[cinema] AQUARIUS, OU AS RUÍNAS DO EDIFÍCIO


Fui ver Aquarius, movido pelas polêmicas em torno do filme. Estrelado por Sônia Braga, teve sua primeira exibição em maio deste ano, no Festival de Cannes, na França, quando concorreu à Palma de Ouro – mas não ganhou qualquer prêmio. Vem tendo boa carreira internacional e principalmente no Brasil, onde estreou em 1º de setembro. Mas não foi escolhido para concorrer ao Oscar, o que acrescenta mais uma polêmica às que já havia provocado. 

Dirigido por Kleber Mendonça Filho, o filme ficou famoso antes de ser exibido por aqui, graças ao protesto promovido no tapete vermelho do Festival de Cannes, quando a equipe do filme exibiu cartazes denunciando um “golpe de estado” contra a então presidente Dilma Rousseff. A enorme repercussão da manifestação transformou o diretor e seu filme em queridinhos dos petistas e seus apoiadores, que batem palmas nos finais de sessão e gritam “fora Temer”. Ouvi alguns desses gritos no Cine Brasília, onde o assisti (mas não ouvi nenhum “volta Dilma”). 

A primeira pergunta que me ocorre é: será que o filme faria o sucesso que está fazendo se não tivesse havido protesto em Cannes? 

Cinema é indústria, mas também é arte. Se não for assim, não faz sentido refletir a respeito. E arte e política não costumam resultar em boa mistura. Por força dessa mistura, Aquarius vem sendo apresentado por alguns de seus fãs com adjetivos superlativos que não merece. É um filme mediano, que tem um grande mérito – segurar a tensão até o fim, ao deixar a plateia na expectativa do desfecho da queda de braço entre Clara (Sônia Braga) e a construtora Bonfim, que quer expulsá-la do apartamento onde mora, na praia da Boa viagem, em Recife. 

Um parêntesis: até aqui, a história do filme é conhecida. A quem não viu o filme e não quer quebrar a surpresa do que se segue, recomendo que não prossiga a leitura, pois não há como comentá-lo sem falar do final.

Para acompanhar a história, o público encara 2 horas e 25 minutos de filme, que caberia em menos de duas horas. Se escrever é cortar palavras, como disse o poeta Drummond, filmar é cortar cenas. Mas o roteiro padece de excessos. Logo no início, uma festa comemora o aniversário de Tia Lúcia. O ano é 1980 e ela completa 70 anos. Enquanto crianças discursam, ela recorda cenas de sexo (explícito) que praticou ali pelos vinte anos – portanto, nos anos 1930. A cena da festa é extremamente longa e nada tem a ver com o restante do filme, a não ser pelo fato de que foi em cima da mesma cômoda agora pertencente a Clara que ela se ofereceu para o amante lhe fazer sexo oral. 

Clara vive de recordações. É jornalista aposentada, e todos os vizinhos já venderam seus apartamentos para a construtora Bonfim. Só ela resiste. Na sua intimidade, ela ouve uma enorme coleção de vinis (que fornecem a ótima trilha sonora do filme), eventualmente cuida do neto, dorme numa bela rede, sai com as amigas para conversar futilidades ou desce para ir à praia, enquanto Ladjane, uma serviçal que trabalha para ela há 19 anos (e a adora) prepara na cozinha seus pratos favoritos. 

Kleber Mendonça Filho tem uma ótima história nas mãos. O filme é um elogio da memória, da identidade e da resistência. Clara é uma personagem forte, pela disposição de lutar contra a construtora e pela batalha que travou no passado contra o câncer. Por outro lado, é uma burguesa cujo único projeto de vida é permanecer no apartamento onde mora – um dos cinco que possui, como confessa, no final do filme, ao engenheiro Diego Bonfim. 

Aquarius discute questões da maior atualidade e importância no Brasil. A história e a memória versus o capitalismo sedento é uma delas. Dentro do apartamento, temos um exemplo da desigualdade social, com Clara curtindo suas recordações e Ladjane trabalhando para ela. Clara, aposentada e bem de vida, mora de frente para o mar. Ladjane, mais velha que Clara, vive em Brasília Teimosa, meio caminho entre bairro e favela. Outras questões colocadas na mesa são a homossexualidade, a ostentação do poder, a questão feminina. 

O público supostamente de esquerda que ama o filme e engorda sua bilheteria toma as dores de Clara e se emociona com sua luta. O irônico é que os vilões do filme são os donos da Construtora Bonfim, empresa inescrupulosa provavelmente inspirada nas grandes empreiteiras nacionais – OAS, Odebrecht, etc – que se tornaram cúmplices dos governos do PT no gigantesco assalto aos cofres públicos promovido nos últimos anos. O público que continua apoiando o PT sabe do que os empresários da construção civil são capazes, mas talvez não recorde quem são os seus aliados. 

O que segura o filme é a surpresa que parece se preparar para o final. As ações contra Clara incluem ofertas em dinheiro, pressão sobre os filhos, festas e orgias no apartamento ao lado, invasão por crentes de alguma igreja. Mas ninguém faz ideia do que vai acontecer. 

E o que acontece? Clara descobre uma arma mortífera contra a construtora. São documentos que obtém num arquivo público. Quando os apresenta aos donos da empresa, eles, pela primeira vez, saem do sério. Mas que documentos são esses? O que eles provam? Não se sabe. À plateia, que tanto torceu por Clara, é sonegada essa informação essencial: qual é a arma usada por ela contra seus inimigos. 

As luzes se acendem e ouvem-se aplausos. Depois, alguns gritos de “fora Temer”. As pessoas saem do cinema acreditando na vitória de Clara. Mas acontece que os cupins introduzidos pela construtora no prédio vão destruí-lo inapelavelmente. É uma metáfora do que acontece há anos no Brasil, onde as grandes empreiteiras, ao financiar as campanhas petistas, também introduziram na administração pública cupins insaciáveis. E depois cobraram seu preço. 

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