Um poema de Fernando Mendes Vianna


Soneto da ressurreição

Nas frondes do meu peito cantam pássaros
de descante quase congelado.
Primavera, neste amor renasço,
desfazendo o inverno do passado.

O vôo que me enleva rompe o espaço
da gaiola do viver domesticado,
e jorra um fluxo rubro sobre o aço
dos barrotes do canto jugulado.

Este amor tudo inunda. Apaga os traços
do meu rastro de nós, medos e laços.
Humo, espraia-se em mim de lado a lado.

Enfim me lanço à vida com meu brado
de bardo e bicho rubro no chão baço!
Amor nas mãos do estar, meu ser refaço.



Fernando Mendes Vianna (1933-2006)
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