[poema] RESSACA

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Ressaca foi publicado em meu terceiro livro, O delírio dos búzios, lançado em Brasília em 1999. Posteriormente foi transformado em letra de rock pelo compositor Octávio Scapin, de Goiânia, transformando-se num sucesso entre os fãs do músico. 
 

[poema] NÁUFRAGOS

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 Poema que faz parte de meu livro Exília, de 2013. Também pode ser lido no meu novo perfil no Instagram - @alexandre.marino.poeta - onde pretendo divulgar meu trabalho em poesia, tanto inédito quanto já publicado. 

[poema] MINIBIO

 


Este poema, inédito em livro, foi escolhido para inaugurar meu perfil Alexandre.Marino.Poeta no Instagram, voltado exclusivamente para poesia.  

COLUNA NA FOLHA DA MANHÃ [5]

 
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Folha da Manhã é o principal jornal da cidade de Passos (MG). Esta coluna é publicada quinzenalmente, às sextas-feiras. Edição de 30de outubro de 2020.

COLUNA NA FOLHA DA MANHÃ [4]

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 Folha da Manhã é o principal jornal da cidade de Passos (MG). Esta coluna é publicada quinzenalmente, às sextas-feiras. Edição de 16 de outubro de 2020. 

COLUNA NA FOLHA DA MANHÃ [3]

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Folha da Manhã é o principal jornal da cidade de Passos (MG). Esta coluna é publicada quinzenalmente, às sextas-feiras. Edição de 2 de outubro de 2020. 

COLUNA NA FOLHA DA MANHÃ [2]

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Folha da Manhã é o principal jornal da cidade de Passos (MG). Esta coluna é publicada quinzenalmente, às sextas-feiras. Edição de 18 de setembro de 2020. 

COLUNA NA FOLHA DA MANHÃ [1]

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Folha da Manhã é o principal jornal da cidade de Passos (MG). Esta coluna é publicada quinzenalmente, às sextas-feiras. Edição de 4 de setembro de 2020. 

NOS TEMPOS DO CHAPADÃO DO BUGRE

Em tempos de quarentena as paredes nos limitam. Mas também para isso servem os livros: atravessar as paredes. O escritor Mário Palmério escreveu o romance Chapadão do Bugre na Fazenda São José do Cangalha, em Mato Grosso, entre agosto de 1964 e abril de 1965. É possível que a maior parte daqueles oito meses ele tenha passado entre quatro paredes, mas empreendeu uma longa viagem pelo interior de Minas Gerais, e nos leva com ele desde o primeiro parágrafo. Monumental romance, que vai nos enredando linha por linha até que estejamos definitivamente embaraçados até o desfecho. E lá vamos nós atravessando rios, serras, chapadões, visitando vilarejos perdidos no tempo. 

O livro estava adormecido na estante. Mas os livros não dormem. Emitem chamados silenciosos, até que os ouçamos. Foi assim que abri o volume publicado pela Editora Autêntica em 2019. É uma reedição do romance lançado originalmente pela Editora José Olympio em setembro de 1965 e reimpresso continuamente nos anos seguintes, até que eu comprasse o exemplar de número 80 da sétima edição em novembro de 1975. 

Eu tinha 19 anos e sabia do que tratava o romance. Muitos anos antes, Mário Palmério, que em 1950 foi eleito pela primeira vez deputado federal por Minas Gerais, esteve em minha cidade, Passos, sudoeste do estado, para uma reunião política. Tornou-se amigo do professor Breno Soares Maia, que lhe narrou um fato histórico acontecido na cidade no início do século, episódio que ficou conhecido como “a matança do Fórum”. 

Mário Palmério se impressionou com a história e levou consigo uma série de folhetins apócrifos impressos em 1916 e 1917 em Guaxupé e Guaranésia, cidades vizinhas, sob o título de Os contratadores da morte. Posteriormente, o jornalista Antonio Celestino foi identificado como autor desses folhetins, que davam voz a um jagunço que prestou serviços a uma família poderosa da cidade na época. Com sua identificação, Celestino foi obrigado a sair da cidade e pouca notícia se teve dele depois disso. 

