[estante afetiva] O LIVRO LIVRO

Por que, entre milhares de títulos publicados a cada semana, a cada mês, este livro se chama justamente Livro? O leitor não espere que eu responda, não quero estragar-lhe uma das surpresas deste novo romance do português José Luís Peixoto. Também há outras, além de uma qualidade que já deixou de ser surpresa: o texto lapidado como um diamante, fluente, que puxa o leitor para dentro. 
 
A edição brasileira, da Companhia das Letras, mostra na capa um grafismo que lembra os azulejos portugueses. Apesar de algumas palavras desconhecidas que certamente encontrará, o leitor haverá de conviver com um mundo que pode parecer distante, mas ao mesmo tempo guarda surpreendentes semelhanças com sua própria realidade.

 
O romance começa na década de 1940 e atravessa as seguintes até os tempos atuais, acompanhando a história de personagens que lutam para desvencilhar-se de uma prisão invisível. Encontros e desencontros, fatos que não se completam, sonhos interrompidos, acasos, silêncios – muitos são os caminhos pelos quais o autor do belíssimo romance Cemitério de pianos conduz o leitor. 

 
Josué, Ilídio, Adelaide, Cosme, Lubélia, Galopim, Libânia e outros que nem têm nome tropeçam e seguem em frente, testemunhando momentos históricos sem saber ao certo o que vivem. Contando assim, parece comum, mas o leitor há de querer sempre a página seguinte. E quem poderia contar essa história? É a pergunta que se coloca na parte final da narrativa. 

 
De um vilarejo de Portugal, fotografado pelo narrador com riqueza de detalhes, até Paris, onde alguns desses personagens completarão suas histórias, o que se vê são pequenas vidas que, ainda que nada tenham de especial, de melhor ou de pior, deixarão sua marca no mundo, que nunca mais será o mesmo. E no leitor, que fechará o Livro, mas permanecerá dentro dele, e o levará consigo.


Mais um Livro que confirma: ler José Luís Peixoto é sempre um prazer. 
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