MONTEIRO LOBATO, RACISTA?


No futuro, quando o Brasil tiver evoluído, educado melhor sua população e se aproximado da civilização, a cena que você vê na foto acima se tornará piada de salão.

Contam os anais do Vaticano que, num passado distante, a alta cúpula da Igreja católica se reuniu durante vários dias para discutir qual era o sexo dos anjos. Ao final da longa maratona de debates, sem chegar a qualquer conclusão, decidiram que os anjos não têm sexo.

A expressão “discutir o sexo dos anjos” se tornou, desde então, sinônimo de discussão infrutífera, sem importância.

No Brasil do futuro, caso o país consiga evoluir, a expressão “discutir o racismo em Lobato” será sinônimo de debater questões inócuas - ainda que a reunião que você vê na foto possa trazer graves consequências. 

Um grupo de advogados preocupados com o racismo decidiu levar ao Supremo Tribunal Federal, a mais alta corte do país, a descoberta de um mestrando em educação na Universidade de Brasília, o técnico em Gestão Educacional Antônio Gomes da Costa Neto. Segundo ele, o livro Caçadas de Pedrinho, um clássico da literatura infantil brasileira, é racista. Por causa dessa ideia, há quem defenda a proibição do livro.

O atraso do Brasil em educação é tão grave que educadores como Costa Neto e alguns integrantes do Conselho Nacional de Educação simplesmente não sabem, não têm noção, do que é literatura.

Literatura não é educação moral e cívica. Não é cartilha escolar. Não é manual de instruções para injetar informação na cabeça de crianças.

Literatura é arte! Será que esse pessoal sabe o que é isso, arte?

A coisa chegou a tal ponto que pessoas supostamente intelectualizadas decidiram levar ao banco dos réus, repito, na mais alta corte do país, um autor clássico da literatura brasileira, Monteiro Lobato.

Muitas gerações descobriram o prazer da leitura com livros de Lobato. Será que todos esses leitores se tornaram racistas?

Racismo é consequência da ignorância, professor. E o melhor remédio contra a ignorância é a leitura. De autores clássicos, mais ainda.

Será que os professores que ensinam nossas crianças estão levando a elas a poesia de Carlos Drummond de Andrade, de Manoel de Barros, de Manuel Bandeira, de Ferreira Gullar?

Em audiência no Supremo, representantes do Ministério da Educação e do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara) concordaram em discutir novamente em 25 de setembro as questões levantadas pelo “racismo” em Lobato. Entre as quais, as relações étnico-raciais em livros adotados pelo sistema de ensino.

Mais importante que o resultado dessa discussão é perceber que, enquanto a literatura não for vista com seriedade nas escolas, a ignorância tende a se alastrar.

Foto: Portal do STF

6 comentários:

Ana Lis disse...

Adorei, Zé! Bom demais o texto, as ideias...

Carla Berigo disse...

Gostei viu, vc falou tudo quando a literatura é uma arte.
E como as pessoas estão reividicando direitos não?
É o cúmulo, o pior de tudo e que Monteiro Lobato não pode nem se defender...rsrs

Rovênia disse...

Concordo, Alexandre. A minha primeira atitude diante dessa polêmica infundada foi comprar o livro Caçadas de Pedrinhas. Vou lê-lo com minhas filhas. O clássico é uma forma de conversar com elas sobre a história da sociedade brasileira diante de temas como bullying, preconceito e racismo. Uma lição sem necessidade de veredito!

Paulão disse...

Que primeiro parágrafo infeliz: No futuro, quando o Brasil tiver evoluído, educado melhor sua população e se aproximado da civilização, a cena que você vê na foto acima se tornará piada de salão.

E quem garante que o futuro é o paraíso? Esse país já teve um Machado de Assis e hoje não temos nada, é de uma infantilidade atroz achar que o futuro necessariamente será melhor que o presente. A não ser que você pense como o deputado: pior que tá não fica, mas aí...

Alexandre Marino disse...

Caro Paulão: o primeiro parágrafo é uma ironia, uma figura de linguagem que parece ser cada vez menos entendida no Brasil. Na verdade, tenho dúvidas se a educação brasileira evoluirá em alguma direção. Além disso, tenho uma teoria: o futuro não existe. Mas isso precisarei de muitos parágrafos para explicar.

Paulão disse...

Ironia é dizer o contrário do que pensa. Também é ilógico, pois não dá para prever o futuro de antemão. Se vai ser um ambiente de alta cultura ou a lama total, como saber? Mas como o futuro é uma ilusão, pra que discutir isso, não é?