CORAÇÃO VAGABUNDO

O tempo trouxe maturidade e levou embora um tanto daquela arrogância que Caetano Veloso parecia gostar de exibir. Mas o gênio, o olhar aguçado, a sensibilidade e a capacidade de observação continuam afiados, a julgar pelo que se vê no documentário Coração Vagabundo, lançado nacionalmente no final de julho e ainda circulando pelos cinemas do Brasil.

O filme de Fernando Grostein Andrade
mostra momentos de intimidade do músico baiano durante turnês de lançamento do CD Foreign Sounds, em shows realizados em São Paulo e cidades dos Estados Unidos e do Japão (2003-2005). Chega a ser estranho ouvir Caetano falar de suas dificuldades com a língua inglesa ao enfrentar uma entrevista na televisão norte-americana. “Eu sou de Santo Amaro, e lá vivi até os 18 anos”, afirma ele. “Não sou de São Paulo, uma cidade com espírito cosmopolita.” Não é qualquer baiano que encara aquela gororoba japonesa que Caetano se esforça para provar, na cena mais hilária do filme.


Ao mesmo tempo, é emocionante
ver Caetano Veloso interpretar, em plena forma, clássicos do jazz ou os seus próprios, com destaque para Terra, uma das mais belas canções feitas no Brasil desde que o Festival da Record revelou o músico. E as manifestações de fãs ilustres, como o cineasta Pedro Almodóvar e o cantor David Byrne, só reforçam a experiência dos brasileiros privilegiados que acompanham sua carreira. Coisa que estrangeiros anônimos também aprenderam a fazer, como o monge que se declara fã, ou os japoneses que contorcem a língua para entoar trechos de suas canções.


Outro momento marcante do filme
é a rápida aparição do cineasta Michelangelo Antonioni, homenageado por Caetano com uma bela canção. Antonioni revê num computador um de seus grandes momentos no cinema, a cena final de Passageiro profissão repórter, enquanto conversa com a esposa sobre o músico brasileiro.


O documentário também mostra
que a produtora do filme, Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano, é aquilo que sempre foi: uma chata. Na época, o casal estava em processo de separação e Caetano demonstra, em algumas passagens, não viver bom momento emocional. Agora que Caetano Veloso está livre de Paula Lavigne, quem sabe volte a criar um grande disco, como os que fez nos anos 70 e 80? Ao mostrar o grande artista que ele é, o filme nos reacende a esperança.

BOB DYLAN CHEGA PARA O NATAL


O cantor e compositor Bob Dylan lança em outubro um álbum de canções natalinas, Christmas in the heart. A notícia soa como algo inusitado mesmo na biografia de um artista em permanente estado de mutação, até que se expliquem algumas coisas.

Dylan vai doar todos os royalties sobre as vendas dessas gravações nos Estados Unidos para a ONG Feeding America, garantindo, somente nos feriados da virada do ano, mais de 4 milhões de refeições para 1,4 milhão de pessoas que passam necessidades naquele país. Além disso, ele contribuirá com duas entidades internacionais para atender milhões de pessoas carentes no Reino Unido e no mundo em desenvolvimento, e doará perpetuamente todos os royalties das vendas internacionais do álbum para essas entidades.

Para Dylan, "é uma tragédia que mais de 35 milhões de pessoas, somente neste país, sendo 12 milhões de crianças, vão para a cama com fome e acordem cada manhã sem saber onde será sua próxima refeição". Se na "terra da fartura" é assim, imagine aqui no sul do mundo...

A extensa obra de Bob Dylan rejeita rótulos. No entanto, suas canções de denúncia e protesto, que se tornaram clássicos, valem como contribuição para um mundo melhor. Afinal, é este o papel do artista: tocar nas feridas. Mas Dylan sabe que os podres poderes têm ouvidos moucos.

