase da carreira, num daqueles recomeços que dão toda energia ao impulso criativo.

O Brasil perdeu um grande cara, criativo, e nossa música ficou mais pobre. Espero que Sá e Guarabyra, que voltarão a ser dupla por força da fatalidade, não se abalem e sigam em frente.

BRASÍLIA, O LIXO E OS TURISTAS


Cento e sessenta toneladas de lixo, segundo o Serviço de Limpeza Urbana (SLU); 21 esfaqueados, sendo um morto, segundo a Polícia Militar; presença de mais de um milhão de pessoas, segundo o Governo do Distrito Federal, que despendeu R$ 10 milhões para transformar a Esplanada dos Ministérios, área nobre de Brasília, numa gigantesca muvuca. Não dá para entender o sentido de uma bagunça desse porte. O governo local está empenhado em atrair turistas para Brasília, uma cidade tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade graças à beleza e leveza de sua arquitetura. Será que turistas do Brasil e do mundo vêm a Brasília em função dessa festa?

LÁ SE FOI UM AMIGO

Conheci o jornalista Kido Guerra na redação do Jornal de Brasília, em 1982. Depois voltamos a trabalhar juntos, entre 1985-87, no Jornal do Brasil, onde fiz bons amigos e tive a mais rica experiência profissional de minha vida. Kido tinha a idade de Brasília e total identidade com a cidade, e sobre ela compôs canções, escreveu crônicas e reportagens deliciosas. Nascido no Rio, vivia em Brasília desde um ano de idade.

Na foto que ilustra esta postagem, Kido, à esquerda, me apresenta algumas cervejas belgas, entre elas a irresistível Westmalle, feita por monges trapistas. Estávamos em Louvain-la-Neuve, Bélgica, onde ele viveu de 1993 a 1996 e me recebeu durante dois dias no pequeno apartamento em que morava com a esposa, Tânia. Nessa ocasião, Kido me apresentou algumas canções que havia composto sobre poemas que lhe cedi quando ele deixou o Brasil.

Na volta, no fim de 1996, Kido mergulhou em atividades profissionais e me informou que música, a partir de então, seria só para relaxar. Lamentei a decisão, pois Kido tinha talento, que demonstrou nos anos heróicos de Brasília - quando a cidade era um deserto decorado por um prédio aqui, outro ali - e depois, já repórter do Jornal do Brasil, quando uma vez por semana se apresentava num bar da Asa Norte ao lado de Ney Flávio Meirelles.

De Louvain-la-Neuve eu trouxe um presente precioso, que guardei com carinho - uma gravação em fita cassete, voz e violão, de nossas incipientes parcerias. Kido era uma pessoa generosa e eu o considerava um amigo. Soube com dois dias de atraso que ele não estava mais entre nós. Este texto é uma tentativa de prestar-lhe uma homenagem, aquela inútil homenagem que nos sentimos tentados a fazer, como se pudéssemos operar algum milagre.

OS 49 ANOS DE BRASÍLIA [4]

Brasília terá uma programação alternativa para a festa dos 49 anos, que reunirá artistas da cidade - de todos os estilos. Essa festa, bem mais recomendável que a oficial da Esplanada, acontece no sábado, 18, e domingo, 19, na Torre de TV. Em ambos os dias, começa às 10h e segue até 22h30.

Destaques:
Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional (sábado, 18h), Liga Tripa (foto - sábado, 19h), Mapati (domingo, 10h), Bumba meu boi do Seu Teodoro (domingo, 13h), Brazilian Blues Band (domingo, 19h40), Móveis Coloniais de Acaju (domingo, 21h) e Plebe Rude (domingo, 22h).


Apesar dos bons nomes
reunidos, faltou ao GDF inspiração para uma programação realmente criativa, com ocupação de diferentes espaços e eventos artísticos mais diversificados.

OS 49 ANOS DE BRASÍLIA [3]

Você, que vive em Belo Horizonte, São Paulo, Ribeirão Preto, Uberlândia, etc, etc, sairia de sua cidade no feriado para vir a Brasília ver um show da Xuxa ao ar livre?

