O PODER MÁGICO DOS LIVROS

A foto histórica que ilustra este texto mostra a biblioteca da Holland House, impiedosamente bombardeada pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Localiza-se em Kensington, subúrbio de Londres, e hoje faz parte de um teatro ao ar livre. A foto é emblemática. Registra o momento em que três homens, indiferentes à barbárie da guerra, pesquisam as estantes quase intactas, como se o espírito do conhecimento, simbolizado pelos livros e pela leitura, os tornasse imunes à violência.

Os livros representam
o que de melhor a civilização humana produziu, e não é à toa que sempre foram execrados pelos ditadores. Agora sofrem uma ameaça de outra espécie. Algumas empresas de alta tecnologia tentam nos convencer das vantagens de substitui-los por uma ferramenta eletrônica de leitura.

Há evidências de que um público consumidor sedento por novidades começa a adotar a idéia, como se deduz de alguns números [leia as postagens anteriores]. Mas cada país tem uma realidade diferente, e o Brasil, é bom jamais esquecer, é um "país de não leitores", como já foi chamado pela imprensa inglesa.

Que tipo de revolução
comportamental a chegada de aparelhos como kindle, sony reader e equivalentes poderá causar ao Brasil? O que será das bibliotecas comunitárias? E aquele livro sensacional que você acaba de ler, como o emprestará ao amigo? O livro que você possui e acha que não vai mais ler, mas que poderia ser útil à biblioteca do bairro, o que você fará dele? E as livrarias, vão fechar as portas? Ou se transformarão em mero balcãozinho com um computador em cima? E os sebos, com suas raridades escondidas, seus mistérios empoeirados? Aquele sujeito que se alfabetizou aos 20 anos, se apaixonou pela leitura e montou uma biblioteca na favela – o que será dele?


A leitura não significa apenas
aquisição de conhecimento ou o exercício de um prazer. É uma atividade que envolve atitudes e comportamentos. O ato de emprestar um livro fascinante para um amigo é mais que um favor, é uma declaração de afinidade, carinho, intimidade. A devolução do livro, devidamente lido, idem. A troca de comentários a respeito é um movimento de aproximação, um laço a mais de amizade. Com o kindle, como se dará essa relação?


Os grandes personagens da literatura
são seres vivos, que aguardam em silêncio, dentro das lombadas empoeiradas, por uma nova leitura. Ou por um novo leitor, a quem contam, pela milionésima vez, a sua inesquecível história. Eles vão sobreviver no meio eletrônico?


Ler um clássico, um grande romance
, um livro daqueles que ficam em nossa memória feito tatuagem não é um exercício banal. É uma atividade que exige concentração e dedicação. O fascínio da leitura, ao ativar nossa imaginação e criatividade, nos leva a uma outra realidade, uma realidade paralela, tão real e mais emocionante que a realidade cotidiana.


O grande mistério que só o futuro
desvendará é se a tecnologia do livro eletrônico nos permitirá continuar usando e desenvolvendo essas capacidades. Ou se elas serão incompreensíveis qualidades de um ser humano que, ao contrário dos livros guardados em museus, estará simplesmente extinto.

9 comentários:

Poizentão disse...

Oi, Alexandre

É uma bela e triste foto essa da biblioteca. É e meio desconcertante pensar que o livro irá acabar. Mas eu acho que não vai não. Porque nós temos as escolas, e temos pessoas amantes dos livros, como você e eu. As coisas vão mudar, mas eu acredito que o suporte de papel para leitura ainda está longe de acabar... Pelo menos eu espero!

Alexandre Brandão disse...

E o marcador de livro? Comé que faz sem, ou com marcador hightech?

E o livro do Zéfiro que fica grudado e o irmão diz pra mãe que usaram grude num livro esquisito escondido embaixo do travesseiro?

E uma melequinha que repousa sem querer numa página e uma, duas gerações depois um sujeito de Cuparaque (MG) encontra num exemplar que comprou num sebo em Pirenópolis (GO)?

E aquela assinatura que um tal Xandão cisma em firmar nas páginas 55 de seus livros dele?

E aquela biblioteca que o Iran tá montando pros velhinhos de uma cidade que lê pouco?

E a noite de autógrafo?

E o autógrafo?

Assim mesmo sou pessimista, e creio que o discurso ambientalista vai destruir o livro. (É uma provocação....)

ALEXANDRE MARINO disse...

Enfim, tudo são hipóteses. O futuro não dirá. O futuro é mudo. Todas as histórias são contadas pelo passado... algumas inacreditáveis!

Sylvia disse...

Alexandre, embora a tecnologia seja um ganho, pois poderá preservar de forma mais segiura para as futuras gerações a memória da espécie em outro formato(como sabemos o Riso de Aristóteles nunca chegou a nós...) , devemos ser os responsáveis por embutir na formação desta geração, muito mais que o prazer inegável de ler as páginas impressas, o valor da própria leitrua como capital simbólico.
Belo texto Alexandre!
Sylvia Cyntrão

Geraldo Lima disse...

Alexandre, essa foto da biblioteca resistindo em meio aos escombros, tomada de uma beleza trágica, de um lirismo intenso, quase de sonho, é o símbolo máximo da resistência do livro frente às ameaças da sua extinção.

Nomadismo Celular disse...

Brilhante a tirada de que o futuro é mudo, apenas o passado revelador. O suporte físico, desde o registro de hieróglifos antigos, é a forma mais consistente para preservação do conhecimento ou testemunho escrito de uma cultura.

A nossa sociedade tecnológica, acredito, dentro em breve irá sofrer conflitos irremediáveis por conta da "produção de sentido" que estimula vorazmente e de forma paradoxal ao mesmo tempo destrói.

Quero dizer: percebo que focos organizados da sociedade atual irão manter os registros impressos por razão estratégica de preservação do conhecimento em tempo de ruptura e 'crash' do presente modelo civilizatório.

J. Araújo disse...

A cena mostra a tentativa de destruir a memória de um povo.

Isso é muito triste, que sirva de exemplo para reflexão. Se quisr pode aparecer em um dos meus blogs, não ficarei chateado.

Abraço

Alexandre Lobão disse...

Preciso e bem escrito como sempre, Alexandre!
Obrigado por compartilhar e Parabéns!

Luisa Abreu disse...

Oi, Alexandre,
O Millôr Fernandes escreveu uma vez: "livro não enguiça". Acho muito interessante esta frase.
Gosto de tecnologia, busco as novas formas de comunicação que ela possibilita (como a que estamos utilizando agora) e as facilidades que ela nos oferece.
Bom, não sei se estamos migrando para um novo formato/forma de leitura, mas, por enquanto, minha opção ainda é pela forma convencional, seja para levar para parque, para o banheiro ou para a cama!
A foto é linda! E, já que estamos falando de mudanças tecnológicas, será que com as câmeras digitais teremos imagens assim para a posteridade?
Bjs.
Luisa