Apenas três números do folhetim foram de fato publicados, e não contaram a pretendida história até o fim. Tornaram-se raros e foram pouco lidos. Mas serviram de fonte para o grande romance de Mário Palmério, O Chapadão do Bugre, que culmina no episódio da chacina promovida pela força policial do estado de Minas Gerais dentro do fórum da cidade, contado no livro exatamente como ocorreu. 

Ali, os principais políticos da situação, proprietários rurais que, como em todo o Brasil, construíram seu poder às custas de violência e brutalidade, foram emboscados e mortos, no dia 26 de setembro de 1909. A movimentação policial no Largo da Matriz, onde se localizava o fórum, atraiu muita gente ao local, centro comercial da cidade. Lá estava também meu avô, então um rapazinho de 19 anos, curioso e bisbilhoteiro, que acompanhou de perto os trágicos acontecimentos. 

Meu avô foi testemunha ocular desses fatos e de muitas das histórias narradas com fidelidade no romance. As que ele não presenciou alguém lhe contou, porque não se falava de outra coisa em Passos nessa época. Mário Palmério teve o cuidado apenas de trocar os nomes dos personagens e dos cenários. Passos, por exemplo, virou Santana do Boqueirão. Os cenários rurais descritos no livro são extremamente parecidos com a região de Passos. 

Lembro-me com nitidez das noites em que meu avô se sentava à mesa da sala e contava as histórias que culminavam com a matança do Fórum. Ele narrava com riqueza de detalhes as atrocidades cometidas pelos jagunços, os conflitos entre os poderosos locais, e descrevia como era a cidade cinco ou seis décadas antes. Nas noites de chuva, quando frequentemente caía a energia elétrica, o rosto de meu avô, iluminado pela luz da vela, ficava ainda mais expressivo e suas histórias mais impressionantes. 

Eu, que ainda não completara 10 anos, me familiarizava com duas cidades: aquela em que crescia, com seus 20 mil habitantes, e o vilarejo da juventude de meu avô, vivo na minha imaginação. Este, nos primeiros anos do século, já era considerado uma importante povoação, pela riqueza que ali circulava, graças à criação de gado, que promoveu o enriquecimento das classes rurais e do próprio município. Com imponentes sobrados e palacetes, pertencentes a famílias abastadas, Passos era um centro urbano movimentado, com sua bela praça e ruas calçadas, comércio dinâmico e noites agitadas pelas casas de jogos e zonas de prostituição. 

Mais recentemente, já em 2000, a Editora da Fundação de Ensino Superior de Passos publicou em livro o texto integral dos três números do folhetim Os contratadores da morte, acompanhados de estudos realizados pelos professores Antonio Grilo e Alvimar Costa. Eles enriqueceram o texto com notas explicativas e uma detalhada análise dos cenários do romance de Mário Palmério, identificando a localização real das cenas e contextualizando os fatos historicamente. 

Quando li o romance pela primeira vez, fiquei impressionado pela fidelidade com que Mário Palmério narrou algumas das histórias que eu conhecia desde a infância. Agora, ao relê-lo, a força do romance se tornou mais uma vez evidente. Devorei sem descanso as 400 páginas do livro, apreciando a narrativa, os detalhes das descrições, a riqueza do vocabulário. Além da verossimilhança das cenas, que leva o leitor para dentro delas, Palmério criou um longo glossário de termos regionais, que lhe permitiu reproduzir, sem artificialismos, o linguajar da gente da região, conferindo autenticidade aos diálogos. Parecia até que eu estava lá em Passos, nos tempos de meu avô... 

Destacar apenas a fidelidade aos fatos históricos não faz jus à literatura de Mário Palmério. É certo que, para mim, conhecedor dos casos narrados por uma testemunha ocular (ou quase isso), esta pode ter sido sua principal qualidade e fonte de interesse – ao menos na primeira leitura. Mas Chapadão do Bugre é uma obra de ficção, e não uma obra histórica. Palmério se concede a liberdade de criar personagens, cenas e fatos fictícios, porém verossímeis dentro do contexto histórico do qual fazem parte. Dessa forma, um leitor que não tem conhecimento da história real que inspirou o livro o apreciará com igual interesse. 

