A MAIOR INVENÇÃO DA HUMANIDADE [1]

O livro é a maior invenção da humanidade. Desde os primórdios da História armazena o conhecimento, e as bibliotecas são o próprio símbolo da civilização. Sem o livro, é possível que algumas das grandes invenções não tivessem sido possíveis.

E no entanto, parece estar em curso uma campanha articulada para que, em pouco tempo, o livro, um organismo vivo que dialoga com os homens, seja extinto.

É impressionante a pressão exercida pela mídia, pela publicidade, pela indústria tecnológica, para nos convencer de que devemos trocar o livro tradicional pelas ferramentas eletrônicas – kindle, sony reader – que recebem o texto escrito pela internet e substituem as folhas de papel por uma tela, em que estão disponíveis comandos para mudanças de página e até para marcação de trechos do texto. Três ou quatro grandes empresas, nos Estados Unidos, Japão e Europa, desenvolvem esse equipamento e tentam vendê-lo ao mundo.

Uma pesquisa realizada durante a 61ª. Feira do Livro de Frankfurt, no mês passado, constatou a previsão de que o livro digital superará o de papel em 2018. Há controvérsias, é claro, a partir da velha constatação das desigualdades econômicas, que hoje, no Brasil, inviabilizam a comercialização do aparelho leitor, vendido a US$ 300 nos Estados Unidos. Mas naquele país a venda de livros digitais (e-books) superou os US$ 100 milhões em 2008, segundo dados da Associação Norteamericana de Editores (AAP). E a Alemanha registrou a venda de 65 mil aparelhos vendidos no primeiro semestre.

A loja virtual Amazon já conta com mais de 300 mil obras digitais à venda. Para as empresas, esse mercado pode ser extremamente vantajoso, já que o livro deixará de ser uma mercadoria para se tornar um serviço. O futuro que se vislumbra será o do cliente diante de uma máquina, apertando um botão e recebendo o livro virtualmente, contra o pagamento. Ao contrário da venda tradicional, iniciada quando a editora contrata uma gráfica, paga a impressão do livro, vende o objeto às livrarias, às quais o leitor se dirige para fazer a sua compra. Com variações, é claro.

Em 500 anos de história, o livro praticamente não mudou. Por quê? Porque é uma “máquina” perfeita, de fácil utilização, leve, pode ser levada a qualquer lugar, não precisa ser ligada, não requer prática ou habilidade, a não ser a de saber ler. E tem o apelo sensorial – ou você acha que o kindle pode ser acariciado e folheado da mesma maneira, em gesto quase sensual?

[clique para ler a segunda parte deste texto]

UM ROMANCE

Em Brasília, o livro a ser lançado esta semana é o romance Um, de Geraldo Lima, publicado pela LGE. O personagem principal é um ex-seminarista, dividido entre os caminhos do desejo e a vocação espiritual. Geraldo Lima observa que não se trata de livro religioso, e que o foco na crise do personagem é um recurso para dramatizar a narrativa. O lançamento será nesta quinta-feira, 12, na Saraiva Megastore, no Pátio Brasil Shopping, a partir das 19h30.

ESPELHO

Repasso o convite, a quem estiver em Belo Horizonte: o músico Eduardo Filizzola autografa nesta quarta-feira, 11 de novembro, seu romance Espelho de Volódja, no Espaço Cultural Terraço Leitura (Leitura Pátio Megastore - Av. Contorno, 6061, 3º andar - Savassi), a partir das 19h. O romance conta a história de um casal de artistas que recebe um presente inusitado: um espelho que não reflete imagens, mas pensamentos reprimidos. Um tema instigante. Lançamento da Editora Batel.

A POESIA NA CONTEMPORANEIDADE

Está circulando, em boas mãos, o livro Poesia: o lugar do contemporâneo, que reúne ensaios apresentados por especialistas convidados durante o Simpósio de Crítica de Poesia, um dos principais eventos da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília, realizada em setembro do ano passado.

O livro, organizado pela professora
e poeta Sylvia Cintrão, discute a crítica e o texto poético à luz da contemporaneidade, e põe a poesia em interação (ou confronto, em alguns casos) com gênero e memória, ensino e tradução, imprensa e mídia, entre outros temas. São diferentes olhares estéticos, por 27 especialistas das cinco regiões do país, além de três ibero-americanos.


