LÁ VEM BOMBA!!!


Você pode dizer o que quiser, mas Sérgio Fantini é o cara. Ele gosta de zanzar por aí com seu jeito sarcástico, mais que irônico, sempre amigo, mas quando solta um livro novo, lá vem bomba. A ponto de explodir. Você que se segure com essa escrita que é só dele, ainda que ele dê uma entrevista aqui e ali tentando explicar um pouco a coisa e tal.

Algumas dessas explicações
ele deu em entrevista à Revista de Autofagia, publicada em Belo Horizonte e disponível na internet, se você procurar. "Transformei o poeta em prosador". Desde 1976 ele vinha publicando seus poemas em xerox, zines, livrinhos, folhetos, e a coisa tomou grandes dimensões.

A ponto de explodir
, sua mais recente façanha, começa com um contozinho despretensioso, HC, uma historinha adolescente, que você vai guardar na memória até a velhice,como se aquilo tivesse acontecido com você. "Um dia vamos rir disso tudo", você diz para ele, ele e os personagens, a Liz e o Pistache, você já imaginou um personagem que se chama Pistache? E de repente você já está a ponto de explodir de rir daquilo tudo.

Tem também aquela gente sofrida e amarga
que circula pelas páginas a ponto de explodir. Tem aquela história policial com um título instigante, seu deus não é o meu, tem o John Lennon marcando para sempre a agenda de três jovens soltos na vida... Sim, todo o mundo se lembra o que fazia naquele 8 de dezembro!

E tem poesia, é claro.
Implícita e explícita. Por exemplo, Diário do inclame, mais que justa homenagem a Tião Nunes, e o texto título, uma porrada que nos atira contra o muro dos becos sem saída.

O livro foi lançado pelo selo Uainote
em 2008 e circula entre amigos, parentes, eventos, lugares onde o Sérgio circula. Sempre haverá o risco de dar de cara com ele. Em Belo Horizonte, onde vive, ou qualquer outra quebrada por aí. E então, está esperando o quê para ler o livro do Sérgio Fantini? A ponto de explodir estamos todos.

NOSSO CARNAVAL

Às vésperas do carnaval que o governador do Distrito Federal passará na cadeia, é preciso relembrar que Brasília sofre a maldição de ser a capital de um país doente. A cidade, projetada para a modernidade e o futuro, só não deu certo por causa dos políticos. A comemoração de seus 50 anos, a 21 de abril, deveria ocorrer em absoluto silêncio, não um minuto de silêncio, como se homenageiam os mortos antes das partidas de futebol, mas com 24 horas de silêncio.

Este carnaval também será de silêncio, o mesmo silêncio de perplexidade e impotência, ainda que os blocos saiam às ruas para cantar versos engraçadinhos tendo como tema a desgraça que não é brasiliense, é nacional. No cárcere, ou em casa, se conseguir, o ex-governador curtirá a solidão, a da justiça fingida e hipócrita. Afinal, por que os outros personagens de todos os outros mensalões não estão ao lado de Arruda, compondo o bloco dos mensaleiros?

O governo do DF pretendia promover um festejo inesquecível para comemorar o cinquentenário. Ao invés de trazer artistas de todas as regiões do país para uma grande confraternização - Brasília é a síntese brasileira, já se cansou de repetir - pretendia trazer Paul McCartney. Pretensão e megalomania.

Com as mesmas intenções megalômanas, injetou dinheiro no carnaval carioca. O tema da escola de samba Beija-Flor é Brasília. Muitos brasilienses estarão desfilando na escola. Não sei se, diante dos últimos fatos, a platéia vaiará. Se o fizer, os passistas tentarão demonstrar seu orgulho de viver em Brasília, apesar da bandidagem que tomou o poder.

Não é bem assim. Quem dá o poder aos bandidos é o povo. Brasília se confunde com todo o Distrito Federal, mas o Distrito Federal não se identifica com Brasília. O primeiro erro foi não ter havido um projeto para todo o quadrilátero, como houve o originalíssimo projeto de Lúcio Costa para Brasília. Seria, talvez, revolucionário. Como não foi assim, tornou-se mera utopia, que se esgota enquanto a população do entorno se volta contra uma cidade com a qual não se identifica.

Nessa guerra, políticos desprovidos de ética só enxergam as perspectivas do lucro sem limites. Repetindo mais uma vez, Brasília é a síntese do Brasil.