A virtude da literatura não é apresentar um mundo estranho ao leitor, mas criar um universo paralelo e trazer o leitor para dentro dele. Ítalo Calvino dizia que “toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira”, e por isso os clássicos devem ser lidos sempre. O romance de Palmério, um clássico da literatura brasileira, retrata, em suas várias camadas, tipos humanos complexos, habitantes de um universo desconhecido da história oficial, revelado em toda sua crueza escondida.  

Os personagens de Chapadão do Bugre
 são brutalizados em sua história de enfrentamento às forças da natureza e dos homens, e a violência gerada pelo convívio entre eles corre solta pelos recantos mais profundos de um Brasil selvagem e sem lei, ou com leis próprias, quase sempre injustas. A construção desses personagens exigiu um conhecimento que Mário Palmério acumulou em suas incansáveis andanças pelo interior de Minas Gerais, como deputado federal e educador. O leitor afeiçoa-se aos personagens, rudes porém profundamente humanos, vítimas de um ambiente adverso, algozes de si mesmos. Dissecados pelo romance, esses personagens se revelam o espelho de um mundo onde ninguém é inocente. 

APRENDENDO COM SÉRGIO SANT´ANNA

Sérgio Sant´Anna ainda não tinha 35 anos quando foi convidado para compor a equipe de professores da recém-criada Faculdade de Comunicação Social da Universidade Católica de Minas Gerais, a PUC Minas. Seu primeiro diretor, o jornalista Lélio Fabiano dos Santos, apresentou a Sérgio uma faculdade de proposta inovadora, fundada na liberdade de pensamento e debate naqueles difíceis tempos da ditadura militar.
[Quinho - Estado de Minas]

Quando me matriculei no curso de Comunicação na PUC, em 1975, o prédio da faculdade era recém-construído, e as salas ainda não haviam sido pintadas. O curso ainda não havia sido reconhecido pelo Ministério da Educação, por não ter formado sua primeira turma. Mas o nome de Sérgio Sant´Anna na lista de meus futuros professores era uma motivação a mais para seguir em frente e me formar em jornalismo, sem me desgarrar da literatura. Eu conhecia alguns dos contos que ele havia publicado em jornais e revistas, especialmente o Suplemento Literário de Minas Gerais, criado por Murilo Rubião, e sabia que ele era um escritor em ascensão.

Seu primeiro livro, O sobrevivente, de contos, editado por conta própria em 1969, já era difícil de ser encontrado nas livrarias. Naquele ano de 1975, enquanto encantava seus alunos da cadeira de Redação e Edição de Textos, ele publicou seu primeiro romance, Confissões de Ralfo, um livro fascinante pela sua proposta inovadora e narrativa fragmentária, que já dava mostras de sua inquietação criativa e busca permanente por uma linguagem além da literatura bem comportada.

Como professor, Sérgio Sant´Anna também era uma atração à parte, mesmo numa faculdade voltada para a liberdade de pensamento e criação. Ele escrevia com giz no quadro negro, como era o costume nas escolas da época, mas como se não aceitasse a efemeridade dessa escrita, preferia não apagá-la, ao acabar o espaço, e passava a escrever nas paredes, feitas de chapas de MDF ainda sem pintura. E ali sua caligrafia permanecia, como sua literatura permaneceu na memória e no coração dos estudantes que conviveram com ele.

[Foto Wilton Junior, OESP]
Para mim, um estudante de jornalismo mal saído da adolescência e interessado em literatura, ter sido aluno de Sérgio Sant´Anna foi uma dádiva que me desperta o desejo de prestar-lhe uma justa, embora inútil, homenagem. Ele me apresentou grandes escritores que eu ainda não conhecia, apontou caminhos para minha escrita, ensinou que bem escrever não se aprende estudando teoria ou gramática, mas se abrindo ao prazer da leitura e à descoberta da técnica implícita nos textos dos grandes escritores. Talvez por isso eu tenha lido, e releia, toda sua obra, marcada pela mistura de várias linguagens artísticas e de ficção e memória. Uma fonte inesgotável de descobertas literárias. Dois semestres que marcaram minha vida.