Um dos pontos altos do livro,
sem dúvida, é a palestra apresentada pelo homenageado do Simpósio, o poeta Affonso Romano de Sant´Anna, durante a abertura da Bienal: As muitas vidas e muitas mortes da poesia, um texto antológico.


Este escriba também está presente
no livro, em honrosas companhias, com o texto A imprensa perdeu o que a poesia tem de melhor. Alguns dos autores publicados: Antonio Carlos Secchin, Alexandre Pilati, Anderson Braga Horta, Antonio Miranda, Elga Laborde, Fernando Marques, Rinaldo de Fernandes, Viviane Mosé, Wagner Barja, Maurício Melo Júnior, entre outros.


O livro tem 300 páginas
e ainda traz como encarte o CD Fale-me de amor, com poemas e canções do espetáculo apresentado pelo grupo VivoVerso, criado na Universidade de Brasília. Pode ser solicitado pelo endereço vivoverso@gmail.com, ao preço de R$ 25, com frete grátis.

A FEIRA DO LIVRO E OS 50 ANOS

A Feira do Livro de Brasília, agora anunciada para 21 a 29 de novembro na área externa do Pátio Brasil, é tema que desperta debates. O texto que escrevi aqui no dia 27 (veja postagem anterior) recebeu vários comentários, alguns diretamente por e-mail, o que significa que não estou autorizado a divulgá-los. Mas vou prosseguir a discussão.

Li uma entrevista do vice-governador Paulo Octávio em que ele conta que uma das atrações em negociação para a festa dos 50 anos de Brasília é um megashow com as três "rainhas da axé music", cujos nomes considero irrelevantes. Essa intenção comprova: mais importantes que eventos artísticos de alto nível são os eventos comerciais de mau gosto. Ele, que é político, pode dizer que isso faz sentido porque o lixo cultural atrai multidões e deixa o povo feliz. Eu não sou político e estou livre para combater a mediocridade.

Não acho a literatura superior à música, às artes plásticas ou outras manifestações culturais. Mas quando cito o exemplo de megashows da Xuxa ou de duplas sertanejas estou criticando a postura massificante dos administradores públicos, que preferem investir numa atitude conservadora e esquecem o risco revolucionário da arte enquanto produto da consciência, e não do mercado.

Sejamos claros: um show da Xuxa ou de uma dupla sertaneja (que eu prefiro chamar de breganeja para deixar bem clara a distinção da música caipira de raiz) são eventos mercantis, comerciais, e não artísticos. É claro que uma Feira do Livro poderá levar um visitante a entrar em contato com subliteratura, ou literatura produzida a partir de um impulso comercial ou de mercado, mas a feira também será a oportunidade, às vezes tão rara, para que pessoas sem acesso assistam uma palestra, participem de uma oficina, que poderão contribuir para a ampliação de seus horizontes culturais.

Não sou contra megashows. Mas uma atitude sincera do governo poderia partir de uma premissa como essa: "Se o povo não tem acesso a uma das maiores orquestras do Brasil, que é a do Teatro Nacional (na opinião do secretário de Cultura, já veiculada na mídia), então no aniversário da cidade vamos oferecer à população a oportunidade de ouvi-la."

Música breganeja o povo ouve no rádio. O lixo musical existe, sim, não é preconceito ou discriminação. O lixo existe e é imposto pelas gravadoras, pelas rádios, pela televisão, por ser de fácil assimilação e se tornar, mais facilmente, sucesso e, em conseqüencia, dinheiro. Muito dinheiro. O acesso ao lixo é fácil.

Grandes comemorações deveriam ter uma intenção mais nobre, a de levar ao povo que comparece ao evento, ao povo que não pode pagar, a oportunidade de contato com um evento realmente artístico, que o rádio, a televisão não lhe oferecem.

Recuso-me a aceitar que esta minha postura seja preconceituosa, embora tenha consciência de que é elitista, o que é muito diferente. Não tenho nada contra as elites artísticas ou intelectuais. Os grandes artistas são uma elite, os grandes cientistas são uma elite. E quando se fala da necessidade de investir em educação, fala-se da necessidade de conduzir o país a uma elite planetária.

