ADEUS, CALIANDRAS!!

Em desabafo poético, o ator e escritor Adeilton Lima apresenta dois lados de Brasília: o romântico, que se esconde no passado, e o real, que parece apontar para o futuro... Com a publicação deste texto, este blog faz uma homenagem ao amigo Adeilton Lima e dá uma cutucada comemorativa nos 49 anos de Brasília, na esperança (?) de que os 50 anos nos reservem uma comemoração mais digna.
Velhos tempos os de Eduardo e Mônica, personagens da canção de Renato Russo. Eles iam ao Parque da Cidade passear, à Cultura Inglesa ver um filme, à Escola Parque assistir a uma peça de teatro, e também ao Teatro Galpão, não perdiam o Concerto Cabeças, etc. Tempos em que podiam jogar uma conversa fora embaixo do bloco onde moravam; ou mesmo, sem qualquer preocupação, pegar um ‘busão’ e se mandar para Taguatinga para acompanhar a programação do Teatro Rola Pedra.

O romantismo acabou. A cidade cresceu, ou melhor (pior), inchou. Foram tantas as doses de botox político nos currais eleitorais do Centro-Oeste, que hoje quase não se reconhece mais o velho Distrito Federal doutros tempos, agora obeso, maltrapilho e jogado na sarjeta. De tempos em tempos, alguém se lembra de lhe dar um prato de sopa, sob o viaduto fedorento, frio e desnudo da miséria, das drogas e da violência.

Vive-se hoje em Brasília, e no Distrito Federal como um todo, na base da paranóia coletiva, com o medo constante da própria sombra, e cada vez mais as pessoas se vendo trancafiadas atrás de grades, alarmes e câmeras de segurança, etc. Isso, para os que têm dinheiro, porque quanto ao pobre, ele continua sofrendo discriminações e estupros no bolso, na carne e na alma. Se de um lado, o trabalhador é assaltado pelo político, por outro, levam-lhe as parcas economias numa esquina qualquer da cidade que não tinha esquinas...

Investir em cultura e educação ninguém quer, não dá voto, não dá lucro. Preferem inaugurar postos policiais de fachada para “combater a violência”. Tudo tão medíocre e hipócrita quanto o choro de Joaquim Roriz ou de José Roberto Arruda na tribuna do Senado.

Brasília está tão descaracterizada que Eduardo e Mônica soam distantes e amarelados na memória, como o gramado nos tempos da seca. A cidade está secando moral, cultural e politicamente. O bom gosto, a irreverência e o rock se foram.

Imperam agora a violência, os playboys e o axé music.

Adeus, caliandras!


Adeilton Lima mantém o blog Transe Teatro.
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