MAIS LIVROS NO MERCADO


A Câmara Brasileira do Livro (CBL) acaba de divulgar a pesquisa anual sobre produção e venda do setor editorial, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo. Um dos destaques foi a constatação do aumento do número de títulos publicados: 13,3%. Pela primeira vez, foi ultrapassada a marca de 50 mil novos títulos lançados em um ano.

Houve aumento
de 20% no número de exemplares, descontada a variação nos programas de compra do Governo Federal. Como se sabe, o livro didático é um livro para leitura compulsória, e por isso não deve ser considerado em interpretação de pesquisas sobre venda de livros e índices de leitura.


Também se deve às compras
governamentais o aumento do preço médio nominal de 8,4% dos livros, de 2007 para 2008, já que os livros para o ensino médio, com maior número de páginas, tiveram preço maior. Sem considerar os didáticos, a CBL entende que os preços tiveram redução de 3,68%, considerada a variação do IPCA no período. Contrariando, assim, a recente bronca do presidente Lula no setor livreiro, acusado por ele de subir os preços dos livros, apesar da desoneração do PIS e da Cofins sobre o livro, em 2004.

A SENHORA DE FÁTIMA E OS FANÁTICOS

No país da caretice contagiosa, o fanatismo religioso continua em ação. Em Brasília, as vítimas da vez são o artista plástico Francisco Galeno e a Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, conhecido cartão postal da cidade. Um grupo de católicos comprou uma briga contra as pinturas de Galeno no interior do templo. Não são apenas ações de censura. Na última segunda-feira, 21 de julho, um agressor, protegido pelo anonimato, rabiscou as obras de Galeno com caneta esferográfica.

A igrejinha de Nossa Senhora de Fátima
é um dos símbolos da arquitetura de Brasília. Projeto de Oscar Niemeyer, localiza-se na entrequadra 307/308 sul e foi inaugurada em 1959, um ano antes da própria cidade. Sua fachada é decorada com azulejos de Athos Bulcão, constantemente agredidos por atos de vandalismo, como aconteceu recentemente em conseqüência de um incêndio mal-explicado.


O interior possuía
originalmente afrescos de Alfredo Volpi, com suas tradicionais bandeirolas. No entanto, uma reforma irresponsável, realizada na década de 60, cobriu as paredes com tinta e a obra de Volpi se perdeu definitivamente.


Estão sendo realizados trabalhos de restauração, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan) escolheu Francisco Galeno para fazer uma nova pintura no interior. Ele se inspirou no próprio Volpi, e fez um projeto bonito, singelo, quase infantil: a Nossa Senhora de Fátima, com o rosto não identificável, se apresenta entre pipas e bandeirinhas.

“Essa gente não acredita
em Deus nem na arte”, reclama Galeno, referindo-se aos detratores de seu trabalho. “O fanatismo torna as pessoas cegas.” Para explicar sua pintura, ele lembra que, segundo a tradição católica, Nossa Senhora apareceu para três crianças da cidade de Fátima, interior de Portugal. “Essas crianças eram pastoras, tinham uma vida difícil, mas certamente também brincavam”, afirma ele.


O tom alegre dos desenhos
de Galeno incomoda os fanáticos, que preferem identificar a religião com a dor, a culpa e o martírio. Contra o tradicionalismo, pesa o fato de que a Igrejinha é um dos símbolos da modernidade e do futurismo de Brasília, e ela não é propriedade deste ou daquele grupo religioso. Recebe não apenas católicos intolerantes, mas também turistas e visitantes da cidade, do país e do mundo.


A Igrejinha fica aberta diariamente, de manhã e à tarde, o que a torna vulnerável à agressão e intolerância. Dizem que Deus é onipresente e tudo vê, mas por via das dúvidas vão instalar umas câmeras para vigiar o ambiente.

Há um abaixo-assinado na internet em apoio à obra de Galeno. Acesse
aqui.

OUVIR LEONARD COHEN

Assim como o amor depende de uma química que envolve todos os sentidos, também a música provoca uma reação em nossos neurônios, causando reflexos nos batimentos cardíacos. Como explicar esse poder que a música e seus elementos - melodia, ritmo, palavras - exerce sobre nossas estruturas físicas e psíquicas?