VITÓRIA SOBRE O NADA

O jornalista e poeta Ariosto Teixeira viveu longos anos no fio da navalha, mas era ali mesmo que ele colhia sua energia para viver. E era dali que tirava inspiração para seus notáveis poemas, carregados de um lirismo seco, que atingiam o leitor - ou ouvinte - diretamente na alma.

Portanto, não poderia ter sido diferente o que aconteceu na noite desta terça-feira, 26, no Café Martinica, quando colegas e amigos de Ariosto prestaram-lhe inesquecível homenagem. Mais de 200 pessoas lotaram as dependências do Café para ouvir, com reverência, admiração e respeito, durante quase duas horas, os poemas de Ariosto, a maioria retirados do livro Poemas do front civil (Editora 7 Letras, RJ, 2006).

Sob o mote "O poema é minha vitória sobre o nada", verso de Ariosto, um grupo de poetas com quem ele dividiu o palco do Martinica, no projeto Palavra Solta, fizeram leituras emocionadas de seus poemas. Participaram Luís Turiba, Nicolas Behr, Carla Andrade, Angélica Torres, Paulo José Cunha, além deste que lhes escreve. A viúva de Ariosto, Solange, e seu filho mais novo, João Manuel, fecharam o recital com a apresentação de poemas inéditos.

"Meu pai fazia muito esforço para vir aqui recitar poemas para vocês", revelou João Manuel, referindo-se a eventos de que Ariosto participou - o Palavra Solta e os recitais da Bienal Internacional de Poesia de Brasília, realizada em setembro de 2008. "Ele ensaiava em casa para dizer os poemas da melhor maneira possível."

HOMENAGEM A ARIOSTO TEIXEIRA


O niilista medroso

Ariosto Teixeira

Às vezes você se pergunta
Olhando o rosto no espelho
Se o reflexo é verdadeiro
Ou se a verdade é o corpo
Parado no meio do banheiro

Você acha que sabe bem o que é
Você acha que sabe bem o que quer
Você acha que sabe quem você é

Mas você sente medo
Medo de não ser você no espelho
Medo de ser mero reflexo
Do outro que consigo parece

Você não tem medo de sexo
Você gosta de sexo
Você sonha com sexo
Você procura fazer muito sexo

Sexo à distância
Sem beijo sem fluido
Higiênico e sem lirismo
Seguro como sexo com prostituta
Você de frente ela de costas
Ela por cima de costas
Você por baixo de costas deitado

É que você tem medo
Do ataque de um vírus complexo
Medo de gravidez
Medo de se apaixonar irremediavelmente
Medo de perder o controle
Medo de assumir o controle
Medo de que tudo enfim faça nexo

Você acende e apaga o cigarro
Com medo de pegar câncer de pulmão
Medo de apagar a luz
Medo de acender a luz
Medo de desligar o alarme
Medo de abrir o portão
Medo de ladrão policial pivete
Medo de colisão
De atropelamento
De ataque do coração

Medo de padre
Da certeza cristã absoluta
Da democracia liberal
Da esquerda latina
Medo da nova direita francesa
Medo do presidente americano
Medo da falta de medo do terrorista muçulmano
Medo de ser fragmentado por um raio da Al Qaeda

Medo da China capitalista
De milho transgênico
De buraco negro
De carne vermelha
Medo da falta de limite da física quântica
Do aquecimento global
Da inteligência artificial
De velocidade acima do permitido
De remédio de quinta geração
Da globalização
Do fim da globalização
Da falta de sentido

Medo de que Deus provavelmente não exista
De não haver outra vida
Você tem medo de ficar sozinho
Sem ninguém nem final feliz

Ah mas você confia no amor
O terno e doce amor
Do homem pela mulher
Do homem por outro homem
Da mulher por outra mulher
Do homem pelos animais
Da humanidade pela natureza
Você confia no amor das criancinhas

Você pensa nessas coisas
E por um instante
Acha que nada está perdido
Que o amor salvará o mundo
O amor romântico como no cinema
Como em um soneto de Shakespeare
Apesar da podridão no reino terrestre
Mas quanto tempo dura o amor
Antes de se dissolver em tédio
15 minutos uma tarde inteira uma noitada?