No Brasil há um forte preconceito contra as elites, como se fossem todas farinha do mesmo saco, como algumas elites políticas, econômicas, privilegiadas e egoístas, que preferem saquear o país a investir em projetos para um futuro melhor para a sociedade.

E de saqueadores o Brasil está cheio.

FEIRA? LIVRO? BRASÍLIA?

Podem escrever: a Feira do Livro de Brasília não será realizada este ano. Seria a 28a. edição. Seria.

Feiras de livros são importantes
para estimular a leitura e aproximar escritores e leitores. Não são apenas um amontoado de barracas onde se vendem livros. São eventos onde ocorrem palestras, lançamentos, concursos, encontros.


A novela da 28a. Feira do Livro de Brasília
vem de longe. Havia sido marcada para a primeira semana de setembro, depois foi adiada para 16 a 25 de outubro, depois para 23 de outubro a 1 de novembro. Vai ficar para 2010 - se vier.


A Câmara do Livro do DF
precisa de dinheiro oficial para viabilizar a Feira. Nos últimos anos a Feira realizou-se em local inadequado e improvisado, os corredores externos do centro comercial Pátio Brasil. A previsão, este ano, era utilizar o cimentão armado do Conjunto Cultural da República para montar a Feira. A Câmara do Livro precisa de R$ 2,5 milhões para preparar a estrutura. O governo José Roberto Arruda prometeu R$ 700 mil. Já havia prometido para que a feira começasse a 23 de outubro, mas às vésperas o dinheiro não havia saído.


O secretário de Cultura (?)
do DF, Silvestre Gorgulho, garantiu aos livreiros: "A Feira vai acontecer, nem que seja na minha casa." Até parece. A diretoria da Câmara, que empurrou o problema com a barriga até chegar a hora da decisão, deu um sorriso amarelo. Até esta terça-feira, 27 de outubro, tudo permanece na estaca zero.


O evento é importante e o governo deveria ter interesse de contribuir. Mas governador, secretário e toda a turma nada entendem de cultura. No ano passado, eles (o governo) compraram de uma entidade qualquer o título de "Brasília, capital brasileira da cultura", com validade de um ano. Nada aconteceu, absolutamente nada, que pudesse lembrar à cidade o pretenso título. Como se título mudasse alguma coisa.

Nos 49 anos de Brasília,
comemorados em abril deste ano, o GDF teve o prazer de pagar R$ 950 mil para as "cantoras" Xuxa e Cláudia Leitte se apresentarem ao público. No aniversário de 50 anos vão torrar muito mais. Cultura, para o governo local, é isso: juntar uma multidão ao redor de cantores bregas para duas horas de show.


O jornalista Sérgio de Sá,
no Correio Braziliense de sábado, 24, foi incisivo. Lembrou que uma feira do livro "precisa ter conceito", e que a sociedade brasiliense, "desinteressada", precisa "decidir se a cultura é importante para a vida em comunidade ou se prefere se contentar com shoppings, bares, automóveis e nada mais".


Sérgio de Sá está certo.
Enquanto a Câmara do Livro dorme e deixa tudo na mão do governo, o governo prefere construir viadutos, massacrar o verde da cidade com rodovias e promover megashows de duplas breganejas para celebrar a cultura. É a capital do Brasil.

É o Brasil.

POESIA NA CONEXÃO MARINGÁ

A revista Conexão Maringá trata de literatura e arte e é publicada mensalmente na net. Na edição de outubro, este escriba comparece orgulhosamente, com alguns poemas do novo livro, Exília, ainda inédito.

Exília
foi um dos projetos vencedores da Bolsa Funarte de Criação Literária no ano passado.

NOBEL DE LITERATURA PARA HERTA MÜLLER

A escritora Herta Müller venceu o prêmio Nobel de Literatura este ano. Foi anunciado nesta quinta-feira, 8, pela Academia de Ciências da Suécia. Nascida em 1953 em Nitzkydorf, Romênia, vive na Alemanha. Segundo a Academia, Herta Müller consegue, "com a densidade da sua poesia e a franqueza da sua prosa, retratar o universo dos despossuídos". A escritora não fazia parte da lista de apostas citada na postagem anterior.

