[história afetiva] PROTÓTIPO Nº 3

Nossa turma começou o ano de 1973 embalada pelo sucesso da revista literária Protótipo, e em maio lançamos o terceiro número, com capa de Carlos Parada. Esta edição mantinha o formato de 21x15 cm, inaugurado na anterior, lançada em março, e os textos foram datilografados sobre o estêncil em máquina de escrever elétrica, melhorando a qualidade gráfica. Mas o processo de impressão em mimeógrafo a tinta era o mesmo das primeiras edições. O comércio de Passos continuava apoiando, e o interesse pela revista, entre professores e estudantes, continuava crescendo.

Se o sucesso da Protótipo nos trazia orgulho, também trazia aborrecimentos. Antonio Barreto, que assinava como diretor-geral da revista e fazia o serviço militar, foi convocado pelos três sargentos do Exército que administravam o Tiro de Guerra local a dar explicações sobre a revista, e teve que lhes apresentar uma série de textos que preparávamos para esta edição. Os militares, uma espécie de versão linha dura dos Três Patetas, pareciam deslumbrados com o clima de terror instalado no Brasil pela ditadura, e queriam fazer em Passos seu próprio departamento de censura. Felizmente o Barreto conseguiu driblá-los com a mesma destreza com que fechava o gol do time do Colégio Estadual, e não houve mais incidentes.

Cinco meses após o lançamento do primeiro número, já havíamos tomado conhecimento de grande número de publicações que fizeram referência à 
Protótipo, incluindo revistas e jornais de circulação nacional. Esta terceira edição reproduzia um desses textos, aquele que maior orgulho nos trouxe: assinado pelo escritor e desenhista Ziraldo, foi publicado na coluna Dicas do jornal carioca O Pasquim, numa edição histórica, o nº 200.

O Pasquim era o campeão de vendas da imprensa alternativa, que se desenvolveu no Brasil numa época de fortes ataques da ditadura militar à liberdade de expressão. Tinha no expediente grandes nomes do jornalismo brasileiro – Ziraldo, Ivan Lessa, Jaguar, Paulo Francis, Millôr Fernandes, entre outros. Crítico e irreverente, marcou época por ter inovado a linguagem jornalística, e muitas de suas edições causaram furor. Na coluna Dicas, publicada nas páginas finais, os jornalistas escreviam textos curtos sobre os mais variados assuntos.

Sob o título Nem tudo está perdido, a nota do Pasquim rasgava seda sem dó para a Protótipo, e o jornal, que comprávamos todas as semanas na banca de revistas que funcionava do lado oposto da Praça da Matriz, circulou de mão em mão na sede da União Passense dos Estudantes Secundários (Upes), também sede da revista, antes que se esgotasse no ponto de vendas. “A televisão não conseguiu destruir completamente a província”, dizia a nota. “Recebo de Passos, no interior de Minas, uma revista impressa lá, feita lá, bolada lá. Com contos, poemas experimentais e ensaios. Uma revista literária, sim senhores. Dentro dos moldes mais perfeitos.”

Assim como a edição anterior, o terceiro número da Protótipo se abriu a autores que enviaram colaborações. Assim, publicamos Rui Werneck de Capistrano, de Curitiba; J. Cristiniano, premiado em concurso literário da Universidade de Campinas, e Domingos Pelegrini, que na época ainda acrescentava um “Jr.” ao nome. Do grupo que fundou a revista, esta edição trouxe contos e poemas de Iran Freits´mach, Marco Túlio Costa, Antonio Barreto, Roger Leinad, Carlos Anselmo Parada, Paulo Regissilva e Alexandre Marino. 


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