Não explique - mergulhe. Por exemplo, ouça Leonard Cohen. Entregue-se às canções desse bardo canadense, que completa 75 anos em setembro e tem se apresentado nos Estados Unidos e Europa com um megashow de quase três horas de duração, gravado neste precioso CD recém-lançado no Brasil - "Live in London".

Deixe-se envolver por essa música inexplicável, moldada por poemas de grande intensidade, cantados, quase declamados, por sua voz ao mesmo tempo áspera e doce, que você nunca vai se cansar de ouvir.

FESTA À FANTASIA

Você passa um período fora do Brasil e ao retornar a realidade lhe dá um soco na cara. O choque vem da mesmice das notícias. O governo de joelhos alisa as botas do PMDB. O Brasil inventou uma expressão - "governabilidade" - para justificar o rateio do saque. Assim, aos bandidos e corruptos são entregues as chaves dos cofres para que o país se torne governável. O Senado e a Câmara dos Deputados se revezam no banho de pocilga. O presidente da República comparece a encontro de líderes mundiais para distribuir camisas da seleção brasileira e mostrar que no Brasil só o futebol é levado mais-ou-menos a sério. O "supremo" tribunal federal extingue a profissão de jornalista e o coronel matogrossense Gilmar Mendes compara essa atividade à de cozinheiros e costureiros. Nosso presidente compara os senadores aos pizzaiolos. A política externa brasileira presta apoio a ditadores e governos ilegítimos e transgressores. E até os estudantes, que sempre mantiveram acesa a chama da rebeldia e do inconformismo, agora lambem as barbas do governo, com sua entidade oficial entulhada de dinheiro do contribuinte.

Então ficamos assim: o coronel se traveste de juiz, os jornalistas se travestem de cozinheiros e costureiros, os bandidos se tornam guardiões da democracia, o presidente da República se traveste de enviado de Deus para salvar o Brasil e o mundo, os estudantes se travestem de sindicalistas pelegos. Isto não é uma nação, é uma festa à fantasia. De fora do castelo, os não-convidados chafurdam no lixo.

O ÚLTIMO SHOW DE ZÉ RODRIX

A TV Brasil, conhecida por aí como "a TV do Lula", apresentou ontem, quarta-feira, 27, no programa Cena Musical, o que teria sido o último show gravado pelo músico Zé Rodrix, que morreu no dia 22. Ao lado de seus parceiros Sá e Guarabyra, Rodrix interpretou os eternos sucessos do trio, agora que está para ser lançado um novo CD de canções inéditas do grupo. O show gravado pela emissora incluía trechos de entrevistas dos músicos. Foi emocionante. O ponto fraco do programa é a péssima qualidade sonora da TV Brasil. Parece que o dinheiro público investido no equipamento da emissora foi insuficiente... Ou será que uma parte dos recursos tomou outros destinos?

ZÉ RODRIX ERA UM GRANDE CARA

O dia começou com má notícia: a morte do músico Zé Rodrix. Sá, Rodrix e Guarabyra fizeram a trilha sonora da minha vida, a começar pela Primeira canção da estrada, que parecia falar de mim - "Eu tinha apenas 17 anos / no dia que saí de casa / e não fazem mais de quatro semanas / que estou na estrada". Quando completei um mês de Belo Horizonte, aos 17 anos, ouvi essa música o dia inteiro. Ela nunca mais parou de tocar.

Nessa época, Elis Regina gravou Casa no Campo, de Zé Rodrix e Tavito. Irônico, criativo, lírico, sarcástico, Zé Rodrix sabia captar em sua poesia o lado inusitado das coisas banais, ou revelar o ridículo das coisas sérias. Mas também abordava com lirismo alguns temas universais.