Você odeia sentir isso assim tão sentimentalmente
Mas é impossível ser de outro modo
É preciso agarrar-se a algo
Não ter medo de que o vazio
Tenha se espalhado em todos os quadrantes

O fato indiscutível é que você tem medo
Medo muito medo
De ficar vivo durante o inverno nuclear

Você principalmente tem medo
Do que um dia vai fazer
Quando ao anoitecer
O seu rosto tiver desaparecido do espelho do banheiro
_______

O poeta e jornalista Ariosto Teixeira será homenageado nesta terça-feira, 26, no Café Martinica (CLN 303, Asa Norte, Brasília), a partir de 21h. O Café Martinica foi palco do Palavra Solta, um programa de leitura de poesia que teve em Ariosto um dos mais fortes participantes. Prestam essa homenagem os amigos que com ele conviveram e tiveram o privilégio de ouvir suas palavras. Pois foram as palavras suas infalíveis aliadas, que o fortaleceram e lhe deram coragem. Seu livro Poemas do front civil é uma incontestável prova de que a poesia foi uma inseparável companheira nos momentos mais difíceis.

2010 COMEÇA COM UM TIRO

As tragédias que abriram o novo ano estão em todos os jornais, nas TVs, na internet e nas mesas de bar. Então voltemos nossa atenção para uma foto publicada nos portais de informação na primeira semana de janeiro. A foto é objetiva e nada esconde: um agente da Polícia Rodoviária Federal descarrega sua arma sobre um boi indefeso.

Observe a foto
que ilustra este texto, e atente para o olhar quase humano do animal. Ele sabe que está frente a frente com a morte.


E o policial?
Ele executa o boi como se cumprisse uma tarefa burocrática, como se puxasse com a enxada uma pedra para desobstruir uma pista do asfalto.


O infeliz animal
estava sendo transportado por um caminhão, que tombou na rodovia BR-040 no dia 6 de janeiro. Não era uma fera em postura de ataque. Era um animal inofensivo perdido no meio do asfalto.


O que se deve ler na foto
não é a presteza com que um servidor público eliminou o risco de acidentes, numa rodovia que já estava sofrendo com as chuvas.


O que chama a atenção
é a frieza do policial, é a arrogância de um sujeito armado, que maneja a arma como se fosse um instrumento para colocar as coisas em seus lugares, como se a arma tivesse o poder de devolver o mundo à normalidade.

[Foto de Cristiano Couto, jornal Hoje em Dia, Belo Horizonte]

LIVROS E PANETONES

Encerrada no último domingo, 29 de novembro, a Feira do Livro de Brasília teve um balanço melancólico. Durante a primeira semana, segundo a Câmara do Livro do DF, recebeu 25 mil visitantes. O número total nem foi divulgado - esperava-se 300 mil visitantes. "Esperava-se" é força de expressão. Obviamente, ninguém esperava isso, depois da desorganização e falta de planejamento, que ficaram evidentes.

A agenda de convidados
foi fechada no dia da inauguração - e todos os autores de fora tiveram sua vinda cancelada. Exceção apenas para Ziraldo, um dos homenageados. O outro foi Reynaldo Jardim, que mora em Brasília. O gaúcho Marcelo Carneiro da Cunha só soube que não viria mais porque sua editora pediu à organização da feira uma posição oficial sobre a viagem do escritor.

A culpa de tamanha desorganização é da diretoria da Câmara do Livro, que não fez qualquer planejamento e esperou por verba oficial, e do governo do DF, que não dá a mínima para qualquer evento na área da cultura e é incapaz de perceber a importância que teria uma feira de livros realmente bem feita e organizada.

Bem, depois das investigações da operação Pandora, da Polícia Federal, é possível compreender melhor a política no DF, e saber por que a política cultural simplesmente não existe.

Cultura, para o governo do DF
, é qualquer coisa que traga turistas a Brasília. Por isso querem comemorar os 50 anos da cidade, em 21 de abril do ano que vem, com Paul McCartney ou Madonna, e não com artistas de todo o Brasil reunidos aos de Brasília, numa grande festa de congraçamento.


Com a crise instalada no governo do DF, que poderá levar ao impedimento do governador José Roberto Arruda, percebe-se o que está por vir. Se ele pelo menos tivesse distribuído livros ao invés de panetones...

Brasil, capital Brasília.