BRASÍLIA, 60

Quando cheguei a Brasília, a cidade não era muito diferente daquela que foi inaugurada em 1960, como símbolo de tempos melhores que viriam. Em 1982, a ditadura militar exalava sinais de que não duraria muito tempo, e a Lei da Anistia já estava em vigor. A capital, com apenas 22 anos, inspirava poemas, canções e lendas. Uma dessas dizia que todos os recém-chegados passariam por três fases, os chamados “3Ds”: o deslumbramento, fruto do primeiro contato com a cidade; o desencanto, que viria com o aprofundamento desse contato, e o desespero, trazido pelo tédio, pela solidão e pelo vazio existencial, inevitável em meio ao espaço sem fim do Planalto Central. A essas três fases alguns acrescentavam outras duas: a demência, caracterizada pela intenção de aqui permanecer em definitivo, e a despedida, que se opunha à anterior, ou viria muito tempo depois.

Escrevi o poema As cinco estações em 1999, portanto com tempo suficiente para ter vivido todas as fases. E permaneci em Brasília, não por demência, mas talvez por destino. Procurei fazer uma interpretação poética de minha vivência na cidade e de sua gradual transformação, que eu observava e tentava compreender. No mesmo ano eu lancei meu terceiro livro de poemas, “O delírio dos búzios”, de que este poema fez parte. Agora, abril de 2020, Brasília é outra, vive os mesmos problemas urbanos de qualquer grande metrópole do país e a sentença dos “5Ds” parece ter sido esquecida. Aos 60 anos, Brasília é uma cidade real. 






OS LIVROS, O NATAL E O MERCADO

Uma carta aberta do CEO da Editora Companhia das Letras, Luiz Schwarcz, pede que no Natal as pessoas presenteiem com livros, uma forma de combater a profunda crise em que o mercado livreiro está mergulhado. Duas das maiores redes de livrarias do país, a Saraiva e a Cultura, estão em processo de recuperação judicial. A Cultura acumula uma dívida de R$ 285 milhões, enquanto a Saraiva, maior do país, deve R$ 675 milhões. Juntas, devem para as editoras R$ 325 milhões, segundo o Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel). Elas respondem por 40% do faturamento das principais editoras do país, o que revela o tamanho do estrago em cascata. 

A Livraria Cultura, em pouco mais de dez anos, investiu numa expansão irracional por várias capitais do país. Invadindo o mercado como um tanque de guerra sem freios, atropelou e provocou o fechamento de pequenas livrarias, que tinham como foco livros de qualidade e não “livros de mercado”, aqueles que vendem centenas de milhares de exemplares mas não carecem de reedições, pois são lidos (quando são) e depois caem no esquecimento, sem deixar marcas. 

“É impossível concorrer com a Cultura”, me disse Luiza Neiva, que eu poderia chamar de empresária mas prefiro chamar de uma amante dos livros, pouco antes de fechar a sua Café com Letras, simpática livraria de rua de Brasília, palco de leituras, lançamentos, saraus e shows. Com a livraria, encerrou-se também a “fábrica de leitores” que ela mantinha numa sala dedicada a atividades para as crianças. 

Nesse processo de expansão, a Livraria Cultura comprou a Estante Virtual, rede de sebos que sempre atendeu a quem procurava livros mais baratos ou raros. Ao anunciar a compra, em dezembro de 2017, a Cultura já estava em crise – atrasava pagamentos para as editoras há pelo menos dois anos. Tudo isso sem falar na aquisição da Fnac, que na verdade pagou à Cultura para que a empresa assumisse suas dívidas. 

Para um bom leitor, garimpar numa pequena ou média livraria dá resultado melhor que numa gôndola das grandes redes, onde os espaços são vendidos para as editoras e os livros lá expostos têm a obrigação de vender a rodo. As grandes editoras, como a Companhia das Letras, têm que atender a esse mercado tão voraz quanto culturalmente irrelevante. Essa editora, que também passou por um processo de expansão nos últimos anos, publica livros nas mais diversas áreas, entre as quais literatura e, dentro desta, poesia. Mas um texto sobre “análise de originais”, publicado em seu site, avisa: “Livros de poemas não serão aceitos para análise.” É curioso: a editora publica livros de poesia, mas não recusa-se a receber originais. 