Depois Zé Rodrix se afastou do trio e eu continuei seguidor de Sá e Guarabyra. Até que em 2001 Zé Rodrix voltou a se unir ao grupo. Eles gravaram um CD, Outra vez na estrada, cheia de canções memoráveis e novas canções surpreendentes - entre elas, uma de suas obras-primas, Jesus numa moto.

Em janeiro, fizeram em Brasília um show de pré-lançamento do CD novo, Amanhã, que misteriosamente ainda não chegou às lojas. Cantaram todas as músicas do novo disco e estavam num astral ótimo, entrando numa nova fase da carreira, num daqueles recomeços que dão toda energia ao impulso criativo.

O Brasil perdeu um grande cara, criativo, e nossa música ficou mais pobre. Espero que Sá e Guarabyra, que voltarão a ser dupla por força da fatalidade, não se abalem e sigam em frente.

BRASÍLIA, O LIXO E OS TURISTAS


Cento e sessenta toneladas de lixo, segundo o Serviço de Limpeza Urbana (SLU); 21 esfaqueados, sendo um morto, segundo a Polícia Militar; presença de mais de um milhão de pessoas, segundo o Governo do Distrito Federal, que despendeu R$ 10 milhões para transformar a Esplanada dos Ministérios, área nobre de Brasília, numa gigantesca muvuca. Não dá para entender o sentido de uma bagunça desse porte. O governo local está empenhado em atrair turistas para Brasília, uma cidade tombada pela Unesco como patrimônio da humanidade graças à beleza e leveza de sua arquitetura. Será que turistas do Brasil e do mundo vêm a Brasília em função dessa festa?

LÁ SE FOI UM AMIGO

Conheci o jornalista Kido Guerra na redação do Jornal de Brasília, em 1982. Depois voltamos a trabalhar juntos, entre 1985-87, no Jornal do Brasil, onde fiz bons amigos e tive a mais rica experiência profissional de minha vida. Kido tinha a idade de Brasília e total identidade com a cidade, e sobre ela compôs canções, escreveu crônicas e reportagens deliciosas. Nascido no Rio, vivia em Brasília desde um ano de idade.

Na foto que ilustra esta postagem, Kido, à esquerda, me apresenta algumas cervejas belgas, entre elas a irresistível Westmalle, feita por monges trapistas. Estávamos em Louvain-la-Neuve, Bélgica, onde ele viveu de 1993 a 1996 e me recebeu durante dois dias no pequeno apartamento em que morava com a esposa, Tânia. Nessa ocasião, Kido me apresentou algumas canções que havia composto sobre poemas que lhe cedi quando ele deixou o Brasil.

Na volta, no fim de 1996, Kido mergulhou em atividades profissionais e me informou que música, a partir de então, seria só para relaxar. Lamentei a decisão, pois Kido tinha talento, que demonstrou nos anos heróicos de Brasília - quando a cidade era um deserto decorado por um prédio aqui, outro ali - e depois, já repórter do Jornal do Brasil, quando uma vez por semana se apresentava num bar da Asa Norte ao lado de Ney Flávio Meirelles.

De Louvain-la-Neuve eu trouxe um presente precioso, que guardei com carinho - uma gravação em fita cassete, voz e violão, de nossas incipientes parcerias. Kido era uma pessoa generosa e eu o considerava um amigo. Soube com dois dias de atraso que ele não estava mais entre nós. Este texto é uma tentativa de prestar-lhe uma homenagem, aquela inútil homenagem que nos sentimos tentados a fazer, como se pudéssemos operar algum milagre.

OS 49 ANOS DE BRASÍLIA [4]

Brasília terá uma programação alternativa para a festa dos 49 anos, que reunirá artistas da cidade - de todos os estilos. Essa festa, bem mais recomendável que a oficial da Esplanada, acontece no sábado, 18, e domingo, 19, na Torre de TV. Em ambos os dias, começa às 10h e segue até 22h30.