Os grandes pensadores
do governo do DF acreditam que sim. Acham que pagar R$ 500 mil para a decadente "artista" fingir que canta seu playbacks no alto de um palco na Esplanada vai encher Brasília de turistas.


A multidão que deverá comparecer aos gramados (e enchê-los de lixo, mijo e merda) não é formada por turistas. É formada por moradores das várias cidades que compõem o Distrito Federal e seu entorno. São pessoas que buscam lazer barato. São pessoas que não têm opção de lazer, entretenimento e cultura, a não ser a tediosa televisão.

O governo do DF
não tem política cultural. Não investe em bibliotecas, centros culturais. Não incentiva o aparecimento de artistas entre a juventude da periferia. Não mantém uma política de formação de música, de artes plásticas, teatro. Não investe em política de incentivo à leitura. Não compreende que a arte é o melhor remédio para combater a ociosidade, a droga e o crime.


É por isso que a Esplanada
ficará lotada para ver Xuxa e os bregas que comemorarão os 49 anos de Brasília.


Apoiar a cultura não é
necessariamente lotar o palco com artistas que moram na cidade, embora muitos deles mereçam uma chance de se apresentar a seu público.


Apoiar a cultura é
estimular as atividades culturais entre a população, para que todas as pessoas entendam que a vida é muito mais que lutar o dia inteiro pela sobrevivência e à noite amortecer diante das novelas da Globo (ou mediocridades que tais).

OS 49 ANOS DE BRASÍLIA [2]

Ao desperdiçar dinheiro contratando artistas medíocres, bregas, representantes do mais asqueroso lixo cultural brasileiro, para as comemorações do 49o. aniversário de Brasília, o governo do Distrito Federal nega à população da cidade a oportunidade de uma festa de alto nível.

Os festejos deste ano
terão, além de Xuxa e Cláudia Leite, duplas breganejas e algumas outras bobagens, como demonstração de motocross (será que vão sacrificar os gramados?) e cavalhada. Toda a programação é pensada pela Brasiliatur, empresa vinculada à Secretaria de Desenvolvimento e Turismo. A Brasiliatur está sendo investigada pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas.


A Secretaria de Cultura não participa porque a Secretaria de Cultura não existe. Há algum tempo, o virtual secretário, Silvestre Gorgulho, declarou que a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional é uma das melhores orquestras do mundo. Então por que não dão a oportunidade ao povo de Brasília de ouvir sua orquestra, ao ar livre?

No ano passado
, Brasília foi eleita a Capital Latino-Americana da Cultura. Eleita é modo de dizer. O governo local comprou o título, para divulgar o nome da cidade e atrair turistas. O governo não sabe que turistas, especialmente internacionais, não são burros.


O que aconteceu nesse ano
em que Brasília foi a Capital Latino-Americana da Cultura? O único evento digno de nota foi a Bienal Internacional de Poesia, que aconteceu graças aos esforços do diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, Antonio Miranda, ao apoio de algumas embaixadas e à parceria com órgãos federais. A Bienal de Poesia aconteceu apesar do governo do DF, e não graças ao governo do DF.


O que seria necessário
para atrair turistas, o governo local continua não fazendo. Manutenção permanente de nossos monumentos. Transporte público decente, pontual, seguro e com informação de percursos. Sinalização abundante. Abertura de monumentos e palácios para visitação. Melhora dos acervos de museus e galerias, hoje abandonados. Preparo e educação de funcionários. E colaboração da iniciativa privada. Afinal, o atendimento em estabelecimentos comerciais, de todas as espécies, de butiques a restaurantes, é disparado o pior do Brasil.

OS 49 ANOS DE BRASÍLIA [1]

O governo do Distrito Federal vai pagar R$ 500 mil para a Xuxa (que não se pode classificar como cantora, atriz ou artista) subir num palco, no dia 21 de abril, e cantar com playback. Como se sabe, Xuxa só canta com playback, ou seja, ela finge que está cantando, enquanto a platéia de idiotas ouve a gravação da voz dela, com as desafinações corrigidas tecnologicamente.