Ela tem um livro publicado no Brasil: o romance O compromisso, pela Editora Globo. Saiu em 2004. O livro parte de experiências pessoais para mostrar as adversidades que ela viveu na Romênia comunista.

NOBEL DE LITERATURA: FAÇAM SUAS APOSTAS

Amos Oz, Joyce Carol Oates, Antonio Tabucchi, Carlos Fuentes, Milan Kundera, Umberto Eco, Paul Auster, Philip Roth. Entre azarões e bem cotados balançam os corações dos membros da Academia Sueca – e dos apostadores ingleses. O Prêmio Nobel de Literatura deve ser anunciado entre os dias 6 e 12 deste mês (a Academia não divulgou a data exata), e a temperatura das casas de apostas em Londres está alta.

Apostar é uma das manias inglesas, assim como cuidar de jardins e acenar para a Rainha. Eles arriscam suas librinhas em corridas de cavalos, jogos de futebol, ciclismo, eleições e muitas outras modalidades. No ano passado, quando o francês Le Clézio ganhou a maior láurea da literatura universal, o favorito era o italiano Cláudio Magris, que agora está em sétimo, cotado a sete por um. O mais cotado para este ano é o isrealense Amos Oz: quatro por um.

Na extensa relação de possíveis ganhadores, divulgada por uma das principais casas de apostas de Londres, a Ladbrokes, há escritores da Argélia (Assia Djebar, 5/1), Japão (Haruki Murakami, 9/1), Espanha (Luis Goytisolo, 9/1, Juan Marse, 25/1), Nicarágua (Ernesto Cardenal, 100/1), Coréia do Sul (Ko Un, 12/1), Suécia (Thomas Transtromer, 12/1), Canadá (Margaret Atwood, 25/1), Estados Unidos (Thomas Pynchon, 9/1, Philip Roth, 7/1, Paul Auster, 100/1), México (Carlos Fuentes, 50/1), Peru (Vargas Llosa, 16/1), Holanda (Cees Noteboom, 20/1), Inglaterra (Don Delillo, 25/1), Síria (Adonis, 8/1), Áustria (Peter Handke, 20/1) e muitos outros países. Até um queniano (Ngugi wa Thiongo), que paga 25 por um. O português Antonio Lobo Antunes é muito citado, mas não está na lista.

Brasileiros? Nem pensar. Dizem que a Ladbrokes não aceita apostas em brasileiros, porque em caso de tamanha zebra a casa iria à falência. Bem, é um boato, mas boatos correm junto com apostas. Autores conhecidos e desconhecidos (aqui entre nós) freqüentam a lista. O músico e poeta norte-americano Bob Dylan é um deles, e sua vitória paga 25 por um. Está bem melhor cotado que seu conterrâneo Paul Auster (100 por um). Mas zebras acontecem, caso da britânica Doris Lessing em 2007.

Um amigo meu acredita piamente que Paulo Coelho será o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio Nobel – ele não me disse se costuma apostar. Mas como jamais ganhou prêmios literários, vamos pensar em outros nomes. Os prêmios mais badalados por aqui – Portugal Telecom, Passo Fundo, Camões, São Paulo, Jabuti (alguns dos quais são destinados a autores de língua portuguesa, não apenas brasileiros) – têm apresentado uma série de coincidências de nomes e figurinhas carimbadas.

De acordo com pesquisas do mercado livreiro, em 2007 foram publicados no Brasil algo em torno de 10 mil títulos de autores nacionais na rubrica obras gerais, onde entra literatura. Então, como se explica que meia dúzia deles são sempre os mesmos a disputar os prêmios? São muito melhores que os demais? Ou são produto do marketing pesado das empresas editoriais?

No ano passado, o paranaense Cristóvão Tezza ganhou todos os principais prêmios distribuídos no Brasil, com seu romance autobiográfico O filho eterno. Você apostaria nele para o Prêmio Nobel?

ESTRANHOS

O compositor Octávio Scapin faz neste domingo, 4 de outubro, em Goiânia, show de lançamento de seu CD Nunca converse com estranhos. Será no Cine Goiânia Ouro, às 20h. Octávio Scapin vem construindo uma obra musical muito interessante, com melodias elaboradas e letras que fogem ao lugar comum. Por isso, é bom prestar atenção no seu trabalho: quem não estiver em Goiânia pode conhecer algumas canções do novo CD pelo MySpace. Este escriba participa do CD com dois poemas que Octávio musicou. Está em ótima companhia.