Destaques:
Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional (sábado, 18h), Liga Tripa (foto - sábado, 19h), Mapati (domingo, 10h), Bumba meu boi do Seu Teodoro (domingo, 13h), Brazilian Blues Band (domingo, 19h40), Móveis Coloniais de Acaju (domingo, 21h) e Plebe Rude (domingo, 22h).


Apesar dos bons nomes
reunidos, faltou ao GDF inspiração para uma programação realmente criativa, com ocupação de diferentes espaços e eventos artísticos mais diversificados.

OS 49 ANOS DE BRASÍLIA [3]

Você, que vive em Belo Horizonte, São Paulo, Ribeirão Preto, Uberlândia, etc, etc, sairia de sua cidade no feriado para vir a Brasília ver um show da Xuxa ao ar livre?

Os grandes pensadores
do governo do DF acreditam que sim. Acham que pagar R$ 500 mil para a decadente "artista" fingir que canta seu playbacks no alto de um palco na Esplanada vai encher Brasília de turistas.


A multidão que deverá comparecer aos gramados (e enchê-los de lixo, mijo e merda) não é formada por turistas. É formada por moradores das várias cidades que compõem o Distrito Federal e seu entorno. São pessoas que buscam lazer barato. São pessoas que não têm opção de lazer, entretenimento e cultura, a não ser a tediosa televisão.

O governo do DF
não tem política cultural. Não investe em bibliotecas, centros culturais. Não incentiva o aparecimento de artistas entre a juventude da periferia. Não mantém uma política de formação de música, de artes plásticas, teatro. Não investe em política de incentivo à leitura. Não compreende que a arte é o melhor remédio para combater a ociosidade, a droga e o crime.


É por isso que a Esplanada
ficará lotada para ver Xuxa e os bregas que comemorarão os 49 anos de Brasília.


Apoiar a cultura não é
necessariamente lotar o palco com artistas que moram na cidade, embora muitos deles mereçam uma chance de se apresentar a seu público.


Apoiar a cultura é
estimular as atividades culturais entre a população, para que todas as pessoas entendam que a vida é muito mais que lutar o dia inteiro pela sobrevivência e à noite amortecer diante das novelas da Globo (ou mediocridades que tais).

OS 49 ANOS DE BRASÍLIA [2]

Ao desperdiçar dinheiro contratando artistas medíocres, bregas, representantes do mais asqueroso lixo cultural brasileiro, para as comemorações do 49o. aniversário de Brasília, o governo do Distrito Federal nega à população da cidade a oportunidade de uma festa de alto nível.

Os festejos deste ano
terão, além de Xuxa e Cláudia Leite, duplas breganejas e algumas outras bobagens, como demonstração de motocross (será que vão sacrificar os gramados?) e cavalhada. Toda a programação é pensada pela Brasiliatur, empresa vinculada à Secretaria de Desenvolvimento e Turismo. A Brasiliatur está sendo investigada pelo Ministério Público e pelo Tribunal de Contas.


A Secretaria de Cultura não participa porque a Secretaria de Cultura não existe. Há algum tempo, o virtual secretário, Silvestre Gorgulho, declarou que a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional é uma das melhores orquestras do mundo. Então por que não dão a oportunidade ao povo de Brasília de ouvir sua orquestra, ao ar livre?

No ano passado
, Brasília foi eleita a Capital Latino-Americana da Cultura. Eleita é modo de dizer. O governo local comprou o título, para divulgar o nome da cidade e atrair turistas. O governo não sabe que turistas, especialmente internacionais, não são burros.


O que aconteceu nesse ano
em que Brasília foi a Capital Latino-Americana da Cultura? O único evento digno de nota foi a Bienal Internacional de Poesia, que aconteceu graças aos esforços do diretor da Biblioteca Nacional de Brasília, Antonio Miranda, ao apoio de algumas embaixadas e à parceria com órgãos federais. A Bienal de Poesia aconteceu apesar do governo do DF, e não graças ao governo do DF.