ALÉCIO CUNHA, JORNALISTA

Alécio Cunha começou a trabalhar como repórter da editoria de Cultura do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, no início da década passada, e lá permaneceu até 6 de outubro, quando sofreu um AVC. Morreu no último sábado, aos 40 anos. Apesar do longo período em coma, sua morte foi um choque para artistas, jornalistas e intelectuais da capital mineira, e até para quem não o conhecia pessoalmente ou só o havia encontrado uma única vez, como era meu caso. Alécio Cunha era o tipo de repórter hoje praticamente extinto nas editorias de cultura dos grandes jornais. Sensível, curioso e interessado, ocupava espaço nas páginas do jornal para escrever sobre poesia, música e artes, sem prender-se à agenda das grandes editoras, gravadoras ou ao marketing cultural. Era também poeta, reconhecido pelos conterrâneos da simpática Boa Esperança, no sul de Minas, como membro da Academia de Letras local. Deixo aqui meu lamento pela perda que não é apenas do jornalismo de Belo Horizonte, mas de todos aqueles que mantêm algum vínculo com a literatura mineira.

O PODER MÁGICO DOS LIVROS

A foto histórica que ilustra este texto mostra a biblioteca da Holland House, impiedosamente bombardeada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Localiza-se em Kensington, subúrbio de Londres, e hoje faz parte de um teatro ao ar livre. A foto é emblemática. Registra o momento em que três homens, indiferentes à barbárie da guerra, pesquisam as estantes quase intactas, como se o espírito do conhecimento, simbolizado pelos livros e pela leitura, os tornasse imunes à violência.

Os livros representam
o que de melhor a civilização humana produziu, e não é à toa que sempre foram execrados pelos ditadores. Agora sofrem uma ameaça de outra espécie. Algumas empresas de alta tecnologia tentam nos convencer das vantagens de substitui-los por uma ferramenta eletrônica de leitura.

Há evidências de que um público consumidor sedento por novidades começa a adotar a idéia, como se deduz de alguns números [leia as postagens anteriores]. Mas cada país tem uma realidade diferente, e o Brasil, é bom jamais esquecer, é um "país de não leitores", como já foi chamado pela imprensa inglesa.

Que tipo de revolução
comportamental a chegada de aparelhos como kindle, sony reader e equivalentes poderá causar ao Brasil? O que será das bibliotecas comunitárias? E aquele livro sensacional que você acaba de ler, como o emprestará ao amigo? O livro que você possui e acha que não vai mais ler, mas que poderia ser útil à biblioteca do bairro, o que você fará dele? E as livrarias, vão fechar as portas? Ou se transformarão em mero balcãozinho com um computador em cima? E os sebos, com suas raridades escondidas, seus mistérios empoeirados? Aquele sujeito que se alfabetizou aos 20 anos, se apaixonou pela leitura e montou uma biblioteca na favela – o que será dele?


A leitura não significa apenas
aquisição de conhecimento ou o exercício de um prazer. É uma atividade que envolve atitudes e comportamentos. O ato de emprestar um livro fascinante para um amigo é mais que um favor, é uma declaração de afinidade, carinho, intimidade. A devolução do livro, devidamente lido, idem. A troca de comentários a respeito é um movimento de aproximação, um laço a mais de amizade. Com o kindle, como se dará essa relação?


Os grandes personagens da literatura
são seres vivos, que aguardam em silêncio, dentro das lombadas empoeiradas, por uma nova leitura. Ou por um novo leitor, a quem contam, pela milionésima vez, a sua inesquecível história. Eles vão sobreviver no meio eletrônico?


Ler um clássico, um grande romance
, um livro daqueles que ficam em nossa memória feito tatuagem não é um exercício banal. É uma atividade que exige concentração e dedicação. O fascínio da leitura, ao ativar nossa imaginação e criatividade, nos leva a uma outra realidade, uma realidade paralela, tão real e mais emocionante que a realidade cotidiana.


O grande mistério que só o futuro
desvendará é se a tecnologia do livro eletrônico nos permitirá continuar usando e desenvolvendo essas capacidades. Ou se elas serão incompreensíveis qualidades de um ser humano que, ao contrário dos livros guardados em museus, estará simplesmente extinto.

A MAIOR INVENÇÃO DA HUMANIDADE [2]

A grande diferença entre o livro de papel e o e-book é que o e-book é apenas uma imagem projetada por um aparelho eletrônico, e não um objeto palpável. Precisa do suporte, que também serve para leitura de jornais e revistas, e certamente servirá também para veicular imagens, como fotos ou histórias em quadrinhos. As exigências do mercado farão com que uma segunda geração do kindle também sirva para tocar músicas. Assim, com o tempo, o aparelho leitor será cada vez menos leitor, e cada vez mais multiuso.