Brasília possui duas lojas da Livraria Cultura. A primeira, no Shopping Casa Park, foi aberta em 2000. Na festa de inauguração da segunda, no Shopping Iguatemi, em 2010, eu disse a Pedro Herz, proprietário da empresa, que a estante de poesia, comparada ao tamanho da loja, era muito pequena. “Isso é uma questão de demanda”, ele respondeu. Para mim, Brasília não apresentava demanda para duas lojas da Cultura, mas essa demanda foi criada com estratégias de marketing. Hoje, a frequência às lojas se reduziu e as estantes estão cheias de espaços vazios. 

Ao longo de seu processo de expansão, a Cultura nunca se preocupou em criar estratégias para vender livros culturalmente importantes – entre os quais incluo a poesia – mas apenas livros “de mercado”. Por isso, tornou-se uma livraria desinteressante, onde o bom leitor circula sem vontade de comprar. As gôndolas da Cultura deixaram de expor livros instigantes, ao contrário de livrarias menores, onde o propósito é mais cultural que comercial. Com a crise, a situação piorou, porque os estoques, mesmo de livros de maior apelo, não são repostos. Se mesmo antes da crise a Cultura já se recusava a vender livros de editoras menores ou independentes, ou de autores menos conhecidos das panelinhas da mídia, agora até escritores mais conhecidos desapareceram de suas estantes. 

As duas lojas da Cultura acabaram com as livrarias de rua de Brasília, que não existem mais. Em outras cidades, elas sobrevivem, mesmo com a concorrência da Saraiva, que sempre foi mais um supermercado de livros que uma livraria. Numa livraria, o consumidor – leitor – recebe, ou deveria receber, uma assessoria do vendedor para encontrar o livro que pensa em comprar e para conhecer um livro que atenda seu gosto. Isso também não existe mais na Cultura. É coisa do passado. 

Sou a favor do apelo de Luiz Schwarcz e também acho que o Natal deve ser coalhado de livros. Mas, ao comprar, por que não fazê-lo em pequenas livrarias, que também lutam para sobreviver, e por que não atentar para as pequenas editoras? O livro é um produto artesanal, por mais industrializado que seja o processo de sua produção, que é sempre guiado por uma paixão, ainda que apenas enquanto é escrito. As pequenas editoras enfrentam dificuldades, mas também são guiadas pela mesma paixão. Com a vantagem de que as grandes redes não lhes devem milhões de reais, porque jamais se interessaram por elas. 

[hiatos] PALAVRAS DE MARCO TÚLIO COSTA

Marco Túlio Costa é um dos meus poucos amigos de infância, mas vale por todos que eu poderia ter tido e não tive. De nosso cinema desenhado da pré-adolescência à maturidade literária, atravessamos juntos ou pelo menos ao alcance da vista as agruras de tempos turbulentos, curando com a escrita as nossas aflições e impossibilidades. Minha admiração por ele ou pela sua literatura não precisa ser declarada. O texto que se segue, que ele publicou no Facebook, me deixou emocionado e orgulhoso. 

HIATOS E DITONGOS

Impossível ler completamente um livro de poemas. Embora tenha ido da primeira à última página de Hiatos (Patuá Editora, São Paulo, 2017) do Alexandre Marino, relido do último ao primeiro poema, não terei lido o livro todo. Mas, possivelmente, fui lido por ele.

São os poemas que nos declamam, nos escandem a alma da pele aos ossos, dão ritmo e rimam os sentimentos que nos alinham em versos de riso e lágrimas, nos decifram e nos definem em versos brancos. 

Tomar nas mãos uma obra como Hiatos, é sentar-se na antessala dessa ressonância poética, dessa tomografia lírica, do ecocardiograma trágico – Ecocardiografia, aliás, é título do primeiro poema do volume, que fala de nosso próprio coração exposto: “ali se guarda toda a tristeza do mundo/ labirinto onde o homem feliz se esconde”. 

Hiatos, esses momentos de estupor do poeta, diante de cenas de um mundo visto de forma desesperançada, mesmo que com ternura de despedida, melancolia. Marino já tinha demonstrado essa perplexidade, essa impotência diante da cena mundana em obra anterior (Exília, Dobra Editorial, SP, 2013) como no poema O Velho Poeta, pessoa que “divaga sobre refazer o mundo/ reordenar a história” mas “cansado de caminhos/quer só a viagem”. A viagem é esse hiato entre o partir e o chegar, origem e destino, entre passado e futuro, onde flutua a consciência do indivíduo que recolhe provas da própria existência, coleciona trivialidade que deem sentido à vida, pequenos objetos capazes de fazer a amálgama entre uma ponta e outra. 