O que seria necessário
para atrair turistas, o governo local continua não fazendo. Manutenção permanente de nossos monumentos. Transporte público decente, pontual, seguro e com informação de percursos. Sinalização abundante. Abertura de monumentos e palácios para visitação. Melhora dos acervos de museus e galerias, hoje abandonados. Preparo e educação de funcionários. E colaboração da iniciativa privada. Afinal, o atendimento em estabelecimentos comerciais, de todas as espécies, de butiques a restaurantes, é disparado o pior do Brasil.

OS 49 ANOS DE BRASÍLIA [1]

O governo do Distrito Federal vai pagar R$ 500 mil para a Xuxa (que não se pode classificar como cantora, atriz ou artista) subir num palco, no dia 21 de abril, e cantar com playback. Como se sabe, Xuxa só canta com playback, ou seja, ela finge que está cantando, enquanto a platéia de idiotas ouve a gravação da voz dela, com as desafinações corrigidas tecnologicamente.

Este é o "grande evento"
programado para as comemorações de aniversário de Brasília. A platéia também ouvirá Cláudia Leite, brega da axé music. A moça receberá R$ 450 mil, e assim já se vão R$ 950 mil da festa dos 49 anos.


Gente idiota é o que mais
existe no mundo e, em particular, no Brasil e, mais especificamente ainda, em Brasília - assim parece pensar o Governo do Distrito Federal. Nesse aspecto, não deixará de ter razão, se conseguir o que pretende - reunir 1 milhão e meio de pessoas para ver as grandes atrações da festa.


Os mentores dessa aberração
comemorativa são o governador José Roberto Arruda e o vice Paulo Octávio.


O presidente da Brasiliatur
, empresa do governo vinculada à Secretaria de Turismo, Rôney Nemer, deixou o cargo na semana passada, às vésperas do aniversário da cidade. Há rumores de que ele se recusou a pagar metade do cachê de R$ 800 mil para o obscuro "cantor" baiano Edu Casanova para divulgar Brasília em Salvador (essa é outra aberração de que falarei depois).

No dia 8 de abril, quarta-feira, Nemer participou da divulgação da programação dos eventos comemorativos dos 49 anos. Demissionário ou não, ele é tão cara-de-pau quanto Paulo Octávio, que acumula o cargo de secretário de Desenvolvimento e Turismo. Tanto que exibiram sorrisos amarelos para contar a glória de gastar quase R$ 1 milhão com Xuxa e Cláudia Leite.

E a Secretaria de Cultura
, como fica nessa história?


É uma ilusão de ótica
. Seu titular, Silvestre Gorgulho, não é da área, nada entende de cultura, e não passa de um fantoche da área de turismo do GDF. A política cultural do governo Arruda simplesmente não existe, mas o Silvestre circula com orgulho em quase todos os eventos que o pessoal do turismo inventa para fins culturais. Como bom carneirinho, ele balança a cabeça.

Veja aqui.

ADEUS, CALIANDRAS!!

Em desabafo poético, o ator e escritor Adeilton Lima apresenta dois lados de Brasília: o romântico, que se esconde no passado, e o real, que parece apontar para o futuro... Com a publicação deste texto, este blog faz uma homenagem ao amigo Adeilton Lima e dá uma cutucada comemorativa nos 49 anos de Brasília, na esperança (?) de que os 50 anos nos reservem uma comemoração mais digna.
Velhos tempos os de Eduardo e Mônica, personagens da canção de Renato Russo. Eles iam ao Parque da Cidade passear, à Cultura Inglesa ver um filme, à Escola Parque assistir a uma peça de teatro, e também ao Teatro Galpão, não perdiam o Concerto Cabeças, etc. Tempos em que podiam jogar uma conversa fora embaixo do bloco onde moravam; ou mesmo, sem qualquer preocupação, pegar um ‘busão’ e se mandar para Taguatinga para acompanhar a programação do Teatro Rola Pedra.

