POEMAS

Poemas de Alexandre Marino, retirados de alguns de seus livros
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::


Amálgama
  
Esta é minha sombra,
que se apossou deste lugar
e nele plantou os sonhos roubados
de um corpo que da vida
almejava apenas o dom de navegar.

Este é meu corpo, silhueta de jaulas,
acorrentado ao barco fantasma
que busca um porto perdido nos mapas,
e a cada retorno a ancestrais paisagens
descobre jamais ter estado lá.

Este é meu coração,
trêmulo caminhante de um deserto sem norte,
sedento de um vinho que o corpo é incapaz de tragar.

Esta é minha alma,
dançarina de tempestades,
que se debruça à janela para narrar horizontes
ao corpo míope
faminto de miragens. 

Do livro Exília (inédito)  
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
 
Paisagem doméstica

É inverno, não importa o tempo, as horas.
O inverno se esconde nos raios do sol.
O fim de tarde arranha as gargantas.
Seres invisíveis inventam a escuridão.

Fecham-se as portas, a gente desvaira.
Um cheiro de café aponta o horizonte.
Deus implora abrigo entre as cortinas.
Pássaros guardam os cantos no terraço.

Vozes velejam no limiar do silêncio.
Notícias antigas no rádio invisível.
Vestígios de velhas fábulas.

Ninguém sabe a história inteira.
Evocam-se vazios invulneráveis.
O tempo é feito de destroços.

De Arqueolhar (LGE, Brasília, 2005)
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::

Canção das outras 

Meu amor, caiu uma neblina sobre meu peito
que não enxergo um palmo além da boca
e me escapa uma rima perdida e louca
só para dizer, mesmo que nada diga,
de todas as paixões vadias
que me abordam cobrando documentos
como o último soldado a tremer de frio

Veja os postes pensativos,
diante da aura triste dos faróis.
Sou um planeta cheio de luas,
amores são halos que me cegam
e à deriva eu perco a voz.

Por isso, amiga, essa falta de ar
e de modos
que me obriga
a depois de beijá-la, afagar-lhe os seios
me trancar no banheiro e sonhar com outras
que meu coração abriga.

Afogado em fumaça e névoa,
costuro retalhos de emoções
e encontro o dia claro.
Já bebi toda a noite das garrafas!
E sem saber a quem chamar de querida
tomo meus amores pelas mãos.
E faço amor com a própria vida. 

De O delírio dos búzios (Varanda, Brasília, 1999)  
:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::



Clique aqui para visualizar outros poemas publicados neste blog. 

Você também pode clicar no marcador "poema", em "temas", na coluna à direita, para visualizá-los. 

Todos os poemas publicados neste blog estão registrados no Escritório de Direitos Autorais da Biblioteca Nacional.

Agradeço sua visita e leitura.