TRIBUTO A AFONSO FÉLIX DE SOUSA

O poeta Afonso Félix de Sousa será o homenageado desta quarta-feira, 23, no programa Tributo ao Poeta, realizado pela Biblioteca Nacional de Brasília. Afonso morreu há sete anos, deixando uma poesia de grande força, "telúrica, lírica e mística", na definição de Antonio Carlos Secchin. A participação nesta homenagem me leva a um mergulho mais profundo em sua obra e me desperta a vontade de ler todos os seus livros. A pequena amostra que apresentaremos no evento nesta quarta-feira já revela alguns aspectos interessantes de sua poesia, especialmente para quem a lê em voz alta, tentando compreender seu complexo processo de criação e abrir o coração para a emoção veiculada em seus versos.

NASCER PELO AVESSO

Aí está o Paulo Tovar, personagem da história da música e da poesia brasilienses. É co-autor, ao lado de Aldo Justo, de Juriti ("Meu coração tem um desejo imenso / de ver o dia nascer pelo avesso / meu coração mão de pilão / tem um jeito do avoar"), que toda a moçada cantou junto com o grupo Liga Tripa nos anos 70/80, e continua cantando até hoje. Publicou vários livros de poesia, seus e de autores amigos, e tocou muitos projetos guiados por incurável inquietação. O último desses projetos a chegar às mãos de seu público, o CD H2Olhos, é uma leitura ensandecida do universo cultural brasiliense, a começar pela mistura de ritmos. Mas o incansável Paulo Tovar meteu o pé no balde: acuado por um câncer, refugiou-se em sua cidade natal, Catalão (GO), onde permanece para sempre. Brasília não o esquecerá.

ADEUS A ANTONIO OLINTO

A notícia da morte do escritor e acadêmico Antonio Olinto, ocorrida no sábado, 12 de setembro, causou-me tristeza. Com uma obra que abrange poesia, romances, ensaios, crítica literária e análise política, Olinto era também um especialista em história e cultura afro-brasileira. Durante cerca de 20 anos foi crítico literário do O Globo. Seus livros foram traduzidos para 19 idiomas. Não o conheci pessoalmente, mas guardo com orgulho o texto que ele escreveu em maio de 2006, em sua coluna no jornal carioca Tribuna da Imprensa, sobre meu livro de poemas Arqueolhar. Mais que os superlativos, o que me chamou a atenção foi a sua leitura cuidadosa e aprofundada, aquela que dá ao autor a sensação de que publicar o livro valeu a pena.

CORAÇÃO VAGABUNDO

O tempo trouxe maturidade e levou embora um tanto daquela arrogância que Caetano Veloso parecia gostar de exibir. Mas o gênio, o olhar aguçado, a sensibilidade e a capacidade de observação continuam afiados, a julgar pelo que se vê no documentário Coração Vagabundo, lançado nacionalmente no final de julho e ainda circulando pelos cinemas do Brasil.

O filme de Fernando Grostein Andrade
mostra momentos de intimidade do músico baiano durante turnês de lançamento do CD Foreign Sounds, em shows realizados em São Paulo e cidades dos Estados Unidos e do Japão (2003-2005). Chega a ser estranho ouvir Caetano falar de suas dificuldades com a língua inglesa ao enfrentar uma entrevista na televisão norte-americana. “Eu sou de Santo Amaro, e lá vivi até os 18 anos”, afirma ele. “Não sou de São Paulo, uma cidade com espírito cosmopolita.” Não é qualquer baiano que encara aquela gororoba japonesa que Caetano se esforça para provar, na cena mais hilária do filme.


Ao mesmo tempo, é emocionante
ver Caetano Veloso interpretar, em plena forma, clássicos do jazz ou os seus próprios, com destaque para Terra, uma das mais belas canções feitas no Brasil desde que o Festival da Record revelou o músico. E as manifestações de fãs ilustres, como o cineasta Pedro Almodóvar e o cantor David Byrne, só reforçam a experiência dos brasileiros privilegiados que acompanham sua carreira. Coisa que estrangeiros anônimos também aprenderam a fazer, como o monge que se declara fã, ou os japoneses que contorcem a língua para entoar trechos de suas canções.