O romantismo acabou. A cidade cresceu, ou melhor (pior), inchou. Foram tantas as doses de botox político nos currais eleitorais do Centro-Oeste, que hoje quase não se reconhece mais o velho Distrito Federal doutros tempos, agora obeso, maltrapilho e jogado na sarjeta. De tempos em tempos, alguém se lembra de lhe dar um prato de sopa, sob o viaduto fedorento, frio e desnudo da miséria, das drogas e da violência.

Vive-se hoje em Brasília, e no Distrito Federal como um todo, na base da paranóia coletiva, com o medo constante da própria sombra, e cada vez mais as pessoas se vendo trancafiadas atrás de grades, alarmes e câmeras de segurança, etc. Isso, para os que têm dinheiro, porque quanto ao pobre, ele continua sofrendo discriminações e estupros no bolso, na carne e na alma. Se de um lado, o trabalhador é assaltado pelo político, por outro, levam-lhe as parcas economias numa esquina qualquer da cidade que não tinha esquinas...

Investir em cultura e educação ninguém quer, não dá voto, não dá lucro. Preferem inaugurar postos policiais de fachada para “combater a violência”. Tudo tão medíocre e hipócrita quanto o choro de Joaquim Roriz ou de José Roberto Arruda na tribuna do Senado.

Brasília está tão descaracterizada que Eduardo e Mônica soam distantes e amarelados na memória, como o gramado nos tempos da seca. A cidade está secando moral, cultural e politicamente. O bom gosto, a irreverência e o rock se foram.

Imperam agora a violência, os playboys e o axé music.

Adeus, caliandras!


Adeilton Lima mantém o blog Transe Teatro.

FORA DO AR

Este blog ficou inacessível desde o sábado, 28 de março, até ontem, 31, terça-feira, devido a problemas técnicos nos servidores. A interrupção reduziu a quase zero a visitação, que vinha crescendo diariamente há alguns meses. Peço desculpas aos internautas e convido para novas visitas, agora que o problema está sanado.

LEMBRANDO CECÉU

O poeta Castro Alves será o homenageado da segunda edição do projeto Palavra Solta, que será realizado nesta sexta-feira, 13 de março, no Café Martinica , em Brasília. Uma vez por mês, um grupo de poetas se reúne no Café para homenagear um autor clássico brasileiro e apresentar versos de sua própria autoria.

Angélica Torres, Ariosto Teixeira, Ana Ramiro, Carla Andrade, Fernando Marques e Ivan Sérgio, sob a coordenação deste escriba que lhes escreve, ocuparão o palco do Palavra Solta para uma apresentação de cerca de uma hora. O projeto Palavra Solta dá continuidade aos saraus do Poemação, evento realizado dentro da programação da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, em setembro do ano passado, que levou muita gente a bares e cafés da cidade.

O Palavra Solta começa às 21h. O Café Martinica fica na Comercial da 303 Norte, bloco A. Apareçam por lá. A poesia falada é um ótimo programa de sexta-feira.

PROGRAMA LEITURAS

A poesia foi o tema do programa Leituras, da TV Senado, no último domingo. Durante 20 minutos, conversei com o jornalista Maurício Melo Júnior sobre meus livros, meu método de trabalho e minhas concepções sobre poesia. A bolsa Funarte de Criação Literária foi outro tema que discutimos.

Quem se interessar, ainda tem duas chances, no próximo sábado, 14, para ver o programa - às 9h30 e às 20h. E é bom lembrar que a 14 de março se comemora o Dia Nacional da Poesia. Agradeço a atenção de quem assistiu a entrevista e aos que a comentaram. Vai também um agradecimento especial a Maurício Melo Júnior e à equipe de produção do programa pelo espaço que me deram.

POESIA NA TV SENADO

O programa Leituras, da TV Senado, apresenta neste domingo, 8 de março, uma entrevista que concedi ao jornalista Maurício Melo Júnior sobre meu trabalho literário. Há uma apresentação às 8h e uma às 20h30. O Leituras é dividido em duas partes: uma de resenhas de livros e uma entrevista de cerca de 20 minutos.