A ascensão dos e-books
se deve à internet, e portanto deve ser estranho descobrir que o produto mais comprado pela internet é o livro. Livro mesmo, de papel. A informação é da empresa Nielsen/NetRatings, verificadora de consumo online, que recolheu dados em 48 países para descobrir que 41% dos 875 milhões de consumidores compram mais livros que qualquer outro objeto. Esse foi o levantamento feito nos últimos três meses de 2007. Outra informação surpreendente é que, entre esses 48 países, o Brasil ocupa a quinta posição, atrás da Coréia do Sul, Alemanha, Áustria e Vietnã.


O Brasil não é um país de leitores
, mas nossa elite parece ler bem – afinal, embora não contemos com dados estatísticos a respeito, é evidente que a parcela que acessa a internet é pequena, menor ainda a que tem cartões de crédito, e ainda mais reduzida a que faz compras pela internet usando seu cartão. Pois foi essa parcela da população que colocou o Brasil nessa elite. Para se ter uma idéia, sabe-se que 20% da população brasileira tem nas mãos 66% dos livros publicados no país.


Diante de um quadro desses
, o que significará a chegada do e-book ao Brasil? A pergunta está posta.

[clique para ler a primeira parte deste texto]

A MAIOR INVENÇÃO DA HUMANIDADE [1]

O livro é a maior invenção da humanidade. Desde os primórdios da História armazena o conhecimento, e as bibliotecas são o próprio símbolo da civilização. Sem o livro, é possível que algumas das grandes invenções não tivessem sido possíveis.

E no entanto, parece estar em curso uma campanha articulada para que, em pouco tempo, o livro, um organismo vivo que dialoga com os homens, seja extinto.

É impressionante a pressão exercida pela mídia, pela publicidade, pela indústria tecnológica, para nos convencer de que devemos trocar o livro tradicional pelas ferramentas eletrônicas – kindle, sony reader – que recebem o texto escrito pela internet e substituem as folhas de papel por uma tela, em que estão disponíveis comandos para mudanças de página e até para marcação de trechos do texto. Três ou quatro grandes empresas, nos Estados Unidos, Japão e Europa, desenvolvem esse equipamento e tentam vendê-lo ao mundo.

Uma pesquisa realizada durante a 61ª. Feira do Livro de Frankfurt, no mês passado, constatou a previsão de que o livro digital superará o de papel em 2018. Há controvérsias, é claro, a partir da velha constatação das desigualdades econômicas, que hoje, no Brasil, inviabilizam a comercialização do aparelho leitor, vendido a US$ 300 nos Estados Unidos. Mas naquele país a venda de livros digitais (e-books) superou os US$ 100 milhões em 2008, segundo dados da Associação Norteamericana de Editores (AAP). E a Alemanha registrou a venda de 65 mil aparelhos vendidos no primeiro semestre.

A loja virtual Amazon já conta com mais de 300 mil obras digitais à venda. Para as empresas, esse mercado pode ser extremamente vantajoso, já que o livro deixará de ser uma mercadoria para se tornar um serviço. O futuro que se vislumbra será o do cliente diante de uma máquina, apertando um botão e recebendo o livro virtualmente, contra o pagamento. Ao contrário da venda tradicional, iniciada quando a editora contrata uma gráfica, paga a impressão do livro, vende o objeto às livrarias, às quais o leitor se dirige para fazer a sua compra. Com variações, é claro.

Em 500 anos de história, o livro praticamente não mudou. Por quê? Porque é uma “máquina” perfeita, de fácil utilização, leve, pode ser levada a qualquer lugar, não precisa ser ligada, não requer prática ou habilidade, a não ser a de saber ler. E tem o apelo sensorial – ou você acha que o kindle pode ser acariciado e folheado da mesma maneira, em gesto quase sensual?

[clique para ler a segunda parte deste texto]

UM ROMANCE

Em Brasília, o livro a ser lançado esta semana é o romance Um, de Geraldo Lima, publicado pela LGE. O personagem principal é um ex-seminarista, dividido entre os caminhos do desejo e a vocação espiritual. Geraldo Lima observa que não se trata de livro religioso, e que o foco na crise do personagem é um recurso para dramatizar a narrativa. O lançamento será nesta quinta-feira, 12, na Saraiva Megastore, no Pátio Brasil Shopping, a partir das 19h30.