Este é o "grande evento"
programado para as comemorações de aniversário de Brasília. A platéia também ouvirá Cláudia Leite, brega da axé music. A moça receberá R$ 450 mil, e assim já se vão R$ 950 mil da festa dos 49 anos.


Gente idiota é o que mais
existe no mundo e, em particular, no Brasil e, mais especificamente ainda, em Brasília - assim parece pensar o Governo do Distrito Federal. Nesse aspecto, não deixará de ter razão, se conseguir o que pretende - reunir 1 milhão e meio de pessoas para ver as grandes atrações da festa.


Os mentores dessa aberração
comemorativa são o governador José Roberto Arruda e o vice Paulo Octávio.


O presidente da Brasiliatur
, empresa do governo vinculada à Secretaria de Turismo, Rôney Nemer, deixou o cargo na semana passada, às vésperas do aniversário da cidade. Há rumores de que ele se recusou a pagar metade do cachê de R$ 800 mil para o obscuro "cantor" baiano Edu Casanova para divulgar Brasília em Salvador (essa é outra aberração de que falarei depois).

No dia 8 de abril, quarta-feira, Nemer participou da divulgação da programação dos eventos comemorativos dos 49 anos. Demissionário ou não, ele é tão cara-de-pau quanto Paulo Octávio, que acumula o cargo de secretário de Desenvolvimento e Turismo. Tanto que exibiram sorrisos amarelos para contar a glória de gastar quase R$ 1 milhão com Xuxa e Cláudia Leite.

E a Secretaria de Cultura
, como fica nessa história?


É uma ilusão de ótica
. Seu titular, Silvestre Gorgulho, não é da área, nada entende de cultura, e não passa de um fantoche da área de turismo do GDF. A política cultural do governo Arruda simplesmente não existe, mas o Silvestre circula com orgulho em quase todos os eventos que o pessoal do turismo inventa para fins culturais. Como bom carneirinho, ele balança a cabeça.

Veja aqui.

ADEUS, CALIANDRAS!!

Em desabafo poético, o ator e escritor Adeilton Lima apresenta dois lados de Brasília: o romântico, que se esconde no passado, e o real, que parece apontar para o futuro... Com a publicação deste texto, este blog faz uma homenagem ao amigo Adeilton Lima e dá uma cutucada comemorativa nos 49 anos de Brasília, na esperança (?) de que os 50 anos nos reservem uma comemoração mais digna.
Velhos tempos os de Eduardo e Mônica, personagens da canção de Renato Russo. Eles iam ao Parque da Cidade passear, à Cultura Inglesa ver um filme, à Escola Parque assistir a uma peça de teatro, e também ao Teatro Galpão, não perdiam o Concerto Cabeças, etc. Tempos em que podiam jogar uma conversa fora embaixo do bloco onde moravam; ou mesmo, sem qualquer preocupação, pegar um ‘busão’ e se mandar para Taguatinga para acompanhar a programação do Teatro Rola Pedra.

O romantismo acabou. A cidade cresceu, ou melhor (pior), inchou. Foram tantas as doses de botox político nos currais eleitorais do Centro-Oeste, que hoje quase não se reconhece mais o velho Distrito Federal doutros tempos, agora obeso, maltrapilho e jogado na sarjeta. De tempos em tempos, alguém se lembra de lhe dar um prato de sopa, sob o viaduto fedorento, frio e desnudo da miséria, das drogas e da violência.

Vive-se hoje em Brasília, e no Distrito Federal como um todo, na base da paranóia coletiva, com o medo constante da própria sombra, e cada vez mais as pessoas se vendo trancafiadas atrás de grades, alarmes e câmeras de segurança, etc. Isso, para os que têm dinheiro, porque quanto ao pobre, ele continua sofrendo discriminações e estupros no bolso, na carne e na alma. Se de um lado, o trabalhador é assaltado pelo político, por outro, levam-lhe as parcas economias numa esquina qualquer da cidade que não tinha esquinas...

