BRASÍLIA, 60

Quando cheguei a Brasília, a cidade não era muito diferente daquela que foi inaugurada em 1960, como símbolo de tempos melhores que viriam. Em 1982, a ditadura militar exalava sinais de que não duraria muito tempo, e a Lei da Anistia já estava em vigor. A capital, com apenas 22 anos, inspirava poemas, canções e lendas. Uma dessas dizia que todos os recém-chegados passariam por três fases, os chamados “3Ds”: o deslumbramento, fruto do primeiro contato com a cidade; o desencanto, que viria com o aprofundamento desse contato, e o desespero, trazido pelo tédio, pela solidão e pelo vazio existencial, inevitável em meio ao espaço sem fim do Planalto Central. A essas três fases alguns acrescentavam outras duas: a demência, caracterizada pela intenção de aqui permanecer em definitivo, e a despedida, que se opunha à anterior, ou viria muito tempo depois.

Escrevi o poema As cinco estações em 1999, portanto com tempo suficiente para ter vivido todas as fases. E permaneci em Brasília, não por demência, mas talvez por destino. Procurei fazer uma interpretação poética de minha vivência na cidade e de sua gradual transformação, que eu observava e tentava compreender. No mesmo ano eu lancei meu terceiro livro de poemas, “O delírio dos búzios”, de que este poema fez parte. Agora, abril de 2020, Brasília é outra, vive os mesmos problemas urbanos de qualquer grande metrópole do país e a sentença dos “5Ds” parece ter sido esquecida. Aos 60 anos, Brasília é uma cidade real. 





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