ESPELHO

Repasso o convite, a quem estiver em Belo Horizonte: o músico Eduardo Filizzola autografa nesta quarta-feira, 11 de novembro, seu romance Espelho de Volódja, no Espaço Cultural Terraço Leitura (Leitura Pátio Megastore - Av. Contorno, 6061, 3º andar - Savassi), a partir das 19h. O romance conta a história de um casal de artistas que recebe um presente inusitado: um espelho que não reflete imagens, mas pensamentos reprimidos. Um tema instigante. Lançamento da Editora Batel.

A POESIA NA CONTEMPORANEIDADE

Está circulando, em boas mãos, o livro Poesia: o lugar do contemporâneo, que reúne ensaios apresentados por especialistas convidados durante o Simpósio de Crítica de Poesia, um dos principais eventos da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, realizada em setembro do ano passado.

O livro, organizado pela professora
e poeta Sylvia Cintrão, discute a crítica e o texto poético à luz da contemporaneidade, e põe a poesia em interação (ou confronto, em alguns casos) com gênero e memória, ensino e tradução, imprensa e mídia, entre outros temas. São diferentes olhares estéticos, por 27 especialistas das cinco regiões do país, além de três ibero-americanos.


Um dos pontos altos do livro,
sem dúvida, é a palestra apresentada pelo homenageado do Simpósio, o poeta Affonso Romano de Sant´Anna, durante a abertura da Bienal: As muitas vidas e muitas mortes da poesia, um texto antológico.


Este escriba também está presente
no livro, em honrosas companhias, com o texto A imprensa perdeu o que a poesia tem de melhor. Alguns dos autores publicados: Antonio Carlos Secchin, Alexandre Pilati, Anderson Braga Horta, Antonio Miranda, Elga Laborde, Fernando Marques, Rinaldo de Fernandes, Viviane Mosé, Wagner Barja, Maurício Melo Júnior, entre outros.


O livro tem 300 páginas
e ainda traz como encarte o CD Fale-me de amor, com poemas e canções do espetáculo apresentado pelo grupo VivoVerso, criado na Universidade de Brasília. Pode ser solicitado pelo endereço vivoverso@gmail.com, ao preço de R$ 25, com frete grátis.

A FEIRA DO LIVRO E OS 50 ANOS

A Feira do Livro de Brasília, agora anunciada para 21 a 29 de novembro na área externa do Pátio Brasil, é tema que desperta debates. O texto que escrevi aqui no dia 27 (veja postagem anterior) recebeu vários comentários, alguns diretamente por e-mail, o que significa que não estou autorizado a divulgá-los. Mas vou prosseguir a discussão.

Li uma entrevista do vice-governador Paulo Octávio em que ele conta que uma das atrações em negociação para a festa dos 50 anos de Brasília é um megashow com as três "rainhas da axé music", cujos nomes considero irrelevantes. Essa intenção comprova: mais importantes que eventos artísticos de alto nível são os eventos comerciais de mau gosto. Ele, que é político, pode dizer que isso faz sentido porque o lixo cultural atrai multidões e deixa o povo feliz. Eu não sou político e estou livre para combater a mediocridade.

Não acho a literatura superior à música, às artes plásticas ou outras manifestações culturais. Mas quando cito o exemplo de megashows da Xuxa ou de duplas sertanejas estou criticando a postura massificante dos administradores públicos, que preferem investir numa atitude conservadora e esquecem o risco revolucionário da arte enquanto produto da consciência, e não do mercado.

Sejamos claros: um show da Xuxa ou de uma dupla sertaneja (que eu prefiro chamar de breganeja para deixar bem clara a distinção da música caipira de raiz) são eventos mercantis, comerciais, e não artísticos. É claro que uma Feira do Livro poderá levar um visitante a entrar em contato com subliteratura, ou literatura produzida a partir de um impulso comercial ou de mercado, mas a feira também será a oportunidade, às vezes tão rara, para que pessoas sem acesso assistam uma palestra, participem de uma oficina, que poderão contribuir para a ampliação de seus horizontes culturais.

Não sou contra megashows. Mas uma atitude sincera do governo poderia partir de uma premissa como essa: "Se o povo não tem acesso a uma das maiores orquestras do Brasil, que é a do Teatro Nacional (na opinião do secretário de Cultura, já veiculada na mídia), então no aniversário da cidade vamos oferecer à população a oportunidade de ouvi-la."