Investir em cultura e educação ninguém quer, não dá voto, não dá lucro. Preferem inaugurar postos policiais de fachada para “combater a violência”. Tudo tão medíocre e hipócrita quanto o choro de Joaquim Roriz ou de José Roberto Arruda na tribuna do Senado.

Brasília está tão descaracterizada que Eduardo e Mônica soam distantes e amarelados na memória, como o gramado nos tempos da seca. A cidade está secando moral, cultural e politicamente. O bom gosto, a irreverência e o rock se foram.

Imperam agora a violência, os playboys e o axé music.

Adeus, caliandras!


Adeilton Lima mantém o blog Transe Teatro.

FORA DO AR

Este blog ficou inacessível desde o sábado, 28 de março, até ontem, 31, terça-feira, devido a problemas técnicos nos servidores. A interrupção reduziu a quase zero a visitação, que vinha crescendo diariamente há alguns meses. Peço desculpas aos internautas e convido para novas visitas, agora que o problema está sanado.

LEMBRANDO CECÉU

O poeta Castro Alves será o homenageado da segunda edição do projeto Palavra Solta, que será realizado nesta sexta-feira, 13 de março, no Café Martinica , em Brasília. Uma vez por mês, um grupo de poetas se reúne no Café para homenagear um autor clássico brasileiro e apresentar versos de sua própria autoria.

Angélica Torres, Ariosto Teixeira, Ana Ramiro, Carla Andrade, Fernando Marques e Ivan Sérgio, sob a coordenação deste escriba que lhes escreve, ocuparão o palco do Palavra Solta para uma apresentação de cerca de uma hora. O projeto Palavra Solta dá continuidade aos saraus do Poemação, evento realizado dentro da programação da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, em setembro do ano passado, que levou muita gente a bares e cafés da cidade.

O Palavra Solta começa às 21h. O Café Martinica fica na Comercial da 303 Norte, bloco A. Apareçam por lá. A poesia falada é um ótimo programa de sexta-feira.

PROGRAMA LEITURAS

A poesia foi o tema do programa Leituras, da TV Senado, no último domingo. Durante 20 minutos, conversei com o jornalista Maurício Melo Júnior sobre meus livros, meu método de trabalho e minhas concepções sobre poesia. A bolsa Funarte de Criação Literária foi outro tema que discutimos.

Quem se interessar, ainda tem duas chances, no próximo sábado, 14, para ver o programa - às 9h30 e às 20h. E é bom lembrar que a 14 de março se comemora o Dia Nacional da Poesia. Agradeço a atenção de quem assistiu a entrevista e aos que a comentaram. Vai também um agradecimento especial a Maurício Melo Júnior e à equipe de produção do programa pelo espaço que me deram.

POESIA NA TV SENADO

O programa Leituras, da TV Senado, apresenta neste domingo, 8 de março, uma entrevista que concedi ao jornalista Maurício Melo Júnior sobre meu trabalho literário. Há uma apresentação às 8h e uma às 20h30. O Leituras é dividido em duas partes: uma de resenhas de livros e uma entrevista de cerca de 20 minutos.

CIRCO NO GIRAPEMBA

Ficou belo o meu poema Circo, ilustrado com óleo sobre tela de Marc Chagall, no blog Folhas de Girapemba, da poeta e tradutora Ana Ramiro. Circo faz parte do livro Arqueolhar, mas independente do poema, o blog vale a visita. Veja.

CASTRO ALVES NO CAFÉ


Castro Alves será o poeta homenageado no II Palavra Solta, encontro poético que acontece mensalmente no Café Martinica, na 303 Norte, em Brasília. O evento será realizado a 13 de março, véspera do Dia Nacional da Poesia.

Para esta edição, Angélica Torres, Ariosto Teixeira, Carla Andrade, Fernando Marques, Ivan Sérgio, Paulo José Cunha e este que lhes escreve farão leituras de poemas autorais e também de Castro Alves. A eles se juntará um poeta convidado, cujo nome ainda não está definido.

