Antonio Olinto gostou do livro

Matéria publicada pelo escritor Antonio Olinto em sua coluna
na
Tribuna da Imprensa, do Rio de Janeiro, nesta terça-feira, 2 de maio.

O sereno domínio do verbo

É na poesia principalmente que a literatura brasileira atinge seu ponto mais alto. O ponto em que estiveram Drummond, Jorge de Lima, Quintana, Cassiano, Cecília, Bandeira. Repito: poesia é, neste País, das coisas mais vivas e mais avançadas que existem. Volta e meia, poeta novo começa a fazer versos e a sacudir a mesmice dos estilos. Ou poetas já conhecidos alcançam pontos mais altos no exprimir o talvez inexprimível.

O mais evidente exemplo desse permanente renascer, de uma linha, e de outra, e de outra, é o do poeta Alexandre Marino, cujo livro "Arqueolhar" reúne poemas que, num desdobramento de temas, numa experimentação verbal própria, numa retração de sons e numa explosão silábica cheia de significados, atinge um nível de poesia que o situa entre o que de melhor tem o verso brasileiro do momento.

No livro de Alexandre Marino, predominam a rua, a árvore, a fruta, um pente, uma escova de dentes, uma xícara, a montanha, o quarto, a pedra, muitas vezes a pedra, que espera, contempla, acompanha tudo e aceita as mais diversas possibilidades nua verdadeira poesia do possível.

Veja-se de que maneira obriga o poeta a que a rua nos acompanhe, no belo poema "Esta rua", de que cito 11 versos: "Esta rua te percorre/ e faz de teus passos exílio./ Esta rua te caminha/ e vigia,/ define teus limites/ e espaços,/ e de tua saudade/ te alimenta."

Quase no final do poema, que é belamente longo, diz: "Vaga nesta rua a tua alma/ ao redor da fogueira/ que te devora os ossos".

Além de sabedoria vocabular, revela o estilo de Alexandre Marino uma extraordinária elasticidade rítmica. Alguns de seus versos dão a impressão de que podem ser lidos ao contrário ou tomados em qualquer ponto, pois o ritmo como que parte dali e se integra em nova unidade. Atente-se para o sereno domínio do poeta sobre seus símbolos, suas realidades, suas palavras.

O poeta multiplica os lugares do mundo, já que dentro da casa há outra casa, e outra, e outra, com outros quartos e incontáveis cômodos, entre corredores e labirintos passagens subterrâneas numa completa reconstrução dos espaços de ontem, que ainda são os espaços de hoje. Os poemas são todos dedicados ao menino, o menino de ontem que não mudou e continua vivendo o momento. Assim:

"Lá vai o menino
e o homem invisível
que o acompanha,
feito de sua própria sombra
a jorrar-lhe das entranhas."


Dois temas visíveis do poeta - o menino e o espanto - poderia ser fixado num "espanto do menino", diante das coisas todas, diante do preto velho mais feliz do mundo que um dia não mais se achava lá. Diz o verso: "Não imaginava que morrer fosse enorme."

Na realidade, "Arqueolhar" é uma história do Brasil, com suas jabuticabas, seus palhaços, seus circos, onde a trapezista flutua e os malabaristas fazem malabarismos - e é, assim, a historia do País, a história de uma infância, a história de um tempo, que o poeta levanta em versos, numa luta pelo aperfeiçoamento de uma capacidade de percepção.

Para isto, precisa o poeta de uma entrega total, absoluta, de si mesmo às palavras que viram versos, uma entrega cromo a do sacerdote, como a do eremita. E precisa ser forte para enfrentar a pedra, que lá está sempre, medida tranqüila das coisas.

Eis o final de seu poema "Pedra de amolar": "Um dia, nos escombros do futuro,/ em certo altar abandonado,/ com paredes e entulhos/ de um alpendre, um terraço/ ossos, restos, rastros sobre a terra,/ irremediavelmente oculta/ ou apenas insepulta,/ lá estará a pedra/ insone,/ a recordar, sem saudade,/ um regato, um leito de rio,/ uma borda de serra."

Não hesito em colocar Alexandre Marino, com este "Arqueolhar", entre os grandes poetas do Brasil. A originalidade de seus temas, o bom e forte equilíbrio de seus versos, seu grave e necessário respeito pelas suas memórias, por inventar uma literatura para cada poema. Há um tipo de poesia que é matéria verbal, vocal, oral, visível, signo, sinal, e é no ritmo que a matéria se forma e ganha contorno. Fazendo poesia com palavras, conscientemente com palavras, o bojo vocabular de Alexandre Marino é de extraordinária riqueza.
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