Outro momento marcante do filme
é a rápida aparição do cineasta Michelangelo Antonioni, homenageado por Caetano com uma bela canção. Antonioni revê num computador um de seus grandes momentos no cinema, a cena final de Passageiro profissão repórter, enquanto conversa com a esposa sobre o músico brasileiro.


O documentário também mostra
que a produtora do filme, Paula Lavigne, ex-mulher de Caetano, é aquilo que sempre foi: uma chata. Na época, o casal estava em processo de separação e Caetano demonstra, em algumas passagens, não viver bom momento emocional. Agora que Caetano Veloso está livre de Paula Lavigne, quem sabe volte a criar um grande disco, como os que fez nos anos 70 e 80? Ao mostrar o grande artista que ele é, o filme nos reacende a esperança.

BOB DYLAN CHEGA PARA O NATAL


O cantor e compositor Bob Dylan lança em outubro um álbum de canções natalinas, Christmas in the heart. A notícia soa como algo inusitado mesmo na biografia de um artista em permanente estado de mutação, até que se expliquem algumas coisas.

Dylan vai doar todos os royalties sobre as vendas dessas gravações nos Estados Unidos para a ONG Feeding America, garantindo, somente nos feriados da virada do ano, mais de 4 milhões de refeições para 1,4 milhão de pessoas que passam necessidades naquele país. Além disso, ele contribuirá com duas entidades internacionais para atender milhões de pessoas carentes no Reino Unido e no mundo em desenvolvimento, e doará perpetuamente todos os royalties das vendas internacionais do álbum para essas entidades.

Para Dylan, "é uma tragédia que mais de 35 milhões de pessoas, somente neste país, sendo 12 milhões de crianças, vão para a cama com fome e acordem cada manhã sem saber onde será sua próxima refeição". Se na "terra da fartura" é assim, imagine aqui no sul do mundo...

A extensa obra de Bob Dylan rejeita rótulos. No entanto, suas canções de denúncia e protesto, que se tornaram clássicos, valem como contribuição para um mundo melhor. Afinal, é este o papel do artista: tocar nas feridas. Mas Dylan sabe que os podres poderes têm ouvidos moucos.

MAIS LIVROS NO MERCADO


A Câmara Brasileira do Livro (CBL) acaba de divulgar a pesquisa anual sobre produção e venda do setor editorial, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo. Um dos destaques foi a constatação do aumento do número de títulos publicados: 13,3%. Pela primeira vez, foi ultrapassada a marca de 50 mil novos títulos lançados em um ano.

Houve aumento
de 20% no número de exemplares, descontada a variação nos programas de compra do Governo Federal. Como se sabe, o livro didático é um livro para leitura compulsória, e por isso não deve ser considerado em interpretação de pesquisas sobre venda de livros e índices de leitura.


Também se deve às compras
governamentais o aumento do preço médio nominal de 8,4% dos livros, de 2007 para 2008, já que os livros para o ensino médio, com maior número de páginas, tiveram preço maior. Sem considerar os didáticos, a CBL entende que os preços tiveram redução de 3,68%, considerada a variação do IPCA no período. Contrariando, assim, a recente bronca do presidente Lula no setor livreiro, acusado por ele de subir os preços dos livros, apesar da desoneração do PIS e da Cofins sobre o livro, em 2004.

A SENHORA DE FÁTIMA E OS FANÁTICOS

No país da caretice contagiosa, o fanatismo religioso continua em ação. Em Brasília, as vítimas da vez são o artista plástico Francisco Galeno e a Igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, conhecido cartão postal da cidade. Um grupo de católicos comprou uma briga contra as pinturas de Galeno no interior do templo. Não são apenas ações de censura. Na última segunda-feira, 21 de julho, um agressor, protegido pelo anonimato, rabiscou as obras de Galeno com caneta esferográfica.

A igrejinha de Nossa Senhora de Fátima
é um dos símbolos da arquitetura de Brasília. Projeto de Oscar Niemeyer, localiza-se na entrequadra 307/308 sul e foi inaugurada em 1959, um ano antes da própria cidade. Sua fachada é decorada com azulejos de Athos Bulcão, constantemente agredidos por atos de vandalismo, como aconteceu recentemente em conseqüência de um incêndio mal-explicado.