O I Palavra Solta, que aconteceu no dia 23 de janeiro, teve ótima recepção do público. O homenageado foi Manuel Bandeira. Em fevereiro, excepcionalmente o evento não será realizado, devido aos feriados de Carnaval.

FLIPIRI

Ignácio de Loyola Brandão é a principal atração da I Festa Literária de Pirenópolis (GO), ou Flipiri, que acontece nesta sexta e sábado, 13 e 14. Pirenópolis é uma linda cidade goiana adotada pelos moradores de Brasília. Fica a 150 km da capital federal e suas ruas bucólicas, com estilo colonial bem preservado, e belas cachoeiras atraem grande número de turistas.

A Flipiri é uma idéia da empresária Íris Borges, ex-presidente da Câmara do Livro do Distrito Federal. A festa deste ano é modesta, mais voltada para o público local que para os turistas. Mesmo assim, estão previstas 84 atividades ligadas à literatura, com a participação de 17 escritores, a maioria de Brasília (João Bosco Bonfim, Lucília Garcez, Rosângela Rocha, Alexandre Lobão, entre outros).

Com certeza, a Flipiri vai pegar. E teremos uma razão a mais para viajar a Pirenópolis.

OS SUBTERRÂNEOS DA PRAÇA


Apesar de Oscar Niemeyer ter desistido de impor a Brasília a sua Praça da Soberania (veja postagem anterior), "ao menos provisoriamente", a população da cidade precisa refletir sobre esse episódio e lembrar-se de algumas coisas.

DESTRUIÇÃO CIVIL
O governador José Roberto Arruda governa em nome das grandes construtoras, que vêem em Brasília uma mina de ouro e não estão preocupadas com a qualidade de vida da população. Seu governo planeja a construção de grande número de setores habitacionais, uma verdadeira invasão de áreas verdes e de mananciais. Os monumentos também satisfazem a fome das construtoras.

O SONHO DA ESTÁTUA
A idéia da praça nasceu de uma sugestão do presidente Lula, que deseja a construção, em Brasília, de um local “para abrigar a memória da República brasileira”. Esse local estava previsto no projeto de Niemeyer. “Um prédio baixo, em curvas e pilotis, dedicado à memória dos presidentes da República”, descreveu o arquiteto, segundo matéria do Correio Braziliense de 10 de janeiro. Lula, o messias, pretende virar estátua.

PROPRIEDADE PRIVADA
Oscar Niemeyer, que se diz comunista, é aliado de todos os poderosos que passam pelos palácios do Planalto ou do Buriti. Aos 101 anos, do alto de seu escritório que dá frente para o mar de Copacabana, ele se considera legítimo proprietário de Brasília, mais do que as pessoas que vivem e padecem dos problemas urbanos na capital federal.

REJEIÇÃO AO PROJETO
A desistência foi anunciada em manchete pelo Correio Braziliense, na edição de 4 de fevereiro.Uma enquete realizada pelo jornal, com 4.066 internautas, indicou a rejeição da proposta por 75,87% dos votantes.

Se a população de Brasília não estiver mobilizada, é possível que Lula, Arruda e Niemeyer estejam apenas aguardando a hora certa de nos enfiar essa aberração pela goela abaixo.


[A foto de Niemeyer foi tomada emprestada do sítio Debatedouro]

ARQUITETURA DO ESTORVO

Toda a população de Brasília reconhece a genialidade de Oscar Niemeyer e a importância de suas obras arquitetônicas. Mas isso não a obriga a engolir, sem um debate, sem qualquer discussão, projetos que agridem não apenas os conceitos sobre os quais se pensou Brasília, como o próprio bom senso. Niemeyer propõe a construção da Praça da Soberania, no gramado central da Esplanada, próximo à rodoviária. Propor é força de expressão; na verdade, Niemeyer, apoiado na fama e nos funcionários de seu escritório, impõe. E Brasília que aceite.

