EXÍLIA


Muito antes de Platão e de seu ideal de República, a condição do poeta já era a do exílio. Em primeiro lugar pelo modo singular, transgressor, como lida com a sintaxe e o sentido, transformando a realidade em imagens, ou metáforas. Além disso, o discurso poético sempre conduz o leitor para uma posição de desconforto diante do mundo e de suas certezas aparentes. No lugar de verdades definitivas, o poema traz a dúvida, o avesso do bom senso.

O livro de Alexandre Marino fala de um exílio amplo, urbano, mental, que obseda não apenas o poeta, mas o cidadão comum. Dar nome à solidão na grande metrópole, ao “quase lugar”, às fragilidades do corpo, ao sentimento amoroso, à passagem do tempo e, por fim, à experiência irredutível da morte, talvez seja impossível, mas é justamente na vertigem dessa impossibilidade que está a seiva de que se nutrem os poemas de “Exília”.

Incapaz de calar-se diante da barbárie, da dissolução da urbe e do sujeito, o poeta recria palavras – “dessilêncios / desbabel” – como um gesto de resistência e de renovação. Afinal, ele também é um náufrago que tenta lançar sua mensagem ao devir, como “os restos de papel / disfarçam o irremediável”. 

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Com este texto, o editor Reynaldo Damazio apresenta Exília, sexto livro de poemas de Alexandre Marino. 

O autor ganhou a bolsa de criação literária da Fundação Nacional de Artes (Funarte) em 2008, e concluiu a primeira versão do livro em julho de 2009. Mas só em março de 2012 fechou a versão definitiva, esta que a Dobra Literatura de São Paulo publica em junho de 2013. 

São 60 poemas distribuídos em cinco partes: O homem, O exílio, O amor, O tempo e A morte. 



O LIVRO 

Exília, sexto livro de poemas de Alexandre Marino, publicado pela Dobra Literatura, de São Paulo, é fruto de um projeto contemplado pela Bolsa de Criação Literária concedida pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) em 2008. Alexandre concluiu a primeira versão do livro em 2009, mas continuou trabalhando nele até março de 2012. 

Alexandre Marino é mineiro de Passos. Formado em Jornalismo e Publicidade pela Universidade Católica de Minas Gerais, vive atualmente em Brasília, onde é funcionário do Ministério da Educação. Seu primeiro livro, Os operários da palavra, foi vendido de mão em mão nos bares e espaços culturais de Belo Horizonte, onde o autor viveu de 1974 a 1982. O segundo livro, Todas as tempestades, seguiu o mesmo caminho. Depois, só voltou a publicar poesia em 1999, com O delírio dos búzios

Em 2005, Alexandre publicou seu quarto volume de poemas, Arqueolhar, que descreve um viagem imaginária do homem maduro ao encontro do menino que ele foi, no interior de Minas. Com prefácio escrito a quatro mãos por Maria Esther Maciel e Floriano Martins, Arqueolhar teve boa recepção crítica. O escritor Antonio Olinto, da Academia Brasileira de Letras, o considerou representante “do melhor verso brasileiro do momento”. 

O quinto livro veio em 2007, mas numa edição restrita, fora do mercado: Poemas por amor, dedicado à esposa e companheira, Nádia, e considerado por Alexandre parte importante de sua obra poética. 

Apesar de ter passado 18 anos sem publicar livros, Alexandre Marino nunca deixou de escrever e colaborou com muitas publicações literárias, impressas e virtuais. Seus primeiros versos foram escritos ainda na infância, quando se encantou com o jogo de palavras da poesia que lia nos livros escolares. Na adolescência, criou em sua cidade, ao lado de Antonio Barreto, Marco Túlio Costa e outros escritores, a revista Protótipo, em época de ditadura militar e pesada censura. A revista foi considerada uma das pioneiras do movimento marginal da década de 1970. 


ALGUMAS QUESTÕES SOBRE POESIA 
(EM FORMA DE ENTREVISTA)

O que é “Exília”?