Música breganeja o povo ouve no rádio. O lixo musical existe, sim, não é preconceito ou discriminação. O lixo existe e é imposto pelas gravadoras, pelas rádios, pela televisão, por ser de fácil assimilação e se tornar, mais facilmente, sucesso e, em conseqüencia, dinheiro. Muito dinheiro. O acesso ao lixo é fácil.

Grandes comemorações deveriam ter uma intenção mais nobre, a de levar ao povo que comparece ao evento, ao povo que não pode pagar, a oportunidade de contato com um evento realmente artístico, que o rádio, a televisão não lhe oferecem.

Recuso-me a aceitar que esta minha postura seja preconceituosa, embora tenha consciência de que é elitista, o que é muito diferente. Não tenho nada contra as elites artísticas ou intelectuais. Os grandes artistas são uma elite, os grandes cientistas são uma elite. E quando se fala da necessidade de investir em educação, fala-se da necessidade de conduzir o país a uma elite planetária.

No Brasil há um forte preconceito contra as elites, como se fossem todas farinha do mesmo saco, como algumas elites políticas, econômicas, privilegiadas e egoístas, que preferem saquear o país a investir em projetos para um futuro melhor para a sociedade.

E de saqueadores o Brasil está cheio.

FEIRA? LIVRO? BRASÍLIA?

Podem escrever: a Feira do Livro de Brasília não será realizada este ano. Seria a 28a. edição. Seria.

Feiras de livros são importantes
para estimular a leitura e aproximar escritores e leitores. Não são apenas um amontoado de barracas onde se vendem livros. São eventos onde ocorrem palestras, lançamentos, concursos, encontros.


A novela da 28a. Feira do Livro de Brasília
vem de longe. Havia sido marcada para a primeira semana de setembro, depois foi adiada para 16 a 25 de outubro, depois para 23 de outubro a 1 de novembro. Vai ficar para 2010 - se vier.


A Câmara do Livro do DF
precisa de dinheiro oficial para viabilizar a Feira. Nos últimos anos a Feira realizou-se em local inadequado e improvisado, os corredores externos do centro comercial Pátio Brasil. A previsão, este ano, era utilizar o cimentão armado do Conjunto Cultural da República para montar a Feira. A Câmara do Livro precisa de R$ 2,5 milhões para preparar a estrutura. O governo José Roberto Arruda prometeu R$ 700 mil. Já havia prometido para que a feira começasse a 23 de outubro, mas às vésperas o dinheiro não havia saído.


O secretário de Cultura (?)
do DF, Silvestre Gorgulho, garantiu aos livreiros: "A Feira vai acontecer, nem que seja na minha casa." Até parece. A diretoria da Câmara, que empurrou o problema com a barriga até chegar a hora da decisão, deu um sorriso amarelo. Até esta terça-feira, 27 de outubro, tudo permanece na estaca zero.


O evento é importante e o governo deveria ter interesse de contribuir. Mas governador, secretário e toda a turma nada entendem de cultura. No ano passado, eles (o governo) compraram de uma entidade qualquer o título de "Brasília, capital brasileira da cultura", com validade de um ano. Nada aconteceu, absolutamente nada, que pudesse lembrar à cidade o pretenso título. Como se título mudasse alguma coisa.

Nos 49 anos de Brasília,
comemorados em abril deste ano, o GDF teve o prazer de pagar R$ 950 mil para as "cantoras" Xuxa e Cláudia Leitte se apresentarem ao público. No aniversário de 50 anos vão torrar muito mais. Cultura, para o governo local, é isso: juntar uma multidão ao redor de cantores bregas para duas horas de show.


O jornalista Sérgio de Sá,
no Correio Braziliense de sábado, 24, foi incisivo. Lembrou que uma feira do livro "precisa ter conceito", e que a sociedade brasiliense, "desinteressada", precisa "decidir se a cultura é importante para a vida em comunidade ou se prefere se contentar com shoppings, bares, automóveis e nada mais".


Sérgio de Sá está certo.
Enquanto a Câmara do Livro dorme e deixa tudo na mão do governo, o governo prefere construir viadutos, massacrar o verde da cidade com rodovias e promover megashows de duplas breganejas para celebrar a cultura. É a capital do Brasil.

É o Brasil.

POESIA NA CONEXÃO MARINGÁ

A revista Conexão Maringá trata de literatura e arte e é publicada mensalmente na net. Na edição de outubro, este escriba comparece orgulhosamente, com alguns poemas do novo livro, Exília, ainda inédito.

Exília
foi um dos projetos vencedores da Bolsa Funarte de Criação Literária no ano passado.