ESPANTO
“Toda capital deve ter uma praça aonde o povo chega e se espanta”, disse Niemeyer, ao justificar a “necessidade” de construção da praça. Na referência a esse projeto, o verbo “espantar” deveria ser lido no sentido de “rejeitar”, e não de “admirar”, como supõe-se que o arquiteto usou. A principal característica desse projeto é a aridez. Uma praça que não tem um gramado, uma única árvore, um único espaço acolhedor, vai espantar o povo para longe.

CONJUNTO CULTURAL
Veja-se o exemplo da mais recente obra de Niemeyer inaugurada em Brasília, o Conjunto Cultural da República. O amplo espaço que se estende desde a Catedral até a rodoviária é inóspito como um deserto. Ou se caminha debaixo de um sol abrasador, ou debaixo de chuva. Não há um abrigo, um local que convide o passante a uma parada para admirar a paisagem. É desagregador. O contrário do que deveria ser um espaço que reúne um museu e uma biblioteca.

INADEQUAÇÃO
Visto em fotografia, o Conjunto pode até atrair admiração, apesar das controvérsias. Mesmo assim, é questionável, por oprimir a imagem da Catedral, esta sim uma obra-prima. Além disso, é falho na funcionalidade: o Museu é uma enorme bola de concreto e no seu interior não entra um único raio da intensa luz natural disponível em Brasília, obrigando o dispêndio permanente de energia com iluminação artificial. Já a Biblioteca abre-se toda para o sol, tanto do lado leste quanto do oeste, inviabilizando a armazenagem de livros. Não foi à toa que a Secretaria de Cultura já gastou R$ 6,5 milhões para a sua readaptação, e muitos problemas permanecem. É um prédio totalmente inadequado para as funções às quais se destina.

TOMBAMENTO
Em artigo no Correio Braziliense, o arquiteto ditador de Brasília argumenta, em defesa de seu projeto, que em Paris, “se seu plano urbanístico original fosse mantido, não existiriam nem os Champs Elysées nem o Arco do Triunfo”. O que é isso? Niemeyer defende agora a agressão ao plano urbanístico de Brasília, feito por Lúcio Costa? Parece que sim. Mais à frente, ele diz que, no Rio de Janeiro, o prefeito Pereira Passos derrubou morros e prédios para abrir grande avenida, “uma solução que uma cidade tombada não permitiria”. A julgar por sua argumentação, Niemeyer agora combate o tombamento de Brasília como Patrimônio Cultural da Humanidade, um título que salva a cidade da ganância imobiliária.

NATUREZA
Os grandes arquitetos souberam e sabem integrar suas obras à natureza, como o próprio Niemeyer fez, por exemplo, no Palácio do Itamaraty e no Palácio da Alvorada. Mas, tanto no Conjunto Cultural quanto no projeto da Praça, ele parece ter a natureza como um estorvo, como inimiga. A natureza deve ser extirpada, para que, a distância, sua obra apareça livre e bela, como desenhada sobre o papel. Nem que para isso seja necessário espantar o povo...

ABERRAÇÃO
Niemeyer, aos 101 anos, goza de boa saúde e está muito ativo. Tem aparecido constantemente na imprensa, onde seus artigos defendem idéias cada vez mais estapafúrdias. Recentemente, na Folha de S. Paulo escreveu uma exaltação a Stalin, glorificando um dos grandes criminosos do século XX. Se apenas defendesse idéias que as pessoas já não levam a sério, faria menos mal. Mas impor essa aberração arquitetônica a Brasília, com a conivência do governador, chega a ser covardia.


[A ilustração deste texto foi tomada emprestada ao Correio Braziliense]

SURPRESA

O I Palavra Solta, realizado nesta sexta-feira, 23, além do bom público que lotou o Café Martinica, teve um espectador ilustre: o advogado Antônio Manuel Bandeira, sobrinho-neto de Manuel Bandeira, o poeta homenageado da noite. Antônio Manuel, funcionário da Advocacia Geral da União, vive em Brasília e se dedica a preservar a memória do tio-avô e a estudar a sua obra. A presença de Antônio Manuel foi uma bela surpresa para os poetas que se apresentaram no Palavra Solta. Aí está ele na foto, com Luís Turiba (direita) e este escriba (esquerda).