[estante afetiva] POESIA EM MOVIMENTO

O poeta Alberto Bresciani fez sua estreia em livro sem pressa, como se aguardasse o tempo suficiente que o qualificaria para dialogar com o leitor. Em Incompleto movimento, lançado em 2011 pela Editora José Olympio, ele finalmente estabelece esse diálogo, com uma poesia concisa e de alta densidade. Consciente de que sempre há de faltar um gesto para completar o movimento, Bresciani  adverte, logo no início, que se é “inútil, tão inútil / esse discurso frágil // Em silêncio, todavia, / um sol oculto no corpo”.

O conflito com o tempo é matéria-prima com que Bresciani compõe seus poemas, de intensa lapidação. “Tardio ainda assim / eu me invento”, afirma em Sorte, para depois advertir que no silêncio “calo o medo e todo corte”. Entre os elementos comuns aos poemas do livro, pode-se encontrar, além do tempo, o corpo e suas extensões – que começam na casa, como ambiente, e vão até o rosto e as mãos, expressão e gesto – e a natureza com seus elementos, que ele torna sempre palpáveis – o vento, a água, os peixes, os pássaros, a luz. Além de nossas tentativas de voos, que eventualmente redundam em naufrágios.

Do início ao fim do livro, o leitor que atentar para as palavras e deixar fluir as sensações despertas pela poesia há de intuir que Bresciani busca, além e no fundo, a essência. A essência da matéria da poesia, que é a própria poesia. Essa busca está exposta naquele que é a síntese e, talvez, o melhor poema do livro, Miragem – “Somos ficção / Simulamos o invisível / e a imagem // no reflexo do espelho – ali nada há / como nada somos // Onde encontrar / a verdade / ou a real essência // desses fantoches / de nós mesmos / se os mistérios // não estão em lugar / mas no que mais fundo / escondemos?”

Alberto Bresciani divide sua coleção de poemas em quatro porções de gestos – os que transfiguram, os que iluminam, os que atordoam e os que paralisam. O movimento será sempre incompleto, mas a leitura dos poemas estabelece um diálogo em moto contínuo, entre o poeta, que o prossegue, e o leitor, que pressente a poesia e é engolido pelo redemoinho que ela provoca.
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