NOBEL DE LITERATURA PARA HERTA MÜLLER

A escritora Herta Müller venceu o prêmio Nobel de Literatura este ano. Foi anunciado nesta quinta-feira, 8, pela Academia de Ciências da Suécia. Nascida em 1953 em Nitzkydorf, Romênia, vive na Alemanha. Segundo a Academia, Herta Müller consegue, "com a densidade da sua poesia e a franqueza da sua prosa, retratar o universo dos despossuídos". A escritora não fazia parte da lista de apostas citada na postagem anterior.

Ela tem um livro publicado no Brasil: o romance O compromisso, pela Editora Globo. Saiu em 2004. O livro parte de experiências pessoais para mostrar as adversidades que ela viveu na Romênia comunista.

NOBEL DE LITERATURA: FAÇAM SUAS APOSTAS

Amos Oz, Joyce Carol Oates, Antonio Tabucchi, Carlos Fuentes, Milan Kundera, Umberto Eco, Paul Auster, Philip Roth. Entre azarões e bem cotados balançam os corações dos membros da Academia Sueca – e dos apostadores ingleses. O Prêmio Nobel de Literatura deve ser anunciado entre os dias 6 e 12 deste mês (a Academia não divulgou a data exata), e a temperatura das casas de apostas em Londres está alta.

Apostar é uma das manias inglesas, assim como cuidar de jardins e acenar para a Rainha. Eles arriscam suas librinhas em corridas de cavalos, jogos de futebol, ciclismo, eleições e muitas outras modalidades. No ano passado, quando o francês Le Clézio ganhou a maior láurea da literatura universal, o favorito era o italiano Cláudio Magris, que agora está em sétimo, cotado a sete por um. O mais cotado para este ano é o isrealense Amos Oz: quatro por um.

Na extensa relação de possíveis ganhadores, divulgada por uma das principais casas de apostas de Londres, a Ladbrokes, há escritores da Argélia (Assia Djebar, 5/1), Japão (Haruki Murakami, 9/1), Espanha (Luis Goytisolo, 9/1, Juan Marse, 25/1), Nicarágua (Ernesto Cardenal, 100/1), Coréia do Sul (Ko Un, 12/1), Suécia (Thomas Transtromer, 12/1), Canadá (Margaret Atwood, 25/1), Estados Unidos (Thomas Pynchon, 9/1, Philip Roth, 7/1, Paul Auster, 100/1), México (Carlos Fuentes, 50/1), Peru (Vargas Llosa, 16/1), Holanda (Cees Noteboom, 20/1), Inglaterra (Don Delillo, 25/1), Síria (Adonis, 8/1), Áustria (Peter Handke, 20/1) e muitos outros países. Até um queniano (Ngugi wa Thiongo), que paga 25 por um. O português Antonio Lobo Antunes é muito citado, mas não está na lista.

Brasileiros? Nem pensar. Dizem que a Ladbrokes não aceita apostas em brasileiros, porque em caso de tamanha zebra a casa iria à falência. Bem, é um boato, mas boatos correm junto com apostas. Autores conhecidos e desconhecidos (aqui entre nós) freqüentam a lista. O músico e poeta norte-americano Bob Dylan é um deles, e sua vitória paga 25 por um. Está bem melhor cotado que seu conterrâneo Paul Auster (100 por um). Mas zebras acontecem, caso da britânica Doris Lessing em 2007.

Um amigo meu acredita piamente que Paulo Coelho será o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio Nobel – ele não me disse se costuma apostar. Mas como jamais ganhou prêmios literários, vamos pensar em outros nomes. Os prêmios mais badalados por aqui – Portugal Telecom, Passo Fundo, Camões, São Paulo, Jabuti (alguns dos quais são destinados a autores de língua portuguesa, não apenas brasileiros) – têm apresentado uma série de coincidências de nomes e figurinhas carimbadas.

De acordo com pesquisas do mercado livreiro, em 2007 foram publicados no Brasil algo em torno de 10 mil títulos de autores nacionais na rubrica obras gerais, onde entra literatura. Então, como se explica que meia dúzia deles são sempre os mesmos a disputar os prêmios? São muito melhores que os demais? Ou são produto do marketing pesado das empresas editoriais?

No ano passado, o paranaense Cristóvão Tezza ganhou todos os principais prêmios distribuídos no Brasil, com seu romance autobiográfico O filho eterno. Você apostaria nele para o Prêmio Nobel?