UM CERTO DIA EM DEZEMBRO DE 1980

Um festival de Poesia em Minas, anos 80: estado poético permanente
Lembro-me nitidamente do que fazia no dia 8 de dezembro de 1980, há exatos 30 anos. Recém-formado em Comunicação Social na Universidade Católica de Minas, sobrevivia como jornalista e publicitário free-lancer e estava em lua de mel com Belo Horizonte. Um ano antes eu lançara meu primeiro livro de poemas, Os operários da palavra, e descobrira que livros de poesia de autores novos e desconhecidos não se vendem espontaneamente. Assim, meus fins de semana eram uma mistura de diversão e trabalho: eu enchia uma mochila de livros e saía pelos bares da cidade para mostrá-los a possíveis leitores e, à medida do possível, vendê-los.

O dia 8 de dezembro era uma segunda-feira, o fim de semana havia rendido alguma grana e eu estava mais ou menos folgado. Namorava uma estudante de jornalismo da Universidade Federal, que morava na rua Aimorés, ao lado da Igreja de Lourdes. Havíamos combinado de almoçar juntos no bandejão da Faculdade de Direito, localizada na Praça Afonso Arinos, próxima à casa dela. Por volta de 11 horas da manhã, eu vinha descendo a avenida Augusto de Lima em direção à praça, pensando em minhas próximas aventuras poéticas, quando um jornaleiro saiu da rua Goiás em minha direção.

Na rua Goiás ficava a sede do Estado de Minas, e no final da manhã saía a edição do Diário da Tarde, tendo como principal atrativo os resultados e comentários sobre os jogos de futebol. Mas, naquela segunda-feira, o jornaleiro, esbaforido, bradava uma manchete que nada tinha a ver com o caderno de esportes. “Mataram John Lennon”, gritava, sem se incomodar com o peso dos jornais que carregava.

Como acreditar naquelas palavras impressas em letras garrafais que ocupavam metade da capa do jornal? Paguei ao jornaleiro e me sentei num banco, a alguns metros da porta do restaurante da universidade. O cara que escrevia canções e promovia eventos e performances para pregar a paz – assassinado a tiros?

Eu tinha 24 anos e vivia em estado poético permanente, como costumávamos dizer, eu e o grupo de poetas com quem editava revistas, promovia saraus e tomava de surpresa bares e outros ambientes para declamações surpresa – as guerrilhas poéticas. A maioria dessa turma já publicara um ou vários livros, alguns editados de forma rudimentar, mas com muito amor. A poesia, para nós, era uma arma ao mesmo tempo poderosa e pacífica, e com ela haveríamos de colocar as coisas em seus devidos lugares.

A notícia que o jornal esfregava na minha cara naquele 8 de dezembro desmentia minhas convicções. Não havia como dar um jeito no mundo. Guardo hoje a sensação de que ali, naquele lugar e naquele momento, perdi pela primeira vez a esperança na humanidade.

Talvez não tenha sido de forma definitiva. Tanto que outras vezes perdi a esperança. Mas continuei escrevendo, lendo, ouvindo e vivendo poesia. Talvez John Lennon gostasse de saber disso. Afinal, ele também deve ter perdido a esperança várias vezes, para fazê-la renascer em seguida. Não foi ele que nos conclamou a imaginar um mundo perfeito? A música de Lennon continua ao nosso alcance, diante do edifício Dakota ou na praça Afonso Arinos, em Belo Horizonte. Dane-se a esperança; a poesia nos salvou a todos.  
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