A palavra não existe nos dicionários, mas define bem o espírito de meu sexto livro de poemas, porque remete a “exílio”, no sentido de expatriação, desenraizamento. Meu livro parte desse conceito geral para abordar questões que me incomodam e são temas para minha poesia. Pode-se dizer que “exília” é um lugar fora do lugar, ou um não-lugar, tanto no sentido espacial, quanto no temporal e, digamos, também espiritual. O poeta, nessa condição, é um ser perdido nesse limbo. Um dia descobri que eu era um náufrago e ninguém me salvaria. Em Exília há um poema que fala exatamente sobre isso, sobre o náufrago e seu gesto de lançar ao mar mensagens dentro de garrafas. Mas, à medida que mergulhei na poesia e compreendi seu significado e sua força, passei a construir navios, ainda que dentro das mesmas garrafas. 

Como surgiu a ideia de escrever esse livro?

Depois de publicar Arqueolhar, em 2005, e Poemas por amor, em 2007, eu já começava a pensar em temas para um novo livro, aproveitando alguns poemas que não se encaixavam nesses dois. Então percebi que quase todos tinham alguma coisa em comum, alguma inquietação que eu não havia identificado ainda muito bem. Foi quando saiu o edital da Funarte para a Bolsa de Criação Literária, em meados de 2008. Debrucei-me sobre aqueles poemas e percebi que eles tinham em comum esse mal-estar do exilado, do sujeito fora do lugar. Decidi apresentar o projeto, e ao escrevê-lo, a ideia do livro se tornou clara. Não foi difícil escolher o título, criando um substantivo feminino a partir de “exílio”, ou, numa outra interpretação, unindo as palavras “exílio” e “Brasília”, a cidade onde vivo. 

Brasília é o seu exílio? 

De certa forma sim, como qualquer outra cidade poderia ser, se considerarmos que somos seres em permanente mutação, como as cidades também são. Brasília não é mais a mesma cidade onde vim morar, assim como a cidade onde nasci, Passos, ou a cidade onde vivi uma fase importante de minha vida, Belo Horizonte. Da mesma forma, eu também jamais serei o mesmo. Mas a questão do exílio é ainda mais ampla que o espaço físico de uma cidade; afinal, os tempos mudam, nossa concepção de mundo também. Eu vivo em permanente inquietação diante do mundo, e creio que esta é uma condição do ser humano. Vivemos exilados no espaço e no tempo, em razão da velocidade das transformações. A poesia me ajuda a compreender e enfrentar essa situação.

Qual a importância da Bolsa Funarte de Criação Literária? 

A Bolsa Funarte é uma iniciativa da maior importância, porque o estímulo à leitura e o estímulo à criação são dois lados da mesma moeda. Hoje há uma consciência no país sobre a importância da leitura para o enriquecimento mental das pessoas, e eu acrescentaria: também para a saúde mental. Um bom leitor, como sabemos, tem maior capacidade de refletir, de discernir, de compreender o mundo com maior clareza. Mas o país também precisa ter bons criadores literários, e uma política de incentivo contribui para isso. Além das bolsas para criação, também são importantes os encontros entre escritores e público leitor, especialmente estudantes. E a formação de bibliotecas. 

É possível escrever um livro de poesia com prazo marcado?

 Talvez este livro não existisse se eu não tivesse ganhado a bolsa. É uma hipótese. Quando saiu o resultado, me deu um frio na barriga, porque eu teria que cumprir prazos, apresentar um trabalho final, e achava difícil fazer isso para produzir um livro de poesia. Se fosse um romance, um trabalho de pesquisa... Mas a poesia é sempre resultado de observação, reflexão, contemplação, ela não pode ser programada. Mas a bolsa me permitiu criar um tempo livre na minha rotina exatamente para isso: pensar, refletir, me entregar à contemplação. Assim, durante seis meses consegui entrar num estado poético, quase um êxtase, e escrevi muito. Ao fim de seis meses, em julho de 2009, eu tinha uma primeira versão do livro, e o contrato da bolsa foi cumprido. No entanto, não quis publicá-lo, porque acreditava que precisava de uma maior maturação. Passei mais três anos trabalhando no livro, até chegar à conclusão de que estava pronto. 

A poesia é uma anormalidade? Não é estranho praticar uma atividade que exige contemplação? 