Já na sua obra Arqueolhar (L.G.E. Editora, Brasília, 2005) vagava Marino nessa arqueologia do tempo presente, garimpando seu passado. Lá, no poema Paisagem Doméstica, ele diz que “ninguém sabe a história inteira/ evocam-se vazios invulneráveis/ o tempo é feito de destroços”. Os vazios, os hiatos, os momentos de contemplação presente, que não podem ser transpassados. E sim, ninguém sabe a história inteira, ninguém lê um livro de poemas completamente, ainda que o esgote da primeira à última página. Nós é que vamos sendo lidos aos poucos, nesse hiato entre abrir o livro e fechar nossos olhos.

Procurei em minha confusoteca – essa biblioteca ainda de pernas pro ar – o livro de estreia do Alexandre Marino. Livros gostam de passear, parecem buscar conversas uns com os outros. Mas encontrei Os Operários da Palavra (Batanguera, Belo Horizonte, 1979) que para mim, ou para nós que conhecemos este poeta desde sua gênese, é um símbolo, um troféu que trago ‘daqueles tempos’, quem sabe nossa origem literária, de onde nos lançamos como protótipos de uma esperança adolescente. Tínhamos bandeiras, a que persiste talvez seja a defesa da liberdade de expressão. Leiam nesse livro Ó putas do meu Brasil – as putas pululam persistentes, o Brasil persistentemente se prostitui, só nós não nos vendemos, mas entregamos alguns sonhos para adoção de gerações novas.

Em 1966, quando tinha 11 anos, cheguei a Passos e fui logo conhecendo o Alexandre Marino. Meu avô materno, Geraldo Magela, assim como o pai do Alexandre, Zé Marino, eram telegrafistas e morsemente se conheciam. Tivemos uma infância compartilhada – jogos de botão, tombos de bicicleta, leitura de gibis (o que na casa dele era permitido, na minha não). Fomos cineastas, façanha que ele conta em Arqueolhar, no poema Heróis do Cinema, a mim dedicado.

Posso dizer que formamos não só uma dupla, mas um ditongo. Amadurecemos e partilhamos literariamente nossos hiatos. 

[hiatos] PALAVRAS DE ANTONIO CARLOS SECCHIN

Antonio Carlos Secchin é poeta, ensaísta e crítico literário. Professor titular de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, seu conhecimento e suas atividades o levaram à Academia Brasileira de Letras. Suas palavras sobre meu livro Hiatos me deixaram feliz e merecem destaque neste espaço. 

"Caro Alexandre, grato pelo envio do belo e pungente Hiatos, com seu repertório de perdas e dissipações, na construção/constatação do intransponível hiato entre o desejo e o real. Hiato. Livro de sombras, à espera da sempre adiada luz que venha, talvez em vão, insinuar-se na fissura. Parabéns e  um abraço."

[hiatos] A EXPERIÊNCIA DA POESIA

Levei um tempo razoável para encontrar o título para o livro que estou lançando agora, Hiatos, publicado em São Paulo pela Editora Patuá. Ao contrário de todos os seis livros que escrevi anteriormente, desta vez o título só se definiu depois que o livro estava praticamente pronto. Cheguei a adotar cinco ou seis títulos, até encontrar o definitivo. 

“Hiato” é um termo rico e interessante, porque carrega significados amplos. Talvez o primeiro que nos ocorra seja aquele que aprendemos nos bancos escolares, nas aulas de gramática, que descreve o encontro de duas vogais pertencentes a sílabas diferentes – como é o caso da própria palavra em questão, que tem três sílabas (hi-a-to). Quando eu estava na escola, achava extremamente difícil distinguir um hiato de um ditongo, que descreve o caso contrário  união de duas ou mais vogais na mesma sílaba, como “pai” ou “muito”. A diferença é o som emitido em um ou outro caso, e portanto a distinção depende de nosso ouvido. 

