Universo em nomes

Este escriba prestou assessoria de imprensa ao 19. Inverno Cultural, promovido pela Universidade Federal de São João del-Rei, entre 15 e 29 de julho de 2006. O festival celebrou os 50 anos de publicação do romance Grande Sertão:Veredas, de Guimarães Rosa. O texto que se segue refere-se a um interessante estudo da escritora Ana Maria Machado, e foi publicado pelo Correio Braziliense no dia 22 de julho de 2006.

Riobaldo? um rio que não flui, mas se fecha num baldo, e ainda guarda em seu nome todas as letras do diabo. Diadorim? Nome que encerra o Diá, forma como são chamados, na narrativa, tanto o demo quanto o personagem. Diadorim é guerreiro, mas também dea, que se revela adorada Deodorina, a Deus dada. São exemplos da complexidade da construção dos nomes dos personagens em Guimarães Rosa, não apenas em “Grande Sertão:Veredas”, como em todos os demais livros.

A escritora Ana Maria Machado mergulhou nesse mundo tão grande quanto o sertão, que nas palavras de Riobaldo “está em toda parte”, e descobriu que os nomes, em Guimarães Rosa, são material suficiente para uma tese. Esse foi o tema de sua pesquisa de doutorado, que concluiu na Sorbonne, França, no início dos anos 70, sob orientação do semiólogo Roland Barthes, e deu origem ao livro Recado do nome, recentemente publicado pela Editora Nova Fronteira. E foi o assunto de sua palestra durante o Inverno Cultural, que a Universidade Federal de São João Del-Rei promove na cidade e outros 20 municípios, tendo como tema central os 50 anos de publicação de Grande Sertão:Veredas.

Cada nome de personagem carrega, em sua etimologia, o universo físico, social, religioso e histórico em que se passa a história, além de ser importante dentro da estrutura narrativa. Ana Maria cita o exemplo da novela O recado do morro, e garante que a significação da história seria outra se os personagens tivessem outros nomes. No texto, o vaqueiro Pedro Orósio (Pedro como pedra, Orósio como oros, montanha) faz uma viagem pelo sertão e escapa de uma cilada, graças a uma mensagem que o morro lhe manda.

Pedro percorre as fazendas do Apolinário, de Nhá Selena, do Marciano, de Nhô Hermes, do Jove, de Dona Vininha e do Juca Saturnino, em companhia dos vaqueiros Helio Dias Nemes, João Lualino, Martinho, Zé Azougue, Jovelino, Veneriano e Ivo Crônico. Todos esses nomes aludem aos dias da semana, como são nomeados em outras línguas, e aos deuses e seus planetas correspondentes: Apolo/Sol; Selene/Lua; Marte, Mercúrio/Hermes; Júpiter, Vênus, Saturno/Cronos. Parecem facilmente perceptíveis, assim relacionados, mas não quando diluídos na narrativa. O que acontece nas fazendas tem a ver com cada deus dominante (beleza, festa, guerra, comércio/mensagem, poder e fartura, amor, tempo). O recado que salva Pedro Orósio é decifrado por Pedrão Chãbergo (chão e berg , rocha em alemão).

Em Buriti, o patriarca viril, homem poderoso, chama-se Liodoro Maurício Faleiros, que faz referência ao nome científico da palmeira do título, Mauritia vinifera. A novela aborda um universo vegetal, onde as mulheres têm nomes de plantas - Dionéia, Leandra, Alcina. Ana Maria Machado identificou até mesmo um anagrama do nome de Guimarães Rosa no conto Cara-de-bronze, em que um fazendeiro recluso encarrega o vaqueiro Grivo de ver o sertão e descrevê-lo. É Soares Guiamar, que faz comentários de pé de página. “É interessante também citar o vaqueiro Moimeichego, cujo nome soma ‘eu’ em quatro línguas: moi, me, ich, ego”, diz Ana Maria.

Com 33 anos de carreira, mais de 100 livros publicados no Brasil e outros 17 países, ocupante da cadeira número um da Academia Brasileira de Letras, Ana Maria Machado lembra que começou por acaso a perceber a riqueza dos nomes em Guimarães Rosa, e ao mergulhar nesse contexto puxou “um fio sem fim”. A tese de doutorado, iniciada no Brasil sob orientação de Afrânio Coutinho e concluída durante seu exílio na Europa, permitiu-lhe revelar a Roland Barthes um escritor que ele desconhecia, o que lhe valeu uma manifestação de agradecimento do semiólogo, ao final do trabalho.
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