A poesia é uma lucidez. É uma subversão da normalidade estabelecida e imposta pela sociedade de consumo. É uma forma de libertação. Eu sou um praticante da poesia, como poeta e, é claro, como leitor. A poesia me ajuda a interpretar o mundo. Eu costumo dizer que a poesia reforça, fortalece e aprofunda minha experiência de viver. A poesia é outra linguagem, além da linguagem convencional; as palavras, na poesia, veiculam sensações, enquanto no dicionário veiculam conceitos. Isso faz com que a poesia tenha um poderoso poder de síntese, podendo transmitir em alguns versos uma ideia que às vezes um longo ensaio não transmite com a mesma perfeição e precisão. 

Parece uma coisa para iniciados...

Qualquer pessoa pode ser um bom leitor de poesia, desde que compreenda essa diferença e mergulhe nessa viagem. E, é claro, leia muito. Mas não se deve ler um poema como se lê um conto ou uma crônica, embora seja possível encontrar poesia nessas linguagens. A poesia se faz com imagens, metáforas, ritmo, sons – e até com formas e cores, eu arrisco dizer. Eu acho até que a poesia dá um certo barato, abre nossa percepção, nos leva para outro estado mental. 

Essas ideias sobre poesia não afastariam o leitor? 

Essas diferenças entre a poesia e outras linguagens podem atrair um leitor curioso. Se a poesia fosse bem ensinada nas escolas, praticada com liberdade, haveria mais leitores e menos preconceito daqueles que ainda não entenderam o que é a poesia. 

A poesia deve ser lida em silêncio? Exige recolhimento?

A arte literária exige concentração e capacidade de abstração, e a poesia mais ainda. O mundo em que vivemos tem movimento, barulho, é muito visual. Na literatura, a imagem é uma criação da mente. Mas é uma característica humana a capacidade de criar imagens mentais, então isso só exige um pouco de exercício. Outro exercício interessante é a leitura em voz alta. 

Qual a importância de eventos como festivais de poesia? 

São importantes para aproximar as pessoas da poesia e levá-las a descobrir uma linguagem mágica, que nem sempre está presente no dia a dia de cada um. Esses eventos, quando bem promovidos, costumam atrair grandes públicos. Em julho, participei do 2º Festival Internacional de Poesia de Lima, no Peru. Foi um acontecimento importante, de chamar a atenção, mas existem iniciativas semelhantes em vários países. 

Quantos poetas participaram? 

Mais de 100 poetas, de todos os continentes. Gente de Israel, da Finlândia, da Suécia, Palestina... O Brasil é o país convidado de honra desta edição. Estou honradíssimo por ter participado, ao lado de Affonso Romano de Santanna, Fabrício Marques, Angélica Freitas, Fabrício Corsaletti e um time de poetas admiráveis, de vários países. 

Como você descreveria a poesia brasileira contemporânea? 

Uma das características da poesia brasileira hoje é a abertura para todas as linguagens, estilos e propostas. Quando estudamos a história da literatura sabemos que cada época foi marcada por um estilo distinto, mas a partir do Modernismo houve um processo de desconstrução da poesia que gerou uma liberdade de criação e expressão que considero bastante saudável. De minha parte, leio de tudo, com voracidade. E desenvolvo minha própria linguagem poética, que é a minha expressão pessoal. 

Como você chegou à poesia? 

Nos livros escolares, eu lia poesia e achava curioso como se podia escrever um texto quebrado, rimado, transmitindo alguma ideia. Eu me admirava que o poeta conseguisse escrever trovas ou sonetos, encaixando as palavras para fazer rimas, e ainda assim transmitir uma mensagem com perfeição. É claro que eu, aos 8 ou 9 anos, não teorizava sobre isso, mas eu tinha essa sensação estranha. Então, comecei a tentar escrever, desafiado pelo comentário de uma tia, que afirmara que eu não seria capaz. Em pouco tempo eu havia enchido um caderno com poemas. Acho que nessa ocasião eu já havia pegado o “vírus”. Na adolescência, comecei a publicar poesia num jornal estudantil, e depois eu e outros amigos criamos uma revista literária, Protótipo, que consolidou nosso vínculo à literatura e especialmente à poesia, como no meu caso. Isso foi na década de 1970, quando o Brasil estava sob uma ditadura militar cruel e pesada censura. Havia uma efervescência cultural gerada pela necessidade de expressão, pelo desejo de liberdade, e isso se refletiu na literatura da época, e também na formação de quem começava a fazer literatura. 

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