Outros significados da palavra “hiato” têm em comum a ideia de interrupção ou descontinuidade. As fissuras que nos ameaçam ou nos salvam. Como disse o poeta canadense Leonard Cohen, que usei como epígrafe do livro, as rachaduras por onde entra a luz. Aquilo que nos falta, ou a experiência única da vida, que, afinal, é um hiato entre o nada e o nada. 

Os 53 poemas que formam meu novo livro abordam temas muito diversos, mas há alguma coisa em comum entre todos eles, já que a sua criação foi impulsionada pelo sentimento de sufocamento e inquietação que nos atinge a todos, nesses tempos caóticos que atravessamos – não só no Brasil. Alguns se alienam para se defender; outros se xingam nas redes sociais; outros perdem totalmente o rumo e partem para a violência, que é uma retaliação contra a humanidade. O caminho para a salvação, no meu caso, é a poesia. E não só aquela que escrevo: é também a que leio e a que me sensibiliza na música, no cinema, nas artes em geral. A poesia está em toda parte – pode ser encontrada também numa conversa entre amigos numa mesa de bar. 

A primeira parte do livro aborda uma experiência que poderia ter sido traumática, mas foi superada graças à minha autoconfiança, às pessoas próximas a mim, que me deram força, e a algumas crenças, e a literatura é uma delas. Tive que fazer uma cirurgia delicada, cujas marcas levo comigo, e transformei um pouco daqueles momentos em poesia. Foi uma experiência sem dúvida muito pessoal, íntima até. Porém, a magia da literatura é alcançar a intimidade das pessoas sem a necessidade de expor a intimidade de ninguém. E é por isso que esse tema está no livro, que uma vez publicado já não pertence a mim. 

Algumas experiências da vida são transformadoras. Trabalhar seriamente com a poesia, lutar com as palavras durante quatro anos, na tentativa de encontrar a melhor expressão, abordar temas que nos obrigam a refletir sobre o mundo, o exterior e o interior, tentar compreender por que nós, seres humanos, somos o que somos, tudo isso provoca um tsunami em nossa normalidade. Não saí ileso disso – mas saí com um novo livro, a que dei o título de Hiatos, um objeto palpável que se tornou uma criatura viva, que agora trago nas mãos. Lá está um pouco de minha vida, de meu olhar, de minha visão de mundo, das pessoas que amo, de minhas perdas e ganhos. 

[hiatos] PALAVRAS DE ANGÉLICA

Convivo com Angélica Torres Lima, desconsiderando os hiatos, há alguma coisa próxima dos 30 anos. O jornalismo nos aproximou, na redação de algum jornal da Brasília dos anos 80, e a poesia nos fez amigos. Angélica é poeta sensível, um dos nomes mais importantes da poesia construída nessas poucas décadas da formação cultural de Brasília. Por isso, fiquei tomado de orgulho ao ler a bela mensagem que ela me enviou, com suas impressões sobre meu livro recém-lançado, o Hiatos. Reproduzo abaixo e agradeço suas palavras. 

"Que belo livro, Alexandre. Hiatos é o seu melhor, para mim, até agora. Você tem a dizer e diz com a profundidade que se espera de um poeta. Mais ainda: um poeta com tempo de rua e de estrada, arenosa, pedregosa mas também interestelar. Seu duelo com o presente, o passado e o futuro dialoga com os hiatos da matéria animal, vegetal, mineral e cósmica de quem te lê, ou seja, não há pra onde correr. A identificação é flagrante. É um espelhamento do vazio, da solidão, do deserto, das ruínas, da perplexidade existencial que carregamos, sem atenuantes convincentes.

E ao final se confirma: Hiatos é um poema só, o que a meu ver é prova de maturidade poética mas também humana e cidadã – portanto, tenho que dizer isso, você fez bem em não abordar o grande momento nacional. Assim o que fica em essência é o denominador comum de uma cosmogonia partilhável, de novo ressaltando o Um que irmana leitor e poeta, essa espécie de gol do verso.

Li com admiração e prazer e te abraço com a antiguidade da nossa amizade. 

Angélica Torres Lima

[poesia] LANÇAMENTOS DE ´HIATOS´ AGENDADOS

Belo Horizonte, 16/12/2017, sábado 
Projeto Sempre um Papo 
Livraria Ouvidor Savassi 
Rua Fernandes Tourinho, 253 
A partir das 11h