O interior possuía
originalmente afrescos de Alfredo Volpi, com suas tradicionais bandeirolas. No entanto, uma reforma irresponsável, realizada na década de 60, cobriu as paredes com tinta e a obra de Volpi se perdeu definitivamente.


Estão sendo realizados trabalhos de restauração, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan) escolheu Francisco Galeno para fazer uma nova pintura no interior. Ele se inspirou no próprio Volpi, e fez um projeto bonito, singelo, quase infantil: a Nossa Senhora de Fátima, com o rosto não identificável, se apresenta entre pipas e bandeirinhas.

“Essa gente não acredita
em Deus nem na arte”, reclama Galeno, referindo-se aos detratores de seu trabalho. “O fanatismo torna as pessoas cegas.” Para explicar sua pintura, ele lembra que, segundo a tradição católica, Nossa Senhora apareceu para três crianças da cidade de Fátima, interior de Portugal. “Essas crianças eram pastoras, tinham uma vida difícil, mas certamente também brincavam”, afirma ele.


O tom alegre dos desenhos
de Galeno incomoda os fanáticos, que preferem identificar a religião com a dor, a culpa e o martírio. Contra o tradicionalismo, pesa o fato de que a Igrejinha é um dos símbolos da modernidade e do futurismo de Brasília, e ela não é propriedade deste ou daquele grupo religioso. Recebe não apenas católicos intolerantes, mas também turistas e visitantes da cidade, do país e do mundo.


A Igrejinha fica aberta diariamente, de manhã e à tarde, o que a torna vulnerável à agressão e intolerância. Dizem que Deus é onipresente e tudo vê, mas por via das dúvidas vão instalar umas câmeras para vigiar o ambiente.

Há um abaixo-assinado na internet em apoio à obra de Galeno. Acesse
aqui.

OUVIR LEONARD COHEN

Assim como o amor depende de uma química que envolve todos os sentidos, também a música provoca uma reação em nossos neurônios, causando reflexos nos batimentos cardíacos. Como explicar esse poder que a música e seus elementos - melodia, ritmo, palavras - exerce sobre nossas estruturas físicas e psíquicas?

Não explique - mergulhe. Por exemplo, ouça Leonard Cohen. Entregue-se às canções desse bardo canadense, que completa 75 anos em setembro e tem se apresentado nos Estados Unidos e Europa com um megashow de quase três horas de duração, gravado neste precioso CD recém-lançado no Brasil - "Live in London".

Deixe-se envolver por essa música inexplicável, moldada por poemas de grande intensidade, cantados, quase declamados, por sua voz ao mesmo tempo áspera e doce, que você nunca vai se cansar de ouvir.

FESTA À FANTASIA

Você passa um período fora do Brasil e ao retornar a realidade lhe dá um soco na cara. O choque vem da mesmice das notícias. O governo de joelhos alisa as botas do PMDB. O Brasil inventou uma expressão - "governabilidade" - para justificar o rateio do saque. Assim, aos bandidos e corruptos são entregues as chaves dos cofres para que o país se torne governável. O Senado e a Câmara dos Deputados se revezam no banho de pocilga. O presidente da República comparece a encontro de líderes mundiais para distribuir camisas da seleção brasileira e mostrar que no Brasil só o futebol é levado mais-ou-menos a sério. O "supremo" tribunal federal extingue a profissão de jornalista e o coronel matogrossense Gilmar Mendes compara essa atividade à de cozinheiros e costureiros. Nosso presidente compara os senadores aos pizzaiolos. A política externa brasileira presta apoio a ditadores e governos ilegítimos e transgressores. E até os estudantes, que sempre mantiveram acesa a chama da rebeldia e do inconformismo, agora lambem as barbas do governo, com sua entidade oficial entulhada de dinheiro do contribuinte.

Então ficamos assim: o coronel se traveste de juiz, os jornalistas se travestem de cozinheiros e costureiros, os bandidos se tornam guardiões da democracia, o presidente da República se traveste de enviado de Deus para salvar o Brasil e o mundo, os estudantes se travestem de sindicalistas pelegos. Isto não é uma nação, é uma festa à fantasia. De fora do castelo, os não-convidados chafurdam no lixo.