[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 2

Lançamos em março de 1973 a segunda edição da revista literária Protótipo, que a essa altura da vida já reunia uma coleção de histórias, muito além daquelas narradas em contos e poemas com que preenchemos suas 70 páginas. A primeira novidade apresentada neste número era o formato, 21 x 15 cm, metade da primeira edição. Entre uma e outra, alguns de nós conquistamos prêmios literários, viajamos, conhecemos gente interessante, a literatura era um mundo novo que abria suas portas. 
 

Com capa de Antonio Barreto, assim como o primeiro número, Protótipo se apresentava como “revista literária de Passos”. O expediente informava que a revista era “idealizada e editada por jovens de 16 a 20 anos, pertencentes ao Grupoema (bando de chimpanzés criadores em busca do meteoro incandescente ou passarinhos do quintal com fome de prosa e verso)”. 

A cidade de Passos, sudoeste de Minas Gerais, parecia manter a perplexidade com que recebeu a Protótipo, que circulou pela primeira vez em dezembro de 1972. Ao abrigo da União Passense dos Estudantes Secundários (Upes), nós, aprendizes de escritores, estávamos cheios de disposição para mostrar nossa literatura aos conterrâneos, e até mesmo fora dos limites da cidade e do estado. O comércio local apoiou com patrocínio e material – Ótica Santa Luzia, Casas Buri, Bazar Americano, Casa das Máquinas, Dragão dos Pneus eram alguns dos estabelecimentos que viabilizaram a edição.

Mas a grande colaboração recebida pelo grupo foi um texto do professor de Português de maior prestígio na cidade, Francisco Soares de Melo, publicado no jornal local O Sudoeste. “Trabalho de vanguarda, procurando abrir caminho novo neste ´mare magnum´ que é o movimento artístico atual”, disse o professor Chiquito, como era conhecido, referindo-se à primeira edição de Protótipo. Ao comparar a revista passense com a Verde, de Cataguases, também em Minas, que revelara, décadas antes, escritores como Rosário Fusco e Ascânio Lopes, ele dizia que “como esta marcou época e lançou escritores (...), o mesmo poderá acontecer com Protótipo, se esses moços encontrarem apoio e orientação que merecem.” O artigo foi republicado na contracapa da segunda edição de Protótipo.

A impressão da revista era precária. Os textos eram datilografados sobre estênceis de mimeógrafo a tinta, e as ilustrações exigiam habilidade e paciência, porque não eram feitos a lápis, mas a estilete, com os quais os estênceis deviam ser perfurados. O mesmo processo dava origem aos textos. Os tipos das máquinas de escrever perfuravam as matrizes, ao se datilografar sem o uso das fitas. Esta segunda edição talvez tenha apresentado uma das melhores seleções de contos e poemas da primeira fase da revista, mas foi certamente a de pior qualidade gráfica. Tudo por culpa da minha máquina Olivetti Studio 44, novinha, que eu ganhara de presente de minha mãe e que durante anos foi minha ferramenta literária. Os tipos dela eram muito bonitos, porém pequenos, o que prejudicou a perfuração dos estênceis, tornando a impressão cheia de falhas. 


Nesta edição, nosso grupo começou a se abrir para outros colaboradores, como o paranaense Rui Werneck de Capistrano e o baiano Daniel Cruz Filho. Quando nos reunimos no salão da Upes para selecionar os textos, as cópias enviadas por Rui Werneck circularam de mão em mão, não só para leitura, mas também porque queríamos ver de perto o resultado da reprodução nas máquinas xerox. Creio que na cidade só existia uma dessas máquinas, e para fazer cópias usávamos o papel carbono.

Eis aqui a relação completa dos autores publicados nesta segunda edição da Protótipo: Antonio Barreto, Marco Tulio Costa, Alexandre Marino, Paulo Regissilva, Iran Machado, Carlos Parreira, Ricardo Donabella, Carlos Parada, Rogério Daniel, Rui Werneck de Capistrano e Daniel Dias Cruz Filho. Turma danada de boa! 


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